Nunca Fui Beijada

10 O tal do desmaio


Notas iniciais
Vou ter a cara de pau de postar fingindo que não faz séculos que não atualizo essa fic e fingir que nada aconteceu? Sim, vou. Apreciem o capítulo e comentem para deixar essa escritora linda que vos fala feliz. Beijinhoos.

R O S E G R A N G E R – W E A S L E Y

Na manhã de quarta-feira, fui informada de que Catherine havia finalmente chegado a Londres. Ela foi diretamente para o hotel indicado no pacote que eu havia mandado. O evento aconteceria no fim de semana e, se tudo desse certo, em algumas horas ela estaria almoçando no Dobby is Free. Eu estava empolgada, esperava que a antiga amiga de Hugo desse uma animada nele e o ajudasse a superar o término do namoro.

Durante meu almoço, me segurei para não ir ao restaurante do meu irmão. Estava morrendo de curiosidade, no entanto, não era de bom tom interferir na conversa dos dois.

– Deve ter sido um reencontro muito bonito. – comentei com Molly em meio às garfadas que dava em meu creme de chocolate. Havia contado a ela a história do meu irmão e sua amiga e o que eu estava fazendo para que os dois voltassem às boas.

– Você sequer sabe se aconteceu mesmo. Vai ver ela dormiu depois da viagem e nem foi almoçar.

– Deixe de ser pessimista, Molly. Eles devem estar rindo das histórias dos tempos de escola uma hora dessas. – eu sabia que estava tudo bem. Hugo iria se tocar.

– Você é irritantemente otimista. – ela resmungou com um pedaço de pudim na boca – Mudando de assunto. – terminou de engolir – Lucy e eu vamos sair hoje à noite e queríamos saber se você quer vir com a gente.

– Eu estava mesmo precisando falar com ela, talvez pudesse me auxiliar em alguns aspectos do meu projeto.

– Não, Rose. – minha prima revirou os olhos – Queremos nos divertir, não falar de trabalho.

– No meio da semana? – indaguei estranhando um pouco toda a situação. Deveriam fazer isso no fim de semana.

– Qual o problema? Não vamos exagerar, juro. E você pode até levar o Dr. Delícia se quiser – jogou maliciosa.

Foi a minha vez de revirar os olhos.

– Você continua com isso? Já falei diversas vezes que não temos nada.

– Vou fingir que acredito. – ela se levantou.

Nosso descanso havia acabado, era hora de voltar ao trabalho. No corredor, ela persistia:

– Pra que ele vem aqui todos os dias, então? Tenho a impressão de que se ele ficar sem te ver por mais de 24 horas vai acabar morrendo. – exagerou. Típico da Molly.

– Não vou mais discutir, eu desisto Molly. – encerrei, rindo de sua insistência.

– Olha lá, falando nele. – apontou para o hall de entrada. Scorpius estava sentado lá, como todos os dias. Às vezes de manhã, outras à tarde, porém nunca falhava em seu compromisso – Depois diz que eu minto.

– Molly... – adverti.

Ela finalmente se calou quando chegamos ao nosso destino. Scorpius se levantou e nos cumprimentou educadamente.

– Rose, isso tem que ser levado para muito longe, não é? – apontou para alguns papéis que estavam sobre a minha mesa. Assenti. Eles eram para a Sessão de Aurores que, realmente, se localizava numa parte mais afastada do prédio – Então vou deixá-los lá. – anunciou, pegando retirando todos os papéis de onde estavam.

– Molly, não precisa, daqui a pouco alguém vem buscar.

– Claro que precisa, eu faço questão. – piscou um olho para mim – Tchauzinho Malfoy. – ela se afastou de nós, seguindo para o elevador e mesmo de longe fez o favor de me lembrar: – Pense sobre a minha proposta, vai ser divertido!

Ri da minha prima. Sua mudança de humor repentina me impressionava. Uma hora ranzinza e rabugenta e dois minutos depois bem-humorada.

– Que proposta é essa? – Scorpius quis saber.

– Lucy e ela vão sair hoje à noite e me convidaram para acompanhá-las.

– Parece divertido.

– É, mas eu não vou. Não é legal sair no meio da semana. Parece errado.

– Concordo que seria errado se você tivesse 15 anos e tivesse de fugir da escola para sair com suas primas. – ele voltou a se sentar e eu o acompanhei – Mas como você já é madura o bastante para se virar sozinha, não vejo problema algum. Você tem que se permitir mais, Rose!

Sorri para ele. Não faria mesmo mal algum sair um dia na semana não é?

– Você quer vir também? – não achava educado deixar de convidá-lo.

– E estragar a noite das primas? Claro que não! Além disso, estarei de plantão até meia-noite.

– Não está de plantão agora?

– Não, só vim dar uma olhada no Kim, mas parece que ele ainda não voltou do almoço. – observou. Kim não costumava se atrasar, entretanto vinha percebendo que nos últimos dias ele estava mais lento.

– Está mesmo tudo bem com ele? – questionei preocupada.

– Claro, Rose. O que haveria de errado? – ele não me parecia muito confiante na resposta.

– Não sei. Já que ele está bem, por que você continua vindo aqui todos os dias? – era uma dúvida que me assolava há semanas.

– Bem, temos de fazer o controle de envenenamento desde o incidente. É por isso que venho aqui todos os dias. Não precisa se preocupar. – assegurou.

– Você não mentiria para mim, não é?

Scorpius não teve tempo de responder.

– Está importunando meu médico, senhorita Weasley? – a voz do Ministro se fez presente de um jeito brincalhão.

Me levantei do sofá apressadamente.

– Não senhor, só estávamos conversando um pouco. – respondi um pouco envergonhada – Vou voltar ao trabalho.

– Faz bem. – me dirigi à minha mesa – Malfoy, queira me acompanhar, por favor.

Eles entraram no gabinete do Ministro e a porta de lá só foi aberta novamente meia hora depois, quando Scorpius saiu de lá. Nos despedimos rapidamente pois ele afirmou estar sem tempo.

Molly retornou pouco tempo depois anunciando uma confusão na Sessão de Assuntos Internacionais. Eu odiava quando algo assim dava problema. Na maioria das vezes era alguém de algum país peculiar cujo idioma ninguém sabia falar. E sempre sobrava para mim! Me dirigi rapidamente até lá antes que feitiços começassem a serem lançados.

– Srtª Weasley, ainda bem que chegou. Estou tentando explicar para esta senhora que não podemos alterar a hospedagem dela. – o Sr. Burrows me colocava a par da reclamação.

– Mais um Weasley? Será que estão em todo lugar? – a mulher de cabelos negros e vestes apertadas e escuras se queixava. Dei uma olhada em seu crachá de visitante: C. Duèrre.

– Somos muitos, mesmo. É praticamente impossível não topar com um de nós. Boa tarde – saudei a jovem – Eu cuido disso. –disse para o Sr. Burrows, tomando seu lugar no balcão. – Quanto tempo não é, Cat? Lembra-se de mim?

– Lembro. – respirou fundo – Você é irmã do Hugo, aquele babaca.

É, parece que algo no almoço não saiu como eu havia planejado.

– Acho mais prudente deixarmos suas ofensas contra meu irmão de lado e tratarmos do que você veio resolver aqui, não é? – sugeri.

– Certo. – ela concordou um pouco mais calma – Eu recebi um convite para a Convenção de Domadores de Dragão e parecia ótimo. O Ministério pagaria minha estadia e minha alimentação, mas não gostei do lugar. Quero que passem minhas reservas para outro hotel e outro restaurante, de preferência bem longe do que me colocaram.

– Infelizmente, não podemos fazer isso. Suas despesas foram quitadas no momento em que aceitou o convite e o Ministério teria um prejuízo considerável se desfizesse o contrato agora. Desculpe, porém sem um motivo forte, não temos como te colocar em outro lugar.

Ela bufou.

– Rose, na boa. Me colocaram pra comer no restaurante do seu irmão e eu não quero voltar lá depois de hoje. Eu nem sabia que aquilo era dele! Me ajuda. – praticamente rosnou.

– O que aconteceu para que você não queira mais ficar lá? – eu estava realmente com medo do que o meu irmão possa ter feito – Talvez assim eu possa ajudar você.

A morena estava muito irritada.

– Ele começou a me perguntar o que eu estava fazendo lá, por que eu tinha ido atrás dele justo agora, se eu queria rir da cara dele, zombar dele. Não sei direito o que deu no Hugo, mas ele está muito esquisito. E agressivo. Ele me expulsou do restaurante e mandou que eu procurasse outro bobo para pisotear por cima. Não fez o menor sentido!

A cada palavra dela eu abaixava a cabeça e xingava meu irmão mentalmente.

– Ele vai te pedir desculpas, eu prometo. – garanti a ela.

– Não quero um pedido de desculpas, eu quero uma transferência!

– Me dê até amanhã, certo? Vamos resolver isso.

– Ótimo. – deu um tapa forte no balcão – Amanhã eu volto, Weasley.

Passei o resto do dia sem conseguir fazer o meu trabalho direito. Hugo havia se tornado um imbecil, é isso? Ele costumava ser carinhoso, sensível, o melhor irmão e amigo que alguém poderia pedir e agora todas as qualidades caíram por terra.

Após o expediente aparatei o mais próximo que pude do Dobby is Free a fim de conversar seriamente com meu irmão. Estava na hora de parar de passar a mão na cabeça e começar puxar a orelha dele. Como eu imaginava, ele estava na cozinha, concentrado em seus ingredientes.

– Será que podemos conversar? – perguntei, chamando sua atenção para mim.

– Oi mana! – cumprimentou animado – Você finalmente veio.

Me mantive séria.

– Tem um tempinho para mim, Hugo?

– Tenho sim. – disse limpando as mãos em seu avental – Pode ser na despensa? – assenti – Me espere um pouquinho, só vou instruir o pessoal.

Fui até o depósito de ingredientes, que era levemente apertado, mas grande o suficiente para uma conversa entre irmãos. Deixei minha bolsa no chão e me preparei para o que viria a seguir. Quando ele entrou, fiz a melhor cara de brava que consegui. Graças à vovó Molly e à mamãe, tenho em quem me inspirar.

– Hugo, pode me dizer o que foi aquela palhaçada aqui no restaurante durante o almoço? – cruzei os braços do jeitinho que mamãe fazia quando ia nos dar bronca.

Ele estava constrangido.

– Como você soube? – murmurou.

– E isso importa? – indignei-me – Você gritou com a sua melhor amiga, disse coisas horríveis sobre ela e ainda se acha na razão de cobrar satisfações de como eu soube? – subi meu tom de voz – Caramba, Hugo!

– Eu achei que alguém tinha contado a ela sobre a Sam e então ela veio até aqui para zombar de mim. – abaixou a cabeça, ainda aos murmúrios. – Cat sempre foi do tipo zombeteira.

– Por favor, Hugo Weasley, melhore! Não tinha como ela saber e o mundo não gira ao seu redor! Ela não sairia da Amazônia e viria até aqui apenas para zombar de você. Será que não se envergonha de estar sendo idiota a esse ponto? Primeiro bate no Scorpius sendo que ele nem sabia que Samantha tinha namorado e agora é um grosso com a pessoa que esteve ao seu lado o tempo todo quando você estava longe de casa? – praticamente gritei.

– Como sabe do acontecido com o Malfoy? E que novidade é essa de chamá-lo de Scorpius? – indagou desconfiado – Você está metida com o cara que transou com a namorada do seu irmão?

Droga! Tinha falado demais.

– Eu só fiquei sabendo do que ocorreu, está bem? E não mude de assunto. Você está muito encrencado, mocinho. Muito mesmo!

– Rose, eu sei que errei com a Cat e vou me desculpar por isso, satisfeita? – meio a contragosto, assenti – E pare de me tratar como se fosse a mamãe.

– Oh, eu não estou te tratando como a mamãe. Mamãe faria muito pior se soubesse que você destratou uma mulher.

– Eu não destratei a Catherine, só estava com raiva. – tentou se defender.

– E descontou a raiva nela? Muito maduro da sua parte, parece uma criança.

– Uma criança que não leva essa vida sem graça, que sabe aproveitar e que pelo menos já beijou alguém. – retrucou tocando meu ponto fraco.

Respirei fundo, pegando minha bolsa do chão. Havia chegado no meu limite. De repente falar com meu irmão se tornou insuportável. Hugo não se parecia em nada com a pessoa com quem eu passava horas conversando sobre assuntos sem importância e que mesmo assim faziam sentido para nós.

Saí da despensa sem olhar para trás. Ele me seguiu chamando meu nome, porém não parei até sair do restaurante. No lado de fora, ele me alcançou e começou a se desculpar, mas de nada adiantava. Já fazia um tempo que era sempre do mesmo jeito: ele me insultava, eu o perdoava e ele fazia a mesma coisa novamente.

– Qual é o seu problema com o fato de eu não ser como você? Você é meu irmão mais novo, já beijou alguém e não é virgem. E daí? Suas insinuações faziam o mínimo sentido quando eu tinha 14 anos e você 12, mas agora não fazem mais. Pior, só mostram o quanto você é imaturo e, na falta de argumentos, ataca baixo. – expus com raiva.

–Rose, eu não quis dizer aquilo.

– Sim, você quis. Você sempre quer. Eu sou tão idiota por tentar proteger você a todo custo que não vejo o quanto você acha prazeroso me atacar. Talvez dizer que eu sou a mal amada, que eu nunca me envolvi com alguém, diminua a dor que você constantemente sente ao se lembrar que foi você quem se humilhou para uma mulher que te traiu e mesmo assim foi abandonado. – eu tremia por inteiro e sentia as lágrimas pelo meu rosto – Eu não sou sua anestesia, Hugo. Melhore.

Desaparatei e fui parar na minha casa. Me sentia péssima, mas não podia servir de tapete para o meu próprio irmão. Era uma situação insustentável e, por mais que eu o amasse, não poderia permitir que continuasse acontecendo. Pensei em desfalecer na cama, talvez chorar até que meus olhos inchassem tanto que eu não conseguiria enxergar, contudo eu precisava mudar minhas ações. Pensar mais em mim e viver mais. Enfrentar minha fragilidade perante Hugo foi um começo, mas eu necessitava de mudança. Molly tinha razão. Eu não precisava fazer isso para e nem por ninguém que não fosse eu mesma. E não havia mal algum em uma noite de festa com duas primas queridas.

Pensando bem, uma boate trouxa numa noite de quarta-feira não me parecia má ideia.

〰✍

Acordei completamente desorientada. Olhando à minha volta, percebi estar em casa, mais especificamente em meu quarto e confortavelmente acomodada em minha cama. Uma dúvida latejava em minha mente quase na mesma intensidade que a dor que percorria meu corpo: como eu vim parar aqui? Não, eu não havia bebido mais do que duas doses de bebida alcoólica. Soube mais tarde que a resposta para tal questionamento viria a ser tão confusa que talvez o melhor teria sido continuar com a dúvida latejante.

Minha cabeça doía tanto que cheguei a ponderar se seria má ideia arrancá-la. Felizmente cheguei à conclusão de que levaria a consequências indesejáveis, então desisti. Uma região em especial, na testa, se assemelhava a um mini morador dentro dela que estava a todo custo batendo em minha pele com um martelo a fim de derrubá-la e se libertar. E pelo incômodo que causava, acho que estava conseguindo. Levei a mão para tocar aquele local específico quando ouvi uma voz interromper-me.

— Não faria isso se fosse você. – o dono dela não tardou a aparecer no quarto. Calmo e com uma expressão divertida, Scorpius Malfoy se aproximou – Pode atrapalhar o curativo.

— Curativo? – toquei o local molhado, recebendo um olhar de repreensão do loiro. Ao retornar com meus dedos para meu campo de visão notei que havia sangue neles. Entrei em desespero, buscando explicações com o homem em minha frente.

— Calma, o sangramento parou, eu só fui buscar algumas poções, mas já estava vindo trocá-lo. – mostrou os equipamentos em sua mão e começou a trabalhar naquela região.

— O que aconteceu?

— Pelo que me disseram você bateu com a cabeça e ganhou um corte de presente, e aí desmaiou. – informou com tranquilidade. Eu havia desmaiado? – É só isso que eu sei. – finalizou o trabalho, se afastando novamente.

— Quem chamou você aqui? – perguntei curiosa. Ele não apareceria do nada.

— Fui euzinha. – Molly apareceu com uma taça na mão contendo um pouco do que eu identifiquei como a salada de frutas que estava na minha geladeira – Achei que ele poderia ajudar já que você não acordava. Aproveitei que, como você é uma das secretárias do Kingsley a sua lareira faz contato com praticamente qualquer outra, mesmo estando bloqueada, então acionei a da casa dele.

— Ela disse que era uma emergência para o Ministro.

— Ele estava nu.

— Eu não estava nu! – rebateu envergonhado – Estava de cuecas.

— Tudo bem, não importa. O que quero saber é o que aconteceu comigo. Como eu desmaiei? – me pronunciei acabando com aquela discussão boba.

— Certo, qual é a última coisa que você se lembra? – Molly indagou abocanhando uma colher da salada.

Enrubesci. A última coisa da qual me recordava era de flertar com um rapaz. Jhonny era seu nome e ele era bonito e simpático. Tinha quase a mesma idade que eu, apenas dois anos mais velho e estávamos conversando. Lembro de ter me sentado com ele numa das mesas altas que havia lá e ele pediu algo para bebermos. Depois disso... É, não sei mais o que houve depois disso.

— Eu acho que ia beber algo e então, tudo ficou escuro. – disse apenas. Não iria contar sobre o rapaz ali, na frente do Malfoy.

— Ah, sim. Você estava com um cara na mesa e ele chegou com bebidas para vocês. Vocês iam se beijar e você se apoiou na mesa, então ela virou, você escorregou, bateu a cabeça nela, os copos caíram por cima de você, então você caiu no chão e a mesa por cima. – ela escondia um sorriso – Não foi nada bonito.

— E você estava observando tudo isso? – ela estava me vigiando? Só assim para saber tudo detalhadamente.

— Eu não ia perder o seu primeiro beijo, Rose. Um momento histórico desse deve ser celebrado. – soltou não percebendo o erro que havia cometido até que eu olhasse para ela com raiva nos olhos – Primeiro beijo da noite. – se virou para o homem – Sabe como ela é. Rose na balada é quase um milagre.

— Ei! – exclamei indignada.

— Tenho que concordar, Rose. – ele disse.

— Não me vê há anos, não pode falar nada. – emburrei.

— E é exatamente por esta reação que sei que sua prima está certa.

— Viu só? – Molly se exibiu – Mas então, tudo certo? Rose pode voltar à sua vida normal?

Scorpius, demorou um pouco a se manifestar.

— Ainda sente dor?

— Um pouco, na cabeça. – respondi omitindo a verdade, pois estava doendo muito, na verdade.

— Você está bem, porém não é aconselhável que passe essa noite sozinha. Ficaria mais tranquilo se soubesse que está acompanhada.

Direcionei meu olhar à outra mulher no recinto. Acabaria sobrando para Molly passar a noite comigo. Um pouco distraída com sua salada de frutas, ela externou:

— Não posso ficar. – parecia um pouco constrangida – Prometi a Lucy que ficaria com ela hoje. Ela ainda está me esperando e também aguardando por notícias suas, Rose. – ela se desculpava com o olhar – É que faz muito tempo que não saímos assim e você a conhece. Ela já tem pouco contato conosco. Se eu não aproveitar as poucas oportunidades que tenho com ela...

— Está tudo bem, Molly. – confortei-a – Vou dar um jeito. Posso ver com a minha mãe.

— Não acha que vai assustá-la chamando-a de madrugada?

— Então... A Domi.

— Ela está viajando com o James, se lembra? E está ciente de que Victoire está grávida, não é? – a ruiva estava certa. Eu não tinha muito a quem recorrer. – Talvez se chamasse o Hugo...

— Não. – rebati mais que depressa – Só aumentaria minha dor de cabeça, pode ter certeza.

— Então talvez o Scorpius possa ficar. – sugeriu – Você poderia?

Ele se embolou um pouco e, antes que pudesse dizer algo, interferi.

— Ele terminou um plantão há pouco. Está muito cansado, é melhor não. E quer saber? Me sinto bem, posso ficar sozinha.

— Na verdade não pode. – o loiro interviu – Eu fico, Rose. Sem problemas. Estou acostumado a emendar plantões e nem estou muito cansado. – quando viu que eu rebateria, ele insistiu – Estou dizendo a verdade, confie em mim, eu sou seu amigo, não é?

Assenti conformada.

— Parece que temos tudo resolvido então. – Molly comemorou, terminando de comer a salada de frutas – Você quer um pouco? – ofereceu. Só então percebi que estava faminta. Acabei aceitando – Certo, já volto.

Ela se retirou deixando apenas Scorpius e eu no quarto.

— Obrigada por ficar, eu nem sei como posso recompensar você por isso porque é grande generosidade da sua parte.

— Não! – sentou-se na beirada da cama, de frente para mim – É meu ofício. Eu nunca deixaria uma paciente sozinha quando está precisando de cuidados. Principalmente você, que é tão especial.

— Especial? – ri um pouco envergonhada.

— Claro. Você é especial para mim, Rose. Sempre foi, sabe disso.

— Na verdade não sei não.

— Então é bom deixar claro que sim, você é. – segurou minha mão – É bom ter você por perto novamente. Não me lembrava do quanto você era essencial até poder conviver com você de novo. – ele beijou a mão que segurava e se levantou, deixando-me sem reação. Aquelas palavras, por mais simples que fossem, mexeram comigo – Não gostaria de incomodar muito, mas realmente preciso de um banho.

Não disse nada por um tempo e ele me encarava, esperando uma atitude.

— Claro. – disse assim que acordei do transe – O banheiro fica no fim do corredor e tem toalhas limpas no armário. Precisa de roupas?

— Não, sem roupas. – encarei-o intrigada – Quero dizer que trouxe roupas. Sempre ando com algumas peças na minha maleta.

— Oh, desculpe é que acho que meu raciocínio está um pouco lento depois do acidente.

— Tudo bem. Falando em roupas, onde podemos deixar as suas? Acabamos deixando ali no chão mesmo quando tiramos de você e imagino que, como estão molhadas, não deveriam ficar lá. – indagou com normalidade. O QUE? Dei uma olhadinha por debaixo dos cobertores e percebi que estava de pijama. Não acredito que ele me viu sem roupa. Tenho certeza de que fiquei da cor de meus cabelos, talvez ainda mais vermelha, pois ele emendou – Não se preocupe. Eu não vi mais do que as roupas de baixo. A sua prima foi quem tirou o... você sabe. – fez gestos que me pareciam indicar um sutiã – E estou acostumado. Situação médica, lembra? Não tem nada aí para se envergonhar também, muito pelo contrário.

— O que? – do que ele estava falando?

— Deixa. – soltou uma risada breve – Vou tomar banho.

Assenti e ele se retirou. Logo depois, Molly apareceu com a salada de frutas, sentando-se no mesmo lugar que Scorpius ocupava minutos antes.

— Posso colocar na sua boca se for preciso. – anunciou solícita. Recusei.

— Está se sentindo culpada?

Ela suspirou antes de responder.

— É um pouco responsabilidade minha, entende? Se eu não tivesse feito você sair conosco nada disso teria acontecido.

— Não se martirize por isso. Eu fui porque quis e até foi divertido. Eu gostei de dançar com vocês e rever a Lucy foi incrível. É maravilhoso saber que ela está feliz. Vamos apenas esquecer as coisas ruins. – sugeri.

— Certo. – sorriu maliciosa – E aquele cara era um gato! Você teria se dado bem.

— Molly! – repreendi-a, mas acabei rindo também – Ele era legal, no entanto esta confusão toda talvez tenha acontecido porque ele não era o cara certo.

— Talvez. Mas no fim das contas vai passar a noite com o Doutor Delícia, então muito provavelmente está melhor do que eu.

— Claro que não. – rebati imediatamente – Ele só está sendo um bom amigo.

— Vou fingir que acredito. Aliás, onde ele está?

— No banho.

— Será que ele demora? – inquiriu consultando seu relógio de pulso. Entendi sua pressa.

— Pode ir, Molly. – tentei transmitir confiança – Aproveite sua noite, eu vou ficar bem.

— Certeza?

— Claro! São apenas alguns minutos. – garanti.

— Então eu vou. – me abraçou – Melhore logo, Rosie. Vou cobrir você amanhã, mas não sei se posso aguentar todo o seu trabalho por muito tempo sem surtar. – se levantou e foi até a porta – Boa noite.

— Boa noite.

Ela se foi e eu fiquei saboreando a salada de frutas, até me lembrar de que meu convidado precisava de um lugar para dormir. Me levantei para pegar a cama de montar que deixava guardada em algum lugar do meu armário. Graças à minha organização não foi difícil encontrá-la. Coloquei-a no chão e tirei do armário também alguns cobertores e um travesseiro. Procurei minha varinha por todos os cantos para que não precisasse montar a cama manualmente. Encontrei-a num canto no chão junto das roupas que havia usado à noite. Me abaixei para pegá-la e senti uma tontura tomar conta do meu corpo, não consegui me equilibrar e teria me estabacado no chão se não fosse o Malfoy me segurando. Ele me pegou no colo e colocou de volta na cama. Demorou alguns minutos, mas a tontura passou e eu voltei ao normal.

— Só queria pegar a varinha. – justifiquei. Me sentia mal pois sabia que desobedeci uma ordem dele.

— Eu entendo, mas tem que saber que quando eu digo para não fazer algo, não deve fazer. Você poderia ter se machucado ainda mais. – sua voz soava rígida.

— Eu sei. Me desculpe. – pedi baixinho.

— Não precisa se desculpar. – ele sorriu – Parece uma criança fazendo beicinho assim.

Revirei os olhos. De novo a história de que pareço criança?

— Eu não estou fazendo beicinho. – retruquei nervosa.

— Tudo bem, não está. – levantou os braços em rendição – Então, é ali que eu vou dormir? – apontou para a cama desarmada. Eu assenti e em poucos segundos, com um simples aceno de varinha do loiro, ela estava perfeitamente arrumada. Ele se acomodou nela e se virou para mim, que ainda comia – Não tente nenhuma estripulia durante a noite.

— Não vou. – prometi – Quer um pouquinho? – indiquei a salada. Ele negou e fechou os olhos. Após um silêncio reconfortante, me senti na obrigação de falar – Scorpius. – chamei a fim de verificar se ele estava mesmo acordado.

— Sim? – respondeu.

— Sabe, você disse que percebeu que sou essencial na sua vida e não sabia disso. Quero que saiba também que antes de reencontrar você não sabia o quanto você era necessário. É muito bom ter você por perto porque, de alguma maneira, você trouxe mais amor para mim e isso é incrível. É bom que saiba disso.

Ele sorriu e eu sorri de volta. Não havia mais nada a ser dito. Naquele momento, estávamos entendidos, contentes e em paz. Não demorei muito a terminar de comer e apagar as luzes. Dormi sossegada e sem nenhum problema, principalmente por me sentir tão segura tendo Scorpius dormindo na cama ao lado.