Nunca Fui Beijada

2 O tal do convite


R O S E G R A N G E R – W E A S L E Y

— Pelo menos para isso você serve. – comentei ao sair do quarto pela manhã e encontrar meu irmão na cozinha preparando o desjejum – Qual é o cardápio?

— Croissant, panquecas com mel e cappuccino caseiro.

— Não posso com cafeína, você sabe. – fiz careta enquanto apoiava-me no balcão.

— Eu sei, por isso fiz um suco verde com ervas adocicadas para você.

Sorri ao perceber que ele estava mesmo testando ser prestativo. Sentei-me à mesa e o ruivo postou-se a meu lado trazendo consigo as delícias feitas por ele.

— Faz tempo que não aparece no restaurante, Rose. – reclamou.

— Eu sei, me desculpe. Shacklebolt anda muito ocupado ultimamente, acho até que está meio doente. – justifiquei – Hoje mesmo receberá visitas de medibruxos do St. Mungus.

— Espero que ele melhore logo, vovô diz que ele é o melhor Ministro da Magia que já existiu em todo mundo bruxo. – concordei com a cabeça, enfiando um pedaço de panqueca na boca – Ainda assim, passe por lá quando estiver disponível, o pessoal do Dobby is Free te adora.

— Ainda acho bizarro o nome do seu restaurante. – disse me servindo, desta vez, de um coissant.

Quando Hugo entrou em Hogwarts e foi selecionado para a Grifinória ninguém imaginava que sua coragem se manifestaria tão cedo e de forma demasiadamente inusitada.

Já a partir de seu terceiro dia de aula, todas as tardes, pouco antes do jantar, meu irmão sumia e nenhuma pessoa além de mim sabia por onde ele andava. A pedido dele, eu ocultava seus hábitos. Surgiram vários palpites acerca do que o baixinho sardento andava aprontando, no entanto seus primos e amigos sequer desconfiavam que seu enorme segredo era algo que não colocava nada nem ninguém em risco, que mantinha mistério apenas para não ser vítima de preconceito, afinal, que garoto de onze anos em juízo perfeito visitaria a cozinha de sua escola diariamente apenas para aprender macetes gastronômicos com os elfos domésticos?

Nas férias de Natal, quando voltamos para casa e ele se ofereceu para ajudar vovó com a ceia, todos notaram seus dotes da cozinha. No meio do jantar ele anunciou que sairia de Hogwarts e se matricularia em Beauxbatons, pois a escola oferecia estrutura gastronômica, coisa que a atual não proporcionava. Todos, sem exceção ficaram extremamente surpresos com sua audácia, e por isso aceitaram, afinal, os Weasley são uma família de grifinórios.

Hugo concluiu seus estudos na França e não tardou a abrir seu primeiro restaurante de uma franquia de três. O nome é, de certa forma, uma singela homenagem a quem mais o auxiliou. Tio Harry, papai e mamãe, com apoio financeiro e os elfos, pela ajuda profissional.

Estávamos terminando de comer quando ele resolveu ser desagradável ao perguntar:

— Você o conhece?

— Conheço quem? – me fiz de desentendida mesmo tendo conhecimento de quem ele falava.

— O Malfoy. Sei que cursaram Hogwarts juntos. Papai já falou algo a respeito de sua família, mas não dele isoladamente.

— Isso não importa agora, o que fará contra ele? Além disso, você deveria estar zangado com a Samantha. E daí se você a pegou com Scorpius Malfoy? Foi azar dele, pois sabe muito bem que ela saía com outros homens, poderia ter sido qualquer um.

— Não use expressões de baixo calão ao citá-la. – alertou zangado – Eu só queria saber o tipo de homem que ele é, só assim poderei entender o que falta em mim, onde eu falhei.

Bufei irritada, aquela ladainha já estava começando a afetar meus nervos. Onde já se viu, um homem feito choramingando por uma pessoa que não estava se importando nem um pouco para seus sentimentos?

— Você não errou em absolutamente nada, Hugo. – garanti – O problema é com ela, foi ela que não soube dar valou ao que possuía.

— Talvez eu estivesse ausente demais. O restaurante exige muito do meu tempo. Acho que ela estava sentindo-se solitária e aí...

— CALE A BOCA! – ele se assustou com meu grito repentino e estridente. Respirei fundo procurando me recompor – Eu conheci Scorpius Malfoy em Hogwarts sim, éramos do mesmo ano, como você mesmo disse. Ele era comum, como qualquer outro garoto, não fazia maravilhas, mas também não me parecia má pessoa.

— Quem vê cara não vê coração.

— Um exemplo disso é a sua namoradinha. Ou melhor, ex. – encerrei levantando-me e rumando na direção da porta da sala. Não sem antes recolher meus objetos de trabalho. Hugo vinha a meu encalço parecendo arrependido de ter me contrariado – Estou saindo para o trabalho, quer que traga alguma coisa quando retornar?

— Seria isto um convite para que eu permaneça por mais uma noite?

— Não exatamente. – suspirei – Mesmo assim, seria mais prudente se tirasse o dia de hoje para refletir sobre sua vida e os acontecimentos recentes, e como eu sei que na casa dos nossos pais seria impossível, ofereço meu apartamento para seu descanso. – esclareci – Não se acostume, está bem? É por hoje, apenas. E também, é bom chegar em casa com um jantar quentinho me esperando. – completei lançando um olhar pidão. – Cozinhar casualmente, só por rumo, também é uma boa terapia.

— Você me conhece. – disse com um sorrisinho. Após um curto ínterim, retornou a falar – Obrigado, mana. Sem você não sei o que seria de mim.

— Hugo, quando você nasceu, mamãe e papai disseram a mim que seria minha função cuidar de você, muito mais do que deles. Segundo papai, eu viveria mais tempo e com mais disposição para limpar sua barra quando necessário. Só estou cumprindo com a minha obrigação.

O ruivo nada disse, apenas envolveu-me com seus longos braços num abraço forte e carinhoso.

— Eu te amo, Rose.

— Também te amo, pirralho.

〰✍

— Weasley, pode cuidar da próxima reunião para mim por favor? – pediu Larah Murray, a primeira secretária do Ministro – Recebi uma carta de casa, Evie está passando mal e Jessie desconfia que seja Varíola de Dragão.

Prontifiquei-me imediatamente a ajudá-la. Evie era sua filhinha caçula, tinha apenas cinco anos. Jessica era a do meio. A mulher havia dado à luz a três lindas moças. Eu havia trombado com Evie umas três vezes por aqui, e ela sempre me pareceu muito esperta, me lembrava até um pouco a Louise. É uma pena estar doentinha.

Quando Larah se foi, fui correndo analisar sua agenda para me informar dos próximos compromissos de Shacklebolt e me alegrei ao constatar que o seguinte era o último do dia. Infelizmente, era a tal consulta do St. Mungus.

Esta é mais uma das vantagens de ser Ministro da Magia, você não precisa ir a local algum, todos vêm a você. Torci para que fosse apenas uma visita rotineira, temia verdadeiramente que algo de ruim estivesse acontecendo a Kim.

O compromisso estava marcado para às cinco da tarde, porém, já às quatro e vinte um rapaz de cabelos castanhos e com vestes brancas apontava no corredor e parava à minha frente.

— Identificação, por favor. – exigi.

— Callun Owen, enfermeiro do St. Mungus.

Ergui meu olhar para encará-lo.

— Enfermeiro? – ele assentiu – Você conduzirá a consulta?

— Não, não estou habilitado para isso. Um medibruxo virá daqui a pouco, já deve estar chegando. – esclareceu.

— E qual é o nome deste medibruxo, posso saber?

— Me perdoe, senhora, nem eu mesmo sei. – o rapaz estava visivelmente nervoso – Com certeza será algum membro da família do presidente. Desculpe-me por não saber mais, eu só estou aqui como assistente e estou em avaliação.

Apiedei-me diante da situação do coitado. Suava tanto que era capaz de encharcar a sala por inteiro.

— Está bem, se acalme, não sou nenhuma fera a ponto de devorá-lo, nem o Ministro é feroz, por isso não há com o que se preocupar, procure respirar e ficar tranquilo.

— Obrigada, senhora.

— Senhorita. – corrigi – Weasley, ou até mesmo Rose, se preferir.

— Rose Weasley? – exclamou uma voz masculina que acabara de atravessar o corredor, sem que eu percebesse, e se postara atrás do rapaz lançando-me um olhar apavorado. Oh, não, aquele não era meu dia de sorte.

— Anthony Zabini, que surpresa vê-lo por aqui. – disse calmamente com um falso sorriso no rosto. Anthony era a última pessoa que gostaria de ver hoje.

Ele continuava apreensivo, me encarando de forma estranha. Parecia assustado. Isso me divertia bastante. Fico feliz de ainda ter este efeito sobre ele.

— Pelo visto parece se recordar muito bem do nosso último encontro.

— Não há como esquecer, Srta. Weasley. – resmungou com certa raiva contida. Ótimo.

Callun, o enfermeiro, nos encarava curioso. Tive o impulso de informá-lo que nada daquilo era da sua conta, contudo resisti, ele não merecia, havia sido educadíssimo comigo e ainda por cima estava nervoso. Como viu que não fazia parte daquela discussão, foi se acomodar numa das confortáveis poltronas verde-musgo dispostas ali.

Segundo o auxiliar ali presente, o medibruxo responsável pela consulta seria alguém relacionado à presidência. Tenho certeza absoluta de que Anthony não está relacionado com a presidência do St. Mungus, posso afirmar que ele não tinha competência suficiente para isso.

— Sr. Zabini. – chamei. Por mais que me desse repulsa tratá-lo com tanto respeito, aquele era o meu ambiente de trabalho, e esta era a forma correta de tratar qualquer um que entrasse ali para ver o Ministro – Apenas para fins trabalhistas, devo perguntar-lhe se o senhor está apto para conduzir esta consulta.

— Srta. Weasley, saiba que estou apto para qualquer tipo de consulta, portanto é melhor não duvidar de minhas capacidades.

— Não estou duvidando, senhor. Esta pergunta faz parte do protocolo, pode conferir se quiser. Preciso registrar o nome do medibruxo responsável e de seus auxiliares.

Anthony sempre fora do tipo metido, egocêntrico e egoísta. Seu ego ocupava mais espaço do que ele mesmo, chegava a ser palpável. Infelizmente, por ter convivido com este ser por um bom período de tempo durante meu treinamento no Ministério, sabia que só havia se dirigido ao St. Mungus para sua preparação há apenas dois anos, tempo insuficiente para se tornar um medibruxo de alto nível a ponto de atender o Ministro da Magia. Obviamente, existem prodígios capazes de conseguir tal façanha, no entanto tinha pleno conhecimento de que Anthony não era um deles.

Ele suspirou antes de me responder. Sentimento de derrota? Talvez.

— Não, Srta. Weasley, não sou o responsável pela consulta, pelo menos não por esta. Satisfeita?

— Não sou paga para me satisfazer, Sr., sou paga para cumprir meu trabalho, mas respondendo à sua pergunta, sim, estou muito satisfeita. – concluí sorrindo. Isso o irritava, e era muito agradável irritá-lo – Ainda assim, preciso dos nomes dos participantes da reunião. Só porque são do Hospital, não têm vantagem alguma sobre os outros visitantes.

Anthony lançou-me um olhar estranho, seja lá o que quisesse me dizer, engoliu junto de seu orgulho. Não era hora nem lugar de remoer antigas discussões.

— Anote, então. Enfermeiro: Callun Owen; medibruxo auxiliar: Anthony Zabine.

— Medibruxo condutor: Scorpius Malfoy. – respondeu o rapaz loiro que acabara de chegar. O ódio inundou meus sentidos. Retiro o que pensei, Anthony não era nada indesejável no dia de hoje se comparado a Scorpius Malfoy – Boa tarde, Srta. Weasley, como vai? – educado, não debochado. Isso é uma surpresa se levarmos em consideração a situação dele com meu irmão.

Respirei fundo antes de encarar seus olhos azuis. Os meus estavam ardendo de ódio, assim como eu por inteira.

— Boa tarde, Sr. Malfoy. – rugi – Vou bem, obrigada.

Ao contrário dos outros dois, o loiro não vestia jaleco. Apresentava-se bem apessoado, diria eu, com um blazer azul turquesa destoando de sua camisa e calça brancos. Estava elegante, não posso negar. O que fez com que minha raiva aumentasse. Não poderia simplesmente iniciar uma discussão com alguém educado e elegante do nada. Além disso, deveria esquecer o que ele causara a meu irmão. Era um problema de Hugo, não meu.

— Preciso de algumas informações sobre o senhor. – acrescentei antes que se afastasse – Pode responder algumas perguntas?

— Claro. – ele dirigiu seu olhar para Anthony, parecia estar dispensando-o. Sentou-se na cadeira defronte à minha mesa e me encarou. Seus olhos encontraram os meus e sua expressão modificou-se. De certo modo, parecia acabado, mesmo que seu corpo permanecesse rígido – Acho que lhe devo explicações.

— Não, senhor. São perguntas básicas, não exigem explicações. – respondi simplesmente, embora soubesse que ele não se referia ao protocolo.

— Rose Weasley, conheço você o suficiente para saber que não é burra e compreendeu do que estou falando, portanto sabe sim, que lhe devo satisfações.

— Não deve nada a mim e sim a meu irmão. – sussurrei – Não sei de quem foi a culpa, nem quero saber, porém se está mesmo disposto a pagar pelo seu erro, sugiro que procure Hugo. Não tenho nada a ver com a situação em que vocês estão envolvidos.

Ele estava claramente desesperado por salvação. Parecia arrependido. Não deveria culpá-lo pela tristeza do meu irmão, entretanto não tinha mais a quem culpar. Hugo sentia-se inferior a ele e era isso o que me causava este rancor. Não estava nem aí para o fato de Samantha ter dormido com ele, o que me indignava era que meu irmão se sentisse pior do que uma pessoa que sai com as namoradas de outros caras sem se importar com isso.

— Eu sabia que ele te contaria. Imaginei que vocês tivessem uma forte ligação. – continuou o medibruxo – Além disso, ele saiu de lá gritando que você tinha razão e eu bem sei que você sempre tem razão.

— Você não sabe nada sobre mim. – afirmei nervosa. Ele não tinha o direito de saber nada, nunca fomos sequer amigos.

— Você sabe que eu sei. E que não é pouca coisa.

— Fizemos um acordo e, neste exato momento, você não está cumprindo. – acusei.

— Peço desculpas por isso, é que algumas coisas nem Obliviate é capaz de apagar.

Revirei os olhos. Ele sempre sabia exatamente o que dizer. Convencido.

— Jante comigo. – proferiu repentinamente.

— O que? – retorqui indignada.

— Você ouviu, é um convite. Eu realmente desejo consertar as coisas com o seu irmão e penso que o melhor modo de fazer isso seja por seu intermédio. – se curvou para frente e olhou diretamente em meus olhos – Acredite quando digo que não sabia que ela era comprometida, principalmente que era comprometida com um Weasley. Merlin, eu nunca teria cedido aos encantos dela se soubesse. Ela é uma mulher deslumbrante, mas não vale o risco. Jante comigo para que eu possa explicar a situação. Se você achar que sou merecedor da sua ajuda, da sua confiança, prometo que farei o possível para me redimir com Hugo Weasley. Não sou nenhum cafajeste. – defendeu-se.

Ponderei por um instante. Suas palavras me pareciam verdadeiras e, se tinha uma qualidade de Scorpius Malfoy que eu não podia me opor, era sua honestidade. Além disso, menti para meu irmão. Disse que não o conhecia direito. Eu também devia explicações a Hugo.

— Que restaurante você sugere, Dobby is Free? – questionei sarcástica. O loiro deu um breve sorriso.

— Os anos passam, mas seu bom-humor sem mantém intacto. Gosto disso, Srta. Weasley. Não se preocupe, posso te pegar onde quiser e acompanha-la a um lugar agradável.

— Agradeço, porém dispenso. Posso aparatar e andar com minhas próprias pernas.

— Certo. Quando termina seu expediente?

— Isso não é da sua conta, Sr. Malfoy. Não se preocupe. Quando estiver em condições de lhe acompanhar para onde quer que seja, mando que lhe avisem. Agora, só preciso das informações exigidas em meu protocolo.

Comecei as perguntas acerca de sua profissionalização, era meu dever analisar as condições de trabalho de qualquer indivíduo que adentrasse o escritório do Ministro. Com as informações básicas anotadas, Malfoy se juntou a seus colegas nas poltronas.

Minutos depois, Oliver Campbell saiu da sala enfurecido. É, pelo meu vasto conhecimento do Sr. Campbell ali naquele escritório, diria que foi contrariado.

— Acompanhem-me, por favor. – levantei para levá-los até a porta. Os três homens seguiram-me. Bati na porta e perguntei ao Ministro se podia mandar que entrassem. Ao receber sua confirmação, dei a ordem a eles.

— Espero ansiosamente sua confirmação. – sussurrou Scorpius ao passar por mim.

E eu espero não ter que confirmar nada tão cedo.