Novos Horizontes
1 O Início
Notas iniciais
Estava escuro, acho que lá fora deve ser noite, ou é o que ele quer que a gente pense. Não sei mais o que é certo pensar. O que antes era uma simples experiência, agora se tonou o nosso pesadelo. Pra quem não me conhece, meu nome é Cláudio Nakamura, eu sou filho de imigrantes que vieram por volta de 1950 para o Brasil, achando que ganhariam dinheiro fácil. Bom, fácil não foi, mas eles conseguiram dinheiro suficiente para cuidarem dos meus pais e de mim, tanto que deram entrada, a vista, seis meses de faculdade.
Acabei por me formar em biologia, me especializei em genética, queria ser geneticista, descobrir como tudo funciona, o maior desafio da minha vida foi o DNA. Não me lembro de ver nada tão complexo quanto o ser humano, a começar pelo DNA. Havia partes do DNA dadas como DNA “lixo”, partes que, digamos assim, não evoluíram de forma útil e/ou deram errado. Todos pensavam que essa parte do nosso DNA não era digna de estudo, já que devíamos focar naquilo que detinha função, uns poucos achavam que podia se tirar algo dali. Quase esqueci de falar, eu trabalho para o governo, especificamente o exército. Apesar de parecerem sempre fracos, o exército brasileiro, assim como todos no mundo, mantém as suas instalações mais importantes escondidas de todos, nem mesmo o presidente tem conhecimento de todas elas. Eu estava na Alpha, fazíamos testes genéticos em pessoas para criar soldados acima da média, ou supersoldados, na verdade o meu trabalho era desenvolver melhoramentos genéticos, então todos visavam trabalhar com o que já sabemos e como otimizá-lo. Ninguém ligava muito pra minha pesquisa particular até os meados de 1980.
O governo encontrou uma garota de dez anos, ela tinha um defeito genético grave que culminou na sua morte, isso foi o que todos ouviram. O nome dela era Maya, ela tinha uma habilidade única, ela podia recombinar o próprio DNA. Ela podia mudar a cor do cabelo ou olhos rapidamente, mas só se colocada a certas circunstâncias; ela podia modificar o DNA sem criar tumores cancerígenos ou correr quaisquer riscos de vida; além de se regenerar espontaneamente. Levaram para a nossa instalação, onde a submetemos a alguns testes, e vimos o seu potencial ilimitado. Depois de tantas falhas, finalmente tínhamos uma chance real de potencializar o ser humano, mas eles levaram além.
Eles, depois de algumas tentativas, conseguiu potencializar os sentidos dos soldados, mas ele continuara com os testes. Ele dizia que queria ver o potencial dessa habilidade, se podia pegar partes de outros animais e passar para outros humanos, ver quais seriam os efeitos. Pra isso, ele recolhia das cadeias o que seria as nossas cobaias. Testamos durante três anos sem sucesso significativo. Foi quando descobri uma possibilidade, e se em vez de substituir o DNA já existente, realocasse os genes na parte vazia? Criei um vírus, que carregaria os genes de animais modificados pelo DNA da Maya, modificando o hospedeiro, modificando célula por célula, modificando-o em questão de horas. É claro que alguns morreram, estes eram incinerados e enviados para lugares vazios, onde podiam ser descartados, mas os que sobreviveram eram extraordinários. Desenvolveram habilidades específicas, criando um leque de opções que levaria séculos para se estudar completamente. Até 1994.
Mas nós os subestimamos. Não criamos contenções o suficiente, e o que começou com a fuga de um indivíduo se tornou um pesadelo. Maya, a nossa fonte de amostras escapou, matando quase todas as nossas cobaias, além da maior parte de nós. Apesar de sermos eliminados, a base Alpha vai sobreviver, ainda temos amostras suficientes para criar 62 pares, 62 combinações de genes, vamos criar um exército único, para encontrar e capturar todos os que escaparam.
...
Em uma sala branca, esterilizada, um Senhor observava o treinamento de 125 jovens, eles eram o futuro da Alpha, o futuro do mundo. Eles tinham diferentes genes, desde morcegos até lobos, lebres e diversos insetos, alguns tiveram apenas o vírus puro, criando combinações aleatórias, como aumento da velocidade das sinapses, outro podia ler sinapses de outros indivíduos, além de injetar pensamentos neles, outro detinha uma visão bastante aguçada, podendo ver pequenos fachos de luz, ou poder ver completamente na escuridão.
Um deles era especial. Eu ganhei a mesma habilidade da Maya, podia recombinar o próprio DNA, adquirindo o mesmo apenas pelo toque. O projeto 62B era o carro chefe da pesquisa deles, mas era menosprezado pelos outros por não ter uma habilidade fixa. Nesse dia em especial, houve um ataque, Maya, assim como outros transformados, atacaram a base e nos fez escapar. Ela me salvou, os outros tentaram me matar, mas ela me protegeu, olhei-a nos olhos, naqueles olhos azuis, profundos, mas nada importava além de segui-la e tentar protegê-la. Toquei em uma aranha, senti pequenos filamentos, finos como fios de cabelo, tocaram a aranha, ela brilhou fracamente e sumiu. Senti meu corpo reagir, e em poucos segundos, já detinha o poder dela. Um deles se dependurou em um lustre, ele pegou uma arma com dados e atirava em nós, tentando impedir a nossa fuga.
Retirei os chinelos que usava corri em direção a uma parede, a Maya parou e tentou me impedir, mas assim que dei os primeiros passos, ela parou e apenas me seguia com os olhos, parecia apenas me analisar, mas eu sentia que torcia por mim, não podia decepcioná-la, não depois que ela me salvou. Corri até tocar com das mãos no teto fiquei pendurado, balançando como um pêndulo, o cara com um rifle me viu, juntei o máximo de saliva que pude e cuspi em direção ao seu rosto. Ele se descuidou por um instante, o suficiente para o veneno fazer efeito, por sorte o daquela aranha era apenas um agente paralisante. Ele ainda conseguiu acertar um dardo em mim, eu me desgrudei e caí, me chocando contra o chão. Ela correu até mim, ela apenas viu se estava vivo, depois fugiu; eu estava sendo infantil demais, ela não se importava comigo, ela apenas me via como um ser, como um outro qualquer, senti o meu corpo ferver, me levantei, minha pele tinha rachado em alguns pontos, eu ainda sangrava como humano, mas minha pele recobria meu corpo como um exoesqueleto. Concentrei o poder na minha mão, a aranha parecia um pouco machucada, mas ao contrário de mim, tinha mais chance de sobreviver. Coloquei-a cuidadosamente na parede de um corredor e corri o mais rápido que pude para fora. Corri durante horas mata adentro, encontrei uma lebre, nunca tentara com algo maior que um inseto.
Peguei apenas uma parte da sua pelagem, com sorte alguns fios, saíram completos, com raíz e tudo, absorvi o máximo que pude, senti apenas uma leveza no corpo. Corri, agora corria na mesma velocidade que o corredor mais rápido do mundo conseguia facilmente desviar de diversos objetos. Corri até ouvir o barulho de carros, ainda lembrava o que era um carro, tentei parrar quando cheguei a rodovia, mas um carro me acertou, não me lembro de mais nada a partir daí.
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