Nunca Fui Beijada
5 O tal do levantamento de peso
— Foi só um café, Victoire. Sinceramente, você está exagerando. – tentava convencê-la.
Vic e eu estávamos na minha casa, mais especificamente na cozinha, dividindo um pote de sorvete enorme. Victoire começava a dar sinais da gravidez. Sua barriga, anteriormente reta, iniciava uma curvatura leve, quase imperceptível. O que mais sugeria seu atual estado eram seus enjoos frequentes e sua fome, que superava a de qualquer Weasley.
E foi por conta dos enjoos que minha prima resolveu ir ao St. Mungus, visto que enquanto grávida de Louise não sofreu tal efeito. Infelizmente, no momento em que a minha prima esfomeada decidiu comer, eu estava na cantina do hospital juntamente de Scorpius Malfoy. Claro que não estávamos fazendo nada demais, ele estava apenas me deixando a par da situação do Ministro, que havia acordado por algumas horas, porém na cabeça da minha querida prima e amiga, ele era o meu novo amor e nós estávamos lá discutindo a data do casamento e o local da lua-de-mel, ou quase isso. Depois disso, a loira me bombardeou de perguntas e viemos até a minha casa discutir sobre o que ela quisesse. O que eu menos queria era acabar com a alegria de uma mulher grávida logo agora.
— Me engana que eu gosto, Rose Weasley. Olhe para mim – obedeci – Eu estou grávida, e as grávidas sempre são as donas da razão.
— Está exagerando, Vic.
— Pergunte ao Teddy, aposto que ele concorda comigo.
— Victoire, o Teddy sempre concorda com você porque se ele não fizer isso, vai acabar dormindo no sofá.
Era verdade. Vic poderia aparentar ser a criatura mais doce e delicada do mundo, mas colocava medo em qualquer um, especialmente em Teddy.
— Eu estou engordando e vomitando toda hora. Daqui a pouco vou começar a inchar como um balão inflável e minha barriga vai ficar enorme. Acredite, acho que ele vai preferir o sofá.
— Não seja boba, você é a grávida mais linda que já vi. – assegurei.
— Certo, estamos fugindo do assunto. Odeio quando isso acontece. Vamos lá: por que o Malfoy? – perguntou. Jura que ela vai mesmo insistir nisso?
— Nós não temos nada, já disse. Ele só quer a minha ajuda para resolver assuntos pendentes.
— Que assuntos?
— Uma coisa envolvendo o Hugo. – minha prima encarou-me pedindo explicações mais claras – Me desculpe Vic, mas o segredo não é meu.
— Certo. E você está ajudando-o por qual motivo?
— Devo alguns favores a ele. Scorpius foi muito útil para mim nos tempos de escola.
— Está aí uma coisa que eu não sabia – comentou surpresa – Vocês tiveram um rolo por lá, não é? – sugeriu – Foi ele o seu primeiro namorado, por isso nunca o menciona?
— Nada disso Victoire. Nós apenas nos auxiliávamos em algumas coisas.
— Vou fingir que acredito. – finalizou com uma expressão maliciosa, que me fez rir – Preciso fazer xixi. Com licença, Rose. – e saiu em direção ao banheiro.
Conversar com Victoire era sempre muito inspirador. Era a minha prima mais bonita – que Dominique não me ouça – e ao mesmo a mais madura. Acho que é por isso que gosto tanto dela. Somos tão parecidas. Quando Vic e Teddy decidiram se casar, todos sabíamos que era porque se amavam. Não por Louise, não por uma irresponsabilidade adolescente, era porque o amor dos dois ia além das fronteiras de um simples namoro, e apesar das brigas constantes, de discussões sem fundamento, os dois formavam um dos casais mais apaixonados que já vi, perdendo apenas, talvez, para os meus pais.
Sempre sonhei em ter um amor como o deles, mas ultimamente venho pensando seriamente em começar a minha coleção de gatos. Não está fácil encontrar um bruxo que esteja disposto a encarar uma vida a dois. É claro que minhas amigas sempre dizem que eu exijo demais e que deveria procurar alguém apenas para diversão e depois pensássemos em algo mais sério, contudo, eu fui criada em meio a tanto amor que não consigo me imaginar com alguém que não amo.
Certo, preciso mesmo adotar alguns gatos.
Victoire retornou minutos depois, pegando sua bolsa apressada.
— Perdão, prima. Esqueci que tenho que pegar a Lou na casa do Lou. – parou por um instante fazendo uma careta estranha – Você entendeu, não é? – assenti – Ótimo. Tenho que ir correndo para a casa do meu irmão sem criatividade. Foi maravilhoso passar esse tempo fofocando com você.
Dito isso, foi direto para a porta, a qual nem esperou que eu abrisse. Mal educada. Logo, já não era possível enxergar as madeixas loiras de Victoire Lupin.
Mais tarde, naquele mesmo dia, animei em preparar um jantar especial para minha pessoa. Algumas vezes era triste não ter alguém para compartilhar os momentos. Mas é como os trouxas dizem, não é mesmo? “Antes só do que mal acompanhada”.
Ao fim da noite, já estava exausta, e sabendo o que me aguardava no Ministério no dia seguinte, optei por tomar um banho e dormir mais cedo do que o habitual, no entanto meus planos não obtiveram sucesso algum, visto que assim que terminei de vestir minha camisola com corujinhas estampadas, o interfone começou a tocar insistentemente. Várias vezes.
— Já vai – reclamei exasperada com o aparelho na cozinha como se a pessoa que esperava lá em baixo fosse mesmo capaz de me ouvir. – Rose Weasley falando, o que deseja? – disse rudemente. E não obtive resposta. – Aqui é Rose Weasley, o que você quer? – nada em resposta – Olhe, se for mais um garoto fazendo piadinhas pode se preparar porque eu vou azarar você. – pensei bem no que disse. Esqueci-me completamente que morava num bairro trouxa – Quer dizer, arrasar com você. Isso, eu vou te pegar, e não é no bom sentindo. – ninguém disse nada novamente. Desliguei o aparelho com violência. Qual o intuito destas pessoas que testam minha paciência logo na hora de dormir?
Já estava me preparando para sair dali e ir para o quarto quando olho para a porta da sala e tomo um susto enorme. Tinha alguém parado ali. Um homem. Um homem que me olhava com a cara debochada. Cretino.
— Eu não te dei a liberdade de vir aqui, Malfoy. – parei à sua frente.
— Certo, então eu vou embora – declarou fazendo menção de dar meia-volta.
— Espere. – pedi de imediato – O que veio fazer aqui? – inquiri cruzando os braços abaixo dos seios, o que me fez reparar que estava sem sutiã. Oh merda, cadê o casaco que fica sempre na sala?
— Preciso te contar algo que aconteceu. – disse ao passo que eu andava como uma louca atrás da porcaria do casaco – O que está fazendo? – Scorpius quis saber quando eu verificava se ele havia se escondido em baixo do sofá.
— Nada. – respondi virando-me para ele – É, pode me dar um minuto? – pedi – Sente-se, fique à vontade. Vou ali e já volto.
Saí correndo em direção ao quarto dando de cara com a porcaria do casaco pendurado na cabeceira da cama. Bufei e decidi deixá-lo lá de castigo por não ficar no lugar que deveria. Enrolei-me num robe e fui até a sala novamente, onde Scorpius aguardava-me apreensivo. Sentei na poltrona de frente para ele com as pernas cruzadas. Uma perfeita lady, se não estivesse com a camisola mais infantil do mundo, é claro. Isso é como um sinal luminoso que pairava sobre mim dizendo: “olha a garota virgem e solitária”.
— Então, o que é tão importante?
— Fui conversar com seu irmão hoje. – fiquei surpresa. Não é que ele tomou uma atitude?
— E...
— Digamos que ele não foi muito agradável. Me mandou para alguns lugares que eu realmente não gostaria de ir. E não estou falando do campo de dragões.
— Bem, ele não está muito feliz com você. – expressei o óbvio.
— Sei que não. Por isso preciso da sua ajuda. Será que não percebe? A culpa está me consumindo, Rose. Não sei mais como agir. Acho que se fosse com qualquer outra pessoa eu não me importaria, mas Hugo Weasley? Este não dá para ignorar.
— E por que não? – perguntei curiosa – Por que este fardo tão exorbitante de culpa a respeito do meu irmão? Quer dizer, vocês nem são amigos, nunca foram. Sequer se conheciam.
— Mas ele é seu irmão. E só isso basta. Me redimir com ele quer dizer que posso me redimir com você. Não sei explicar o motivo, só que é isso o que eu sinto. Fazer alguma coisa para que ele não me odeie talvez possa fazer com que você não me odeie.
— Eu não te odeio. – assegurei – O que houve entre nós foi uma briga infantil. Fomos amigos, gostávamos um do outro, éramos parceiros. A vida acabou nos afastando e tudo bem.
— Sabe, quando eu disse que nunca me lembraria de você, não era verdade. Você foi a minha melhor amiga, Rose Weasley, e algumas coisas não mudam.
— Algumas coisas nunca mudam. – repeti baixinho, sorrindo.
— Não mesmo.
O silêncio tomou conta do recinto, não de uma maneira constrangedora, mas porque ambos estavam absorvendo os impactos que a vida adulta causava em nossas vidas. Amadurecer era necessário, bem como praticar o perdão e a gratidão.
— Me convenceu, Malfoy. Ajudo você com meu irmão, mas se pisar na bola, nosso trato está desfeito.
〰✍
Naquela manhã de domingo o sol irradiava fraco num determinado parque de Londres. As flores ainda regozijavam do orvalho da noite anterior dado à alta umidade do local. Scorpius e eu caminhávamos lado a lado pela grama verde enquanto apreciávamos a paisagem.
— Soube que esta grama é especial, sempre apresenta esta coloração verde viva até mesmo no inverno rigoroso e nos períodos mais secos e quentes do ano. – comentou o loiro.
— Parece até magia. – comentei rindo.
— Ainda bem que essa coisa não existe. Imagine só: bruxos em Londres.
— Que absurdo. – exclamei.
Andamos mais um pouco até alcançar um lago que circundava o local. Algumas pessoas, em sua maioria famílias, localizavam-se dispostas em suas margens a fim de alimentar os animais que viviam na água.
— Como foi no Ministério esta semana? – questionou o loiro acomodando-se num dos bancos espalhados por ali.
— Cansativo. – respondi acompanhando-o – Porém, sem grandes crises como a do dia após o envenenamento. Nem quero pensar que dias como aquele virão futuramente.
— Como assim? – indagou com genuína curiosidade.
— Esqueça que eu comentei sobre isso. – pedi ao perceber que falei demais – E a rotina no hospital, como está? – tentei mudar o rumo.
— Agitada. Mesmo com muitos medibruxos e curandeiros à disposição, o meu pai acaba exigindo muito de mim. – assenti entendendo.
Com o tempo, os magnatas do St. Mungus perceberam que de vez em quando as poções e tratamentos com varinhas não eram suficientes, por isso, muitos de seus funcionários, além dos estudos para curandeiros bruxos, tiveram também de aprender durante três anos ensinamentos trouxas de medicina, e tornaram-se o que chamamos de medibruxos. Scorpius era um desses. Atualmente, a cota de curandeiros é bem baixa, mas ainda existente, visto que muitos se recusam a misturar-se com a cultura trouxa. Após um curto período, Scorpius continuou:
— Ele quer que eu o suceda na presidência do St. Mungus.
— Isso é ótimo! – disse empolgada, mas ao reparar em sua expressão, mudei de ideia – Isso não é ótimo?
Ele soltou um longo suspiro antes de responder.
— Sim, é maravilhoso, entretanto é muita pressão. Às vezes eu só queria ser um vagabundo com uma vida normal.
— Concordo plenamente. – dei razão a ele, sabia exatamente o que queria dizer – Ser o prodígio da família pode ser muito cansativo. Todos da família Weasley possuem empregos excelentes e os Potters também, mas no fim das contas é Rose Weasley quem trabalha diretamente com o Ministro da Magia, e por mais que ele seja um amigo da família, parece que os holofotes estão sempre apontados para mim. – declarei tristemente.
— Tente ser filho único então, com todos olhando para você desde que nasceu e esperando que dê certo na vida. Sabe, às vezes acho que a família Malfoy inteira agradece por meu nascimento “puro”.
— Puro? Tipo sangue-puro?
— Não, puro por nunca ter presenciado guerras ou me envolver com magia negra. Todos eles, desde a minha avó Cissy até meus pais, sempre me afastaram do mau caminho. Me lembro que quando tinha uns oito anos aprontava horrores, então eles me mandaram para a casa da tia Andrômeda. Você sabe como é, talvez a convivência com Teddy Lupin, o afilhado de Harry Potter, me fizesse bem.
— E deu certo?
— Se deu certo? – Scorpius riu – Teddy era pior do que eu. Quase destruímos a casa da tia Andrômeda.
Começamos a rir descontroladamente. Sempre soube que Teddy era um pestinha, ele cortava o cabelo das bonecas de Lily e colocava a culpa em James, no entanto nunca imaginei que ele e Scorpius tivessem algum contato.
— Vocês ainda se falam? Digo, você e Teddy?
— De vez em quando. Nos encontramos raramente, mas nossas lembranças ainda rendem boas risadas. Conheci a filha dele quando era deste tamaninho. – mediu com sua mão a uns bons 80 centímetros do chão – Agora já deve estar uma moça.
— Louise está mesmo uma moça, minha linda sobrinha. Espere, acho que tenho uma fotografia dela comigo. – disse fuçando em minha bolsa até encontrar a foto da minha princesa – Veja só.
Scorpius pegou o pedaço de papel em mãos, analisando-o. Nele, aparecia uma imagem de Louise e eu, uma das últimas fotos que tiramos juntas quando ela, com medo de ser abandonada e esquecida pela mãe, veio me pedir abrigo.
— Ela é mesmo linda, nem parece filha de Teddy Lupin. – comentou – Você disse que ela é sua sobrinha...?
— Ah, sim, é só o modo carinhoso como nos tratamos. Quando pequena, Lou não entendia como Dominique e Louis poderiam ser tios dela e os primos da mesma idade deles, não. Com o tempo ela aprendeu a forma correta de chamá-los, contudo eu sempre fui muito apegada a ela e o sentimento era recíproco, então acabei ficando para ela como uma tia.
— No fim da história, Rose Granger-Weasley fica para titia, sempre soube. – brincou, meu amigo piadista. No entanto sua brincadeira acabou me abalando um pouco. Não era exatamente isso que havia acontecido? Eu havia mesmo ficado para titia, aquela com quem os amigos e familiares deixam seus filhos quando querem sair para um jantar romântico ou um encontro com os amigos – Ei, Rose, você está bem? – chamou Scorpius despertando-me de meu torpor instantâneo.
— Claro que sim. – forcei um sorriso – Só senti uma pontada na perna, acho que foi uma formiga.
— Quer que eu veja? – ofereceu preocupado.
— Não, está tudo bem agora.
— Estou com um pouco de fome, o que acha de comer alguma coisa? – convidou Scorpius levantando-se e olhando o relógio de pulso – Já passa do meio-dia, nossa, o tempo correu.
— É uma ótima ideia, quero mesmo me aconchegar num lugar quentinho, está muito frio aqui fora. – declarei também ficando de pé a seu lado – Podemos procurar um restaurante que tenha aquecedor.
— Restaurante? Eu havia pensado em outra coisa. – encarei-o curiosa e ele, ainda que desconcertado, continuou – Meu prédio é logo ali, pensei que poderíamos ir até lá e pedir alguma coisa. Seria mais confortável.
— É um convite para visitar sua casa? – perguntei numa careta. O Malfoy assentiu – Desculpe, mas recuso.
— Por que? – inquiriu indignado – É só um almoço.
— Não sei se me sentirei confortável indo até lá. Reatamos nosso contato há pouquíssimo tempo.
— Qual é, Rose, somos amigos, não é? Qual o problema? – tentou me convencer – Você está com frio, lá pelo menos tem feitiços aquecedores, e também uma lareira. E se não for o suficiente, tenho cobertores muito confortáveis além de grandes e macios sofás e colchões, e logo mais podemos fazer chocolate quente.
— Está bem, você me convenceu, mas é melhor para você que eu não tenha que andar demais, senão vai ter que me levar nas costas.
Bom, ele mentiu quando disse que seu prédio era “logo ali”. Andamos por uma boa distância e mesmo assim não havíamos chegado ao destino ainda.
— Estou cansada, vamos aparatar – sugeri.
— A rua inteira possui feitiços anti-aparatação, o que também deveria ter onde você mora, do jeito que está aquele lugar qualquer um pode invadir.
— Ninguém seria burro a ponto de querer fazer algum mal à filha de Ronald Weasley e afilhada de Harry Potter, Scorpius. – bufei – Quando chegaremos? Você prometeu que não levaríamos mais de dez minutos e já estamos caminhando há quase vinte.
— Seu sedentarismo não é culpa minha. Eu faço este percurso em sete minutos, Rose Weasley, corro no parque toda manhã, deixe de ser preguiçosa.
Parei abruptamente encarando-o raivosa.
— Eu não sou preguiçosa. – repliquei – Passei a semana inteira carregando o Ministério da Magia inteiro nas costas praticamente sozinha. Só estou cansada.
Scorpius parou em minha frente.
— Você tem razão, não havia pensado nisso, me desculpe. – pediu com a cara inocente. Inocente demais – Veremos o que posso fazer por você. – fingiu pensar apoiando o queixo na mão.
Seus movimentos seguintes deixaram-me surpresa, mais que surpresa, assustada, eu diria. Scorpius se aproximou e elevou minhas pernas à altura de seu ombro esquerdo. Quando dei por mim já estava com a cabeça jogada em suas costas, a cintura encostando levemente em seu pescoço e as coxas em seu peito. E o desgraçado desatou a correr.
— SCORPIUS HYPERION MALFOY. COLOQUE-ME NO CHÃO IMEDIATAMENTE. – ordenei a plenos pulmões, o que de nada adiantou – MEUS ÓCULOS, MEUS ÓCULOS. – gritei novamente referindo-me aos óculos que já estavam na minha testa. Scorpius parou.
— Tire-os e me entregue.
— De forma alguma. Desça-me daqui agora, Malfoy, esta brincadeira não tem graça.
— Você escolhe. Pode salvar seus óculos ou não.
— Está bem. – dei-me por vencida – Tome .– retirei os óculos que já se embolavam no meu cabelo e entreguei a ele.
O loiro continuou correndo até entrar num luxuoso condomínio, a partir daí começou a dar passos em velocidade normal. A minha visão limitava-se apenas ao corpo de Scorpius da cintura para baixo e o chão, até porque não era nada agradável ficar elevando a cabeça para analisar o que se passava ao meu redor, principalmente sem os óculos. Além do mais, a paisagem não era tão ruim. Digamos que o campo possuía duas montanhas bem altas e redondinhas, não tinha do que reclamar.
— Pensei que já tivessem entregado todas as suas encomendas, Sr. Malfoy. Pelo visto esqueceram de uma. – disse um homem em tom brincalhão.
— A mais pesada por sinal, acho que precisariam de um guindaste para levá-la, mas gosto de praticar levantamento de peso. – disse enquanto andava até o que me pareceu o elevador – Até mais, Barton. – despediu-se. Assim que ele passou pelo homem, fiz o esforço de levantar a cabeça um pouco e mostrar-lhe a língua. Aquele porteiro zombeteiro não sabia com quem estava se metendo.
— Você estava me comparando a um objeto? Zombando da minha cara? – perguntei ao passo que ele entreva comigo no elevador.
Ele esperou a porta se fechar para responder.
— Longe de mim fazer uma acusação dessa, Rose Weasley. – defendeu-se numa falsa indignação.
— Sei... – fingi acreditar – Só por curiosidade: você não vai me soltar?
— Não.
Suspirei.
— Certo.
Demorou um pouco até que ouvisse o som do elevador ressonar indicando que havíamos chegado ao nosso destino, pelo menos foi o que eu pensei. Até que vi dois sapatos de salto, muito vermelhos, acompanhados de um par de pernas de dar inveja adentrar o recinto. De repente, senti-me extremamente mal apresentada com jeans e botas baixas. Além disso, meu casaco não combinava em nada com a blusa que usava por baixo. Deveria ter me olhado no espelho antes de sair de casa
— Boa tarde, Scorpius. – desejou as Srª Pernas Torneadas com a voz carregada de sensualidade.
— Boa tarde, Denise. – devolveu Scorpius quase no mesmo tom.
Ela sequer havia me notado, e ele nem se deu ao trabalho de explicar o motivo de ter uma jovem mulher em seu ombro.
— Boa tarde. – manifestei cansada de ser ignorada – Eu sou a Rose.
— É um prazer conhecê-la, Rose. – tornou seca – Está quente aqui não é?
— Na verdade está bem frio. – me intrometi mesmo sabendo que ela não havia dito aquilo para mim – Se eu fosse você, voltaria para casa e me enfiaria numa calça enquanto há tempo.
O elevador parou novamente. As portas se abriram.
— Eu fico por aqui, Denise – informou Scorpius me ajeitando nas costas – Boa tarde.
—Adorei te conhecer. – falei antes que as portas se fechassem atrás do loiro.
Andamos por um extenso corredor até Scorpius parar em frente à porta de sua casa.
— As minhas chaves. – começou desconcertado – Estão no bolso de trás.
— Você quer que eu pegue? Vai esperando.
— Se você não pegar a chave não poderemos entrar em casa e você passará o resto da tarde pendurada nas minhas costas. Não duvide, eu consigo.
— Não vou enfiar a mão no seu bolso. – declarei convicta.
— Se eu tentar pegar, acabarei encostando onde não devo. Não quero desrespeitar seu espaço corporal.
— Então me solte.
— Isso não vai acontecer.
Estava prestes a protestar quando ouvi a porta se abrindo. Okay, tinha alguém na casa dele. Era uma festinha e ele nem para avisar.
— Mãe? – foi a última cosa que ouvi Scorpius dizer antes de me largar, fazendo-me cair estabanada no chão.
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