Nowhere Left To Run
1 Prefácio
Desde o divórcio dos meus pais, quando eu tinha sete anos, eu e minha mãe vivemos como nômades. Da Inglaterra para o Brasil, de São Paulo para o Paraná, do Paraná para o Rio, Rio de Janeiro para Belo Horizonte, Belo Horizonte de volta pra São Paulo, São Paulo para Campinas, Campinas para Santos, Santos para Santo André e de Santo André pra São Paulo novamente. Eu realmente não agüentava mais isso, eu amo minha mãe, mas ela não percebe que isso me faz mal. Todo ano é a mesma coisa, escola nova, garota malvada nova, melhor amiga nova, gostosão novo. É, quando chegou ao final de um segundo ano consecutivo sem mudanças, realmente achei que minha mãe tivesse tomado juízo e decidido ficar na capital mesmo. E eu, errada. Minha mãe estava de rolo com um francês, -ainda tento entender essa queda por europeus que ela tem- agora eles resolveram se casar. Ele quer arrastar minha mãe para a França e ela não hesitou em aceitar. Tentei de todas as maneiras impedir esse casamento (disse até que ele era mafioso), mas ela insiste em dizer que eu sou uma Drama Queen. Acho que herdei isto dela, afinal, ela que me afastou do meu pai, me faz mudar todo santo ano de cidade e tem um inigualável poder de convencimento. Esse poder só não funciona sobre mim, conheço a mãe que eu tenho, ela não desiste de tentar me convencer. Não caio mais nessa, ela disse que eu sou teimosa como meu pai, — eu diria persistente – e que sou cabeça dura. Foram longas três semanas enchendo a paciência e protestando sobre essa mudança. Enfim, eu ganhei, de algum modo, mas ganhei. Vou voltar às minhas raízes. Meu pai é demais, apesar de não vê-lo há quase dez anos, toda semana nos falamos por telefone ou Skype. Ele exigiu que eu fosse morar com ele, eu mal acreditei. Nasci na Inglaterra e os setes anos que lá passei foram quase inexistentes, pois poucas lembranças tenho. A viagem foi cansativa, saí da sala de embarque completamente perdida, foi quando vi aquele ser maravilhoso, com um carrinho para pegar minhas bagagens e uma plaquinha escrito “Giulia Hauer”. Meu pai é simplesmente tudo, me questiono como fiquei tanto tempo sem sua presença. Corri desesperadamente em sua direção, joguei as malas no chão, ele me suspendeu com seus braços e aquele abraço durou uma eternidade.
— Bem vinda de volta Giu. – continuou a me abraçar e deu-me um beijo na bochecha – Você cresceu garotinha.
— E você tá mais bonitão, pai. – sorri, em meio a algumas lágrimas que escaparam de meus olhos.
Ele deu uma risada gostosa, bem escandalosa, mas eu não me importei, a saudade era maior que qualquer outra coisa. Ele me ajudou com as poucas malas que trouxe no vôo, — as outras chegariam uma semana depois – e entramos no carro. É engraçado como aqui o banco do motorista é no lado do banco do passageiro. Papai deu a partida e quando me dei conta já estávamos saindo do estacionamento do aeroporto. Ficamos conversando sobre todo tipo de coisa, numa das brechas de silêncio ele aproveitou e ligou o rádio.
— If you leave me, If you leave me I Would die. – eu cantava com a música, e ele sorria.
—Gosta dessa banda?- ele me perguntou enquanto aguardávamos o sinal abrir.
—Gosto, as músicas são boas. – respondi distraída com minhas unhas- Lá no Brasil, as meninas são loucas por eles.
—E você é?
— Ah, pai. – eu ri – Você sabe que eu amo música, mas não gosto de ser fanática, bem, pelo menos às vezes.
Ele riu e continuamos a conversar sobre qualquer outra coisa. Como aquela cidade é grande, gigante. Depois de trinta minutos, finalmente meu pai estacionou numa calçada. Aquele imenso jardim com grama verdinha, flores diversas e uma árvore linda que ia até a varanda do segundo andar da casa era gigante. A casa, simplesmente perfeita, nunca imaginei morar num lugar tão glamoroso e bonito daquele jeito. O jardim rodeava toda a construção, uma varanda imensa acompanhava o primeiro andar e colunas brancas saudavam a porta de entrada. As janelas eram de persianas brancas que contrastavam com a pintura pastel; e tinha um balanço pendurado à árvore, ele não me era estranho, talvez tivesse feito parte da minha esquecida infância. Não sei. Quando meu pai tirou as malas do carro e ajudou-me a arrastá-las pelo caminho de pedrinhas que encaminhava-nos à porta de entrada, congelei na varanda, e, antes de entrar, respirei cuidadosamente assentindo a mim mesma que minha vida seria perfeita dali para frente. Nova perspectiva adolescente.
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