Num Ano Qualquer
2 Num Ano-Novo Qualquer II
Notas iniciais
Num Ano-Novo Qualquer
Parte II
O som da voz de Mu arrancou Aiolia de seu sono profundo. Ela soava alta, diferente do usual. Seus sonhos desapareceram em um borrão.
— Ele fez o quê?
Com a mente flutuando em neblina, Aiolia afundou o rosto no travesseiro. Quem tinha feito o quê?
— Tem certeza?
Não. Hmm, espera aí. Não parecia que Mu estava falando com ele. Devia estar conversando com uma terceira pessoa. Aqui no quarto? Caramba.
Ou Mu tinha surtado e agora falava sozinho? Caramba!
— Todos eles?
Oh-owh, a entonação de Mu exalava indignação, o que nunca era um bom sinal.
Com movimentos mínimos, Aiolia virou-se na cama e pestanejou. A longa cabeleira de Mu preencheu seu campo de visão. Teria que se erguer para enxergar algo além. Nah, melhor não. Pelo ar gelado e a claridade que invadiam o quarto já era manhã. Que preguiça.
O que Mu fazia acordado tão cedo?
— Você sabe como seu irmão é.
Ah, Mu não tinha enlouquecido. Estava conversando ao telefone com Aiolos. Quê? Por quê?
Após um agradecimento e uma breve despedida, Mu desligou o celular. No mesmo segundo, Aiolia fingiu que ainda dormia.
— Hora de acordar. – Mu o sacudiu com uma suavidade que sugeria que usaria mais força se precisasse.
Aiolia abriu os olhos. Mu o observava com seriedade.
— Bom dia, querido.
Querido? Droga, estava prestes a ser repreendido.
— Lamento acordá-lo. Temos um problema.
— Não fui eu. – Aiolia saiu em sua própria defesa sem nem suspeitar do que se tratava.
— Não, não foi. O que não significa que você não tenha sua parcela de culpa. – Mu afastou o edredom de seu rosto e o analisou com atenção. – Vejo que não acordou de ressaca. Menos mal.
— Eu bebi ontem?
— Com o Milo. E, em algum momento, vocês acharam que seria genial fazer uma festa para celebrar o Ano-Novo. Aqui em casa.
— Por que eu faria isso? – Aiolia se sentou, espreguiçando.
— É o que eu gostaria de saber. Você não só liberou nossa casa como também se esqueceu de perguntar a minha opinião primeiro.
— Ehrm…
— Tudo bem, aceitável, você convidou apenas o Milo e o Camus. O problema é que o Aiolos acabou de me ligar querendo saber sobre essa comemoração. O Aiolos que, até então, não tinha nada a ver com essa história.
— Putz.
— Você disse ao Milo que ele poderia chamar todos os nossos amigos, se quisesse. E, bem, segundo Aiolos, ele quis.
Maldição. Milo sempre botando os dois em encrencas.
— O Aiolos me ligou porque ele é um excelente melhor amigo, que, conhecendo o irmão que tem, estranhou esse convite repentino. Você não imagina o quanto estou grato a ele. Do contrário, eu teria uma surpresa enorme. Está óbvio que você nunca iria se recordar do que aprontou.
Não mesmo.
— Agora que a suposta reunião entre quatro virou uma festa com, no mínimo, dez pessoas, diga-me: como vamos organizá-la?
Aiolia bocejou e recebeu um peteleco na testa.
— Ouch. Foi mal. A gente pode discutir outra hora? Não sei como resolver isso e ainda é tão cedo. Quero dormir.
— E eu quero jogar você pela janela.
A maioria das pessoas usaria um timbre furioso em uma frase dessas. Mu, sendo Mu, dizia isso com toda a serenidade, é claro.
— Certo. – Aiolia esfregou o rosto, afastando a franja dos olhos. – Basta falar pra todo mundo que a gente desistiu, não? Ninguém vai estranhar. Eles conhecem bem o Milo e eu.
— Acontece qu–
— Resolvido. – Aiolia o abraçou e voltou a se deitar, levando-o junto.
Em silêncio, Mu aninhou-se sobre seu corpo e enrolou uma mecha de seu cabelo entre os dedos. Depois outra mecha e outra.
Aiolia entreabriu os olhos.
— Você sabe que não vai conseguir ajeitar meu cabelo assim. O que foi?
— É que você queria essa festa. Ficou bastante animado quando eu concordei.
— Se eu estava bêbado minha animação nem fazia sentido.
— Quem sabe. Como o Aiolos diz, In vino, veritas. Você quer reunir nossos amigos aqui. Eu entendo que desde que estamos morando juntos não tivemos essa oportunidade.
— Espera aí. Está a fim de festejar?
— Não no Réveillon. Podemos fazer no meio de janeiro.
— Se é pra festejar, vamos fazer logo isso. A gente comemora o Ano-Novo e começa o ano se divertindo. Acho que dá.
Mu deslizou os dedos por seu cabelo em movimentos lentos, quase parando.
— Talvez… Talvez seja possível, sim.
A voz de Mu soava baixa e suave. Este, sim, era o timbre normal. Ele falou sobre Ano-Novo não demandar o trabalho de preparar uma superceia… Aiolia piscou com dificuldade, suas pálpebras pesadas… Depois, Mu falou sobre haver pouco a arrumar na casa… que precisariam de louça extra e… Aiolia quis ouvir o raciocínio, mas… a carícia em seus cabelos… seus olhos se fecharam por vontade própria…
— … –vindo? Aiolia?
— Hmm...?
— Você dormiu.
— Impressão sua. – Aiolia reprimiu um bocejo e alcançou o celular na mesinha de cabeceira. – Whoa, já fizeram até um grupo com quem vai vir.
Mu arfou.
— Relaxa. Vamos pedir pra cada um trazer uma coisa. Vai diminuir nosso trabalho.
— Sim, é o jeito, embora eu suspeite que a quantidade de bebidas vá prevalecer sobre a de comidas.
Aiolia deu de ombros.
— C'est la vie, já diria o Camus.
— Como me induz a seus planos duvidosos com tanta facilidade?
— Você adora. – Deu um beijo no topo da cabeça dele. – Sua vida era um tédio antes da minha gloriosa presença, admita.
Mu o fitou com severidade, mas não discordou. Tampouco admitiu.
— Bom, permanecemos tendo muito a fazer. – Ele levantou da cama, acenando para que o acompanhasse.
— Eu ainda quero dormir!
Mu abriu a janela, inundando o quarto com uma brisa gélida e uma luz ofuscante que fez Aiolia cobrir os olhos com as mãos.
— Aff, você não tem coração. Okaay. Posso aguentar o sono se rolar uns amassos. Que tal?
— Quem sabe depois. – Mu teve a ousadia de puxar o edredom, expondo-o ao frio. – Se você levantar agora e fizer tudo direitinho.
*
Mu bufou de leve, apoiando o celular entre o rosto e o ombro.
— Como é que você sempre perde a lista de compras? – Pegou a jaqueta que Aiolia abandonara no sofá e a agitou. – Eu o alertei a tirar uma foto dela por causa disso.
— Esqueci. Estou atordoado de sono porque você me acordou supercedo! Diz o que é pra eu comprar.
Debaixo da jaqueta havia um caderno. Era impressionante a quantidade de objetos que surgiam nos cômodos errados da noite para o dia. Estava complicado arrumar tudo para deixar a casa pronta, visto a dificuldade de Aiolia em fazer as compras sozinho.
— Hmm, são vários itens. Os ingredientes para o vasilopita, romãs e… não vou lembrar todos assim, de súbito. Espere um instante. Daqui uns minutos, eu mando a lista inteira.
— Naah, o que eu vou ficar fazendo aqui no mercado?
— Céus, eu falei minutos. Oh, estão me ligando, comporte-se. – Mu encerrou a ligação, antes que viessem os protestos, e atendeu a nova chamada. – Bom dia, Shion.
Sim, explicou ao irmão, a celebração tinha sido uma das ideias tortas de Aiolia. Sim, organizando certinho, achava que seriam capazes. Não, não precisava de ajuda. Dariam conta sozinhos. Sim, ia ser complicado. Não, não pretendia punir Aiolia pelo transtorno. E como é que estava o Dohko? Os dois viriam no Revéillon?
Nesse ritmo, o assunto se desenrolou. Mu se distraiu tanto que se surpreendeu apoiado contra uma parede em vez de retomar a arrumação da sala. Deu um tapinha na própria testa ao se despedir de Shion. Também não tinha mandado a lista para Aiolia.
Mal precisou procurar para encontrar uma caneta abandonada no chão. Mu aproveitou o caderno para anotar o que era preciso, conforme vasculhava a cozinha para relembrar o que tinha listado da primeira vez.
Não chegou a fotografá-la para enviar a Aiolia. Ele apareceu antes.
— Já? – Mu verificou a duração da conversa com Shion. Quinze minutos. E com certeza não gastara mais do que cinco escrevendo. – Foi tão rápido. O que é que você comprou? Ou deixou de comprar?
— Ué, você não mandava a lista nunca. Eu comprei o que lembrei e umas outras coisas que deram vontade. – Aiolia foi à cozinha e colocou as compras em cima da mesa.
Mu checou os produtos um por um, estreitando os olhos. Ele não tinha trazido quase nada do que era necessário.
— Só se passaram uns vinte minutos. Você não podia ter esperado?
— Se for ver, eu esperei demais até. Tenho a sensação de que fiquei horas lá. – Aiolia ergueu uma caixa e sorriu com uma satisfação evidente. – Cereais coloridos.
O olhar de Mu atravessou a janela da cozinha, perdendo-se no céu frio e cinzento. Em outros lugares do mundo, havia pessoas vivendo em paz. Elas acordavam e adormeciam com a certeza plausível de que não seriam levadas a concordar com alguma proposta festiva sem sentido e propensa ao desastre.
Ele já tinha sido uma pessoa assim.
Soltou um suspiro profundo. Por que desejara tanto viver com aquele impaciente? Hmm… Ah, sim. Estava apaixonado por ele. Queria ter adivinhado que isso significaria ter rompantes de insanidade. Será que conseguiriam celebrar aquele evento sem prejuízos materiais e mentais?
— Certo. – Mu massageou as têmporas. – Vamos voltar ao mercado. Dessa vez, vou com você.
Aiolia parou de desempacotar outras tranqueiras.
— Voltar? Por quê?
— Querido, você não pretende servir cereais no Réveillon, pretende?
Aiolia mordeu o lábio inferior. Seu olhar foi de Mu para a caixa em suas mãos, retornou para Mu e de novo para a caixa.
— Ué, aposto que todo mundo gosta de cereais coloridos. São os melhores.
Com os anos de namoro, Mu vinha desenvolvendo uma espécie de muralha mental contra absurdos. E por mais que ela falhasse às vezes e precisasse ser aprimorada, daquela vez funcionou. Conseguiu ignorar o comentário como se não tivesse nem escutado.
— Se formos rápidos, estaremos de volta ao meio-dia.
Aiolia fez um muxoxo.
— Não posso ficar aqui arrumando enquanto você vai?
— Prefiro não correr o risco de chegar e você ter destruído algo, como costuma acontecer. – Mu pegou a lista e empurrou as costas dele, guiando-o em direção à porta. – Vamos. Cheguei a arrumar uma parte. Quando voltarmos, terminaremos juntos.
Cada um agindo em separado não estava funcionando como tinha planejado. Com ambos fazendo as mesmas atividades seria possível economizarem tempo?
Continua…
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