Nunca Acaba

7 Capítulo 7 - Louca, eu?


No dia seguinte...

C: PREPARADA PRA FESTA? –gritou Carla.

Mary acordou num susto e olhou pro lado e viu Carla de pijama pulando em sua cama.

C: parece que dormiu tarde dorminhoca...

M: que horas são? – Carla caiu sentada na cama e pegou o relógio sobre o criado mudo.

C: dez e meia.

M: nossa! Não sabia que era isso tudo.

C: deu certo?

M: deu certo o que?

C: o plano. Deixamos os dois sozinhos lá e você pelo jeito dormiu bem tarde.

M: bom, nós...deixa eu acordar? – disse passando a mão no rosto.

C: conta logo!

M: ok. Depois que vocês saíram nós nos beijamos. – disse sorridente.

C: sério?

M: ahan. – Carla deu um pulo da cama e se jogou em cima de Mary a abraçando.

C: que bom, agora poderemos sair em casal. Você conseguiu.

M: calma Carla, nós só ficamos. Não sei se vai rolar alguma coisa.

C: mas é claro que vai. O Gerard é um menino sério.

M: e como você sabe?

C: o Gerard já foi noivo, sabia?

M: noivo?

C: é. Eu me lembro que quando comecei a namorar o Frank ele já era noivo e ele amava a garota e vivia falando nela.

M: e onde ela está agora?

C: eu não sei, parece que ela morreu ou sumiu do mapa, alguma coisa do tipo...

M: nossa! Que triste não é?

C: muito triste mesmo. Precisava ver como ele ficou. Ele chegou a fazer tratamento durante um ano. Ele ficou só osso e pele naquela época, não saia, não comia, não recebia ninguém...até que enfim, ele resolveu voltar a viver.

M: ela deve ter significado muito pra ele.

C: é, bastante. Mas agora ele é seu e você está xonadinha por ele e os dois vão ser muito felizes pra sempre.

M: não se precipite.

C: mas é a verdade. – alguém bateu na porta e Carla foi atender. – ah, é você? – disse seca.

J: Mary, posso falar com você?

M: claro.

J: a sós. – disse olhando pra Carla que o olhava com nojo.

M: é que estou de pijama, dá pra esperar eu me trocar?

J: é urgente!

C: tudo bem, eu saio. – se ofereceu ela.

M: mas de pijama?

C: e daí? Nem esquento. Tchau. – disse saindo e fechando a porta do quarto.

M: e então?

J: Mary, eu vou pra casa dos nossos pais.

M: Ah, ótimo. Manda um beijo pra eles por mim.

J: é, mas...você também vai.

M: o que?

J: então, você vai preparando suas malas que eu venho te buscar daqui alguns minutos. A minha mala já está feita. Desculpa não ter te avisado antes, mas eu estava ocupado com exercícios da faculdade.

M: ótimo, eu não vou. – disse cruzando os braços.

J: só pode estar brincando né?

M: não estou brincando Josh. Eu não quero voltar pra casa.

J: e por que não? Prefere ficar aqui no quarto o dia todo do que ir pra sua casa visitar seus pais?

M: vai dar no mesmo eu ter que ir com você ou ficar nesse quarto trancada. Aliás, eu tenho uma festa pra ir.

J: festa? Que festa? Você sabe que não pode sair daqui sem mim.

M: o que você é afinal? Meu segurança? Está me tratando feito um bebê, Josh.

J: não é isso, você precisa de mim.

M: não preciso.

J: Mary, meu bem, você não pode. Você tem problema. Você sabe disso.

M: o que? – perguntou incrédula.

J: você não tem capacidade de agir sozinha, precisa de mim.

M: está me chamando de incapaz?

J: mas é a verdade. Você não lembra de ter ficado internada?

M: eu fiquei em coma Josh!

J: mas e depois que voltou a si? E o que o pai te falou?

M: eu só perdi a memória seu estúpido.

J: sabe que é bem mais que isso.

M: francamente...não achava que ouviria isso de você...se fosse o papai eu ainda entenderia, mas você...? saia do meu quarto. eu não vou e ponto final.

J: Mary...

M: sai daqui Josh!

J: ok, quando o pai aparecer aqui será pior.

M: tchau.

Josh saiu do quarto batendo a porta. Logo após Carla entrou no quarto e encontrou Mary chorando sentada na cama.

C: Mary, o que foi?

M: me deixa quieta, por favor.

C: ta bom. – disse saindo de perto dela.

Mais tarde Mary arrumava as roupas na mala quando Carla chegou no quarto com Frank.

C: o que está fazendo?

M: to indo pra casa passar o final de semana. – respondeu sem olha-la.

C: mas como assim? Você não pode...

F: e a festa?

M: desculpa, mas não vou poder ir.

C: Mary! O que está acontecendo? Mary, olha pra mim. – Mary olhou e estava com os olhos vermelhos de tanto chorar. – Frank pode sair do quarto pra nós conversarmos?

F: vou te esperar lá no pátio.

C: ta.

Frank saiu e Carla se sentou na cama de Mary ao lado da mala que ela preparava.

C: fala, o que foi que aconteceu.

M: não foi nada. – disse enxugando as lágrimas.

C: Mary, eu sei que aconteceu algo. Primeiro aquele troglodita, desculpa, mas ele é, do seu irmão entrou aqui e ouvi gritos e depois ele sai e encontro você aos prantos. É claro que aconteceu alguma coisa. Me fala o que aconteceu?

M: eu vou sair da faculdade.

C: o que?

M: não agüento mais isso.

C: os estudos?

M: não, tudo. Eu não tenho condições de continuar estudando. Não sou capaz...

C: É lógico que você tem capacidade, tira as melhores notas da turma.

M: você não entende...

C: realmente, não entendo.

M: eu tenho problema Carla.

C: problema? É claro que tem. eu também tenho um monte. Mas o que tem isso?

M: não é isso.

C: ta falando da sua falta de memória?

M: não é só isso.

C: o que tem mais? – Mary se sentou na cama e respirou fundo antes de começar a contar.

M: meu pai tentou me esconder, mas um dia eu ouvi quando ele dizia pro meu irmão que o medico disse que eu estava com problemas.

C: mas que problema?

M: de cabeça.

C: o que? — ela começou a rir.

M: não ria.

C: desculpa, mas desde quando?

M: Ele me viu quando eu ouvia a conversa dos dois e me contou. Ele me contou sobre meu passado mesmo sendo proibido, pois os médicos pediram pra que eu lembrasse sozinha, isso se eu me lembrasse...meu pai disse que eu vivia num sanatório quando perdi a memória. Ele disse que eu sempre fui uma pessoa problemática e não podia viver à solta. Sou perigosa Carla.

C: você não é perigosa, Mary.

M: ele não queria que eu estudasse, eu ficava todos os dias dentro de casa feito uma prisioneira. Mas um dia eu pedi pra ele me deixar estudar. Foi minha fuga Carla. Liberdade! Sabe o que é isso? Como eu rezei pra estar aqui e sair de casa. Ele não concordou no começo, mas eu implorei tanto, eu implorei tanto que ele acabou cedendo. Eu fiquei tão feliz quando cheguei aqui. Eu respirei o ar puro novamente, senti o sol na minha pele...só que tudo tinha uma condição, meu irmão teria que vir junto. Ele ficou encarregado de me vigiar dia e noite. Isso é ridículo... – disse rindo. – me tratam como um bebê...por um momento...por um momento eu pensei estar curada. Pensei ter curado minha maluquice. Eu sempre me senti bem e não lembro de nada a respeito dos meus ataques. Me lembro de ter sido sempre uma pessoa saudável...e aqui com vocês me senti como uma pessoa qualquer da minha idade, me senti normal.

C: Mary, essa historia é muito esquisita. Eu sei que seu pai disse isso, mas eu continuo achando tudo muito estranho. Pra mim você é normal e não tem problema nenhum.

M: é, eu também pensei que fosse. Eu achava que não tinha problema. Eu sempre me senti bem, mas foi o médico que disse e meu pai disse que eu vivia num sanatório.

C: o médico falou isso pra você?

M: não. Mas pro meu pai.

C: então cai na real Mary. Estão blefando.

M: o que está querendo dizer? Acha que meu pai mentiria pra mim?

C: com toda certeza do mundo. Você não é louca, não age feito uma. Você é normal. Olha, Você se acha louca?

M: não.

C: então pronto. Isso é o que importa. Eles inventaram isso.

M: mas por que inventariam tal crueldade?

C: isso eu não sei te responder.

M: se eu pudesse lembrar tudo. Lembrar de como perdi minha memória...eu precisava lembrar do meu passado. Saber mesmo se um dia estive naquele lugar.

C: esse é o ponto chave Mary. É alguma coisa a ver com seu passado. Acho que eles querem esconder alguma coisa de você.

M: será? Seria muita maldade se meu pai tivesse me enganando desse jeito.

C: sabe o que você pode fazer? você devia consultar um psicólogo pra ver isso e provar que você não tem nada. Mas sem que eles saibam.

M: é, isso é bom.

C: eu vou com você se quiser.

M: mas meu irmão vai descobrir. Ele está na minha cola agora. E se eu não for hoje com ele, meu pai virá me buscar.

C: isso é chantagem dele.

M: acho melhor eu ir.

C: e deixar de ir na festa que tanto deu duro pra preparar? Deixar de ficar com o Gerard depois da noite maravilhosa que passaram juntos? Acha que é certo isso?

M: mas...

C: você é quem sabe. Ou se dá bem ou faz as vontades do mimadinho nojento do seu irmão. Pensa ta? – disse se levantando e saindo do quarto deixando Mary confusa.