Numbers - parte 2
1 Capítulo único
Os dias continuavam na agitação de sempre. Poucas horas de sono, pesquisas em bibliotecas e sites obscuros da Internet, conversas em bares e outros recantos suspeitos, localização dos monstros com os olhos, chantagens, ameaças e torturas. À noite, ele não conseguia se encontrar. Pensava no passado, mas as memórias fugiam como insetos escapando da luz. E logo era manhã outra vez, mas Kurapika não fechara os olhos. Sentia o cansaço como se fosse uma sombra. E a sanidade teria desaparecido no horizonte se não conhecesse Arrietty.
Mas naquela manhã incomum ele apenas fitava o bolo. Bolo de cenoura. Como os que Kurapika costumava comer na infância. Ele suspirou, censurando Arrietty pelo esforço inútil. Provou da calda de chocolate, e o gosto perdeu-se em sua boca. Olhou para a garota, que sorria faceira. Ela sempre gostara de provocar. Sem escolha, o Kuruta aceitou servir-se de uma fatia do mimo após o almoço. Arrietty puxava assunto. Ele meneava a cabeça. Não havia missões para aquela tarde. Era seu dia de folga. E aos poucos a tarde foi caindo, até ela se levantar e dizer que precisava sair.
— Para onde?
— Nada de mais. Apenas fique aqui com sua expressão sisuda.
Sem ela, o gosto era de monotonia. Kurapika buscou livros para ler, mas não encontrou nenhum. Buscou algum programa na televisão, mas todos pareciam desinteressantes. Aconchegou-se no sofá, sentindo as pálpebras pesadas. Ainda não dormira quando ouviu o som. Tateou a mesa de centro, quase derrubando o celular, e fitou a tela com um suspiro também pesado. Os números dançaram diante de seus olhos antes de fazerem sentido.
— Leorio?
— Boa-noite, Kurapika — respondeu o outro. — Está tudo bem?
O Kuruta sentou-se.
— Sim, eu... eu estou bem. E você?
— Ah, estou ótimo.
— Que bom.
— É. Que bom.
Kurapika ficou em silêncio. Não sabia o que dizer. Ele nunca sabia o que dizer perto de Leorio. Mas isso não o incomodava.
— Estou com saudades — disse o mais velho.
— Sim, eu também estou.
— Gostaria de te ver.
De novo o gosto. Não de chocolate. Não de monotonia. Apenas um gosto que ele não sabia definir, mas sempre preenchia sua boca nas noites inquietas.
— Eu também.
— Então... por que não abre a porta?
A reação não veio de imediato. Kurapika processou as palavras, repetindo-a algumas vezes. Como se levasse um choque, correu até a porta e girou a maçaneta. Leorio encerrou a ligação.
— Feliz aniversário, Kura.
E Kurapika beijou-o antes de qualquer resposta, o celular ainda encostado em sua orelha. Quando se afastou, os lábios tremiam de leve.
— O que está fazendo aqui?
— Ora, ora, você me beija e depois manda essa pergunta rude? Eu estava com saudades. É seu aniversário, e eu decidi te ver.
— Mas eu nunca te passei o endereço deste esconderijo. E também não lhe disse nada sobre estar aqui hoje. Como você...? — Ele parou, captando o pensamento no ar. — Arrietty.
Leorio levantou as mãos.
— Ela me convidou para uma festa.
— Curioso. Ela saiu tem uma hora.
— Que indelicadeza.
— Muito indelicado.
Eles trocaram olhares. Kurapika finalmente sorriu.
— Bem, já que está aqui, imagino que vá passar a noite.
— É, eu vim para uma grande festa, afinal.
— Ótimo. Espero que tenha lugar para o bolo.
— Bolo de chocolate?
— Cenoura com calda de chocolate.
Leorio assentiu.
— Parece bom.
Comeram algumas fatias sentados no sofá, assistindo a programas desinteressantes. Leorio contava sobre sua faculdade, e Kurapika ouvia com atenção. Gostava do som da voz dele. Quando já sentiam um pouco de sono, o Kuruta aconchegou-se em seu colo, sentindo o toque da barba em seu rosto. Leorio aproximou os lábios de sua orelha e cantou baixinho:
Happy birthday to you.
Happy birthday to you.
Moveu a mão por sua coxa, até encontrar caminho por dentro de sua calça. O Kuruta já estava excitado, e Leorio quis aproveitar com uma carícia leve. Sentiu o suspiro dele perto de si.
Happy birthday, dear Kurapika.
Happy birthday…
Kurapika virou o rosto, reivindicando um beijo longo. E a música se perdeu em um novo som.
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