Num Ano Qualquer

6 Numa Noite Qualquer I


Notas iniciais
Vráá, dois meses seguidos atualizando, not bad :D Terceira história, em duas partes, dedicada ao Orphelin, o carneiro-beta, o velho (ciumento) dos gatos que me ajuda com as fics já faz 84 anos… Obrigada pelas revisões ♥

Numa Noite Qualquer

Parte I

Regulus saiu da caixa de transporte primeiro. Claro. Como sempre, ele era o mais curioso entre os dois gatos. Atla o seguiu, com sua maneira cautelosa, e ambos se aventuraram no novo ambiente.

Mu entrelaçou o braço no de Aiolia.

— Vamos observá-los.

— Okay… Hey, por que o exagero na preocupação? A gente cercou a casa inteira com aquelas telas. Não dá pra eles caírem das janelas. Não precisa ficar paranoico.

É lógico que não cairiam. Mu se atentara a todos os detalhes possíveis. Não estarem na casa em que cresceram seria estressante o suficiente para eles. Correr outros riscos não ajudaria.

— Prefiro considerar minha conduta prevenida, e você prometeu ao Shion que seria cuidadoso.

— Eu pretendia ser cuidadoso. – Aiolia bufou de leve. – Sério, seu irmão não precisava tentar arrancar a carne dos meus ossos com o olhar.

— Concordo, mas dê um desconto. Ele conviveu com os gatos desde que você me presenteou com eles. Shion me ajudou muito. Era de se imaginar que ele se apegaria aos dois. E, agora, nós os tiramos dele. Não foi à toa que ele reagiu como se o tivéssemos ofendido.

— É incrível. Ele vive reclamando que Reg o deixa exausto e que Atla solta pelos demais…

Mu riu baixinho.

— Shion é capaz de reclamar até sobre o Dohko, e veja há quantos anos estão juntos. Eu, inclusive, poderia pensar em algumas reclamações sobre você…

Por um segundo, Aiolia o encarou boquiaberto. Um assombro infantil brilhava em seus olhos. Ele se recuperou depressa e ergueu o queixo, assumindo um ar de nobreza.

— Você me ama mesmo assim.

— Exato. – Mu estalou um beijo na bochecha dele. – Este é meu ponto. Não tenha dúvidas de que o Shion adora o Atla e o Regulus.

O sentimento, sem dúvidas, era recíproco. Os dois gatos sentiriam falta de conviver com Shion em uma frequência diária.

Por ora, contudo, eles sondavam os cantos da sala. Era como ver duas bolas de pelos – uma branca, a outra amarelada –, percorrendo o tapete, a mesinha de centro, os sofás. Ignoraram apenas o arranhador, o único item ali que conheciam.

Toda vez que Regulus passava por Mu e Aiolia, fazia questão de se esfregar em suas pernas. O objetivo dele seria trocar o cheiro de Lithos pelo próprio? Ele vinha repetindo esse comportamento desde que chegaram na casa de Shion para buscá-los.

Enquanto isso, Atla mantinha-se distante deles, às vezes soltando miados num tom que insinuava que não aprovava a casa nova. Ele alcançou o primeiro degrau da escada e o cheirou. Regulus o imitou. Em seguida, começaram a subir.

— Vá atrás. – Mu se soltou de Aiolia, dando-lhe um tapinha nas costas. – Seus passos não vão distraí-los.

Três anos de namoro e permanecia um mistério como Aiolia conseguia andar de forma tão silenciosa. Ele nem se esforçava, era algo natural.

— Essa é a parte que eu perco o Atla no seu quarto de hospício. Ele vai ficar camuflado naquela brancura toda.

Mu arremessou uma almofada contra ele.

— A única ocasião em que meu quarto pode ser considerado de hospício é quando você, o louco, está dentro dele.

Aiolia apanhou a almofada no ar com facilidade.

— Por outro lado ele vai se destacar de longe no meu quarto.

— Você vai é perder os dois no caos do seu covil.

Um trovão soou tão alto que Atla e Regulus dispararam escada acima. Não era um barulho que costumava incomodá-los, portanto, aquilo não podia ser um bom sinal.

Mu abriu o canto da cortina. O céu escuro pelas nuvens carregadas tornava o início da noite sombrio.

— Melhor eu ir buscar a Lithos na vizinha.

O ideal seria que os gatos tivessem mais tempo para conhecer a casa antes de apresentá-los à nova irmãzinha, porém, Lithos não gostava de tempestades. Além disso, não queria abusar da bondade alheia.

— Eu busco – Aiolia disse, a voz ecoando de um dos quartos.

— Não precisa. Fique aqui com eles.

— Mas é você quem consegue acalmar os dois, se precisar.

Não.

Mu pressionou os lábios. Puxa, por que foi tão enfático? Com certeza tinha despertado a curiosidade de Aiolia.

Com efeito, ele reapareceu na escada.

— Qual o problema, Mu?

Aiolia mantinha uma sobrancelha arqueada e trazia Regulus empoleirado em seus ombros.

— Nenhum. Cadê o Atla?

— Se escondeu embaixo da sua cama. Por que está nervoso? – Aiolia segurou uma patinha de Regulus, fazendo-o apontar na direção do quadril de Mu.

Quê? Mu abaixou a cabeça. Seus dedos torciam a ponta de uma mecha de seus cabelos e nem tinha percebido. Precisava perder essa mania.

— Não é nada. Eu só… Hum, na hora que deixamos a Lithos, tive a impressão de que a vizinha ficou impressionada demais com você. Então, eu vou para–

Whoa, espera aí! Impressionada? A vizinha deve ter a idade da minha avó, qual é?

— A idade…? Não, não a vizinha. A filha dela.

— A vizinha tem filha?

— Você não a viu?

Aiolia deu de ombros. Regulus cravou as garras na camiseta dele, mantendo-se no lugar.

— O Milo tinha acabado de me ligar. Eu fiquei bem pra trás de você, falando com ele. Você não ia gostar se eu falasse no celular na cara da vizinha, né?

— Não, seria rude. – Mu balançou a cabeça. – Não é possível que em nenhum momento você olhou para conferir com quem eu conversava.

— Ué, eu sabia que era a vizinha. Preferi ficar admirando seu traseiro.

Huh, certo, naquilo Mu acreditava. Cruzou os braços atrás das costas e puxou a barra da blusa que vestia para baixo. Foi inútil.

— Entre falar com o Milo e imaginar indecências pra fazer com você, não restou atenção pra gastar com nada. – Aiolia franziu a testa, pestanejou… e arregalou os olhos. – Putz, não faço ideia do que o Milo disse.

— Pervertido.

— Não pode me culpar. A gente está em abstinência. Minha imaginação anda a mil.

— Ehrm… em todo caso, você assumiu errado. Não era a vizinha, era a filha dela. Comentou que chegou de outro país esses dias. Por isso nunca a vimos.

— Ah. E daí? Se é filha da vizinha, deve ter a idade da minha mãe.

— Errou de novo. Ela deve ter a sua idade.

— Hmm… Okay, seu ciúme faz sentido.

— Não estou enciumado. Fiquei perplexo por ela ter te admirado tanto sem nem disfarçar. Chegou a abrir a boca.

Aiolia riu. Não ficou claro se era por causa da sua descrição ou pelo fato de Regulus estar esfregando a cabeça no rosto dele.

— Queria ter visto isso.

— Hum, então você se arrepende de ter ficado me secando em vez de notar a moça?

— Jamais. Toda oportunidade de te secar deve ser aproveitada. Por que não contou essa história no caminho pra casa do Shion?

— Penso que pelo potencial de nos fazer cair em uma de nossas discussões sobre ser minha beleza exótica ou sua beleza atlética que atrai mais atenção.

— A sua beleza exótica, garanto.

— O caso de hoje prova o contrário.

— E se a filha da vizinha estivesse tentando disfarçar o interesse em você?

— Nem você acredita no que está dizendo, Aiolia. Apenas pare de chamá-la de "filha da vizinha". Não consigo me lembrar do nome dela, mas pare antes que você acostume e a chame assim pessoalmente.

— Sem saber o nome complica. Que tal Vizinhazinha?

— …

— Vizinha júnior?

— Bobo. Eu vou buscar a Lithos e descubro.

— Alto lá. Se você não está enciumado, qual o problema em eu ir? Isto é, além da probabilidade de deslocar a mandíbula dela com minha gloriosa aparência.

Mu fechou os olhos, massageando o centro da testa. Leoninos…

— Eu quero ver se ela vai perguntar de você ou algo do tipo. Uma situação são as pessoas estranhas, que dificilmente verei de novo, interessadas você. Outra, é a pessoa que mora ao lado fazendo isso o tempo inteiro.

Talvez ela tivesse esquecido… talvez não visse a hora de flertar com Aiolia.

— Saber o que esperar me permitirá evitar situações desagradáveis.

Quanto menos estresse, melhor para todos.

Mu reabriu os olhos e quase deu um pulo. Aiolia estava bem na sua frente e não o escutara se mover. Respirou fundo. Nunca se acostumaria com aquilo. Um dia desses teria que arrumar um colar com guizo para pôr nele.

Aiolia ergueu seu rosto, virando-o um pouquinho para o lado, fazendo-o encarar Regulus.

— O que você acha, Reg? Está na cara que ele é ciumento, né?

Meow.

— Não é ciúme. – Mu inclinou o pescoço para trás, escapando do toque.

Com a outra mão, Aiolia o segurou com firmeza pela cintura, aprisionando-o no lugar.

— O que foi? Preciso buscar a Lithos.

— Não sem se despedir primeiro.

Justo. Mu acariciou o queixo de Regulus. Ele se esfregou em sua mão, ronronando.

— Awn, até daqui a pouco, sem-vergonha.

Aiolia o soltou.

— Ahá! Eu sabia que era ciú–

Com um impulso, Mu apoiou as mãos no tórax de Aiolia e o beijou. Não obstante, antes que ele pudesse agarrá-lo de novo, Mu o empurrou e se apressou para a porta.

— Comportem-se até eu voltar.

A imagem que levou consigo foi a expressão perplexa de Aiolia.

*

Foi com uma bolinha que Aiolia conseguiu atrair Atla de debaixo da cama de Mu. Entretanto, bastou um novo trovão para que ele se enfiasse na primeira caixa vazia que encontrou em seu quarto. Reg não hesitou em se juntar ao companheiro.

Eles não eram grandes – os gatos dos gêmeos deviam ter o triplo do tamanho deles –, embora não fossem filhotinhos. Resultado: o papelão se deformou para conter os dois.

Aiolia coçou a nuca. De onde saiu aquela caixa? Droga, a organização de ano-novo desaparecera. Mu tinha razão ao dizer que seu quarto era um covil. Precisava dar um jeito ali ou os pestinhas jogariam tudo no chão já sem espaço.

Uma sequência de latidos animados irrompeu da sala.

Atla e Reg se levantaram, orelhas em pé.

Amor? Traz eles aqui.

Nem precisou. Os dois seguiram a balbúrdia por vontade própria.

Sentado no tapete, Mu afagava o focinho de Lithos pela porta da caixa de transporte.

Aiolia parou no lado oposto do tapete, tirou o celular do bolso da calça e se abaixou para ficar na altura dele.

— E aí, a vizinha júnior perguntou por mim?

Mu contraiu os lábios.

— Sim… Mas teve a decência de não parecer desapontada ao atender a porta e se deparar comigo, não com você. Tampouco ficou me enchendo de perguntas depois que eu expliquei que você estava ocupado. Enfim… Ela é educada e gentil, não acredito que será um transtorno.

— Entendi. Educada e gentil. Ela é bonita?

Devagar, Mu ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, lançando a Aiolia um de seus olhares estreitos.

— Nem tente.

— Ahn?

— Me provocar, não vai funcionar.

Que pena. Mu tentando não demonstrar ciúmes era engraçado.

— E o nome dela é Lyfia.

Aiolia assentiu. Em alguns minutos esqueceria aquela informação, mas não importava. O foco ali era a interação entre seus pets. Apontou o celular para os gatos, que iam de mansinho na direção de Lithos.

De dentro da caixa, ela os observava em um silêncio anormal… até Reg inventar de chegar muito perto. Lithos latiu, fazendo-o recuar para o lado de Aiolia.

Reg o encarou como se perguntasse o que é essa coisa?

— Escandalosa, né? Solta ela aí, Mu.

Ele a libertou aos poucos, acariciando as costas dela.

Lithos não deu a mínima. E, como Reg tinha recuado, ela foi direto em Atla.

Deu pra ver que o ar amigável dela, com direito ao rabo sacudindo, não o convenceu. Atla silvou, os pelos arrepiando nas costas arqueadas, e se esquivou para trás, andando de costas.

Ela não se intimidou e teve início um pega-pega estranho, com Atla se movendo de ré, em círculos, e Lithos avançando implacável. Quando ele sibilava, ela parava, latia – abaixando a frente do corpo e empinando o traseiro – e recomeçava a perseguição.

Mu engatinhou para junto dela e a segurou.

Hmmm, Mu engatinhando… A visão só não era perfeita porque não era na sua direçã–

— … lia? Aiolia? Você me ouviu?

— Ehrm… Talvez. Por via das dúvidas, repita.

Outro olhar estreito.

— Atla está ficando estressado.

— Será? Ele ainda não correu pra longe.

Atla miou num tom que parecia alertar ao mundo inteiro que tomasse cuidado.

— Ok, ok. Fique aí andando de um lado para o outro emburrado então. – Aiolia colocou Reg diante de Mu. – Sua vez, parceiro.

Ele se sentou, os olhos vidrados em Lithos. Ela se retorceu nas mãos de Mu e saltou para o tapete.

Diferente de Atla, Reg assumiu um aspecto confuso, evitando o assédio canino com passos curtos para os lados. Até que a confusão chegou em um ponto que ele ficou em pé, feito um suricate, estendeu um braço e deu um tabefe em Lithos.

Aiolia riu tanto que quase derrubou o celular.

— Tadinha – Mu disse –, mas ele fica tão fofo nessa posição.

Apesar de insistir em tentar cheirá-lo, Lithos ficou um pouquinho menos próxima. Reg continuava a postos para novos tapas.

— Caramba, eu imaginava que os dois ficariam revoltados com ela, ou que o Reg teria as piores reações. O Atla é tão tranquilo, em geral.

No entanto, uma cachorrinha que não tinha nem metade do tamanho dele o aborrecera. Justo Atla, que nunca se incomodava em ser escovado, em tomar banho, ou com o aspirador de pó – era Reg quem lutava feito um selvagem incansável contra cada uma dessas coisas.

— Eu também. – Mu analisou Atla, que subira no encosto do sofá e se lambia com furor, assentando os pelos no lugar. – Suponho que o estresse da mudança não ajude. No caso do Regulus, a curiosidade deve ser maior do que qualquer reação hostil que ele pudesse ter.

— Verdade. Se a Lithos parasse quieta, seria ele dando as cheiradas.

Um relâmpago iluminou a janela seguido por um trovão, que estourou tão alto no céu que deu a impressão de que a casa inteira estremeceu. Foi o bastante para que os três pets fugissem em disparada como se o próprio Hades e as hordas do inferno os perseguissem.

— E agora? – Mu se levantou, olhando ao redor com urgência. – Foi cada um para um lado.

Mal dava para ouvi-lo sob o som da chuva que desabou com uma força violenta.

Aí, acabou a energia.

Continua…

Notas finais
Porque tudo fica melhor no escuro, não é mesmo? Não, pera... -q Obrigada pelas reviews: Serenity Elián, Suh Domingues, Orphelin, katsu, PCHolmes, Kiba-Ino e Svanhild ♥ Que tal este capítulo? :D