Cinco. Esse foi o número de horas de sono que Stiles teve na noite anterior. Olhando no espelho, ele podia ver os efeitos da noite mal dormida em seu rosto. Sua pele estava pálida e lá estavam os círculos escuros embaixo de seus olhos. À essa altura, ele estava mais do que acostumado em ver essa imagem no espelho. Talvez ele parecesse um vampiro, ou um zumbi, mas ele não ligava mais. Ele até podia se gabar de não precisar de maquiagem no halloween.

Era o fim da primeira semana de aula, e Stiles estava cansado o suficiente para dormir a semana seguinte inteira. Ele quase riu da ironia da sua própria ironia. Ele mal conseguia dormir uma noite inteira, então dormir por uma semana era tão possível quanto uma chuva de refrigerante.

Stiles pendurou a mochila no ombro e foi para a porta, parando na cozinha para pegar uma maçã. Sua tia já havia ido para o hospital, onde trabalhava como enfermeira, então não havia ninguém para tentar obrigá-lo a tomar um café da manhã decente. Para ele, uma maçã era o suficiente, já que não sentia muita fome de manhã, e Melissa tinha o cuidado de nunca deixar faltá-las.

Stiles foi até seu Jeep azul e dirigiu para a escola numa velocidade baixa, aproveitando a brisa em seu rosto. Quem ligava se ele ia se atrasar para a aula? Ele não, obviamente.

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Lydia deve ter ultrapassado sinais vermelhos suficientes para ter sua licença de motorista confiscada para sempre. Não importava o que ela fazia, ela sempre acabava se atrasando para a aula. Culpa das velhas tradições de verão: ir dormir de madrugada e acordar no meio do dia. E ela ainda tinha que escolher uma roupa, o que podia levar horas.

— Quase lá, quase lá... — ela murmurou para si mesma.

Quando finalmente chegou na escola, ela estacionou e praticamente pulou para fora do carro, apertando o botão para trancá-lo enquanto corria para dentro. Ela ouviu o barulho de uma porta de carro se fechando, mas não se virou. Quando chegou na sala, ofegante, a aula já havia começado. Mr. Banner virou para ela, com um sorriso brincando em seus lábios.

—Srta. Martin, fico feliz que veio, — ele disse.

As bochechas da garota queimaram.

— Sr. Banner, eu sinto muito! Eu... Eu...

O homem levantou uma mão para interrompê-la. Lydia piscou.

— Salve suas palavras, Srta. Martin. Temo que verei seu rostinho bonito mais tarde na detenção.

Ótimo. Absolutamente perfeito, ela pensou. Lydia suspirou e acenou com a cabeça.

— Certo, Sr. Banner.

—O mesmo vai para você, Stilinski. — O homem sorriu para alguém atrás dela.

O corpo todo de Lydia se tencionou. Ela se virou lentamente para olhar o garoto que estava em pé atrás dela. Ainda com as olheiras embaixo dos olhos escuros, os cabelos ainda muito bagunçados. O olhando assim, de perto, ela percebeu que ele era bonito. Muito bonito.

— Obrigado pelo elogio, Sr. Banner — ele disse, sorrindo. — Você também não está tão mal assim.

O rosto do homem virou pedra.

— Sentados, os dois — ele disse através dos dentes cerrados.

Lydia se apressou para sentar atrás de Allison, que a lançava um olhar preocupado. Stiles andou até o fundo da sala lentamente, ciente da falta de paciência do professor e adorando brincar com isso. Ele se sentou e olhou para o homem com um meio sorriso cínico nos lábios, e Lydia jurou que ouviu Sr. Banner rosnar. Ele conseguiu continuar a aula de onde parou, mas ela não estava prestando atenção porque, naquele momento, os olhos do garoto se encontraram com os seus.

Por um momento, Stiles não podia olhar para outro lugar. Mesmo que Sr. Banner começasse a sapatear ele não conseguiria parar de olhar para aqueles olhos verdes. Por que eles não eram nada além de lindos. Perfeitos. Incríveis. Stiles se assustou com a quantidade de elogios de surgiram em sua mente. Merda. Ele balançou a cabeça e olhou para suas mãos na mesa. Mas. Que. Merda.

Quando ele olhou para baixo, Lydia se virou para frente tão rápido que sua cabeça girou. Wow. Ela encarou o quadro sem nada ver, ainda se recuperando da troca de olhares. Aquilo tinha sido tão intendo que a garota até se sentia um pouco tonta.

Allison se virou para ela, franzindo a testa.

— Você está bem? — ela sussurrou.

Lydia olhou para cima e lançou um sorriso fraco a amiga.

— Sim, estou ótima.

Está mesmo?, ela se perguntou.

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Stiles passou o resto do dia evitando-a, o que não era muito difícil, já que eles não tinham nada para conversar. Pensar em ficar uma hora inteira trancado com ela fazia seu corpo ficar tenso. E ele odiava isso. Quem era ela e o que ela havia feito com ele?

Quando o sinal tocou, anunciando o final das aulas, Lydia gemeu e deixou sua cabeça cair na mesa. Enquanto os outros adolescentes saiam, aliviados por finalmente poderem ir para casa, ela pegou sua bolsa e foi para a biblioteca, onde seria sua detenção. Dezenas de desculpas para ir embora cruzaram sua mente. Ela podia fingir um desmaio, ou um ataque psicótico. Infelizmente, ela não era uma atriz muito boa.

Sr. Banner esperava por ela na porta da biblioteca. Sorrindo. Idiota.

— Srta. Martin!

— Oi,- ela respondeu, nem um pouco feliz.

— Por favor, entre,- ele disse, abrindo a porta para ela. — Onde está Stilinski?

Lydia deu de ombros.

— Não sei.

O professor respirou fundo.

— Maldito! — ele sibilou, virando-se e correndo pelo corredor.

Lydia entrou na biblioteca. Ela nunca tinha visto o lugar vazio, e o silêncio o deixava até um pouco sombrio. Ela suspirou e sentou na cadeira e deixou a cabeça cair, como havia feito antes. Depois de um tempo, ela ouviu gritos a distância.

— Tire suas mãos de mim! Você não pode fazer isso! Tenho meus direitos! — Isso certamente era ele. A porta se abriu e Sr. Banner entrou, puxando o tal do Stilinski pelo braço. Ele lutava e fazia ameaças. — Vou chamar a polícia!

— Faça isso, seu pequeno delinquente,- ele disse com aquele sorriso maníaco no rosto. — Vejo vocês em uma hora. Divirtam-se. — E com isso, soltou uma risada e saiu.

— Otário, — ele murmurou.

Ele estava claramente a evitando. Lydia achou uma boa ideia, já que ela estava fazendo o mesmo. Ele sentou-se na mesa mais distante da dela, o que ele também achou uma boa ideia. Distância era bom. Lydia suspirou, abriu sua bolsa e de lá pegou o livro que havia alugado na biblioteca. E que bom que ela estava com ele na bolsa, senão essa seria uma hora no inferno.

Stiles sentou a bunda na cadeira e encarou o teto. Tudo estava bem nos primeiros dez minutos. Depois de vinte minutos, ele começou a se arrepender de aproveitar a brisa no carro. Depois de quarenta minutos ele ja estava começando uma lista de maneiras de se matar numa biblioteca. Ele tinha problemas em ficar quieto, e estar preso era só a cereja no bolo de ansiedade. Stiles deixou a cabeça cair em seus braços dobrados e respirou fundo.

Lydia não podia dizer que estava completamente focada em seu livro. Ela estava mais do que ciente do garoto sentado do outro lado da biblioteca. Sua perna balançava para cima e para baixo tão rápido que quase se tornava um borrão. Ele mantinha a cabeça nos braços e batia o dedão na mesa num ritmo aleatório.

Ele se endireitou da cadeira num movimento tão repentinamente que Lydia deu um pulo e quase derrubou o livro. Ela observou ele pegar uma caixinha e algo que parecia ser um isqueiro do bolso. Espera aí. Aquilo era um isqueiro. Ele pegou um cigarro da caixa o o colocou entre os lábios.

Lydia arquejou.

— O que você está fazendo?

Ele não olhou para ela enquanto acendia o isqueiro.

— O que parece que estou fazendo?

Ela balançou a cabeça e fechou o livro.

— Você não pode fumar aqui, — ela disse com uma voz controlada.

Ele acendeu o cigarro, deu uma longa tragada e, inclinando a cabeça para trás, assoprou a fumaça para o teto.

— Esse é um país livre, — ele disse, ainda não olhando para ela.

Lydia cruzou os braços e respirou fundo, ignorando o cheiro da fumaça.

— Bom, isso- ela gesticou para a grande sala onde estavam. -, é uma biblioteca, e você não pode fumar aqui.

Ele deu outra tragada enquanto andava para a janela.

— Me observe, ruiva.

Lydia sentiu seu rosto queimar de raiva. Aquilo era demais. Ninguém chamava ela de ruiva. Ninguém.

— Escute aqui, seu imbecil. Você quer incendiar a porra dessa biblioteca? Existem maneiras mais rápidas de morrer.

Stiles ergueu as sobrancelhas. Ele tinha que admitir que ela havia o surpreendido. Com aquela saia curta, maquiagem, salto alto e cabelo perfeito, ele nunca a teria como alguém que xingasse assim. Ele também teve que admitir que ela era gata. Bem gata.

Quando ele não disse nada (e provavelmente só a encarou), ela se levantou e andou até ele com uma expressão determinada no rosto. Quando estava perto o suficiente, ela pegou o cigarro dos seus dedos.

— Mas que m... — ele começou a dizer, mas então ela jogou o cigarro pela janela. Stiles ficou lá, paralisado pela atitude da garota. Ela também não se mexeu, o encarando de volta.

— Você não deveria ter feito isso, — ele sibilou.

— E o que você vai fazer? Chamar a polícia? — ela perguntou numa voz baixa.

Stiles semicerrou os olhos, pronto para falar umas palavras más quando a porta abriu atrás deles.

— Tudo bem, podem ir, — eles ouviram Sr. Banner dizer. — E espero que tenham aprendido a... Deus, que cheiro é esse?

Ludia sorriu triunfantemente. Na sua cara, seu idiota. Ele a olhou como se a desafiasse a dedurá-lo. Ela ergueu uma sobrancelha. Ela bem que poderia dizer a Sr. Banner o que havia acontecido durante a detenção, e então o garoto estaria ferrado. A prova estava em seu bolso, ele não poderia sair dessa.

Mas percebeu que não podia.

Ele não disse "por favor", nem mostrou nenhum sinal de preocupação, ou medo. Ele apenas a olhou com aqueles olhos, que Lydia percebeu que eram cor de uísque, e não pretos. Ela não podia fazer isso.

— Estava com esse cheiro quando cheguei, — ela murmurou.

Stiles arregalou os olhos. Ela não o dedurou como ele pensou. Ela na verdade o salvou de um ano de detenção, mesmo depois do jeito que ela falou com ela. A garota o lançou mais um olhar antes de sair.

— Vamos, Stilinski, — disse Sr. Banner. — Ou quer mais uma hora?

— Deus, não, — ele disse e se apressou para pegar a mochila e sair de lá. Ele não queria passar mais nem um minuto naquele inferno disfarçado. Ou perto dela.