Numbers - parte 1
1 Capítulo único
Os dias nunca foram tão agitados. Correr com Kurode pela manhã, dedicar meia hora ao treinamento de nen, correr até o ponto de ônibus segurando o sanduíche na boca e tentar se concentrar na leitura durante o trajeto até a faculdade. Nos corredores, encontrar o sorriso gentil de Aya e os olhos severos de Melina antes de assumir seu lugar para a primeira aula do dia. E ainda havia o estágio, os empréstimos na biblioteca, mais meia hora de treinamento de nen e, putz, Kurode fez xixi no lugar errado de novo!
Leorio não reclamava. Não havia tempo para isso. E sua mãe agora dera para ligar de vez em quando. Ele sempre atendia com a mesma voz um tanto arrastada; um filho rebelde não se cura tão rápido. A irmãzinha perguntava como era ser um Hunter, e ele respondia que era perigoso, muito perigoso, mas a menina desejava muito aprender. A julgar pelo gênio forte, com certeza era da Emissão ou do Reforço. Leorio rezava para que fosse da primeira categoria. Imagina se Alice desenvolve um hatsu poderoso como o de Gon e o usa para bater no irmão mais velho. Seria uma vergonha!
E assim seguia a rotina de Leorio, até que certa manhã, após a corrida, a mãe telefonou para trazer novas palavras. Feliz aniversário. Ele piscou sem entender. Estivera tão atarefado nas últimas semanas que não percebera a data se aproximando. Alice também desejou parabéns e perguntou quando ele voltaria para casa para lhe ensinar a usar a aura. Na faculdade, os amigos fizeram uma festa surpresa. Até mesmo a Doutora Michelle foi agradável com ele. Bom, agradável do jeito dela, pelo menos.
Já passava das dez quando Leorio chegou ao apartamento. Trocou o jornal de Kurode, tomou um banho e comeu macarrão assistindo a um novo episódio de Hiato x Hiato. Preparou o material para as aulas do dia seguinte. Seus olhos pesavam, e o coração também. Apesar de todas as lembranças, Leorio sentia falta. Uma falta que doía e machucava, que talvez não o deixasse dormir. Já havia deitado na cama e repousado os óculos no criado-mudo quando o celular tocou. Com um resmungo, esfregou os olhos e fitou os números na tela. O peso em seu peito tornou-se maior.
— Alô?
Do outro lado da linha, silêncio. Então, uma voz suave começou a cantar:
Happy birthday... to you.
Happy birthday to you.
Happy birthday… dear Leorio…
Happy birthday to you.
Ele esfregou os olhos de novo, fungando de leve.
— Kurapika.
Do outro lado da linha, a voz riu.
— Ainda são onze e cinquenta oito. Tecnicamente, não estou atrasado.
— É. Tecnicamente, você não está.
Ficaram assim, sentindo os minutos irem embora. O cansaço clamava o corpo de Leorio, mas a saudade estava louca para viajar. Ele fechou os olhos, lutando para conter a onda de sentimentos. O White Day estava perto. Tão perto... Faltava tão pouco!
— Eu... preciso ir agora. Tenho um trabalho a fazer. Boa-noite, Leorio. Boa aula amanhã.
— Hoje. Já é meia-noite. Boa-noite, Kurapika. Bom trabalho.
— Eu amo você.
— Eu te amo também.
E o celular caiu sobre o peito agora leve.
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