Nunca
1 Oneshot
Notas iniciais
Capítulo Único
“Quando foi que o amor deixou de ser o bastante, Ikki?”
Essa foi a última coisa que Hyoga me disse, antes que eu batesse a porta de nosso apartamento e saísse sem olhar para trás. Eu não queria, ou melhor, não podia vê-lo guardando todas as suas coisas naquelas malas; há sete anos, quando o ajudei a levar aquelas mesmas malas para dentro de nossa casa, não estava em meus planos vê-lo arrumando-as para me deixar.
“Quando eu te vi andava tão desprevenido
Que nem ouvi tocar o alarme de perigo
E você foi me conquistando devagar
Quando notei já não tinha como recuar”
Nossa paixão surgiu sem aviso, tão avassaladora e inevitável quanto os mais terríveis e devastadores fenômenos da natureza. Engraçado como duas pessoas que praticamente cresceram juntas de repente ‘se descobriram’, depois de duas ou três missões em dupla. Hyoga me conquistou assim, de forma inesperada. Aquele russo foi tomando conta dos meus pensamentos, sentimentos e desejos; penetrando aos poucos em minhas defesas, sem que eu sequer notasse. Quando vi, já estava completamente arrebatado por um sentimento incontrolável.
“E foi assim que nos juntamos, distraídos
Que no começo tudo é muito divertido
Mas sempre tinha um amigo pra falar
Que o nosso amor nunca foi feito pra durar.”
Mesmo depois de tanto tempo, lembro exatamente do nosso primeiro beijo. Hyoga queria esperar para atacar, eu não. Eu esbravejei, ele continuou com aquela postura irritantemente indiferente. Ao invés de socar sua face, eu beijei seus lábios. Por fim, nós não atacamos, já que estávamos ocupados demais nos amando num lugar deserto qualquer.
Nosso namoro foi mantido em segredo até onde conseguimos. Quando o fato de que estávamos juntos veio à tona, muitos não acreditaram que duraria. Diversas vezes me disseram que um romance tão quente e contraditório teria uma data de validade curta. Não me importei naquela época, já que a paixão fluía por meus poros de forma natural, tanto que Hyoga se tornou tão essencial para mim quanto o próprio ar que eu respiro. Ele se tornou o ‘meu russo’, ‘meu pato’, e nada nesse mundo seria forte o bastante para nos separar.
“Por mais que eu durmo, eu não descanso
Por mais que corro, eu não te alcanço
Mas não tem jeito, eu não sei como esperar
Desesperar também não vou, não vou deixar você passar
Como água escorrendo nos dedos
Fluindo pra outro lugar.”
Confesso que meu ciúme doentio sempre complicou as coisas, mas não foi o único ponto que nos levou a esse momento, em que não vemos mais como prosseguir com essa relação. Dói, não vou negar. Sinto uma dor lancinante no meu peito, uma dor muito maior do que qualquer outra que já senti. Como terminar um relacionamento em que ainda há tanto amor, tanta paixão?
“Quando foi que o amor deixou de ser o bastante, Ikki?”
Eu ouço sua voz em minha cabeça, enquanto piloto minha moto por uma estrada qualquer, sem me importar onde ela vai dar. Quando é que meu amor por ele deixou de ser o bastante para sustentar nossa relação? Será que foi quando nossos erros se tornaram mais evidentes? Ou, então, quando o sexo tórrido já não era o suficiente para fazer as pazes? Ou até mesmo quando ele me dava sua palavra de que sempre me foi fiel e isso já não me acalmava o coração…
“Ninguém pode negar que o nosso amor é tudo
Tudo que pode acontecer com dois bicudos
Não são tão poucas as arestas pra aparar
Mas é que o meu desejo não deseja se calar”
Por muitas vezes, eu me perguntei se éramos mesmo o melhor um para o outro. Às vezes, cheguei a pensar que eu fazia mal a ele. Mas então, ele vinha até mim e me beijava, me amava com tanta devoção que parecia ser capaz de fazer o tempo parar. Eu me perdia em seu olhar e sabia que não pertencia a nenhum outro lugar. “Fomos feitos um para o outro, até nossas diferenças foram criadas especialmente para temperar nosso amor” era o que eu sempre dizia a ele, que ria e me enchia de beijos ao ouvir isso. Mesmo agora, quando ele já não parece acreditar em minhas palavras, eu ainda creio. Fui feito para estar nos braços dele e estar no lugar ao qual pertenço é tudo o que desejo agora. Mas ele parece tão resolvido…
“Até os erros já parecem ter sentido
Não sei se eu traí primeiro, ou fui traído
Não te pedi uma conduta exemplar
Mas é que a sua ausência é o que me dói no calcanhar.”
Sei que o ofendi. Minha desconfiança foi além do limite dessa vez. Mas quem pode condenar um homem apaixonado que tem medo de perder seu objeto de adoração? Sempre fui desconfiado da relação de meu amor com seu mestre, não nego. Ao vê-lo conversar tão intimamente com Camus, não pude me segurar. Gritei, bati no francês, fiz um escândalo vergonhoso para Hyoga e para mim mesmo. A gota d’água, como meu russo mesmo disse, o último erro de tantos que eu cometi nesses sete anos.
Quando dou por mim, vejo que estou num dos campos de treinamento do santuário. Desço da moto e me sento ali, com os joelhos dobrados e a cabeça baixa. Está tudo deserto, mas não posso me dar ao luxo de permitir que alguém veja o cavaleiro de Fênix chorar. Choro como uma criança amedrontada, cada soluço meu extravasa essa dor que me oprime o peito, as lágrimas dizem o quanto tenho medo de perdê-lo, já que o orgulho mantém as palavras certas presas em minha garganta.
– Ikki?
Ouço alguém me chamar depois de muito tempo, mas não ergo a cabeça.
– Está tudo bem, Fênix?
Agora sei que é Shaka quem está se aproximando de mim.
– Fênix, o que houve com você?
Só depois de muito tempo eu respondo, explicando sem muitos detalhes a razão de meu desespero. Shaka escutou a tudo em silêncio, mas não vi qualquer pesar em seu rosto.
– É o que todos já esperavam, Ikki. Pra dizer a verdade, ninguém imaginava que vocês durariam tanto.
Essa é a resposta que recebo e que aumenta a dor que sinto. Quer dizer que eu sou a única pessoa que acredita em minha relação com Hyoga?
“Quando foi que o amor deixou de ser o bastante, Ikki?”
As palavras do meu pato demonstram que ele também já não crê em nós dois. Eu deveria entregar os pontos, nesse caso?
– Você é forte o bastante para recomeçar sua vida sem ele, Fênix. Talvez, você devesse encontrar alguém menos… Complicado.
Shaka toca minha mão ao dizer isso, seu gesto é acrescido de um sorriso discreto e um olhar significativo.
Eu poderia me deixar levar. Poderia ceder àquele homem e deixar para trás minha história com Hyoga.
“Por mais que eu durma, eu não descanso
Por mais que corra, eu não te alcanço
Mas não tem jeito, eu não sei como esperar
Desesperar também não vou, não vou deixar você passar
Como água escorrendo nos dedos
Fluindo pra outro lugar.”
Sim, eu sou forte o bastante para viver sem o meu Hyoga. Mas a questão aqui é que eu não quero. Eu pertenço àquele russo e mesmo que ele já não me queira, eu o seguirei aonde for. Não vou deixar que o amor da minha vida me escape entre os dedos, eu jamais me perdoaria se o fizesse.
– Desculpe, Shaka. Você é uma ótima pessoa, mas jamais significaria o que o Hyoga significa pra mim. Mesmo que eu tentasse seguir em frente sem o meu loiro, eu nunca amaria alguém sequer um terço do que eu amo o Hyoga. Obrigado pelo apoio, mas eu preciso ir. Tenho que voltar para o lugar de onde eu nunca deveria ter saído.
Subi em minha moto e fui embora, correndo tanto que a paisagem não passava de borrões que eu via através do visor do capacete. Será que aquela altura nosso apartamento já estaria vazio? Teria o meu amor me deixado para sempre?
Minhas mãos trêmulas quase não conseguiram abrir a porta da nossa casa. Inspirei profundamente e entrei, rezando para que ainda o encontrasse ali.
Apesar das malas prontas deixadas ao lado da entrada, eu soube imediatamente que Hyoga não pretendia ir a lugar algum. Meu amor estava sentado no sofá, chorando tanto quanto eu estava há momentos atrás. Quando ergueu a cabeça e me olhou nos olhos, a única coisa que conseguiu foi sussurrar:
– Eu não pude, Ikki.
Ajoelhei-me aos seus pés e recostei minha cabeça em seu colo. Seus dedos acariciando meus cabelos foi o gesto que eu precisava para abandonar o orgulho e liberar o que estava preso em minha garganta:
– Perdão, pato.
“Será sempre será
O nosso amor não morrerá
Depois que eu perdi o meu medo
Não vou mais te deixar.”
– Eu já tenho sua resposta, loiro.
Ele não precisa de mais do que alguns segundos para compreender do que eu estou falando. Acho até que ele também vinha buscando uma resposta para sua própria pergunta. Olhando em meus olhos, Hyoga repete:
– Quando foi que o amor deixou de ser o bastante, Ikki?
– Nunca.
Naquela noite, nos amamos com ainda mais paixão, se é que era possível. Vez ou outra, em meio a juras de amor eterno, repetíamos baixinho: “Nunca”.
FIM
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