Numb Eyes
1 Singur
Notas iniciais
Eu conheci uma garota outro dia. Seu nome, Emily, ficou gravado em minha cabeça por dias e dias.
O que a marcou, para mim, não foram os traços delicados, nem os lábios cheios ou os cachos castanhos. Aqueles olhos – castanhos, quase mel – me engolfaram numa prisão da qual eu não podia ou queria sair. Aqueles olhos sugaram minha atenção como dois buracos negros, não devolvendo nada em troca. Pareciam já ter o mundo dentro de si, e ainda assim me puxaram. E ainda que tivessem visto muita coisa, aquelas orbes transmitiam tanta clareza e paz que me deixaram zonzo.
Eu nunca havia visto nada daquilo. Todos os olhos que conseguiam se focar em mim mantinham o mesmo nível de desespero; mesmo que parecessem querer desistir, ainda havia aquela última gota de arrependimento, de vontade de lutar e viver e se dar uma segunda chance, dar outra chance ao mundo. Sempre havia a sensação sufocante de esperança, em mim ou nos olhos alheios.
Mas os olhos de Emily não entregavam nada. Nem medo, resignação ou alívio. Havia uma dormência quase assustadora neles. Havia uma sombra que me fez vomitar em horror ao me lembrar. Porque aquela sombra tinha um tom de euforia quase doentio.
Eu conheci uma garota outro dia. Seu nome, Emily, me causa calafrios até hoje. Ela foi a única que eu já vi partir sem se arrepender.
Porque ela já havia abraçado a morte antes mesmo de se banhar no sangue da família.
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