Nunca esquecerei meus tempos de colégio!
4 Astrid, quer sair comigo?
Notas iniciais
Soluço estava nervoso.
Claro, não existia um único dia em que ele não estivesse nervoso com alguma coisa, mas dessa vez era diferente, ele estava nervoso por uma garota, por Astrid.
Depois de falar com ela no treinamento de futebol, ele a acompanhou até sua casa algumas vezes, e para ele, foi um grande passo, mas agora ele queria tomar um passo ainda maior: chamá-la para sair.
Ele estava em seu quarto, com uma pilha de livros de um lado e do outro uma pilha de DVD’s de romances bobos adolescentes. Em seu colo, Banguela mordia um hambúrguer de borracha. Era um Border Collie todo preto, apenas com as patinhas brancas.
Soluço via os filmes e tentava aprender a chegar em Astrid e chamá-la para sair, mas para ele os filmes não se aplicavam à sua pessoa.
– Ah, esses caras da Disney conseguem – Soluço falou – são todos atletas, populares, loiros de olhos azuis, e as meninas todas os querem, então conseguem.
Banguela olhou para Soluço, ainda com o hambúrguer na boca.
– Não é verdade? Todos esses caras de filmes são populares que conseguem todas as garotas – tirou o DVD depois de ouvir mais uma canção tosca sobre amizade – eu não sou esse tipo.
Banguela fez um som adorável, que parecia concordar, e Soluço riu porque simplesmente não conseguia ficar bravo com aquela carinha.
– O que eu posso fazer? – perguntou como se Banguela pudesse responder.
O cão nada fez, a única coisa que fez foi correr atrás do rabo.
– Ótimo... – Soluço revirou os olhos – então, vamos ver... Eu posso pedir ajuda, o que acha?
Banguela olhou o dono com a cabeça levemente inclinada, como se tentasse entender a língua estranha que o mesmo falava.
– Isso! Eu posso pedir ajuda do Jack! – Soluço colocou as mãos na cabeça, sorrindo – você é um gênio Banguela!
Em resposta, o cão ficou com a língua de fora, encarando o dono.
Na manhã seguinte, Soluço prestava atenção às aulas, mas batia o lápis na mesa, estava ansioso. Ele tinha calculado tudo: tinha exatos cinco minutos para ir falar com Jack, ele levava alguns segundos para guardar os livros, mas os cinco minutos ele conversava com os amigos antes do sinal para o almoço tocar. Toothiana e Mund sempre saíam alguns segundos antes, então ele podia falar com Jack.
Quando o sinal tocou, foi exatamente como Soluço tinha pensado. Um pouco antes de Jack sair, ele se levantou correndo para alcança-lo, mas tropeçou na mochila de Merida, que estava no meio do caminho, e caiu. Abriu os olhos e, para seu desespero, sua visão estava embaçada.
– Droga de óculos! – ele falou, apalpando o chão em busca das lentes.
– Espera, eu ajudo – era a voz de Jack, ele falava rindo.
Jack pegou os óculos de Soluço e os colocou no rosto do mesmo.
– Ufa... Obrigado – o moreno sorriu.
– Você estava me perseguindo? – Jack deu uma longa risada.
– Ahn... Na verdade, sim, preciso de ajuda.
– Opa, então vamos conversar.
Jack fez um sinal para Tooth e Mund, avisando que depois os veria, e foi até seu armário com Soluço. Se encostou na porta de metal vermelho e colocou as mãos no bolso.
– Qual o problema Soluço? Quer conselhos pra mudar esse visual de nerd?
– Erm, o termo correto seria “geek”, não sou um nerd, aliás, acho que nem chego a ser um geek também – o moreno falou, limpando a garganta – é sobre encontros.
– Oh... Olha Soluço, nada contra, mas eu não saio com rapazes.
– O quê? – o mesmo ficou confuso – não cara! Eu quero que me ajude a chamar uma garota pra sair.
– Ah, sim sim, entendi... Quem quer chamar pra sair?
– ... – Soluço ficou em silêncio, arrastando a sola do tênis no chão – ah, é uma loira, bonita, usa trança...
– A Elsa é minha – Jack respondeu – eu soube dela primeiro.
– É a Astrid Hofferson! Que coisa!
– Ah sim, menos mal... Olha, vai ser difícil, a Astrid é jogo duro, um passo em falso e ela quebra o seu braço.
– Eu sei, por isso quero sua ajuda.
– Seja tudo, menos você mesmo.
Soluço ficou chocado, achou que Jack iria falar exatamente o oposto.
– ...Ahm?
– Se quiser ter algo com uma garota como a Astrid, tem que parar de ser tudo... Isso – Jack apontou dos pés à cabeça do moreno.
– ... Ta apontando pra mim todo.
– Exatamente, tem de mudar tudo, para começar... – Jack tirou os óculos de Soluço.
– E-ei! Eu preciso deles!
– Não, precisa de lentes.
– Lentes demoram a serem feitas!
– Relaxa e confia em mim, agora vem aqui que eu vou te emprestar algumas roupas.
No almoço, Soluço tentava comer seu sanduíche de atum enquanto Jack via qual das suas jaquetas ficava melhor no geek, a jeans ou a de couro preto. Tooth e Mund olhavam.
– Acha que isso dá certo? – Mund perguntou à menina.
– Eu já não levo fé em mais nada que esse garoto planeje – Tooth respondeu, com a mão no queixo – Soluço, não acha melhor ser você mesmo?
– Se ele for ele mesmo, nunca vai ter nada com a Astrid – Jack vestia a jaqueta de couro em Soluço.
– Obrigado pela parte que me toca... – o moreno murmurou.
– Como está enxergando sem óculos? – Tooth pegou os óculos do menino e colocou no rosto – pronto.
– Não, não – Jack os tirou – assim fica maneiro.
– Jack, ele precisa enxergar! – pegou os óculos de volta.
– Ele precisa ficar bonito!
– Gente!
Bunnymund deu um berro, que aquietou a todos, e fez Soluço se engasgar com o atum.
– Certo, certo, use os óculos – Jack se deu por vencido – mas o resto das roupas, eu escolho.
Tooth o socaria se Mund não a tivesse segurado, aliás, com certeza teria matado o pobre Jack. Por sorte, ele segurou, porque garotas indianas eram assustadoras quando queriam dar socos.
No fim do dia, Soluço estava com os cabelos penteados a gel, jaqueta de couro, tênis desamarrados e suas calças estavam sendo rasgadas por um estilete.
– Cara! Meu pai vai me matar! – ele reclamava, vendo a calça cara sendo rasgada fio a fio.
– Vai por mim, garotas gostam disso – Jack falou, rasgando um ultimo pedaço – olha, a Astrid está vindo, segue o meu roteiro.
– C-certo...
– Isso não vai prestar... – Anna os acompanhava, e já via o desastre antes mesmo de acontecer.
– Acha que não sei? – Tooth falou.
Logo Astrid saiu com o resto do time de futebol, e ela ainda usava a camiseta do time, apenas com seu short e uma bota longa preta de diferente, mas a camiseta enorme e laranja da escola cobria boa parte do tecido jeans. Para Soluço, estava linda.
– Olha ela lá – Jack o empurrou de leve – sabe o que fazer.
– Lá vou eu me dar mal... – Soluço sussurrou, antes de seguir em frente.
Imitou o andar que Jack lhe ensinara, meio arrastado e com o corpo curvado, o que ficava estranho com seu corpo magro e de estatura baixa. Ao se aproximar de Astrid, a mesma deu uma risada.
– O que é isso Soluço?
– E aí loirinha? – ele falou, chegando nela – você ta muito gata hoje!
–... Ahm? – ela estranhou.
– Sabe Astrid? Eu não te trocaria nem por uma líder de torcida – Soluço estava se sentindo um idiota.
– Soluço, o que ta acontecendo? Você ta... Ridículo!
– Você terá a oportunidade de ser convidada por mim para um encontro, vamos?
– Espera, é piada, certo?
– Por que seria? Eu sei que você está totalmente na minha.
A loira estava ficando furiosa.
– Soluço, chega!
– Relaxa, já te dou meu telefone princesa.
Astrid o encarou por minutos. De acordo com Jack, ela teria duas reações diferentes:
* Corar e ficar sem jeito;
* Berrar de vergonha;
Nem uma nem outra, Astrid deu um soco forte no braço de Soluço que o fez cambalear, tropeçar no cadarço do tênis e cair de bunda na calçada. Os poucos alunos que ainda estavam perto da escola riram, e Toothiana deu uma bronca em Jack.
– Escuta aqui Soluço! Eu não sou como essas menininhas fáceis dessa droga de colégio! – ela disse, ainda com a mão boa para dar um soco.
– Espera! Espera Astrid! – Anna falou, chegando perto – o Soluço ouviu um conselho idiota do Jack, ele... Ele estava desesperado.
Astrid olhou bem para o moreno, e aliviou a mão, o ajudando a se levantar.
– Anda, desembucha.
– Hm? O quê? – Soluço achou que apanharia de novo.
– Pediu conselho ao Jack para fazer o quê?
– Oh... E-eu...
Soluço sabia que se falasse, tinha grande chance dela recusar sair com ele, mas se mentisse de novo, provavelmente o soco seria bem mais dolorido.
– Eu... Quero sair com você – falava balbuciando, e com a cara toda corada – e-eu não sabia como chegar e falar, e eu r-realmente quero sair com você, e eu não queria falhar, e-então... Desculpa.
Astrid o olhou por breves segundos, e suavizou a expressão. Sorriu e deu um soco, menos dolorido que o anterior, em Soluço.
– Ai! – ele gemeu.
– Isso é por pedir conselhos à Jack Frost – ela falou.
– Sim... É justo...
Com isso, Jack ficou emburrado.
Dessa vez, ao invés de outro soco, Astrid estendeu o braço para Soluço.
– Me empresta seu celular?
– A-ah, claro, claro – pegou seu celular no bolso.
Após mexer em alguma coisa, ela devolveu o aparelho.
– Aí tem meu numero – ela respondeu – me liga para marcarmos o encontro.
– ...S-sério...? – piscou rapidamente.
– Sim – sorriu, ajeitando a alça da mochila no ombro – isso é por pedir desculpa.
Falando isso, Astrid foi embora. Soluço ficou feliz, ficou olhando seu celular por vários segundos, sorrindo.
– O telefone da Astrid Hofferson! – ergueu o aparelho ao ar, como se fosse uma espada.
Se aquilo rendeu risadas e brincadeiras a parte dos colegas de escola? Claro que sim.
Em casa, enquanto colocava ração para Banguela, Soluço não parava de olhar para seu celular.
– Amigão... Eu tenho o telefone da Astrid Hofferson! Sabe o que isso significa?
Em resposta, o cão mostrou a língua, com a cara virada levemente para o lado.
– Encontro com a Astrid Hofferson! Droga, tenho que escolher lugar, hora, dia, roupa... Será que ela prefere pizza ou hamburguer?
Banguela pareceu não ligar, e comia sua ração com uma fome que não deveria pertencer a um cão de quatro anos de idade, apenas comia e ouvia seu dono discutir sobre garotos que levavam a menina para comer pizza no primeiro encontro.
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