Nuances de Primavera
1 Como uma Canção
A brisa primaveril suave trazia o aroma de esperança. As flores que renasciam e brotavam após o rigoroso inverno se mostravam belas diante do sol ainda fraco e gélido, e a mistura de aromas naturalmente doces das pétalas remetiam à sensação de paz e tranquilidade.
Os longos cabelos claros voavam com a brisa tranquila porém fresca daquela manhã de início de primavera. O sol ainda despontava no horizonte, e os olhos cor de jade eram serenos e calmos ao observar a natureza como um todo.
Gostaria de registrar o momento, aqueles poucos minutos de sossego e da mais pura paz que raramente tinha, mas sabia que mesmo se tivesse uma câmera fotográfica consigo, não teria coragem de registrar nada. Por que a natureza não parava, não se mantinha igual nem um único segundo, e seria um egoísmo sem tamanho querer guardar algo para si, um momento, uma paisagem, sendo que nem o próprio mundo guardava.
Achava que a natureza era o que havia de mais “constante” no mundo. Uma árvore frutífera não dava frutos duas vezes no mesmo ponto, uma vinheira não produzia duas uvas iguais, um arbusto não trazia flores duas vezes ao ano. A natureza era constantemente inovadora, de maneira tão sutil que passava despercebida pela maioria esmagadora das pessoas.
Mas Lire percebia. Percebia, e sempre notaria as mais leves nuances de alteração que aquilo que mais amava era capaz de lhe mostrar. Lire sempre sorriria para a brisa matutina que soprava em seu rosto e bagunçava suavemente seus cabelos soltos e muitas vezes soltava o lírio tão cuidadosamente preso à eles por si. Sempre suspiraria com o canto delicado dos pássaros pela manhã que acordava seus companheiros. Sempre aspiraria os aromas misturados de uma tarde floral.
Sempre se apaixonaria por qualquer coisa que a natureza viesse a apresenta-la. Por isso, jamais seria capaz de capturar alguma das mudanças de modo egoísta quando não podia exigir nada daquilo que lhe fazia se sentir viva, lhe fazia sentir a si mesma.
Era como uma canção vinda das deusas. E, bem, se tinha algo que Lire era, esse algo era uma canção.
Fale com o autor