Novos Horizontes
6 Capítulo 5 - Consequências
Notas iniciais
POV Clara
Eu estava sentada na sala, assistindo um programa qualquer, mas a minha mente estava com os dois. O Paulo saiu pra ver se encontrava algo, mas não ligou até agora. A Carla achou que ele demorava demais e foi atrás dele com a minha bike. Já era por volta das cinco quando recebi uma ligação dela, dizendo que finalmente chegara lá e que daria umas voltas pra procurá-lo, mas também não dá sinal de vida.
Ouvi um barulho lá fora, parecia alguém batendo os dentes. Fui até a porta dos fundos, olhei para a floresta e vi muitos animais correndo pra ela, desde insetos até os maiores, além de fazerem bastante barulho. Aquilo com certeza era bem estranho, Corri até a cozinha, coloquei a mão entre o armário e a parede, retirei de lá o arco do meu irmão. Coloquei a aljava nas costas, me posicionei e saquei uma flecha. Coloquei-a calmamente, procurando me concentrar no que pudesse vir de lá.
O barulho, apesar de esparso, ficava cada vez mais alto, indicando a proximidade. Firmei o meu corpo e esperei. O topo de uma árvore se mexeu, depois uma mais próxima, e outra. Vi um ser, do tamanho de um humano comum, mas era totalmente diferente de tudo que já vi. O Corpo era uma mistura de verde escuro e marrom, a pele parecia espessa, em alguns pontos era possível ver algumas placas protegendo as áreas mais importantes; Tinha um par extra de pernas, iguais as de uma formiga, só que bem maior; Os olhos eram rachados e bem segmentados, como os de uma mosca, e por último um par de antenas na cabeça. As roupas estavam um pouco rasgadas e cobertas de sangue, assim como a sua pele.
Ele carregava nos braços a Carla ela apenas chorava compulsivamente, e tentava se manter o mais afastada possível do monstro. Ela a colocou no chão, ela desferiu um chute na coxa esquerda, mas ele não aparentou sentir dor. Ela deu diversos socos nele, até que um acertou um ponto onde as placas não protegiam, ele instintivamente se protegeu, a afastando com uma das mãos, fazendo-a chocar com a parede. Corri para ampará-la, de repente ele brilhou de forma intensa, quando consegui olhar de novo o Paulo estava lá, olhando para as mãos sujas de sangue.
— O que aconteceu? – Ele veio até nós e se ajoelhou. Eu e a Carla nos afastamos, ela começara a parar de chorar. – Eu.. Eu não machuquei vocês! Eu... machuquei?
— Seu monstro! Vou fazer você pagar! – Ela saltou de cima de mim, ainda chorando e tentou morder ele, ele se defendeu com o braço, mas ela mordeu o antebraço, quebrando os ossos dele. Ele tentou falar algo, mas ele estava quase desmaiando, ele ia morrer. Eu corri e a empurrei. Ela caiu de lado, mas se levantou rapidamente e me derrubou. Vi os seus olhos vermelhos, as presas um pouco maiores, a boca ainda um pouco vermelha por causa do sangue. – O que, eu... – O castanho dos olhos voltou, assim como as presas diminuíram. Ela ameaçou voltar a chorar. – Eu não mordi você, não foi?
— Eu to bem. Mas precisamos ajudar ele! – Apontei para o Paulo, já quase inconsciente.
— Ele? – Ela virou o rosto e o viu. Ela se aproximou dele, tentou tocá-lo, mas se afastou, só que ele pegou o braço dela e começou a brilhar, vi nos olhos dela que ela sentia dor. Ele a soltou rapidamente. “Ele absorveu os poderes dela pra poder se curar. Só que ele precisa de sangue, rápido. A Carla não pode doar, senão o transforma em vampiro também.” — Paulo pode dormir, eu garanto que você não morre! – Ele fechou os olhos lentamente. – Carla o coloca na mesa!
— Como?
— Usa os seus poderes!
— Mas...
— Sem mas, você quer que ele morra? – Vi os olhos dela ficarem vermelhos, ela o pegou e colocou na mesa, depois se afastou um pouco. Procurei pela mordida no antebraço, mas já estava tudo bem, exceto pelo osso ter se curado errado. Quebrei-o de novo e coloquei o lugar, escutei uns cracks e depois de segundos o braço estava bom de novo. Ela voltou com um kit de primeiros socorros, tirei de lá uma seringa, teria que ser mais que o suficiente. Amarrei uma tripa de mico no meu braço, mexi um pouco ele e posicionei a agulha.
— Tem certeza que isso vai funcionar?
— Eu espero que sim. – Enchi a seringa com o meu sangue, retirei-a e coloquei um algodão por cima e prendi com uma fita. Coloquei a agulha na veia dele e injetei lentamente, até esvaziar, fiz isso mais duas vezes, senti fraca depois da terceira vez. –Acho que já deu. – Peguei um pacote de bolachas e sentei no sofá, ficando de olho nos dois.
...
POV Paulo
Acordei em cima da minha cama, tinha um tripé improvisado com um saco de soro ligado na minha veia. Olhei ao redor, mas a luz do sol irritou os meus olhos. “Ainda bem que aquele poder foi embora.” Assim que me acostumei com a luz, olhei para o lado e vi a Carla sentada, ela parecia tirar um breve cochilo. Escutei vozes no andar de baixo, tentei me levantar, mas uma mão repousou no meu peito.
— Vai ficar quietinho aí! Custamos a te trazer de volta, então se aquieta e descansa um pouco.
— Mais? – Ela abriu um pequeno sorriso, que logo se desfez.
— Eu quero pedir desculpas por ontem, eu não consegui controlar a raiva, o medo, e...
— A sede?
— Como você...
— Absorvi seus poderes lembra, antes de desmaiar senti vontade de morder a Clara. Eu que peço desculpas por ter envolvido você nisso. – A janela estava entreaberta, o sol que se escondia atrás das nuvens se revelou, trazendo alguns raios para o quarto. Vi o sol tocar a pele dela e não surtir nenhum efeito. – Então os vampiros não queimam no sol?
—O sangue nas suas roupas virou fumaça quando ele surgiu. Por sorte a Clara guardou uma peça e vai enviar pra um laboratório pra analise. Não se preocupe, o lugar é discreto, pra não dizer ilegal.
— Mas você...
— Não sei, foi sem querer, me mantive longe das janelas, mas me descuidei e descobri que não queima, só incomoda um pouco a visão. É muito quente. – Teve um silêncio na sala, senti que o clima não melhoraria tão cedo. – Não teve culpa.
— Como?
— Do que aconteceu comigo, com você... não foi sua culpa.
Fiquei de repouso, a Clara conseguiu que a loja me desse folga por três dias por causa da minha “ doença ”, então descansei o resto do dia acordei apenas na manhã seguinte.
Fui ao banheiro tomar um banho, que com certeza eu precisava. Depois de vestir uma camisa e bermuda, desci as escadas e fui direto para o pomar, evitei o máximo me aproximar de alguém. Fui até a orla da floresta, alguns pássaros, assim que me viram, começaram a voar a minha volta, um deles deu um rasante e tentou me acertar. Corri mata adentro, os pássaros me seguiam, assim como alguns outros animais e insetos, corri até uma elevação na floresta, ela levava a uma cachoeira e se continuasse chegaria a um monte. Aumentei a minha velocidade e passei pela cachoeira. “Melhor eu mergulhar, nenhum pássaro vai me atacar aqui.”
Mergulhei e esperei alguns segundos, os pássaros passaram direto, assim como os insetos, e os outros animais não acharam o meu rastro. Senti um beliscão na coxa, depois um no braço; virei o corpo e me deparei com um peixe, acho que um lambari, era bem pequeno, mas mesmo assim me mordia. Chegou outro, e outro, subi o mais rápido possível, com aqueles peixes que sempre vinham me morder. Quando cheguei a margem, com alguns pontos sangrando, a margem estava lotada desses peixes. “Que porra é essa?”
Fui até o monte, e como todo bom clichê, a vegetação era esparsa e o topo tinha uma árvore, mas ali tinha ao menos uma explicação: Eu e o meu pai cortamos algumas árvores pra fazer uma cabana, foi quando dei a dica de tirar de lá, assim a vegetação seria mais esparsa e daria pra ver o resto da floresta de lá. Encostei em uma das árvores, um cedro, e olhei ao redor. Os pássaros ainda rodeavam uma parte da floresta, ouvia vez ou outra o guincho de algum animal.
“Por que me atacar? Deve ser por causa de ontem.” Eu trouxe ela pela floresta, os animais não me reconheceram e acham que sou uma ameaça, só pode ser isso. Vi uma movimentação do alto da árvore, olhei pra cima mas não vi nada. Ouvi o crocitar de um corvo, olhei à frente e todos os pássaros vinham pra cá. “Droga!”, ameacei correr, mas outros animais vieram ao meu encontro.
— Calminha bichinho, eu sou bonzinho, eu sou bonzinho. – Um dos pássaros deu um rasante, cravando as garras nas minhas costas e me bicando sem parar. Os outros animais formaram um semicírculo ao meu redor, me encurralando. Tentei alcançar a ave, talvez se a absorvesse eu teria uma forma de sair. Um sagui pulou na minha perna e começou a arranhar e morder, uma cobra se prendeu na outra perna, me fazendo tropeçar e cair.
— “Você destruiu o nosso lar.” – Ouvi uma voz distante sussurrar pra mim. – “Você deve pagar.”
— Hâ?
— “Você destruiu essas árvores, você merece pagar.” — A voz veio de outro ponto, mais perto, quando tentei virar, o pássaro bicou mais forte. Tentei tocar qualquer animal, qualquer um deles, mas não conseguia, eles se esquivavam de mim.
— Desculpa, eu não devia ter cortado as árvores.
— Só desculpas não bastam. – Um ser encapuzado apareceu na minha frente, os animais se afastaram, peguei a cobra que me envolvia e a segurei antes da cabeça, pra que não me mordesse. – Não precisa matá-la.
— Mas eu não vou.
— Nem pense em absorvê-la, não vai sei o suficiente pra escapar de mim.
— E quem é você? – “Como ela sabia do meu poder?”. Ela retirou o capuz, era uma jovem da minha idade, cabelos e olhos negros e pele escura. Ela sacou uma flecha, na outra segurava um arco.
— Antes me chamavam de Milena, agora me chamo DIANA, PROTETORA DOS ANIMAIS. – “i alá, essa aí surto de vez.”
— Olha Srta. Diana, sinto mesmo por ter cortado as árvores, eu mudei... – A flecha se alojou do meu lado, acho que conversar não seria a melhor ideia. Larguei a cobra, ela voltou rapidamente pra floresta, enquanto os pássaros ainda voavam em círculos, sempre presentes.
— Se eu ver você nesta floresta outra vez, eu acerto uma flecha no seu peito. – Ouvi o barulho na floresta, ameacei correr, mas o corvo tentou me acertar em um rasante, agarrei-o e absorvi. Senti uma dor enorme nas costas, ouvia os meus ossos se mexendo uma dor enorme passava pelo meu corpo. Sentia uma mente lutando contra mim, me concentrei e foquei em sobreviver, ela tentou lutar mas não resistiu e ganhei o controle; olhei para onde estava Diana, mas não estava lá, encontrei-a caída sobre a grama com uma garota em cima dela, segurando-a firme. “Carla!”
Fale com o autor