Num banco traseiro de Cadillac
1 Capítulo único
Notas iniciais
Super aconselho escutarei a música no momento em que elas escutam. É um bônus legal na história. Quem já quiser deixar a música carregando, é Piano Fire do Sparklehorse, que faz parte da trilha sonora do jogo.
Enfim, nos vemos lá embaixo!
Boa leitura.
Num banco traseiro de Cadillac
Um par de horas haviam se passado desde que recebera o convite para uma pequena festa entre amigos. Precisava tirar um tempo para sentar e conversar com outras pessoas e basicamente seguir os padrões da vida normal de um adolescente norte-americano.
Estava se dedicando o tanto quanto imaginava que era necessário. As aulas na Academia BlackWell tornavam-se aos poucos mais rígidas, em seu terceiro ano na instituição. Trabalhos enormes e provas a estavam enlouquecendo.
Maxine Caulfield era consideravelmente quieta para uma pessoa que vivera cinco anos em Seattle e agora, aos vinte anos de idade, achava que estava deixando o tempo escorrer por entre seus dedos. Tinha poucos e bons amigos e uma penca de conhecidos. Conhecidos estes como Justin Williams e Trevor, dois garotos da cidade que ela ainda tinha paciência para conversar. Inclusive achava um deles razoavelmente bonito.
Seu celular vibrou, com uma nova mensagem de Trevor:
“heyyy max. justin disse que vai te buscar logo mais. aguenta aí!”
E havia uma mensagem nova não lida também, de Warren, um de seus melhores amigos. Era um garoto extremamente inteligente e já estava quase se formando aos dezenove anos. Sofria constantemente com os riquinhos esnobes da academia, mas batalhava para alcançar seus objetivos.
“max! fiquei sabendo que vai a festa do trevor. te encontro lá :P”
A garota de cabelos castanhos soltou um suspiro ao ler a mensagem e guardou o telefone. Warren estava demonstrando um suposto interesse romântico em si, mas que para infelicidade dele, não era nem um pouco recíproco. Ele era fofo e simpático, sempre disposto a ajudar ou escutar quando precisava de alguém para conversar, porém Max acreditava que a vida já era confusa por demais sem um namorado.
Oh, Max, a rainha do drama de Arcadia Bay.
Vestiu-se para a então festa: outro jeans gênero e mais uma camisa básica. Um moletom cinza e estava pronta.
Justin logo mandou uma mensagem, avisando que estava no estacionamento do dormitório feminino. A garota guardou seu celular, suas chaves e sua câmera instantânea na bolsa.
Nenhum momento pode ser perdido.
Atravessou o campus e logo avisou o carro preto de vidro fumê e farol alto. O automóvel brincava com a falta de iluminação do ambiente bizarro. Parecia então a cena de algum livro de Stephen King.
“Um carro fantasma”, pensou Max, sorrindo.
— Olha só... Mad Max! Finalmente resolveu se juntar com a gente e chapar uns cabeções?
— Hm... – ela olhou para o pneu sujo de lama e escutou o clique da porta, destravando – talvez não seja pra tanto, Justin.
— Mas a noite é uma criança, Max – Justin riu devagar, balançando a cabeça para os lados – entre. Vamos primeiro passar na casa de outra amiga.
Consideremos. Arcadia Bay era uma cidadezinha extremamente pequena e perdida no meio de Oregon. As chances de as pessoas não se conheceram eram tão pequenas quanto achar alguém que nunca tenha avistado um OVNI em uma zona quente.
— Quem vamos pegar? – Max indagou, ajustando o cinto de segurança.
— Chloe Price. Acredito que já tenha ouvido falar.
Max refletiu um pouco. Conhecia o nome de Chloe pela boca das pessoas e por boatos. Diziam que a filha dos Prince era uma garota rebelde e sem jeito. Fumava, bebia, usava drogas e se envolvia tanto com garotos quanto garotas da cidade. Turistas ou não. Havia boatos que ela também roubava e praticava pequenos furtos e andava armada. Contudo, conhecia sua mãe, Joyce Prince. Simpática atendente de um restaurante próximo à praia de Arcadia Bay. Não era possível uma mulher tão terna como Joyce ter uma filha revoltada como diziam ser Chloe.
Ou era?
— Tem certeza que é uma boa ideia? – a garota perguntou. Estava receosa, mas não iria caminhar para trás.
— Aaah, sim! Chloe é maravilhosa, você vai gostar dela. Ah sim, vai sim... – ele continuou sorrindo, como se estivesse vendo um beck gigante – e Warren estava perguntando por você quando sai de lá.
Justin subiu na calçada de forma abrupta e riu, se desculpando para a garota. Buzinou em frente a uma casa pintada pela metade de azul e logo uma garota apareceu.
Chloe Prince era uma mulher para ser notada.
Era alta, com jeans sujo e rasgado. Botas escuras de couro e uma camisa preta, furada de traça, com simpáticos escritos “fuck you, you fucking, fuck”. Um colar composto com três balas e também tinha uma longa tatuagem no braço direito com um crânio, borboletas e flores coloridas. Ah, e Max não pôde deixar de notar em seus cabelos curtos e extremamente azuis, reluzindo na noite sombria.
— Aonde vai, Chloe? – um homem gritou de dentro da casa.
— Vamos descobrir! – ela gritou em resposta, abrindo a porta do carro e dando de cara com Max. Seu sorriso sumiu aos poucos.
Assim como o de Max.
“Chloe Prince! Como não pude lembrar? Estudamos juntas aos doze anos, pouco antes de me mudar para Seattle!”, revelou a si mesma. Com toda certeza jamais iria reconhecer Chloe de imediato. A garota de doze anos tinha longos cabelos castanhos, nenhum piercing ou tattoo e era extremamente amorosa com seus pais.
Mas estranhamente seus olhos ainda tinham o mesmo brilho travesso.
— Vejam só, o que os ventos do norte nos trouxe de volta! – ela riu – Maxine Caulfield, direto de Seattle.
— Na verdade fui eu... – Justin foi prontamente ignorado.
— Olá Chloe... – Max passou a mão na nuca, sentindo-se nervosa. Sabia que algo extremamente ruim tinha acontecido à Chloe, antes de sua viagem à Seattle. Lembrava-se que Chloe simplesmente não ia mais às aulas – e, por favor, me chame só de Max.
— Como quiser, — a garota de cabelos azuis deu com os ombros – então, vamos? Quero beber até o horizonte sumir.
— Vamos chapar! – Justin acelerou, cantando pneu e deixando possíveis marcas no chão.
Ninguém disse mais nada depois disso. Max passou alguns minutos pensando no que exatamente havia acontecido sete anos atrás, quando deixou Arcadia Bay. Havia um boato rondado a escola, mas não conseguia se lembrar. De fato, pareceu sério a ponto de mudar tudo que Chloe um dia foi. Os pinheiros passavam correndo a janela do automóvel enquanto a garota de cabelos azuis reclamava da demora no banco traseiro.
— Eitaaaa – ele afundou o pé no freio, fazendo Chloe bater o braço com força contra o banco de Max, que olhou para trás com os olhos semicerrados – eu estou esquecendo minha erva em casa! — puxou a ré e fez um breve pedaço do caminho mais uma vez. Saltou do banco quando chegou a sua casa e correu, parando na porta e revirando os próprios bolsos atrás da chave.
— Então, Max, Max – Chloe apareceu entre os bancos, sorrindo e com uma sobrancelha levantada – o que Seattle fez contigo? A transformou em uma hippie moderna?
— Não foi algo muito proveitoso. Realmente prefiro viver em Arcadia Bay. Sentia saudades do tom salgado do ar – Max ponderou, pensando nas vezes que fora à casa de Chloe. Seu quarto ficava no segundo andar e lá elas assistiam Bob Esponja depois da escola.
— Ah claro... Toda a depressão da famosa Arcadia Bay, abandonada por Deus. Vamos lá, Max? Realmente está a fim de ir pra essa festa? – perguntou, acendendo um cigarro, tragando lentamente.
Max reparou bem nas olheiras que Chloe tinha e seus olhos avermelhados de fumaça. Tinha se tornado uma bonita mulher e toda sua aura estava envolta em drama e perigo.
— Precisava sair um pouco. Sinto que estou jogando meus vinte anos fora, presa no meu dormitório, estudando e estudando... Sequer parar para ver um filme eu consigo. Me sinto bastante cansada às vezes, Chloe. Eu queria poder parar o tempo para bater minhas fotografias e... Sei lá, observar galhos secos.
— Olhe só, o mal do século XXI. Estou interessada sobre o que você tem a me contar sobre Seattle, câmeras e hippies que não sabem dançar, Max. Gostava de conversar contigo quando criança. Lembro que achava engraçado seu rabo de cavalo.
Claramente Chloe era mais sentimental que Max.
— Só se você me contar sobre como Chloe Prince virou uma punk e se você quebra muitas guitarras pulando palco – rebateu, a garota de cabelos castanhos sorrindo. Ela abaixou discretamente o vidro da porta do passageiro, para que a fumaça do cigarro Hollywood de Chloe saísse.
— Feito então.
Chloe também era mais impulsiva.
A garota de mechas azuis saltou do banco traseiro para o banco do motorista, ligando o carro e saindo da pista, a pelo menos 70km/h. Inclusive, era possível ouvir os gritos de Justin ao fundo. Ela abaixou o vidro do motorista também, colocando o braço pra fora. Uma mão no volante e outra permitindo o vento fumar o resto de seu cigarro quase apagado.
— Pra onde estamos indo? – Max riu, olhando as luzes da casa de Justin se distanciando do retrovisor.
— Qualquer lugar, Bat-Max. Conversar. Trouxe cigarros e um engradado de cervejas – respondeu cutucando o rádio do carro – está tão silencioso aqui, né não? Vamos por algo pra agitar essa noite tão especial.
Continuou dividindo atenção à estrada e ao rádio, até que conseguiu uma música que parecia ser de seu agrado. Tinha uma guitarra presente e um batidão eletrônico também. O LED apresentava a música como Piano Fire, do Sparklehorse.
Chloe começou a cantar alto, batucando o volante.
— “how do you feel?”.
“como você se sente?”.
— “I can't seem to see through solid marble eyes”.
“eu não consigo ver através de sólidos olhos de mármore”.
— “fiery pianos wash up on a foggy coast”.
“pianos de fogo lavar-se em uma costa de nevoeiro”.
E então Max sentiu-se entorpecida. Algo dentro de si remoia aquele momento e estava contente por estar ao lado da garota mais mal falada de Arcadia Bay. Não mais sentia desconforto. Não sentia medo da possibilidade de Chloe de bater o carro e tudo ir aos ares. Fechou os olhos e deixou-se acompanhar o ritmo da música e o vento gélido do mar batendo em seu rosto.
— Comigo, Super Max!
Finalmente sentiu-se a vontade para também cantar e então ambas as vozes preencheram o automóvel, sobressaindo à voz do cantor.
“how do you feel?”.
“como você se sente?”.
O carro finalmente parou, debaixo de alguns pinheiros, sob um pequeno morro com vista para a cidade e também para o farol, que iluminava a noite. As luzes do carro se apagaram e então elas se tornaram parte do ambiente.
“how do you feel?”.
“como você se sente?”.
“I can't seem to breath with a rusted metal heart”.
“eu não consigo respirar com um coração de metal enferrujado”.
O toque da guitarra sumiu aos poucos e a garota de cabelo azul tirou sua bota e jogou-se no banco traseiro do carro, chamando Max com o dedo.
O som rebelde da guitarra desapareceu do ambiente aos poucos. Chloe tirou suas botas e jogou-se no banco traseiro do carro, ajustando o banco do motorista para frente, a fim de mais espaço para si. Chamou Max com o dedo. Mal era possível se encararem em meio ao breu. A silhueta de Chloe se sentou e sua voz rouca cortou o ambiente.
— Venha, eu não mordo.
— E se eu morder? – Max sugeriu, levantando as sobrancelhas do rosto pouco sardento. Odiava o cheiro de cigarro ou o gosto de cerveja, mas iria entrar no estranho jogo que Prince estava impondo ali.
Deixou sua bolsa em cima do banco do passageiro e com dificuldade, sentou-se no banco traseiro com Chloe. Tirou o tênis para cruzar as pernas e então soube que não fazia ideia do que conversar com alguém que possivelmente não mais ouvia indie. Uma música melancólica tocava agora na rádio de Arcadia Bay.
— Não vai dar problema termos pegado o carro do Justin? – perguntou Max. Na verdade não estava preocupada, sequer ligando para o fato, mas queria quebrar o silêncio imposto.
— Hm... – Chloe estava acendendo mais um cigarro. Era possível ver a luz laranjada dançar no escuro – não pense nisso. Esse é o Cadillac 2000 do pai dele. Pretendo entregá-lo inteiro, você não?
— Eu...
— Além do mais, Justin estava tão chapado que se deixarmos o carro aqui e formos embora, provavelmente ele vai pensar que ele mesmo estacionou aqui. Mas isso não é relevante agora! Há quanto tempo voltou? Por que não me procurou?
Max sentiu seus lábios secos e sua garganta travada.
— Tem três anos já, Chloe.
— Três anos?! E onde estava se escondendo? – aumentou um pouco seu tom de voz, apertando as sobrancelhas. As nuvens haviam dado uma pequena brecha para lua e então era possível ver as feições irritadas e rabugentas de Chloe.
— Estou estudando artes na BlackWell. Moro no dormitório de lá e pouco saio e...
— Então era você? Dois anos e meio atrás ouvi falar de uma nova estudante em BlackWell, que tinha... Como dizem mesmo? Conduta necessária para entrar no Clube Vortex. Fiquei tão enjoada com a ideia de mais uma criatura para compor aquele grupo de babacas, que sequer perguntei o nome da nova estudante. Nossa!
— Hey, eu não tenho ‘conduta necessária’! – Max se defendeu.
— E por que não me procurou em nenhum momento? – Chloe questionou novamente, derrubando as cinzas do cigarro no carpete – sequer pensou nisso né?
— Na verdade sim – respondeu, massageado a própria nuca. Não gostava da ideia de ser questionada – inclusive procurei alguns que estudaram com a gente, na web, mas pouco achei. Achei Mick e... E Dana. Ninguém mais. Talvez seja o destino brincando com nós.
Na verdade, Max não queria dizer na cara de Chloe que tinha esquecido completamente do nome da amiga.
— O destino não tem nada a ver com isso. Tudo está relacionado a nossas escolhas.
Chloe suspirou e reencostou na lataria gelada. Repentinamente se moveu pra frente, ficando com o rosto a poucos centímetros de Max, a fazendo corar. Sua mão buscando apoio no banco, entre as pernas cruzadas da garota de cabelos castanhos.
— Calma, MaxGyver. Só quero o engradado debaixo do banco.
Eram doze latas de cerveja.
Doze latas que possivelmente Chloe iria matar sozinha.
E Max não sabia dirigir.
— Me dê uma – Max exigiu.
— Ho, ho, how! Olha só. Seu pedido é uma ordem, senhorita – Chloe abriu uma lata e passou para Max, que ingeriu um gole e fez careta, enquanto o líquido amargo descia sua garganta. A cerveja estava razoavelmente quente, assim como o ar dentro do carro. Max tinha a ideia que estava entre dois extremos, a ventania gélida do mar do lado de fora do carro e as situações constrangedoras dentro do carro.
Chloe também parecia ser bem quente.
Hã.
— Não sei como consegue gostar disso, Chloe.
— O mundo é mais amargo que cerveja, Max. Quando você percebe isso, a diferença dela pra água é sutil.
— E por que não beber água então? – Max pisca pra Chloe — Shaka Brah.
— Água não te deixa louca, Maximus.
Max ainda estava em sua primeira lata de cerveja, quando Chloe abriu sua quinta. Não parecia o suficiente para sua amiga ficar bêbada, mas ela estava com o sorriso fácil. Lá pela oitava lata, Max tinha desistido de terminar a sua única e Chloe claramente estava, no mínimo, alta.
— Droga, só tenho mais dois cigarros! – resmungou, olhando a carteira vazia.
— Então, Chloe... Sentiu minha falta? – arriscou perguntar. Algo do seu inconsciente queria tocar naquele assunto. Torcia que a garota de cabelos azuis não se lembrasse de nada no dia seguinte.
— Ah, Max... Não é como se fossemos melhores amigas na época – respondeu, soluçando e rindo – mas eu gostava de conversar contigo. Depois que foi embora, houve o acidente. Eu não tinha mais ninguém pra conversar e eu não tinha seu telefone. Senti sua falta sim...
Uma pontada no coração atingiu Max. O pai de Chloe tinha sofrido um acidente! Esse era o grande acontecimento que estava tentando, até então lembrar. Deixara a cidade onde nascera e uma amiga desesperada por perder o pai. Nunca sequer lembrou-se de ligar para Chloe ou mandar uma mensagem. Sentia-se péssima.
— Ah sim, o acidente...
— E agora minha mãe vive com um babaca, um merda que saiu do exército e agora não sabe fazer mais nada da vida, além de me atormentar.
— Sua mãe está namorando?
— Ela casou de novo. Você o deve conhecer... Ele é chefe da segurança de BlackWell. David.
— Sei quem é... – algo dentro de Max batucou com essa informação. Ela tinha a impressão que já sabia disso – não parece má pessoa.
— Isso porque você não mora sob o mesmo teto que ele. Mas chega de falar da minha triste história. O que em Seattle transformou Max Caulfield em uma pequena hippie?
— Nada demais, realmente. Terminei o colegial lá, aprofundei meu amor às câmeras analógicas, aprendi a montar o cubo mágico, tocar violão...
— Ah sim! Havia perguntando se eu quebrava muitas guitarras e não. Eu de fato subo ao palco, mas só toco baixo – a garota de cabelos azuis sorriu, se esticando e deitando no colo de Max – pode parecer chato, mas eu realmente gosto bastante do som.
E mais uma vez a escuridão encobertou Max e seu rosto quente.
Conforme os anos, somente dois garotos haviam demonstrado interesse em si e ela sempre recusara. Proximidade física não era bem seu forte. Não sabia onde colocar as mãos, se podia se mexer quando desconfortável ou...
“Vamos lá, Maxine. Até parece que nunca encostou em alguém na vida”, pensou.
— E depois de tudo isso, pensamos, bem que podíamos ter querosene e álcool para explodir tudo, mas não havia mais tempo. Saímos correndo de lá e... — Chloe sequer notou seu devaneio e continuava a falar e gesticular com os braços – e por isso digo que você tem que soltar a fera que vive dentro de você. Deixar tudo fluir, as coisas caminharem.
— Talvez seja mais difícil que aparenta ser...
— O que?
— Ser livre. Fazer o que der na telha.
— Claro que não! Por exemplo – Chloe se apoiou nos cotovelos, encarando Max – desafio que me beije agora.
Max resetou o corpo milímetros e sentiu sua pupila dilatar.
— Que?
— Isso mesmo que ouviu Max Factor. Tem coragem? É uma escolha que só você pode tomar e ela pode gerar consequências boas ou ruins.
Max sentiu uma pequena pressão na cabeça e piscou diversas vezes. Tinha um estranho sentimento de dejà vu rondando o momento, como se já tivesse vivido tudo aquilo mais de uma vez, em diferentes ocasiões. Engoliu a saliva presa na garganta e ponderou, “por que não?”. Chloe de fato estava ali, com um sorriso travesso e Max era completamente a favor da diversidade sexual no mundo.
Que tal abrir horizontes pra própria sexualidade?
A garota levou ambas as mãos para o rosto de Chloe e aproximou seus rostos devagar, iniciando um beijo tímido. Só uma pressão entre as duas bocas. Com os olhos fechados, viu Chloe se afastando, mas ainda a sentia. Abriu os olhos e ela continuava ali, sorrindo enquanto a beijava. Sentiu a amiga morder levemente seu lábio inferior e correspondeu. Max agora sentia gotas de chuva em seu rosto.
Dejà vu.
Sentiu a textura do cabelo azul em seus dedos quando afundou a mão na nuca de Chloe, que se ajeitou em meio a suas pernas. Uma das mãos de Chloe brincava com sua cintura e a outra derramava gotas de cerveja no banco do carro.
Era possível sentir o gosto do cigarro, o gosto da cerveja e um gosto desconhecido. Max não conseguia identificar se era de fato nostalgia ou prazer.
Ou ambos.
O beijo durou até Chloe se afastar um pouco, rindo.
— Porra Max, você é hardcore! – concluiu, tomando um demorado gole da cerveja. Amassou a lata e jogou em qualquer lugar – mas quero ver o que mais tem pra mim...
— Idiota – Max riu, sentindo a textura da pele da outra enquanto fazia círculos em seus ombros – Chloe, você sentiu algo diferente, tipo... uma espécie de dejà vu?
Porém acreditava também que sua insegurança podia estar falando mais alta. A sensação de Chloe ter se afastado, enquanto de fato ainda estava lá, era tudo coisa da sua mente.
Não era?
— Max, eu estou bêbada. Eu posso sentir o carro rodar como se estivéssemos em um parque de diversões. Não me faça perguntas difíceis, só me beije.
A garota não pôde segurar o riso, com o desespero de Chloe. Sim, queria beijá-la novamente e mais uma vez. Algo dentro de si dizia que aquele momento era o momento certo. Era a situação certa. Max não podia deixar aquilo passar ou acabar.
Admirava a calmaria do vento e do mar. A luz da lua sob as estrelas e nuvens escuras de chuva. O barulho dos pinheiros e arbustos. Max inclusive acreditou ter visto um cervo as observando, mas logo voltou sua atenção para a amiga.
— Mas talvez – Chloe chamou – a gente tenha se beijado numa vida passada. Que acha?
— Hm... – ponderou – talvez. Ou nós nos beijamos em um universo alternativo e eu gostei tanto que estou passeando em todas as realidades possíveis para te beijar de novo e de novo e de novo.
Ambas as garotas riram da ideia e voltaram a sentir uma à outra.
Era um absurdo.
Mas talvez o cervo soubesse que não era um absurdo. Talvez até mesmo o Cadillac 2000 soubesse que não era um absurdo.
Ou um absurdo tão grande assim.
Notas finais
Quem sabe agora não dá certo.
Essa oneshot é mais como teste. Estou pensando em escrever uma longfic sobre, mas preciso saber se o público vai acompanhar!
Enfim, obrigada pela leitura e até uma próxima!
Fale com o autor