Nunca Vai Estar Só...
1 Oneshot
Notas iniciais
A história foi inspirada na música "never gonna be alone" do Nickelback.
Espero que gostem.
TK Takaishi
No mais profundo interior de si, o loiro sabia: gostava dela, mesmo que não gostasse de admitir isso.
– Bom dia! – falou ela com o mesmo tom doce de todas as manhãs. Mesmo depois de nove anos de amizade, ela permanecia a mesma Hikari de se sempre, pelo menos, sua personalidade. Seu corpo havia sofrido uma grande metamorfose de garota para mulher: estava mais alta, os cabelos castanhos começavam a tocar em seu ombro e pendiam em suas costas.
Seu rosto permanecera delicado. Seus olhos castanho-avermelhados ainda brilhavam com a pureza da juventude, quase que com uma energia secreta em seu interior, inexplicável aos olhos da razão.
A linda garota sentou-se ao lado de seu amigo no banco do ônibus, que olhava instintivamente para o lado de fora, com seus olhos observando a paisagem mudando conforme o ônibus avançava.
– Bom dia! – responde Takeru, virando o rosto com um leve sorriso. Mesmo que pequeno, o garoto o reservava apenas para Hikari. Takeru abraçou sua melhor amiga, porém olhos maldosos e maliciosos soltaram sussurros e risinhos das poltronas. Aquilo era a menor preocupação dos dois no momento, eles estavam acostumados com essa reação do mundo à sua amizade, todos acreditavam que nela havia algo a mais. No momento, aquilo não era verdade, para infelicidade de seus amigos mais próximos.
Ela também gostava dele, e muito mais do que o normal. Infelizmente, o destino é um senhor cruel e impedia apenas os dois de enxergarem um sentimento sincero e recíproco.
A morena ajeitou uma mecha de seu cabelo, uma reação dela ao nervosismo, buscando avidamente algo para falar, ansiosa para quebrar aquele silêncio torturante. O que a permitia aguentar aquelas frias manhãs com bom humor eram suas conversas com Takeru, mesmo que não fosse algo muito estimulante, a própria voz do loiro a despertava.
– Preparado para o teste de Física hoje? – ela morde o lábio inferior, sem saber se a pergunta fora a certa ou não.
– Mais ou menos, Física não é coisa para humanos, você sabe... – frisou ele com a voz rouca.
Takeru e Hikari se olham, sem quebrar o contato. Hikari sorriu ao se lembrar do garotinho de nove anos atrás e principalmente como ele mudara. Estava mais alto que ela, forte e robusto graças aos constantes treinos de basquete. Em seu semblante permanecia o mesmo rosto amigável. Os olhos cerúleos junto com seu sorriso emitiam a energia positiva que sempre procurava despertas nas pessoas ao seu redor o sentimento que melhor lhe definia: Esperança. O único “defeito” era que seus cabelos dourados estavam sempre bagunçados, mas ela preferia que eles continuassem assim. Afinal, aquele era seu jeito: brincalhão, companheiro e amigo.
Um pequeno arrependimento a aflingiu: “Amigo... Apenas um grande amigo”.
– O que foi? – perguntou Takeru, preocupado com o modo que a morena o fitava sem olhar diretamente para ele.
– Ah – Hikari rapidamente volta a si e consegue pensar numa resposta rápida – Não é nada... Quero dizer, só espero que não caia perguntas do tipo: “João tinha 5 livros, Maria tinha 10. Sabendo disso, calcule a velocidade média do carro de Cláudia”.
Takeru abriu um sorriso e acenou com a cabeça:
–Exatamente!
O rapaz voltou a olhar para o lado de fora da janela, prestando um pouco mais de atenção na paisagem dessa vez. A chuva caía levemente sobre o chão, que junto com o vento frio davam ao ambiente um clima ameno, típico de um final de novembro que abria as portas para o inverno.
O loiro passou os olhos agora para cada uma das pessoas que andavam pelas ruas. Casais, adolescente, crianças... Takeru se perguntou a si mesmo se algum dia elas tiveram ou estariam tendo problemas com o que ele tinha que lidar: ter alguém ao seu lado e não saber se é correspondido.
A principal pergunta que lhe corroía a cabeça dia e noite era: Ele realmente amava Hikari, sua melhor amiga?
Rapidamente ele tratou de por um fim à essa pergunta: amava, com todas as usas forças. Não sabe ao certo quando aquele sentimento foi despertado, quando a conhecera, quando a protegera à mando de Taichi ou em qualquer um dos outros momentos. Só tinha certeza que quando Hikari caíra nas profundezas do Mar Negro, ele já estava ciente desse sentimento, e aquilo serviu como um nutriente para seu amor, o fortalecendo.
Aquele era a sua mais profunda ambição: resgatá-la, protege-la, abraça-la, amá-la. Deu um pequeno sorriso ao perceber o sentido que as milhares músicas românticas que já ouvira estavam finalmente fazendo sentido para sua mente.
Seus pensamentos lhe foram rompidos ao ouvir o chamado de Hikari:
– Takeru, vamos? – falou a morena, se levantando e ajeitando a mochila em suas costas. O trajeto percorrido pelo ônibus passara tão depressa que Takeru não havia se dado conta que já haviam chegado – Você está muito quieto hoje! Está pensando demais. O que se passa dentro da cabeça do Takeru?
– Nada de mais... Apenas, um pouco cansado, hm... Por causa da semana de provas – respondeu ele, tentando disfarçar enquanto se levantava e pegava suas coisas – Preciso de férias!
– Cansado Tajeru?! – perguntou Daisuke, assustando Takeru da forma que ele se simplesmente aparecera atrás de Hikari e Takeru, sempre nas horas mais inoportunas – Eu ainda estou cheio de energia!
Hikari nem reagiu à pose de machão que Daisuke fazia, mesmo depois de alguns anos recusando as inúmeras investidas do indelicado amigo. A rivalidade/amizade de Takeru e Daisuke já havia se tornado lenda no colégio, sempre disputando atenção de Hikari. Por trás da cópia perfeita de Taichi permanecia um companheiro fiel e disposto a lutar por todos os seus amigos. Ele havia crescido, ficado mais forte e, por mais incrível que pareça, maduro. Sua maturidade só não fazia presença quando ele estava perto de Hikari.
– Que bom Daisuke! – o loiro respondeu, com certo desconforto com a forma que Daisuke ainda se exibia para Hikari – Use essa energia para o teste de Física hoje!
A pose de Daisuke desmoronou ao ouvir essas palavras. Ele olha para Takeru com um semblante perplexo.
– QUE TESTE DE FÍSICA?!
– O que foi marcado semana passada. Você dormiu de novo na aula? – pergunta Hikari, enquanto descia as escadas e pisava na calçada do colégio.
– Ah! Preciso estudar! – respondeu enquanto se apressava em pegar o grosso volume de Física dentro de sua bolsa.
– Boa sorte, o teste é na primeira aula – responde Takeru, com um sorriso no rosto.
– O QUÊ?! MALDIÇÃO! – Daisuke corre em disparada para dentro do colégio, sem sequer se despedir da dupla.
– Hey, Takeru... – Hikari olha para Takeru, confusa – O teste não é só na última aula?
– Ops!
Hikari dá uma pequena risadinha e dá um tapa de leve nas costas do amigo:
– Que maldade!
Enquanto Daisuke voava pelos corredores, esbarrava em qualquer um em seu caminho, derrubando livros, cadernos e até mesmo pessoas, recebendo vários xingamentos e reclamações. Enquanto olhava para trás tentando se desculpar, não viu o perigo à frente.
– CUIDAD... – tentou gritar a faxineira, com um esfregão na mão, porém era tarde demais: Daisuke escorregou feio no chão molhado e capota. Quando se certificaram que o garoto estava vivo, alguns risinhos e piadinhas soavam um unânime “bem feito!”.
– Ai! Acho que hoje não é meu dia... – resmungou Daisuke, passando a mão na cabeça. Quando toca no galo que havia se formado, a recolhe ao sentir um pouco de dor.
– Daisuke! Você está bem?! – Takeru surge dentre o mar de alunos, seguido por Hikari.
– Acho que sim... – respondeu ele, tentando ignorar o ponto de dor em sua cabeça.
– Vem, vou te levar na enfermaria pra colocarem um gelo nessa sua cabeça de ferro! Não queria te assustar tanto! – afirmou o loiro, sincero. Apesar de Daisuke saber como ser inconveniente e irritante, nunca faria uma brincadeira que o fosse machucar.
– Tudo bem Taderu... Sei que era só brincadeira.
Hikari olhava perplexa para os dois. A apenas alguns minutos estavam quase se matando, agora...
Desde o momento que soube que Takeru entraria na sua sala, Hikari esperava que Takeru e Daisuke rapidamente iriam começar a brigar feio, mas no final, o resultado era a amizade mais estranha que ela já vira.
...
O sino tocou para a hora da saída. Todos os alunos saíam de suas respectivas salas e iam em direção aos portões principais. Alguns correndo, alguns vagarosos, mas todos sem disposição para continuar mais um minuto lá.
Hikari parou em frente a seu armário para guardar alguns livros. Ao abrir a pequena porta de ferro, se deparou com a foto. Não era uma foto qualquer, era uma foto que significava muito para ela.
Takeru e ela, no Digimundo, sentados na grama à beira do rio. Ela ainda se lembrava vividamente daquela vez de 6 anos atrás.
Um grande sorriso se formou em seu rosto. Naquele dia, estavam comemorando a paz mais que merecida. O mais especial era que haviam apenas eles na foto, uma das raras fotos que Patamon e Tailmon não estavam no quadro.
Ela levou rapidamente o olhar para a mão que segurava a foto, sentindo um calor no seu coração. Lembrou-se do que ocorreu após aquela foto. A aliança de prata que Takeru lhe dará, um pequeno anel com a parte virada para cima arredondada para cima, com a palavra “Luz” escrita.
Rapidamente, as palavras de seu amigo lhe soaram à seu ouvido como se tivessem sido ditas ontem:
–Esse vai ser o símbolo de nossa amizade, Hika – dissera ele, enquanto colocava o anel em seu dedo – Luz e esperança! – ele usava um anel parecido, porém o seu tinha na parte de cima uma curva para dentro. Seus anéis haviam sido feitos para se unirem – Sem luz não há esperança, e sem esperança não há luz...
–Lembra-se desse dia? – o loiro a assusta, aparecendo sem ela perceber. Ela rapidamente guarda a foto e fecha seu armário. Disfarçadamente, ela olha para baixo, para a mão dele e confere: ele ainda usava o anel em seu dedo. Sem controle de suas ações, Hikari lhe dá um forte abraço e responde:
–Muito obrigada! Eu adorei!
–Vamos?
Hikari assentiu. O loiro passou seu braço ao redor da cintura da morena e continuou:
–Como foi no teste de física? – nas palavras de Takeru, Hikari percebeu um certo nervosismo. Eram raras as vezes que ele lhe passara o braço na cintura e sempre ficava nervoso com isso, ela também, mas dessa vez era um certo tipo de “nervosismo diferente”.
–Acho que fui bem... Passei a noite toda estudando.
–Vai fazer alguma coisa, hm... À tarde?
Takeru fala mais rápido que o normal, mas nada que impediu Hikari de entender.
Há muito tempo Takeru vinha tentando arrumar coragem para contar a Hikari tudo o que sentia, sempre tentando buscar as mais belas palavras para expressar. Ele nunca fora capaz de chegar perto do que queria expressar, sempre desistindo dessa busca.
Era muito duro para ele dizer apensa um “oi” ou um “como está?”, quando sua vontade mais desesperadora era de gritar “eu te amo, com todas as minhas forças”.
“Mas e se ela não sentisse o mesmo?” era o pensamento que sempre assombrava o garoto e lhe drenava a coragem para fazê-lo.
–Sabe, quer sair comigo hoje, ir ao shopping ou talvez ao cinema, sabe? Não que isso seja um encontro, é só pra abafar um pouco esse clima de provas e....
–Tudo bem! Eu adoraria sair com você! – Hikari sabia que tinha que interromper Takeru antes que ele se atrapalhasse e desistisse. O portador da Esperança sorriu ao ver que conseguira dar um passo para a vitória que já era certa.
O caminho de volta para casa tinha sido silencioso, sem muito o que falar. Mesmo que felizes com tudo aquilo, o caminho de volta era sempre muito entediante para que algo realmente os chamasse a atenção.
Finalmente decidindo por ajuda-los, o destino fez com que a chuva grossa se dissipasse para uma fina e tranquila garoa.
–Mais tarde passo aqui para a gente ir!
–Tudo bem, tchau!
Antes que respondesse, ele fez algo inesperado, Deu a ela um leve beijo no rosto, o que a fez corar muito. Takeru já havia decidido que não conquistaria Hikari apenas por palavras e sim por atitudes. Nos dias de hoje, palavras podem ser vazias e sem significado, mas atitudes, ações, essas que podem mudar o mundo.
–Tchau! – Takeru saiu e deixou Hikari sozinha na porta do prédio onde morava, passando a mão na região da bochecha em que ele havia beijado.
...
Takeru estava sentado na sala do apartamento de Hikari, esperando que ela saísse de seu quarto. Quando ela saíra, ele ficou atordoado por não poder beijá-la instantaneamente, sua beleza estava muito superior que o normal.
– Vamos? – perguntou ela.
– Claro... Você está... Linda! – Takeru mal conseguia falar.
– Obrigada... – agradeceu a menina, sem graça.
Taichi abriu a porta para os dois saírem e, mesmo sem ter certeza disso, Takeru acredita ter visto um pequeno sinal positivo do líder do grupo. Saber que Taichi concordava com ele sair com Hikari o deixava ainda mais feliz.
O restante do caminho até o shopping foi sem nenhum tipo de problemas, a chuva cessara por completo, deixando um clima nublado misterioso. Os dois seguiram o trajeto de mãos dadas, uma iniciativa tomada por Takeru. Aquilo assustou um pouco Hikari de início, mas a sensação era muito agradável.
“Primeiro um beijo no rosto, agora as mãos dadas... Será que ele gosta mesmo de mim?!” o simples pensamento na cabeça de Hikari lhe dava muitas esperanças quanto o que aquele encontro levaria.
Mesmo que aquilo não significasse que ele a amasse, seria fácil chegar à isso se ele gostasse dela.
Despertada por esse novo incentivo, Hikari colocou de lado todos os seus medo e inseguranças, ela estava determinada a aproveitar aquilo com o que poderia ser o último passeio entre amigos para ser algo muito melhor...
...
O que eram horas se tornaram minutos para a dupla, talvez ainda menos. O tempo passara tão rápido que eles não haviam percebido.
Eles saíram do shopping e foram em direção ao parque que se encontrava ao lado. Sentaram em um bando de madeira que ficava entre duas árvores, relativamente oculto da estrada principal do parque. Os últimos raios de luz se tornavam finalmente as trevas sedutoras da noite, encobrindo cada vez mais o parque com sombras e penumbras.
Takeru olha para o lado e se levanta.
–Já volto! – diz o loiro, deixando Hikari sozinha com um urso rosa. Em segundos, ele volta – Um prêmio para a única pessoa que já ganhou um bichinho de pelúcia naquelas máquinas!
Ele estava com duas casquinhas de sorvete de chocolate nas mãos – o sabor predileto da jovem garota. Ele se sentou no banco, bem próximo dela.
–Assim vou acabar mal acostumada! – falou a garota com um pequeno riso. Takeru usa uma pequena colher para pegar o sorvete de dar na boca de Hikari, que naquela hora não tinha mais dúvida alguma quanto ao que Takeru sentia.
O sorvete rapidamente se acaba, Takeru comia o seu sem prestar muito atenção no gosto e sim na morena à sua frente.
Agora que não havia mais nem sombra do sorvete, as ações foram as mais naturais e comuns. Takeru deslizou sua mão pelo braço de Hikari, subindo até passar pelo ombro e pousando em sua nuca. Agora que os sentimentos dos dois estavam bem claros, Hikari leva sua mão diretamente à nuca de Takeru, sem percorrer o mesmo percurso do loiro.
Seus rostos foram se unindo naturalmente, como se eles já tivessem feito isso várias vezes entre si. Quando seus lábios se tocam, o ursinho rosa é esmagado entre eles. Um leve sabor de chocolate percorre suas bocas, dando um tom mais sedutor ao beijo.
A língua de Hikari entra na boca de Takeru e se conecta com a dele, criando uma rápida conexão entre seus corpos.
Após alguns segundos, eles se separam. Apesar de não terem prolongado muito o beijo, ele tinha sua própria dose de perfeição. Assim como a companhia um do outro, mesmo que durante pouco tempo, era perfeita.
– Que bonito! – uma voz detrás da árvore assusta o jovem casal. Um sujeito com quase 30 anos de idade, com roupa esfarrapada, de rosto e cabelo sujos e olhares maliciosos fica na frente do casal – Quem dera que a minha primeira vadia fosse assim!
Apenas por sua atitude, seu bafo e seu modo de falar, dava para perceber que o homem estava ou bêbado ou sob o efeito de drogas.
– O que foi que disse?! – o sangue sobe ao rosto de Takeru e num impulso ele levanta, porém rapidamente recua ao ver um cano reluzente de um revólver apontado para si.
– Fica quietinho aí garoto que vai dar tudo certo! – responde o homem – Ninguém precisa sair machucado daqui!
Takeru não queria colocar a vida de Hikari em risco e rapidamente fica quieto, olhando com um ódio profundo para o homem à sua frente.
– O que você quer?! Pega o que quiser e vai embora! – fala Hikari desesperada, ao ver Takeru se colocando entre ela e um revolver de um calibre potente.
– Vocês já sabem o roteiro! Dinheiro, joias, carteiras... – o maxilar mal barbeado do homem não parecia obedecer ao seu dono, se movendo de forma escandalosa enquanto falava – Coloca tudo na mão do seu namorado pra ele me entregar e podem continuar a putaria!
– Olha como você fala com ela! – Takeru estava morrendo de vontade de fazer aquele cara engolir as palavras da forma mais dolorosa possível, porém a segurança de Hikari era mais importante.
– Seu namorado é bem esquentadinho... MANDA ELE CALAR A MERDA DA BOCA OU ENTÃO ESTOURO OS MIOLOS DOS DOIS!
Takeru estende sua mão para Hikari colocar tudo que ela tinha e depois coloca suas próprias coisas, se aproximando do homem que fedia à cerveja barata.
Enquanto o homem guardava tudo no bolso, comenta:
– Mandou bem mano! Que gostosa! – os últimos vestígios de paciência de Takeru estavam se extinguindo a cada sílaba do homem.
A tragédia acontece quando, na pista atrás das árvores, alguém cai. O barulho da queda assusta o bandido, que por instinto aperta o gatilho.
O tiro, o sangue voando, o ladrão fugindo, pessoas gritando e o corpo caindo no chão se sucedem em questão de segundos, porém a dor não.
Takeru corre e se joga no chão, sentindo rapidamente o sangue lhe cobrir as pernas. Hikari imediatamente perde a consciência, enquanto que seu sangue escorria pelo ferimento no lado direito de seu peito. A dor da bala fora ao mesmo tempo tão rápida e tão insuportável que perder a consciência possa ter sido o menor dos males.
–HIKARI! HIKARI! – grita Takeru, em meio a várias lágrimas e o sangue de sua amada – ACORDA! – ele se vira para trás, onde várias pessoas os cercavam – ALGUÉM, POR FAVOR, CHAME A AMBULÂNCIA!
–JÁ LIGUEI, ELES ESTARÃO AQUI EM POUCO TEMPO! – uma mulher que estava na frente do grupo responde, com o celular no ouvido.
–ALGUM MÉDICO?! DIGAM QUE TEM UM MÉDICO!
Um senhor de quase 50 anos se destaca e agacha próximo a Hikari e pede com o máximo de educação:
–Senhor, por favor, sei que é difícil, mas se afaste... Aqui você pode machuca-la ainda mais!
Takeru retesa seu corpo e se joga para trás, quase derrubando algumas pessoas. Ele assistia com nada além de medo e desespero, enquanto via o homem segurando o ferimento de Hikari.
A ambulância chega rapidamente e leva Hikari e Takeru para o hospital. Ele quase bateu no homem do socorro quando o mesmo tentou separá-lo de Hikari.
Hikari é levada às pressas para a emergência. Takeru estava desesperado para entrar junto com ela na sala de cirurgia, mas o chefe do setor pede com toda a paciência:
–Por favor senhor, você não pode entrar...
–EU NÃO VOU DEIXÁ-LA! SAI DA MINHA FRENTE!
–Senhor! – agora o chefe do setor falava com seriedade – Você vai só atrapalhar se entrar lá, invés disso, chame a família dela. Eles precisam consentir qualquer tratamento!
Takeru se lembra da família Yagami. Ele se sentia ao mesmo tempo culpado e ingrato, ele saíra com Hikari da casa dela e agora a devolvia com uma bala no peito.
Imediatamente ele liga para Taichi. No começo, o irmão mais velho de Hikari achou que era algum tipo de brincadeira de mau gosto, mas ao ouvir o terror e o desespero na voz do loiro, imediatamente reunira a família e estava indo em direção ao hospital.
Quando eles chegam ao hospital, a mãe de Hikari vai direto para o chefe de setor e pergunta desesperada:
–POR FAVOR, MINHA FILHA! ONDE ESTÁ MINHA FILHA?!
Os pais de Hikari, Taichi e Takeru se amontoam no doutor para ouvir a resposta. O diretor falou com firmeza:
–Sua filha está mal. A bala atingiu o pulmão dela. A chance de recuperação é de 50%, porém os riscos da cirurgia...
–EU NÃO ME IMPORTO COM OS RISCOS! QUERO QUE VOCÊS CUREM MINHA FILHA! – grita a Sra. Yagami, rapidamente assinando os documentos necessários.
Taichi se vira para Takeru e o pega pelo pescoço, o fazendo bater na parede.
–QUE DIABOS VOCÊ DEIXOU ACONTECER COM MINHA IRMÃ! – o ódio e a dor cegam Taichi, o fazendo descontá-los no Takeru – VOCÊ DEVIA TER PROTEGIDO ELA!
–Um cara... Nos assaltou e atirou nela... Eu sinto muito... Eu não...
Taichi percebe que não havia sentido em machucar Takeru. Ele não teve controle da situação.
Pela primeira vez, o digiescolhido da Coragem sentia um medo que sabia que nunca seria capaz de superar nunca, o medo que sentia era ao mesmo tempo absoluta e incontrolável.
Takeru se senta no banco de espera e olha para sua mão, ainda encharcadas do sangue de Hikari. Um pequeno brilho refletia no seu olho e ele aponta sua atenção para aquele ponto.
Tangido por tons tristes e puros de vermelho, o anel que Takeru usava e que tinha como complemento o anel de Hikari também havia sido coberto pelo sangue da garota.
Ele encosta sua cabeça na parede e acaba desmaiando de cansaço. Não era o tipo de cansaço que se tem realizando muito esportes ou mesmo numa prova impossível, mas sim um cansaço espiritual. A visão de Hikari atingida por um tiro para sempre ficaria registrada em sua mente.
Algumas horas depois e tudo isso havia terminado. O médico responsável pela cirurgia retornou e lhes contou a notícia: Hikari havia sobrevivido à cirurgia, mas seu estado era tão grave que ela poderia morrer a qualquer momento no quarto isolado de emergência. Caso isso acontecesse, ela iria partir sem que seus parentes pudessem sequer se despedir dela.
No mesmo momento, o bipe de emergência toca e mostra que o coração de Hikari havia parado. Os paramédicos utilizam o desfibrilador para trazer ela de volta.
Antes de os médicos retornarem, Takeru se prepara para qualquer notícia. Ele começa a refletir sobre tudo aquilo:
Como pude colocar ela em um perigo tão grande?! Eu fiquei tão feliz quando o Taichi consentiu com a Hikari saindo comigo, nunca esperei que ele ia deixar algum dia ela sair comigo.
Com certeza fiquei ainda mais feliz quando ela me beijou... Foi tão especial quanto eu imaginava que ia ser.
E pensar que ela ia acabar levando um tiro logo depois.
Que tipo de força divina permite que algo assim aconteça? Pessoas boas como a Hikari saem para se divertir e acabam levando um tiro, enquanto outras roubam, mentem e matam, sem nunca serem pegas.
Mesmo após isso tudo, não sei se esse foi o melhor ou o pior dia de minha vida. Talvez eu sempre debata isso dentro de mim, mas agora o mundo mudou para mim.
Às vezes é bom ser tão esperançoso como eu sou. Minha primeira esperança era a de que meus pais não iam se separar, e foi a primeira que falhou. Não sei o que seria de mim se eu desistisse naquele momento de todas as minhas esperanças. Talvez eu nunca teria a esperança de que a Hikari me amasse.
Hoje foi o dia em que minha esperança foi mais testada. Minha esperança que mesmo depois de tudo isso, a Hikari sobreviveria.
Ela realmente me serviu bem.
Esperanças... Quanta esperança será que há no mundo? O suficiente para tornar nossos sonhos realidade? Ou apenas como uma forma de nos iludir que o mundo ficará melhor, para nos permitir viver?
Me pergunto se minha esperança foi o suficiente para definir o que acontecerá hoje. Não sei como dormirei hoje depois de tanta preocupação.
Hika... Eu te amo tanto. Você sabe disso. Esse anel nunca foi, pelo menos pra mim, um sinal de amizade. Foi um sinal de esperança. Esperança de que, um dia, fosse um símbolo de nosso amor. Hoje, ele se tornou isso e minha esperança teve força para se tornar realidade.
Para sempre será nosso símbolo de amor. Mesmo quando nossos corpos se forem, esses anéis vão continuar sendo o símbolo de nosso amor.
Minha esperança é que essa bala não irá marcar o fim de nossa vida juntos. Ela é pequena e frágil, mas é a minha única força para aguentar essa espera interminável.
Assim que for possível, eu vou entrar em seu quarto e lhe dizer as palavras que mais quis te dizer em toda a minha vida:
–Hikari, eu te amo.
Os médicos retornam e dizem o que aconteceu. Realmente, a noite foi longa...
“Alguns dividem o mundo em Luz e Trevas. Mas o mundo não é dividido nisso. Existem muitas coisas que não são definidas em termos tão fáceis. Mesmo nos maiores atos de maldade, pode existir uma pequena Luz e vice-versa. O melhor é se dizer que o mundo é feito de Luz e Trevas”. Lux et tenebrae.
Notas finais
E aí? O que acharam? Ficou bom? Ruim? Ótimo? Regular? Péssimo? Muito bom? etc. Críticas construtivas são sempre bem-vindas, assim como elogios e comentários.
Não tenho muito a lhes dizer... O que quero deixar pra reflexão de todos é que: Takari é Takari, MESMO SE UM DOS PERSONAGENS MORRE. Nada supera esse romance.
Espero que tenham gostado. Agradeço muito por lerem...
TK Takaishi xD
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