Nunca Confie
1 Cápitulo Único - Confiando
Notas iniciais
Sentado em sua sala arrumada tão delicadamente e simetricamente, sentado em sua poltrona de veludo vinho, fumando seu cachimbo favorito, rodeado por paredes de madeira maciça envernizadas com o melhor verniz da cidade, pousando seus pés em um tapete de pele de urso canadense, e exalando a fragrância de um verdadeiro inglês, está ele e somente ele, o homem mais confiado do mundo, porém o menos confiável: Richard Foster Chapman.
Ele é um homem aparentemente sem mistérios, é o último homem em quem alguém botaria a culpa de crimes fatais, ninguém desconfia dele, nem ele mesmo.
Não aprecio que falem muito sobre mim, ninguém me conhece, nem eu mesmo, creio que deveria ter orgulho disso, mas não tenho. Não tenho orgulho da máscara que eu criei, dos sorrisos que abri sem ter vontade de fazê-lo.
_Você quer guardar isso em segredo... – Sussurro contra meu cachimbo, exalando uma fumaça que logo desaparece no ar puro.
Levanto-me da minha poltrona perfeita, andando pela minha sala perfeita, um monstro que se esconde nas grades da perfeição. É tudo que sou. Um poço de falsidades que só se encontra em hobbys desgastantes.
Só de pensar nisso me canso, suspiro.
_A porta estava aberta, pensei que pudesse entrar – Mary entrou na sala, com um sorriso apaixonado no rosto.
Sorri para ela, tirando minhas mãos dos bolsos de minha calça social e tirando o cachimbo da minha boca.
Ela não era especial, nunca foi e eu sabia disso, ela era apenas mais uma, mas tinha algo que me chamava a ela, acho que era a sua fraqueza, o modo que ela chorava na janela do seu quarto, bebendo uma garrafa de vodka sozinha e esperando que morresse rapidamente, foi quando eu a conheci, ela havia acabado de se mudar para ao lado de minha casa por causa de um rompimento.
_Que bom que veio – Falei baixo, mas em um tom que ela pudesse me ouvir, e caminhei até ela, e pus as minhas mãos em seus ombros.
Eu realmente nunca soube se eu era observador demais, ou elas todas que eram tão fáceis de serem compreendidas. Ao completar a minha ação de colocar minhas mãos em seus ombros, Mary soltou um suspiro e olhou diretamente em meus olhos, evidentemente apaixonada. Essa era uma das minhas partes favoritas, mas um das partes que eu mais odiava: Olhar nos olhos dela e não ver sua alma, ou ver a cor dos olhos dela, ou seus cílios desalinhados, era ver a mim mesmo, e ver assim, a minha própria índole, a minha própria alma amargurada e sofredora.
_Eu tenho algo para lhe mostrar, Mary — Levei uma das mãos ao seu pescoço branco, acariciando uma marca de colar ali, provavelmente de seu ex-marido.
Todas as mulheres que conheci e libertei foram de todas as formas dependentes, acredito que elas tiveram sorte de ter alguém como eu perto delas. Sorte porque uma alma sofredora libertada sem pecados cometidos é uma dádiva, um favor que faço.
_Por favor, mostre-me – Ela disse quase como uma súplica, levando uma as duas mãos aos meus braços, me fazendo piscar algumas vezes e segurar a mão dela.
A puxei delicadamente para as escadas, descendo para o sótão com ela. A cada degrau era um rangido, quase como pequenos gritos, suplicando como ela. Eu imagino o que se passa no coração dela, será que ela realmente deposita tanta confiança em mim? Será que ela pensa que dessa vez vai conseguir? Eu tento me colocar no lugar delas, mas nunca consigo. Talvez meu único desejo fosse sentir o que elas sentem, e assim eu poderia ter um pouco de dignidade.
Abri a porta com uma chave que eu trago nos bolsos da calça, e entrei no local escuro com ela.
_Richard, eu não sou muito fã de sótãos escuros – Ela disse, soltando uma risada.
Ah sim, um dos pontos que me atraíram nela era sua ousadia, ela era uma mulher de idade avançada que não perdeu a ousadia de uma garota recém-formada.
_Isso é uma surpresa – Respondi, tentando não parecer ríspido – Feche a porta, por favor. – Falei calmamente e só continuei quando ouvi o baque da porta ao se fechar – Agora quero que me prometa que não irá se arrepender das noites de solidão, dos sorrisos há alguns minutos atrás, e de tudo que fez antes de me conhecer. – Continuei a falar no mesmo ritmo de antes, polidamente e sentindo o mesmo sentimento de tantas outras vezes, a ardência no meu estômago que me atraia a todas elas, aquela ardência que me perseguia nos meus sonhos mais profundos.
_Oh Richard... – Ela segurou minha mão com mais força, sim, era isso que eu queria, era aquela confiança, aquele sentimentos de esperança na humanidade, aquela respiração agitada no escuro. Eu quase a podia a ver, sem ao menos poder enxergar. Eu podia sentir o cheiro de seus hormônios, eu podia sentir a textura áspera de sua mão e seus ossos das mãos frágeis entrando em atrito com os meus. – Eu confio.
Liguei a luz e ela soltou da minha mão, seu rosto se empalideceu e o horror tomou conta de sua face, era o que todas faziam. Ela levou as mãos à boca, mas não gritou se virou para trás, batendo na porta repetidas vezes para só assim, soltar um grito horrorizado.
_Essa era minha surpresa, todas as outras estão aqui, perfeitamente conservadas – Me aproximei daquelas mulheres dilaceradas conservadas em formol, ouvindo os gritos de Mary que faziam uma orquestra nas minhas costas.
Tão inocente, tão pura, tão enganada, não sabia que as paredes eram revestidas assim ninguém poderia ouvir os gritos dela e seu paradeiro e últimas palavras seriam para sempre um mistério, assim como eu e minha casa, mas eu iria desvendar esse mistério como de costume.
Andei em linha reta entre todas elas, observando uma a uma: Sheila, Alice, Megan, Emily, e um espaço vazio, destinada a aquela que agora gritava, chorava e suplicava.
Peguei meu machado que estava em cima da minha mesa de ferramentas de trabalho, e estalei a língua no céu da minha boca.
_Por que não faz isso de modo fácil? Eu lhe prometo que será indolor o que você tanto pedia. – Caminhei um pouco ao centro da sala novamente, a observando desistir de seus movimentos desesperados e olhar comigo como um cachorro sem lar.
Ela sem hesitar se pôs de joelhos na minha frente, abaixando a cabeça e deixando as lágrimas rolarem pela sua face para então caírem no chão.
_Eu gostaria de ter passado mais tempo com o meu filho – Ela soluçava e sussurrava.
_Eu admito, não consigo sentir pena de todas vocês, sempre no fim é que pensam no tempo perdido, nas histórias não escritas e nas palavras não ditas. – Puxei o cabelo dela com força, olhando mais uma vez nos olhos dela, apenas mais uma vez. – Então irás assim, Mary, querida Mary, sob os lamentos de uma mãe ausente, uma confiança errada, você foi enganada. – Soltei seu seu cabelo e ela voltou a baixar a cabeça, fui para o seu lado, segurando firmemente machado, passando o metal gelado e afiado pelo seu pescoço, para então cortar o pescoço da mulher fora. O sangue jorrava como a chuva em uma tempestade, e seu corpo tombou como anjos caindo do céu. Olhei para o chão e vi aquela poça de sangue vivo, refletindo a mim mesmo, eu estava com um sorriso agora, se eu pudesse sentir, estaria me sentindo incrivelmente bem, mas não sinto, apenas sei que meu dever foi cumprido. O cheiro de sangue fazia aquela chama em meu estômago ficar mais forte, e eu seguir os meus instintos, era tão doce...
Direcionei-me até a minha mesa de trabalho, pegando uma faca, uma tesoura, linha e uma agulha, era tudo que eu precisava. Voltei até o meu brinquedo, pegando suas partes separadas e costurando delicadamente, ajoelhado na poça de sangue sem me preocupar em como eu iria retirar as manchas ou em como isso poderia servir de prova se algum investigador desconfiasse de mim, ninguém nunca desconfiava mesmo. Costurei com facilidade aquela pele fina do pescoço de volta ao corpo da mulher. Ela precisava estar perfeita.
Troquei minha ferramenta pela faca afiada, fazendo um corte profundo no centro de seu peito, fundo o bastante para que não perfurasse o coração, enfiei a mão na pequena abertura que eu tinha aberto em seu peito indo em direção ao seu coração, o apertando com força, sentindo as veias e a textura macia e molhada dele, o arrancando do peito dela.
Ter aquele coração em minhas mãos era o que eu queria, ela seria uma das minhas libertadas mais perfeitas, ela simbolizaria as esperanças que as mulheres tem em um novo amor, na felicidade talvez. Fechei o peito dela com a mesma delicadeza que eu havia usado para costurar o seu pescoço, e então, costurei seu coração em cima de seu peito.
Após isso finalizei minha obra de arte, dilacerando suas entranhas, arrancando seu intestino para fazer um cachecol para ela, para só então coloca-la no tubo de formol vazio, especialmente para ela, aquela que confiou, aquela que perdeu seu coração e seu vazio.
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