Havia um silêncio sepulcral e ensurdecedor naquele hospital, quebrado ocasionalmente pelos gemidos de dor ou pelos acessos de tosse de algum paciente. Isso, é claro, se fosse possível chamar aquele local de hospital. A verdade, contudo, era um pouco mais amarga: tratava-se de uma casa de caridade mantida por freiras e que acolhia doentes moribundos, fornecendo-lhes cuidados em seus últimos dias de vida.

Durante o dia, era um lugar movimentado: médicos e enfermeiras voluntários vinham avaliar alguns dos pacientes internados (em sua maioria, indigentes ou pessoas com renda insuficiente para bancar uma internação em um hospital em Paris) enquanto padres vinham oferecer a extrema unção aos mais graves. Em especial, àqueles que, segundo o julgamento das religiosas, não veriam um novo nascer do sol. Mas, à noite, a história era outra. Pouco antes do sol se pôr, o movimento caia: não havia mais médicos, enfermeiras ou padres. Havia apenas os doentes, as freiras, seus lampiões e a morte. Todas as noites, as freiras faziam rondas por entre os leitos, dispostos lado a lado, medicando aqueles que necessitavam, recolhendo penicos e, por vezes, cobrindo os pacientes até o rosto com o lençol antes de chamar alguma colega para retirar o corpo do salão, levando-o sabe Deus para onde.

Nas três noites em que estivera ali, Christian vira isso acontecer dezessete vezes.

Aquela noite era especialmente fria. Em alguns momentos, ele chegou a pensar que, talvez, não fossem as baixas temperaturas do outono, mas sim a morte que se aproximava, cada dia mais perto, conforme respirar passava de um ato involuntário a um trabalho muito custoso e doloroso. Uma dor que apenas aumentava a cada acesso de tosse, fazendo o seu peito vibrar como um trombone e o sangue sujar as suas roupas. De qualquer forma, uma das freiras que passou ao seu lado na ronda noturna o cobriu com mais um cobertor. Talvez (e apenas talvez), estivesse realmente frio do lado de fora.

Era difícil estabelecer um ponto no tempo que determinasse o início de tudo aquilo. Mas, em algum momento, Christian percebeu que algumas roupas já não mais lhe serviam. Quase todas elas, na verdade. Havia perdido muito peso e, no começo, dizia para si mesmo que a causa disso era o seu eterno lamento, que lhe tirava o apetite. Mas, antes que se convencesse disso, ele passou a ter febre. Uma febre alta que vinha com o pôr do sol e o acompanhava em boa parte da noite, imprimindo-lhe calafrios que o fazia tremer. E, por fim, veio a tosse. Uma tosse seca e irritante que, com a cronicidade, fazia o seu peito doer. Uma tosse que, em questão de alguns meses, passou a vir acompanhada de sangue. E, enquanto isso, ele continuava a perder peso.

Não havia mais como negar. Por mais que dissesse para si mesmo que estava bem, ele e todos à sua volta sabiam exatamente o que era aquilo, embora ninguém tivesse coragem de dizer em voz alta. O temível nome apenas foi pronunciado quando, enfraquecido, Christian já não mais conseguia sair da cama e, desolado em ver o amigo naquela forma, Toulousse-Lautrec chamou um médico. Christian ainda se lembrava da última vez que vira seu reflexo, no espelho do banheiro de seu quarto, antes de sair de lá para sempre e ocupar o seu leito na casa de caridade: uma figura pálida e de pele seca, tão emagrecido que as costelas eram visíveis mesmo por debaixo da camisa, que parecia imensamente larga devido à doença. Não era sem motivo que, dentre os vários nomes que tinha, alguns chamava a doença de consumpção.

Era mais do que óbvio o porquê de tudo aquilo ter se iniciado. Tantas horas ao lado dela, naquele trágico amor, não o deixariam seguir em frente sem uma marca. Até então, todos pensavam que essa marca seria apenas a imensa cicatriz gravada em seu coração. Ninguém desconfiava que tudo aquilo, também, havia deixado cicatrizes em seus pulmões.

Christian não era idiota. Ele sabia o que estava por vir. Não precisava pensar muito para deduzir o que havia sido dito por uma das freiras a Toulousse, que, mesmo a uma curta distância, olhou-o com pesar.

— Você está bem, meu amigo? – as palavras do artista precisavam desviar do nó em sua garganta para serem exteriorizadas, quando estava ajoelhado ao lado de seu leito, segurando a sua mão com compaixão e carinho.

Sentindo dores no peito e uma falta de ar absurda à menor tentativa de falar, Christian apenas fizera que sim com a cabeça. Bem, talvez, ele realmente não estivesse. Mas já havia aceitado a sua condição e, principalmente, o seu destino. Havia trilhado um caminho sem volta e, nele, havia apenas um fim. E esse fim estava próximo.

— Você se arrepende...? – Toulousse o questionou, incapaz de completar a frase.

Mas Christian não precisava que ele completasse. Sabia exatamente ao que ele se referia. Era evidente que aquilo tudo era o fruto da proximidade e do amor entre os dois. As horas que passaram juntos haviam sido as mais felizes de sua vida, mesmo que tivessem sido determinantes para encurtá-la. Mesmo assim, havia uma única resposta para a pergunta de Toulousse.

— A coisa... mais importante... que... você pode aprender... é...

— ... é amar e ser amado em retribuição – Toulousse completou, evitando que o amigo eliminasse o pouco ar que ainda conseguia respirar.

Não. Ele não se arrependia. E Toulousse já imaginava isso. Afinal, aquele era o trágico clímax dos ideais que sempre defendera: verdade, beleza, liberdade... amor. Não havia como ser diferente: mais cedo ou mais tarde, toda história de amor tem um final triste. E aquele era o dele.

A despedida foi silenciosa. Sem conseguir se mover devido à falta de ar, Christian sentiu o amigo se debruçar sobre ele e depositar um beijo em sua testa. Havia uma lágrima no rosto do pequeno artista quando ele deu as costas para Christian para sempre. Os dois sabiam que aquele tinha sido o último encontro.

Apesar da coberta a mais que a freira havia estendido sobre seu corpo, o jovem boêmio ainda sentia frio. Um frio que congelava as pontas de seus dedos, nos pés e nas mãos, e fazia seus dentes baterem um contra o outro. E havia a dor. Muita dor. Uma dor imensa que dificultava cada tentativa sua de respirar aquele maldito ar que parecia se recusar a entrar em seus pulmões, como se todo o seu esforço e a sua dor para o inalar de nada adiantassem. Um lento e horrível sufocamento.

Um novo calafrio percorreu o seu corpo de ponta a ponta de sua espinha. Apesar de mal conseguir se mover, Christian sentia alguns músculos de seus braços e pernas se contraindo involuntariamente. Sentia seu coração disparado em seu peito. Enquanto isso, sua visão se tornava turva, embaçada e escurecida nos cantos. Percebendo que o momento havia chegado, uma freira idosa se sentou ao lado de seu leito e segurou a sua mão. Mas ele já não tinha mais a capacidade de sentir absolutamente nada.

Ou, ao menos, era o que ele pensava.

No instante seguinte, tudo passou. Não havia mais dor, não havia mais frio e, principalmente, não havia mais falta de ar. Havia apenas ele, imerso em uma vasta escuridão, e uma luz ofuscante, brilhando no céu acima dele. Uma luz que se aproximava cada vez mais, circulando-o. E, nesse momento, ele percebeu que não estava mais fraco. Estava forte e se sentia mais vivo do que nunca. Tão facilmente quanto antes, Christian se levantou, observando atento e curioso aquela luz tão majestosa.

Foi então que percebeu que não era uma simples luz. Balançando em um trapézio e com a mesma roupa de lantejoulas prateadas e a mesma cartola preta que usava no dia que se conheceram, lá estava ela. Em todo o seu esplendor, em toda a sua glória. Lá estava o anjo por quem se apaixonara, com um hipnotizante sorriso em seu rosto e estendendo a mãos para ele, como se tentasse alcançá-lo. Lá estava ela, o único elemento brilhante em todo aquele vazio, o sol ao qual ele era fielmente devoto.

E, de repente, não havia mais medo. Havia apenas paz.

Sem pensar duas vezes, Christian estendeu a mão para Satine. Os dedos dos dois se tocaram por alguns instantes antes de ela fechar os seus ao redor dos dele. “Haja o que houver”, ele pode ver os lábios da mulher se movendo, mas sem emitir som algum, ao mesmo tempo em que uma lágrima, tão brilhante quanto as lantejoulas que vestia, escorria de seus olhos.

Finalmente juntos, Christian foi puxado para cima.

Notas finais
Olá para todos! Queria agradecer por terem lido e por terem dado uma chance para a fanfic. Muito obrigado pela presença de vocês aqui. Ficarei muito feliz em saber o que acharam nos comentários. Prometo responder todos assim que possível.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!