Nua
1 Quem sabe então assim....
“Olho a cidade ao redor
E nada me interessa...”
Natalia Galvieri pegou as chaves do seu carro, que outrora estavam jogadas sobre a mesa de um bar, dispôs uma quantia em dinheiro sobre a mesma e saiu apressada, esbarrando nas pessoas que ali estavam, provavelmente para seus encontros causais de sexta-feira à noite.
No entanto, Natália teria uma longa e solitária noite de sexta-feira. E ela percebeu isso quando foi até o seu carro e já não tinha mais um cavalheiro para abrir a porta do banco do carona para ela. E então, a moça se lembrou das últimas palavras de seu cavalheiro para ela: “Não é nada disso que você está pensando...”. Era a mesma desculpa esfarrapada de sempre. A mesma desculpa de todos os homens, que se deitaram com ela apenas por prazer, pela cobiça, pelo se dinheiro, por status.
Natália não queria mais acreditar em nada. Ela perdera a confiança em tudo e em todos.
Sorvendo o ar frio, que também deixavam suas lágrimas gélidas e dramáticas, Natália seguiu pela estrada, sozinha. Por aquela cidade cheia de pessoas hipócritas, repleta de homens mentirosos.
“... Eu finjo ter calma
A solidão me apressa ...”
Perto dali, os funcionários de uma empresa de construção civil comemoravam o fim de mais uma semana. Elizabeth Duarte – ou Lizzie, como gostava de ser chamada pelos seus colegas de trabalho – era a engenheira civil responsável pela obra. Ela estava exausta, a semana fora longa, então não hesitou em tomar seu veículo e, com ele, seguir para o seu apartamento, de onde pediria uma pizza e relaxaria naquele fim de semana que prometia ser o melhor de sua vida.
Lizzie queria paz, apenas.
Mas ela teria mais do que isso. Bem mais.
“... Tantos caminhos sem fim
De onde você não vem
Meu coração na curva
Batendo a mais de cem...”
Eram dois corações solitários, de mulheres que, por algum motivo, estavam sozinhas e infelizes naquela noite de sexta-feira. Enquanto Lizzie seguia atentamente pela avenida, tentando provar para si mesma que era uma mulher bem resolvida e que levaria sua vida sempre como uma loba solitária, Natalia, dirigia, aos prantos, cravando as unhas na borracha do volante, desejando que aquele objeto fosse o rosto do homem que ela acreditara ser o mais perfeito e o melhor para sua vida.
Natalia fez uma curva brusca e, de repente, seu carro se chocou com o de uma mulher: loira, muito magra, cabelos curtos, vestida num terno preto e uma camisa branca por baixo; tratava-se de Lizzie, que acabara de ter seu destino cruzado com o daquela mulher que, chorosa, saiu do carro e desculpou-se infinitamente pelo estrago.
Lizzie viu que Natália chorava muito e não era pela batida. Mas o desespero em consequência daquele acontecimento contribuía para que ela chorasse ainda mais.
— Calma, moça. — Lizzie não gostava de extrapolar suas emoções. Ela amava aquele carro, mas ela sabia que Natalia só deixou que aquilo acontecesse por algum motivo. — Eu posso te ajudar?
— Chama a polícia. — soluçou Natalia — Pelo menos lá eu vou ter um pouco de paz... pra pensar um pouco sobre a vida. Ou sobre a morte.
Lizzie sentia o bafo de álcool que provinha da boca de Natália. Aquilo lhe deu náuseas e lhe deu respostas para as perguntas que ela queria saber. Todavia, sua preocupação era com a avenida, que estava bloqueada pelos dois carros.
Após tudo ser resolvido, Lizzie não teve outra escolha a não ser levar Natália até o seu apartamento. A moça, um pouco tonta por causa dos goles que havia tomado naquele bar, se enfiou no chuveiro daquela estranha e deixou que a água caísse sobre o seu corpo e levasse embora todas as lágrimas e todo aquele lixo psicológico que ela carregava sobre si mesma.
Lizzie dormiu ouvindo a água do chuveiro cair. No banheiro de sua casa, havia uma estranha, mas ela não se importava com aquilo. Queria dormir, estava cansada demais para pensar sobre tudo o que lhe acontecera naquele dia.
“...Eu vou sair nessas horas de confusão
Gritando seu nome entre os carros que vêm e vão...”
Quando a engenheira abriu os olhos, todos os acontecimentos da noite passada passaram por sua cabeça como se fosse um filme. Lembrou-se que deixara Natália tomando banho sozinha em seu banheiro, porém, naquela manhã, já não havia nenhum vestígio daquela mulher em seu apartamento, apenas um bilhete em cima da mesa de cabeceira, que dizia: “Obrigada por toda a compreensão. Natália Galvieri”.
Lizzie olhou atentamente o bilhete e as letras delicadas de Natália. Ela acreditava em destino e ele talvez tivesse um propósito. No entanto, ela não sabia o porquê. Apenas não conseguia tirar a imagem daquela mulher chorosa da sua mente.
E Galvieri talvez fosse um nome fácil de se achar numa lista telefônica.
Elizabeth não tinha um propósito formado em sua mente, mas queria falar de novo com Natália. A noite passada fora um tanto quanto psicótica. Ela queria saber o motivo de tamanha melancolia daquela moça, também queria saber por que não a acordara antes de ir embora.
“...Corro de te esperar
De nunca te esquecer
As estrelas me encontram
Antes de anoitecer...”
Dava para se ouvir a música de Amy Winehouse tocando no último volume quando Lizzie chegou perto da porta da casa de Natalia. Assustada, a engenheira tentou recuar, porém o desejo de falar com aquela estranha moça era mais forte do que tudo.
A música parou. Alguém abriu a porta.
A visão era horrenda: Natália parecia ter entrado mesmo numa depressão instantânea, com a aparência de alguém que não dormia há dias. Não obstante, Lizzie imaginava que aquela depressão instantânea só poderia ser amorosa: uma mulher bonita como Natália só poderia ter muitos pretendentes. E muitas decepções.
— Veio cobrar a dívida do carro? — Natália perguntou, rabugenta, ao perceber que quem estava à porta era a mulher que lhe ajudara na noite passada.
— Não. Eu... vim conversar.
— Como achou meu endereço? — Natália se escorou na lateral da porta e deu uma baforada, expelindo a fumaça de um Black que ela fumava compulsivamente.
— Não estou no clima. — Natália entrou e tentou fechar a porta, mas Lizzie, com sua força, a impediu de fazer tal ato. As duas se olharam como se conhecessem uma a outra há tempos, como se as duas compartilhassem da mesma vida, das mesmas ideias, dos mesmos problemas.
As nuvens encobriram o céu e já não se via nenhuma estrela daquele começo de noite de sábado. Os primeiros respingos que vinham do céu anunciavam que agora era Lizzie quem precisava de um lugar para ficar.
— Entra, vai chover. — Natália amenizou a voz ao ver que Lizzie começava a ficar encharcada e que seria conveniente ajudar aquela que outrora lhe estendera a mão.
“...Já não escondo a pressa
Já me escondi demais...”
Quando Lizzie tirou a roupa, ficando apenas com suas roupas íntimas, Natália lhe emprestou uma toalha. Era estranho ter tanto cuidado com uma desconhecida como ela estava tendo, mas sempre lembrava que ela também lhe estendera a mão.
— Uma moça tão bonita assim não merece sofrer tanto.
— Eu não confio mais nos homens. — disse Natália, mordendo o lábio inferior enquanto preparava um chocolate quente. Lizzie, por sua vez, pôs uma camisa frouxa, masculina, de beisebol.
— Essa camisa era do meu... deixa pra lá.
— Se você quiser eu tiro. — disse Lizzie, pronta para tirar.
— Não! — interrompeu Natália. — É que tipo... você me lembra muito ele.
— E sente saudades do safado? O mesmo que te deixou sofrendo pra ficar com outra?
— Eu não presto para amar os homens.
— E as mulheres? — Lizzie jogou a pergunta.
— Está me cantando?
— Não sei, Natália Galvieri. Arrisque. — Lizzie molhou os lábios.
Natália nunca havia provado o que uma mulher tinha para oferecer. No entanto, o álcool era o tempero perfeito par fazer daquele momento a primeira de talvez várias outras experiências.
O cheiro do ex-namorado de Natália ainda estava estampado na camisa a qual Lizzie vestia e aquilo excitava a garota de um jeito descomunal. E, à medida que as duas se beijavam, Natália enfiava as unhas nas costas de Lizzie por dentro da camisa, deixando sua pele numa cor escarlate.
Ela não sabia se era apenas o desejo, se era instinto, se era cheiro. Apenas continuou, naquele ritmo frenético, até cansarem.
“...Eu vou contar pra todo mundo,
Eu vou pichar sua rua...”
— Sapatona! — Natália berrou, ao acordar e perceber que dormia nua ao lado de outra mulher. Levantou-se da cama e cobriu seus seios com o lençol. Lizzie acordou, seus curtos cabelos estavam assanhados como se ela tivesse passado por um furacão. — Se aproveitou de mim por saber que eu estava bêbada.
— N-não. Eu... eu...
— Vá embora! Já! Por favor, não aparece mais aqui!
Lizzie apanhou suas roupas, que ainda estavam molhadas devido à chuva e, antes de sair, ela disse:
— Você gostou.
“...Vou bater na sua porta de noite
Completamente nua...”
Os dias se passaram. Lizzie voltou à sua rotina de engenheira civil, enquanto Natália ainda chorava à separação. No entanto, Natália contava com a noite que passara com Lizzie e tentava esquecer, mas era difícil. Assim como tentava provar para si mesma que não havia gostado daquela noite.
Mas, também, era difícil.
E após mais uma semana passada, Lizzie pôde cair em seu sofá e se livrar da rotina chata na construção. Gostava de se sentar despojadamente e esticar suas pernas em cima da mesa de centro da sala de estar de seu apartamento. Era uma sensação de liberdade única ter tempo para pensar, refletir.
Já era madrugada quando Lizzie acordou com o barulho da campainha. Percebera que havia acabado de pegar no sono ali mesmo, no sofá. Olhou no relógio do celular: três da manhã. Quem quer que fosse, só poderia ser algo urgente.
Abriu a porta, curiosa, sem olhar no olho mágico. Deparou-se com Natália, trajando um vestido preto, transparente. As alças deslizavam pelos seus ombros a medida que ela as empurrava para baixo com os seus delicados dedos. Em questão de segundos o vestido foi ao chão, exibindo o corpo escultural daquela mulher, nua, como veio ao mundo.
Dando dois passos à frente e empurrando Lizzie para dentro do apartamento, Natália sussurrou:
— Sim. Eu gostei.
Fale com o autor