Novocaine

2 Capítulo 1


Notas iniciais
Olá pessoas, então, só uns avisos antes de começar: — Eu não achei que o s capítulos estavam bons o suficiente, então eu os reescrevi — Talvez eles fiquem um pouco mais longos, mas tudo tem o intuito de melhorar a história — Eu apaguei os antigos e estou repostando. Se quiser ler novamente, fique a vontade. É isso, espero que gostem. Por favor, comentem e curtam, vocês deixariam uma escritora muitoo feliz

Sophia acordou e, em vez de se levantar rapidamente, como sempre faz, ficou ali, deitada, encarando o teto. Não conseguia achar a força necessária para fazer nada. O despertador tocava incessante ao seu lado, mas em momento nenhum ela mexeu o braço para desliga-lo. Era sexta-feira, e Sophia tinha uma relação de amor e ódio com esse dia. O achava bom por estar incrivelmente próximo do final de semana, mas, ao mesmo tempo, era o dia mais cansativo de todos. Ela já estava exausta de uma semana cheia de sorrisos e conversas falsas, de estudos incessantes e da maquiagem pesando em seu rosto, escondendo suas olheiras fora do normal. E então chegava a sexta-feira, e Sophia era, em sua mente, obrigada a sair com os amigos que tinha, mas não era fã, não querendo nunca parecer uma alienígena da sociedade. Ela odiava cada segundo dessas saídas.

Finalmente, depois de uns bons 10 minutos, a garota encontrou um resto de energia para se levantar e desligar o despertador. Se esticou e respirou fundo, tentando se acalmar um pouco. Eram apenas 5:30 da manhã, mas o estresse do dia já havia a atingido. Ele sempre a atingia. Ela então sorriu em uma tentativa de afastar as energias ruins, mas elas sempre encontravam um caminho de volta. Não que o universo conspirasse contra ela, ela só era um alvo muito fácil; desconhecia o mundo e tinha medo dele, se escondendo atrás de uma imagem falsa de si mesma. As pessoas pareciam comprar essa identidade e, infelizmente, a menina também o fazia. Não era feliz assim, mas não me lembro de nenhum momento que Sophia realmente tenha experimentado pura felicidade. Não, ela não teve uma vida horrível e amargada, nem uma infância repleta de atrocidades. Ela só nunca, realmente, viveu todo potencial que a vida lhe oferecia. Nunca havia sido ensinada a aproveitar cada segundo da vida, cada pequeno momento. No fundo, sabia que estava perdendo alguma coisa, alguma coisa que realmente lhe desse uma imensa vontade de viver, mas nunca fora ensinada o que era. Era ingênua, inocente, alienada. E nada disso era culpa dela.

Sua família sempre foi bem de vida e sempre foi muito unida. Todos sempre pareciam extremamente felizes, e realmente estavam. Os pais da menina tinham um casamento incrível, em que os dois se amavam as vezes até demais. A menina era a filha do meio de 7 irmãos, então sempre teve com que passar seu tempo. Fez todas as atividades que seus irmãos mais velhos haviam feito, estudou nas mesmas escolas, fez amigos no mesmo grupo de famílias. Teoricamente seria que nem os irmãos, se não fosse por um detalhe: ninguém nunca havia a ensinado o que era amar e o que significava ser amado. Ninguém nunca havia lhe falado os sentidos de se viver, a magia por trás das coisas. Não deviam se culpar os pais: tinham mais seis filhos para cuidar e criar, e Sophia sempre foi a criança quieta que só aceitava o que lhe era dado. Foi fácil esquecer de lhe dar a devida atenção. Foi fácil esquecer da criança que não emitia sons.

Quando perceberam que algo estava errado, já era tarde demais. Sophia já era uma adolescente sem amigos, que se sentava sozinha no intervalo entre as aulas, mordiscando uma maça e segurando firmemente um livro com outra mão. Não que isso mudasse em casa; a única diferença era que em sua residência a garota se trancava em um quarto, onde realmente ninguém podia acessa-la. Os pais até tentaram reverter a situação, mas tudo que ela aprendia sobre a vida vinha daqueles livros, e a opinião de mais ninguém importava. Eles eram seu porto seguro, a única coisa que podia entende-la, e mesmo que ela não conseguisse perceber isso, amava-os com todas suas forças. O problema é que Sophia aprendia tudo com eles, até a sua maneira de ser. O que ela não percebia era que as pessoas ali retratadas eram perfeitas. Mesmo tendo defeitos e problemas, eram perfeitas. Não tinha como a menina copiar aquelas personagens, ser aquelas personagens. Mas foi assim que ela aprendeu que o mundo era: pessoas deviam ser perfeitas, manter relações superficiais com pessoas, se apaixonar por alguém e fazer tudo por aquela pessoa, mesmo que ninguém em livros realmente amasse seu par romântico.

Ficou um bom tempo no banho. Sabia que provavelmente perderia a primeira aula, mas não ligava mais. A sensação da água quente caindo em seu corpo era boa demais, e a sensação que não só sujeira, mas também suas mágoas, saiam junto com a água era melhor ainda. Se segurou para não sentar no chão do box e só deixar tudo ser lavado de si. Em vez disso desligou o chuveiro, enrolando-se rapidamente na toalha e saindo do box, o vento frio a arrepiando. Não queria mesmo sair de casa naquele dia, mas sabia que era seu dever. Puxou o ar e se apoiou na bancada da pia, buscando energia para se arrumar.

A faculdade era sempre a mesma coisa: pessoas chatas, aulas chatas e uma sala com um péssimo aquecimento. Sua carteira favorita, ao fundo da sala, longe de tudo e de todos, estava mais uma vez ocupada. Provavelmente teria que sentar na frente, fugindo das pessoas que atrapalhavam sua concentração que ficavam no único lugar do fundo onde as carteiras ainda estavam livres. Sem que ninguém visse, bufou de leve, colocando a bolsa na carteira bem em frente ao professor, se sentando na cadeira e puxando a bolsa para si, procurando seu livro.

“Sophia” escutou a voz aguda de Tália preencher seus ouvidos, baixando imediatamente o livro. Não porque realmente se importava com o que a garota iria dizer, mas porque o susto tinha sido grande. “Sophia eu tenho grandes novidades” falou, sentando-se no chão na frente da menina. Sophia podia ver que a garota se segurava para não bater palmas, e nesse momento percebeu que devia, realmente, ter passado o dia em casa. “Não sei se eu quero saber, mas sinto que não terei outra opção” colocou, preocupada, mas Tália a ignorou completamente. “O Matheus te achou um cara. Ele é legal. Ele vai jantar com a gente hoje só para te conhecer, então desmarque qualquer coisa que você tenha hoje à noite e venha jantar com a gente”. Não que Sophia tivesse mil planos para a noite, planejava apenas ficar em casa e assistir alguns filmes, mas não queria sair de jeito nenhum com eles. Odiava quando tentavam a apresentar alguém. Ela sabia muito bem que não precisava e nem queria ninguém a mais para cuidar. Se quisesse, sabia também muito bem que era mais que capaz de conquistar isso sozinha. “Não Tália, eu já disse, eu odeio quando você faz isso. Eu não quero ir, obrigada. ” Respondeu, beirando a grosseria. Se Tália não fosse sua amiga, provavelmente a acharia extremamente antipática. “Você sempre faz isso. Você não dá a chance a ninguém. Vamos lá Sophia, esse pode ser o amor de sua vida e você vai perder a oportunidade de conhece-lo”. Era muito bem sabido que Sophia não conseguia ouvir a frase ‘perder a oportunidade de um amor verdadeiro’. Com seus anos e anos de leituras extensas e românticas, essas era a frase que mais aterrorizava os pensamentos da garota. Tália sabia muito bem do pavor da amiga, e o usou de chantagem. Era sim um golpe baixo, principalmente porque ela tinha certeza que o casal não ia dar certo. Mas funcionou. E Sophia concordou com a saída em grupo.

O dia passou relativamente rápido. Sophia passou o dia estudando, se preocupando o menos possível com esse encontro em dupla/ as escuras. Estava nervosa porque existia sim uma chance de ela gostar do tal cara. A probabilidade era remota, mas ela existia. Por isso, não colocou suas expectativas no alto. Não gostava de se decepcionar, e sabia que se o fizesse com certeza iria. Nada disso significou que sairia de casa sem se arrumar. Não quer dizer também que demorou duas horas para tanto. Ela era uma menina muito básica quando se tratava de vaidade. Estava sempre muito bem arrumada, não me leve a mal, mas também era tudo muito simples. Sua maquiagem não requeria muito esforço, seu cabelo curto não lhe dava muitas opções de estilo e por fim, sempre usava vestidos simples que valorizavam perfeitamente suas curvas. Sim, Sophia sabia muito bem valorizar sua imagem, mas isso não queria dizer que era segura de si. Para isso, terei que dizer que era exatamente o oposto: Sophia era extremamente insegura. Odiava seu corpo por não parecer com os que via em anúncios. Ela não era magra, e mesmo tentando, nunca parecia conseguir chegar lá. Tinha também um medo imenso de usar os sapatos e as roupas erradas. Não queria parecer fora de moda ou uma estranha. Sempre fazia pesquisas antes de sair para comprar roupas, o que é um pouco estranho, mas a garota nunca correria o risco. E ela nem gostava tanto assim das roupas que usava: via algumas outras que a fariam mil vezes mais feliz as usando, mas morria de medo de ser julgada por isso. Às vezes gostava tanto de uma roupa que a comprava, mas não chegava a usa-la em público. Era seu pequeno segredo.

O restaurante que Tália havia escolhido parecia estar extremamente na moda no momento, mas sinceramente Sophia não via nada demais. Era só mais uma lanchonete com um tema meio hipster, com a mesma história de hambúrguer Nova Yorkino que parecia estar na moda. Sophia, uma vegetariana, realmente não via nada demais em nada daquilo, mas como o resto da população parecia gostar, ela só fingia que achava o máximo. Sentou-se então em uma das mesas ao fundo, pegando o cardápio só para passar o tempo, esperando que o resto do grupo chegasse.

Assim que Tália e Matheus se aproximaram da mesa o coração de Sophia começou a bater um pouco mais forte. Não quis olhar atrás dos dois, sabendo que o seu então pretendente estaria ali, esperando para que fossem apresentados, e ela ainda não sabia se realmente queria conhece-lo. Bem, a essa hora já não tinha mais opção, mas mesmo assim gostaria de poder desistir de última hora. “Soph, esse é o Ricardo. Ricardo essa é a Sophia” Tália os apresentou, sentando rapidamente do outro lado da mesa com Matheus, forçando Ricardo a sentar do lado da menina. Como esta tinha habilidades sociais extremamente reduzidas apenas sorriu para ele, e ainda foi um sorriso torto e mal feito. Se Sophia não fosse extremamente bonita, o garoto provavelmente já teria saído correndo.

Ainda nervosa enquanto ninguém falava nada, Sophia pegou a água que estava a sua frente e a bebeu, em uma tentativa falha de resolver seu problema de garganta seca. “Soph, sabe aquele trabalho que a gente tem que fazer sobre gastos públicos? Talvez o Ricardo possa ajudar a gente, ele faz medicina”. Em nenhum momento a garota entendeu o sentindo da frase, qualquer um ali presente percebendo a completa falta de coesão. Mas, como não era burra, Sophia entendeu que a amiga só queria mencionar o fato que o menino fazia medicina, tentando deixa-la impressionada. Bom, foi um passo em falso: medicina não a impressionava. Mesmo sabendo ser uma disciplina difícil de se conseguir vaga em uma boa universidade, a garota não achava a conquista nem um pouco interessante. Era comum. Uma grande quantidade de pessoas fazia medicina, e isso não as tornava especial. Isso não tornava Ricardo especial. “Você faz medicina? Meu Deus, que legal! ” Sophia disse, sorrindo, se virando um pouco para o garoto. Já disse que ela era boa em fingir? Bem, ela era ótima. Era especialista em fingir estar empolgada com algo. “É, pois é, eu estou no segundo ano já. É bem legal. E você, faz o que? ” Respondeu, e sua voz monótona e despachada irritou a menina um pouco. Esse encontro mal tinha começado e já estava indo maravilhosamente bem. “Eu faço economia com a Tália, mas estamos no primeiro ano ainda” “Parece divertido também”. E por alguns bons minutos, a conversa morreu.

O resto da noite foi tão chato quanto seu começo. Ricardo era extremamente metido e chato, falando sobre sua faculdade a noite inteira, enquanto Sophia fingia mostrar interesse. Obviamente Tália e Matheus haviam saído da conversa logo que ela começou, deixando Sophia para sofrer sozinha. Teve que ouvir, no decorrer de um período de duas horas, como os músculos de Ricardo haviam crescido em dois meses de academia, como a dieta vegetariana dela era extremamente prejudicial ao seu organismo e, por fim, como as meninas caiam aos pés de Ricardo. Ah, também tinha o discurso que a maioria das meninas com quem ficava se impressionavam muito com o fato dele fazer medicina. Como se uma faculdade fosse fazer uma diferença tremenda dessas (e como se algo que ele tivesse falado no decorrer da noite fosse verdade). A chegada da conta na mesa fora o ponto alto da noite.

Sophia saiu o mais rápido do restaurante que pode, sem parecer também que estava fugindo dali. Queria muito que ninguém sugerisse que fossem para outro lugar, e para sua felicidade, ninguém o fez. Computou, assim, que estava livre. Livre daquele dia e livre daquele homem. Assim que o silêncio reinou entre os quatro, Sophia tomou a oportunidade e se despediu de todos, partindo para o metrô. O que ela não podia imaginar era que Ricardo resolveria ser um cavalheiro e a levaria em segurança até as portas da estação. Por um lado, se sentiu aliviada, pois correria menos risco com alguém andando junto a si. Por outro, entrou em desespero por ter que passar mais cinco segundos com aquele homem por perto.

Para seu terror, Ricardo não se contentou em apenas leva-la em segurança até a estação. Ele quis continuar a conversa. Assim que ele abriu a boca, a menina entendeu que poderia apenas fingir ouvi-lo, até que chegasse o ponto em que pudesse sair correndo. Porém ele a fez perguntas. Pela primeira vez na noite, Ricardo havia se interessado um pouco por ela. Ficaram conversando, calmamente, e Sophia até se pegou acalmada pela conversa, que por um milagre de Deus se encontrava agradável. “Eu acho que gosto de gatos e cachorros igualmente. Cada um tem suas qualidades próprias. Teria vários dos dois” comentou a menina, enquanto chutava as pedrinhas na rua. A conversa era apenas uma continuação sobre os comentários do menino sobre sua cadela. Esse sim era um assunto agradável, não os músculos de Ricardo. “Eu sempre gostei mais de cachorros. Gatos costumam ser extremamente agressivos. Não sou fã” continuou a conversa o menino, e a garota pensou um pouco no comentário antes de responder “Bom, acho que no fundo você só tem inveja de gatos. Eles são os únicos seres que podem comer e dormir o dia inteiro e ter motivos para serem rabugentos” “Justo”.

Quando os dois chegaram no metrô, Sophia já tinha esgotado todos os seus assuntos. Tinha até acelerado um pouco sua velocidade no final do percurso, com medo de não ter mais o que falar e ter que ouvir sobre os músculos de Ricardo novamente. Graças a Deus não chegaram a esse ponto. “Bom, foi um prazer te conhecer. Obrigada por me trazer até aqui. ” Agradeceu Sophia, e Ricardo sorriu, segurando a manga da jaqueta da garota “Será que poderíamos sair outra vez? ” Perguntou, e a menina sentiu seu cérebro chorar. Ela odiava a dizer não para as pessoas quando isso podia magoar os sentimentos dela. Odiava. Mesmo ela sendo boa em fingir, ainda não tinha descoberto a maneira correta de dizer não a um encontro. Mas ela ainda não conhecia essa maneira. Por isso, para sua desgraça e seu desespero, acabou por aceitar o convite, se arrependendo da decisão assim que passou pela catraca.