Nunca Desista de Seus Amigos
1 Nunca Desista de Seus Amigos
Notas iniciais
Eu não tenho certeza de quando isto começou, mas, às vezes no entardecer, o céu fica vermelho rubro. Mais parece uma grande piscina de sangue. Isso me incomoda, eu já tentei achar o motivo, sem sucesso. Que horas são agora? Quando eu olho para o relógio que havia ao meu lado, gelou-me a espinha como de costume nos últimos dias! Era cinco e meia e a qualquer momento isto poderia voltar a acontecer...
A única coisa que eu podia fazer era esperar. Bem que gostaria que isso não acontecesse hoje, pelo menos não antes que eu durma. Aliás, eu me sinto como se não dormisse há dias. Eu estou cansada, eu tenho lutado muito, e às vezes sinto medo de mim mesma.
Apesar disto tudo, eu estou feliz hoje, pois o dia foi ensolarado e eu brinquei muito na escola com minhas melhores amigas Sweetie Belle e Scootaloo. Foi perfeito, escrevemos para o jornal da escola e dissemos para Chereelee o quanto nós a amávamos. Sweetie Belle escreveu um poema e cantou para mim! Sempre que eu estou triste ou assustada, eu penso nelas. Eu fecho os olhos e lembro-me de tudo isso, é o bastante para destruir qualquer tipo de pesadelo.
Apesar do meu esforço, o pior está começando novamente: o céu já está laranja escuro. Eu sei o que isto significa. Eu preciso correr para baixo de minha cama agora! Eu pressinto que o jardim não é um lugar seguro. Meu coração está batendo rápido e eu preciso ser mais rápida!
“Applejack, Applejack! Onde está você? Applejack?” Eu gritava alto enquanto corria o mais rápido que podia. Mas ninguém respondeu. Eu não sei o porquê dela não me responder. Nunca mais respondeu. Enfim, mas agora estou finalmente estou embaixo de minha cama, mesmo me sentindo muito sozinha... Eu ficarei aqui até amanhã...
“Apple Bloom, Apple Bloom!” Eu acordei com uma voz agradável me chamando. “O que você está fazendo aí? Venha, o café da manhã está pronto.” Eu a ouvi falando, mas não reconheci a voz. “Apple Bloom, você está atrasada para a escola!”.Estas palavras deixam-me mais feliz. Eu saí de debaixo da cama. Tudo parece normal. Pela janela posso ver o sol novamente. Às vezes, tenho a impressão de estar ficando louca. “Oi, eu vou tomar café e ir para a escola!” Falei alto, mas mais uma vez eu estava sozinha, mas a vida continua...
Então eu saí de casa. É muito diferente do que eu vi ontem à tarde. Isso não tem importa agora, pois em breve, verei minhas amigas. Pus-me a caminhar. Esse é o trajeto que eu faço de costume, só que desta vez, sem Applejack. Eu simplesmente não achei ninguém em casa. Evito olhar essas macieiras que não me deixam esquecer de minha irmã. Não sei se ela não está comigo ou se está em cada uma destas macieiras. Veja o chão! As pegadas dela ainda estão aqui no chão! Ai! Arrepia-me pensar porque ela não estar aqui!
É melhor eu apressar o passo. Enquanto eu estiver na escola, estará tudo bem. Minhas amigas estão do meu lado, isso que importa...
“Eu acho que ficamos além do horário de aula!” Disse Sweetie Belle, aparentemente extasiada. “Estamos somente nós aqui!” juntou seus cascos da frente, ficando apoiada nas patas de trás.
“É mesmo, todos se foram, não avisaram, veja! o sol, é possível ver apenas a metade no horizonte...”
“Nossa, Apple Bloom, sinto que você ficou preocupada e triste ao falar isto...”
Eu conseguia apenas pensar nas tardes em que eu estava aprisionada. Sozinha e louca. Louca, porque ninguém acreditava em mim.
“Veja o que eu tenho aqui!” Sweetie Belle pegou sua mochila com sua magia que levava nas costas. Ela tirou algo de dentro devagar, como se escondesse de qualquer um que pudesse ter restado na escola. “Uma garrafa de cidra.” Cochichou “Quer um pouco? Um pouco não faz mal a ninguém. Que cara é esta de tristeza? Não chore, isso vai te alegrar, experimente!”
Obviamente só havia uma pontinha de sol exposto e céu já estava para fechar. Tinha que ser rápida, não sei o que poderia acontecer tão longe de minha cama.
“Muito bom, Apple Bloom. Ainda está triste, tome mais!”
Eu já havia bebido quase meia vasilha. “Você não vai tomar?”
“Esta cidra é toda sua. Tem mais onde achei esta.”
Não importava, eu precisava ir. “Estou com pressa, vou para casa!” Virei-me e comecei a correr quando vejo Sweetie Belle do meu lado e grita “Eu vou com você!”. Até assustei-me, mas era melhor assim.
Após um pequeno tempo de corrida, passamos pela praça central e eu estava ofegante. Parei um pouco. “Cansei!”. Minha cabeça pesava um pouco, estava desnorteada.
“Você já reparou que Ponyville está tão silenciosa? Ninguém pelas ruas...”
“Apple Bloom, você está vendo coisas, não há nada de errado. Está como sempre. Sente-se mal?”
“Só sei que estou me segurando em vocês, minhas amigas. Você é minha amiga? Suportaria se eu enlouquecesse?” Estava cabisbaixa esperando uma resposta confortante. Alguns longos segundos se passaram então a procurei com meu olhar. Eu vi Sweetie Belle afastando-se de mim. “Sweetie Belle...” gritei “Acabei de dizer que preciso de você... Você não me ouve? Sweetie!!”
Seus passos são bem calmos, como se quisessem causar-me desesperos mesmo. Mas Sweetie Belle nunca faria isso comigo!
“Tudo bem, você pediu. Agora quem está de costas sou eu.” Falei para ela e fiz isso só pra chateá-la. Parece que não deu certo... ela não falou mais nada! Quando olho para trás confesso que me assustei, ela estava em direção ao mastro central da praça, mas estava com a cabeça virada em minha direção com um sorriso nada legal na face. Seus olhos não me inspiram confiança e me dizem que ela não acredita mais em mim...
Meu coração bateu mais forte um pouco sim por causa disto. Tudo está muito estranho, o silêncio, o céu insiste em me perturbar e agora Sweetie Belle estranha... Será que a fiz algum mal? De todo jeito é melhor pedir desculpas...
“BRUUUM” O estrondo de um trovão me arrepiou até por dentro interrompendo meus pensamentos. As luzes daqui apagaram todas, ficou bem escuro o ambiente, deixando a impressão do céu estar mais claro e o contorno das silhuetas das árvores, principalmente as secas, mais evidente. Uma ventania de chuva começou a chacoalhar minha crina loucamente. Já passou da hora de terminar com essa birra e voltarmos para casa.
“Swee....” na hora em que me viro, novamente um estardalhante trovão atingiu o mastro da praça. O que eu vi no contraste do clarão fez meu coração literalmente parar por segundos, deixando-me com a impressão que ia morrer. Não posso acreditar! Eu queria mesmo é acordar na minha cama quentinha. Não pude acreditar, as lágrimas começam a cair e chorei copiosamente. Sweetie Belle, não sei como foi, mas ela estava lá, no alto do mastro, pendurada pelo pescoço, mas seu corpo ainda intacto. Não percebi detalhes, pois a claridade me ofuscou, também não tive coragem e virar novamente. Galopei o mais rápido possível para casa, chorando.
Não tive coragem de olhar para o lado durante meu trajeto. Aquelas silhuetas das macieiras naquele céu alaranjado o fundo pareciam querer me atacar. De certo modo, sinto-me culpada por isso. Amanhã será um novo normal lindo dia.
—x-
O sol raiou como eu queria! Que bom te ver de volta. O trajeto até a escola é melhor contigo! Ainda que seja minha única companhia nesta caminhada. Ilumine estas flores que rodeiam esta estrada, que foi minha irmã que plantou. Que sejam infinitas!
Cheguei na escola e já avistei Scootaloo e corri ao seu encontro. “Olá Scootalo!” Olhei à minha volta, engoli a seco “Onde está Sweetie Belle?“
“Ela não vem hoje.” Perguntei o porquê. “Ela não quis.”
“Você sabe o que aconteceu?”
“Bom, ontem ela me disse que se cansou de algumas coisas, como... bom ela não me disse.” Abaixou a cabeça. Parecia querer chorar. “Mas eu não.” continuou “Nunca desistirei... de minhas amigas.”
Fiquei pensativa naquilo o dia todo. Eu devia ter voltado ontem à noite ao invés de correr? Será que era esta a solução? Tão simples, tão perturbadora? Fiquei olhando pela janela... o tempo passa, tudo acaba...
Todos os alunos já haviam se despedido e ido para suas casas. “Até amanhã Scootaloo!” Ela me respondeu até amanhã também.
Desta vez consegui chegar em casa antes do sol se pôr. O dia está rendeu bastante. Foi um dia divertido, apesar da falta que Sweetie Belle fez. O dia está bem comprido. Foi um dia proveitoso, cheguei em casa rápido, mesmo tendo pego o caminho mais comprido, o que não passa pela praça central.
Vou dormir agora mesmo, antes de acabar a tarde, assim evito meu sofrimento. Esta coisa de céu vermelho traz-me mau agouro, más notícias.
Aconcheguei-me como de costume e o cansaço trouxe-me o sono.
“Apple Bloom, Apple Bloom!” Acordei com um grito sussurrado, como se estivesse sendo direcionado a mim e a ninguém mais. Quem poderia ser?
Notei que chovia, pus a cabeça para fora de debaixo da cama entre o lençol que caia pela lateral da cama. Notei o céu vermelho, havia nuvens escuras com bordas clareadas por alguma fonte de luz celeste. O céu literalmente desabava.
Como num passe de mágica, repentinamente Scootaloo debruçou-se sob a janela de meu quarto. Pude vê-la com o canto de meu olho, não tinha muita coragem para encará-la naquele momento. Ela fazia um movimento incessante com a pata para que eu me aproximasse dela e daquele ambiente hostil. Que ela viria fazer a esta hora em minha janela? Fiquei olhando para ela, e então me encarou. Ela tinha lágrimas escorrendo pelo rosto... poderia ser chuva também. Levantei-me fui até a janela. Havia água por toda parte, na verdade, era algo da cor das nuvens, não sei identificar ao certo pela sua cor escurecida. Só sei que aquilo já estava quase a transbordar e entrar em meu quarto. E Scootaloo não dizia uma palavra, estava ali, em minha frente parada, imutável, debruçada. Seus olhos, perdidos, tremiam e olhava fixamente para mim. Parecia querer confessar algo. Eu já sem forças e, no fim, a correnteza foi mais forte que nós duas e ela foi levada com a chuva para longe como um barco desvairado, numa despedida quase romântica.
—x-
Fui à escola no dia seguinte. O sol costumeiro não me acompanhava. Durante o caminho fui pisoteando as flores de Applejack. Certamente eu não tinha mais o mesmo entusiasmo de antes. Não desejava mais ligações com o passado.
Muito estranho quando cheguei. Não havia ninguém lá. As janelas estavam fechadas com madeiras pregadas. A porta estava entreaberta. De fato, estava convidativa a entrar. Ainda olhei ao redor para constatar-me da solidão.
O silêncio era grande, apenas o vento o quebrava, chacoalhando as flores do jardim. O tempo estava cada vez mais nublado, o céu parecia enegrecer à medida que me aproximava da escola. Fiz o caminho até a entrada e espiei. Estava escuro, mas sem medo entrei e cheguei até minha carteira. Tudo estava como sempre, se não estivesse com aparecia de abandonado. Sentei como se fosse ter aula. Olhei para a lousa onde ainda era possível ver a última aula, onde ela sequer tinha apagado uma linha. Era como tudo tivesse suspenso no tempo, eu chegaria até a dizer que era sábado ou algum feriado bobo. Algo me dizia para ir até as janelas e quebrar aquelas fechaduras. Ao me levantar notei algo cunhado no tampo da mesa de Cheerilee. Aproximei e tentei ler através de um fio de luz comprido e pálido que entrava pela porta. “Não adianta, ela não nos ouve mais” estava escrito.
Meus pensamentos foram interrompidos pela sombra de um pônei projetada na lousa que me hipnotizou. Ainda assim, não senti nada, nem medo nem esperança. Pra dizer a verdade, já estava me acostumando com a solidão a ponto de dizer que a preferia.
Ainda contemplando aquela sombra e desejando que ela se fosse, percebo ela se aproximar sem nenhuma palavra. Nesse momento viro repentinamente e vejo que é a professora. Acalmo-me um pouco por tê-la por perto. Foi um momento diferente, pois não foi preciso nem que ela nem eu precisássemos falar, nossos gestos combinaram perfeitamente. Ela aproximou-se de mim e eu então me levantei nas patas traseiras e abri meus braços. Abraçamos-nos. Fechei meus olhos e pude ver a Equestria que sempre conheci, com o sol raiando, cheia de pôneis, meus amigos... era o que eu precisava, um abraço, parecia finalmente que tudo estava ficando bem.
Após um curto tempo, abri meus olhos e pude ver alguns raios de sol. Fiquei muito feliz, finalmente a escuridão parecia partir. Eu só queria que tudo voltasse ao normal, meus amigos, minha família e minha rotina. Eu puxei o ar e na hora em que fui dizer algumas palavras disso para ela, ela simplesmente me abraçou mais forte e pediu silêncio com um movimento de seus lábios.
“Desculpe-me Apple Bloom. Eu lamento por você ser tão jovem e ter esse destino tão ruim. Você não merece, mas neste momento é o melhor a fazer, pois você menos merece viver pelo resto de sua vida nesta prisão”. Ela falou isso baixinho ao pé do meu ouvido que me arrepiou. Não entendi estas palavras, mas os professores sempre têm razão. Ela me abraçou mais forte. “Eu levarei sua voz comigo nos meus pensamentos”.
O abraço já não era tão confortável. Estava demorando e estava forte. Fechei meus olhos mais um pouco. Meus pensamentos agora estavam confusos, de certo modo queria me livrar do abraço. Tive a sensação de que não estávamos sozinhas. Abri meus olhos, mas tudo estava um tanto embaçado e rodopiando. Assustei-me bastante. Fiz força para afastar-me um pouco de Cheerilee e pegar um fôlego, mas estava sem força, era tarde, não consigo me mexer! E ela não se afasta!
Já estava quase desmaiada quando a professora afrouxou seus braços, mas ainda mantinha um abraço. Foi nesse momento que senti algo escorrendo pela minha cintura. Pus a mão, quente, vermelho escuro, sangue de meu coração, nós tínhamos certeza. “Sinto muito, eu sei eu seu coração é jovem” ouvi como um sussurro me arrepiando. Nesta hora já não tinha mais como ficar me perguntando o porquê das coisas, somente consegui olhar para ela. Eu estava deitada e ela em suas quatro patas bem diante de mim. Só tinha olhos pra ela. Estava muito escuro e não pude ver nada a nossa volta, somente seu rosto sem expressão, mas com uma lágrima escorrendo. Ainda quis juntar forças e indagar algo, mas deixei para lá e fechei meus olhos, antes mesmo que uma de suas lágrimas falsas caísse em mim.
Não lembro mais nada a partir daí até acordar em um quarto de hospital.
Na verdade eu não sei se acordei. Não sei se existo. Parece que os pôneis não me veem, não conversam comigo. Ignoram-me. Não ligo, afinal nunca mais andei tendo aqueles sonhos esquisitos. Também não tenho vontade de assistir mais as aulas de Cheerilee depois de tudo isso. Espere! Cheerilee... certamente ela sabe o que aconteceu.
Era de noite quando eu fui ver Cheerilee, era urgente. Cheguei em sua casa e toquei a campainha algumas vezes, mas nada. Verifiquei a porta e estava aberta! Entrei, afinal já nos conhecemos muito bem. Estava tudo apagado, chamei-a, mas não veio. Talvez esteja dormindo, já é tarde. Seu quarto era no andar de cima, subi as escadas, estava tudo muito calmo. Eu morreria de medo dormir sozinha assim com tanta assombração por aí. Olhei pela fechadura. Bom isso é feio, mas tenho que saber o que aconteceu agora mesmo. Ela estava na cama, coberta, acordada e parecia meio assustada.
Bati na porta e nada. Ela esta lá, porque não abre? Espiei novamente e ela estava sentada agora. Será que não me ouviu? Resolvi abrir a porta de vagar.
“Oi Cheerilee!”. Ela deu um pulo, deitou e se cobriu.
“A... Apple... Bloom? É você?” Ela falou de debaixo do cobertor.
“Sim!” falei feliz para acalmá-la.
Ela tirou apenas o focinho e os olhos para fora. Estava chorando.
“Eles... disseram... desculpe não foi minha culpa, me perdoe!”
“Ãh? Eles? Eu preciso de ajuda, professora. Não entendo o que está acontecendo, por favor me explique!”
“Eu também não entendo Apple Bloom. Depois que você e sua família sofreram o acidente... Bom, até os médicos comunicarem que você não voltaria mais. Então Sweetie Belle, Scootaloo e eu nos despedimos de você e você... bem virou estrela. Ou era isso que deveria ter acontecido. Eu fiquei com você até os últimos minutos! Eu juro. Mas... agora... você está aqui. Eu ainda te amo.”
As palavras dela me convenceram. Ela falou com sinceridade. Refleti um pouco.
“Cheerilee, pode dormir aqui neste tapete esta noite? Só esta noite?”
“Pode sim, querida.”
Ela já não estava assustada.
“Amanhã, antes de você acordar vou procurar meus familiares.” Falei me ajeitando. Fez-se um silêncio. “Cheerilee...” Chamei.
“Sim...” Falou baixinho.
“Nunca desista de seus amigos... quando eles ficarem perdidos e sem esperança... compartilhe a sua a eles.” Ela não disse nada, ficava somente olhando para mim assustada, mas ainda pude ver em seu rosto que entendeu tudo. Era como dissesse “Essa foi uma das melhores lições que tive”
RDKsi
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