Novo Sol

1 Capítulo 1


Eu vivia de luto. Vivia tanto, que era difícil comemorar meu aniversário.

Meu cabelo estava arrumado. A escova estava sobre a cama, já gasta. Diante do espelho, o semblante triste me perseguia, não importava o que eu fizesse. Atrás de mim, os quadros de céus âmbares de outono ainda pendurados pelas paredes do quarto. Neles, a memória do pincel do meu avô sobre a tela, as cores misturadas e as paisagens se formando. Ele era tão talentoso. Quando coisas maravilhosas acontecem, é difícil se lembrar de que, no futuro, elas serão saudades dolorosas.

Em um dos livros na biblioteca da minha avó, falava-se sobre como o luto é experienciado em diferentes sociedades. Em certos lugares, a morte é um motivo de celebração, não de tristeza. Talvez eu só tivesse nascido no lugar errado. Talvez, eu só tivesse nascido errada. Era uma pena que só me interessara pelas escritas da minha avó após sua partida. Talvez tudo seria diferente caso tivesse ouvido mais. Caso tivesse feito mais perguntas.

À essa hora, numa noite como essa, ela estaria colocando uma canção na vitrola e inundando a casa com uma melodia chique.

Silêncio.

— Está pronta? — A voz de Mariano veio da porta. Tombei minha cabeça e dei um sorriso fraco.

— Sim. — Coloquei uma presilha no cabelo, finalizando meu penteado.

Passei pelo meu tio, que apagou as luzes do quarto e fechou a porta. Recentemente estive melhorando, mas algumas datas me deixavam mais reflexiva.

— Sua mãe e seu pai chegaram. Estão estacionando o carro.

— Ok. — Olhei para ele, esperando por algo.

— É melhor... não perguntar sobre nada, tá bom? Pro seu pai.

— Imaginei que você diria isso.

— A gente tem que lembrar que também é difícil para ele. Ele perdeu o pai e a mãe. Fez o que pôde como juiz para ficar por dentro das investigações.

— Eu não tenho raiva dele. — Alisei minha mão. — E também não quero voltar nesse assunto.

— Que bom. — A mão de Mariano foi até o meu ombro. — Ele também não deve comentar nada a respeito disso. Esta noite foi reservada para você. Para te comemorar. Comemorar a sua vida, o seu brilho. Que você é a melhor sobrinha que eu poderia ter. — Mariano me puxou e me apertou, bagunçando meu cabelo. Dei uma risadinha.

— Para! Eu demorei para arrumar ele. Você quer mesmo que eu fique feia perto daqueles ricões lá embaixo?

— Você nunca conversa com eles mesmo, que diferença faz?

— Mas eles ficam me vigiando.

De repente, uma música começou. Era clássica, mas definitivamente não fazia parte da coleção da minha avó. O andar debaixo já deveria estar cheio de múmias endinheiradas, com seus paletós e vestidos caros.

— O que estão fazendo escondidos aqui? — A voz de alguém veio da escada. Não era a escadaria grande que dava para o salão, mas sim uma menor nos fundos. Ao olhar, meu coração acelerou. Os cabelos castanhos longos dela eram realçados pela roupa extravagante. Não era de se esperar menos da minha mãe. — Quanto tempo, minha filha! — Ela me puxou para um abraço.

— Como você está, mãe? A última vez que te vi foi... no meu último aniversário. Eu mal te reconheci.

— Estou ótima! Mas você sabe como é. Muita correria! — Deu uma risada.

Logo em seguida, meu pai me puxou para um abraço também. Estava muito cheiroso, como de costume.

— Feliz aniversário, minha filha. Eu te amo.

— Também te amo, pai. — respondi, fechando os olhos.

Afastamo-nos e dei espaço para que eles cumprimentassem meu tio. Senti as patinhas na minha perna e olhei para baixo. Toulouse pedia colo. Levei minhas mãos à sua barriga e o segurei em meus braços. Era melhor que ele ficasse perto de mim. Era perigoso um cachorrinho tão pequeno ficar zanzando pela casa com tanta gente.

— Aqui não é tão grande como a casa da Marjorie e do Frank, mas ainda é bem confortável. — disse ela, olhando ao redor. — Muito bem arrumado, por sinal. Você usou magia para fazer isso, Mariano?

— Não. — Meu tio negou, levando a mão à nuca. — Eu e Ariana fizemos tudo juntos. Ficou bem bonito, não é?

— E ela usou magia? — O rosto dela fechou.

— Também não.

— Usei as mãos. — complementei.

— De qualquer forma — ela retomou —, onde posso deixar minhas coisas?

Mariano a guiou até o quarto de hóspedes, onde deixaram seus pertences. Sempre andavam com muitas coisas. Não tinha percebido que aquelas sacolas todas eram presentes para mim. Na verdade, nem tinha as notado. Aproveitei para ajustar a caminha de Toulouse, pois ele gostava de dormir naquele quarto.

A festa lá embaixo estava em curso. Voltamos ao corredor para fazer a cerimônia anual. A escada, que partia de dois pontos opostos até se encontrar em uma mais larga, seria o caminho a ser percorrido. De um lado, meu tio e meu pai, do outro, eu e minha mãe. Ajeitando o cabelo e o vestido, respirou fundo para estar bonita. Apenas passei os dedos gentilmente sobre as sobrancelhas para ajeitá-las. Senti dois tapinhas nas minhas costas. Era hora.

Uma voz no microfone chamou a atenção de todos e anunciou a presença dos residentes da casa. Ou seja, nós.

— Com vocês, Mariano Di Vaio! — Meu tio desceu e a luz circular foi posta sobre ele. Foi recebido com aplausos. Seu sorriso estava reluzente. — Edward Butera! — Meu pai fez o mesmo. Os aplausos foram ainda mais altos. Meu pai, sendo filho biológico de Marjorie e Frank, sempre foi o favorito, enquanto Mariano era um filho de consideração. Apesar disso, ambos tinham boa relação. — Agora, para as nossas donzelas! Senhoras e senhores, com vocês, Joan Grande! — Seu vestido refletia a luz, a deixando deslumbrante. Ela não perderia a chance de divulgar suas roupas.

Acariciei minha mão, respirando fundo. Era o meu aniversário, eu já tinha feito aquilo outras dezesseis vezes. A décima sétima seria igual às outras, não havia motivo para preocupação.

— Por fim, mas não menos importante, nossa aniversariante! Ariana Grande!

A luz me revelou a todos. Dali, via rostos novos, mas também outros antigos. A cada degrau descido, uma nova pergunta sobre como lidaria com tanta gente. Só podia torcer que todos aqueles sorrisos não fossem falsos, por mais que soubesse que eram.

Fomos até o palco do salão. Os instrumentos já estavam em silêncio, assim como a multidão. Esperavam apenas por nós. Assim que tive o microfone em mãos, segui o mesmo procedimento de sempre: um discurso pronto com palavras minuciosamente arquitetadas. A maior parte do comunicado seria feito pelo meu pai e pela minha mãe, o que me tranquilizava.

Ao descer do palco, já esperava que algum gavião fosse tentar a sorte em me conquistar. Mas, sendo mais esperta, andei rapidamente até sair das áreas mais movimentadas. Um garçom me ofereceu uma bebida, mas neguei. Sabia que se bebesse, acabaria refletindo demais sobre ser meu primeiro aniversário sem meus avós. Era melhor manter a postura.

Aproximei-me de uma mesa e cumprimentei alguns primos. Notei a ausência de alguns também. Após interagir com algumas pessoas, acabei indo até meu tio e meus pais novamente. Curiosamente, estavam numa parte vazia, próximos a um aquário. Não era comum eles não estarem no olho do furacão.

— Aí está ela! — disse meu tio. — Estávamos falando sobre o programa de acolhimento em Sioux City. Já ouviu falar sobre, Joan?

— Não. — Jogou o cabelo para trás. — Estive ocupada com minha marca.

Senti um calafrio. Já tinha ouvido aquela história várias vezes. Sioux City era um cidade, uma grande metrópole, que servia como refúgio para sobrenaturais perseguidos. A existência de um local assim foi uma lenda por toda minha vida, mas há alguns anos atrás, meu tio acabou descobrindo que era real. Não sabia se deveríamos ir.

— No Iowa? — perguntou meu pai. — Não tinham cancelado por superlotação?

— Pois, é. Fizeram uma ampliação grande no Colégio Alvorecer, por isso lançaram este novo programa.

Fomos abordados por alguns homens e tivemos de nos calar imediatamente. Queriam tratar algo com meu pai. Sabia que não demoraria até que nos caçassem novamente naquela festa. Sempre tinham algo a discutir e esquematizar. Meu pai nos deu a licença e se afastou.

— Não dá para ir. — retomei o assunto. — A gente acabou de se mudar para cá. Não dá para ficar pulando de casa em casa desse jeito. Viajar com animal de estimação também dá muito trabalho.

— Concordo, minha filha. — disse minha mãe. — Além do mais, existem pessoas mais necessitadas. Precisamos pensar nos mais pobres. Por que ir a um lugar como este quando se tem uma mansão deste porte? Quais seriam os ganhos?

— Ainda assim, é perigoso que a gente fique aqui. E se algo acontecer? Você não tem dons sobrenaturais, mas nós temos. Podemos acabar sendo descobertos. — disse ele.

— Não! Fora de cogitação. — disse ela. — E se a Ariana machucar alguém de novo?

Engoli em seco. Ele me olhou, o semblante preocupado.

— A culpa não foi dela. — disse ele.

— Eu sei, Mari! Não disse isso. Só estou listando as possibilidades.

— Eu também não sei se quero ir. — falei, hesitante. — Eu já estou cansada de ser ensinada em casa e de viver sozinha... as coisas lá podem ser diferentes, mas ainda tenho minhas dúvidas.

O olhar da minha mãe atravessou o quarto, me atingindo em cheio. Desde nossas últimas discussões, ela prometera que tentaria melhorar, mas a ira ainda estava submersa em suas íris. O veneno estava ali, guardado.

— Veremos. — disse. — Preciso fazer um ensaio em família até o final do mês que vem. É para um novo lançamento da minha marca. Até lá, nada de mudanças.

— Podemos antecipar, o que acha? — perguntou meu tio. — Estamos usando peças feitas por você, poderíamos aproveitar a ocasião.

— E o ano escolar dela, como fica? Como vou saber a qualidade dos professores deste tal colégio?

Olhei aos arredores, incomodada. Falavam de mim como se eu não estivesse ali. Talvez fosse melhor não estar mesmo.

— Acho que eu vou pegar alguma coisa para comer. Já volto. — falei, me afastando.

Fui até a porta dos fundos, e ao chegar ao jardim, a brisa gélida atingiu minha pele. Um calafrio me balançou por inteira, mas estava mais confortável do que lá dentro. A música abafada e a iluminação diminuída foram me relaxando. O ambiente, no geral, era agradável. A maioria das flores ali foram trazidas da casa antiga. Plantadas pelo meu avô. Fazia questão de regá-las sempre quando necessário.

Ouvi, de repente, um estalo vindo dos arbustos. Cerrei os olhos, mas não conseguia ver nada demais. Folhas e mais folhas, flores e mais flores. De novo, mais um estalo.

— Ah! Toulouse, sai daí! — falei, descendo os degrauzinhos até a grama. — Minha mãe deve ter deixado a porta do quarto aberta.

Estalei os dedos e assobiei, mas nada dele sair dali.

— Toulouse? Toutou? Vem aqui, vem!

Nada.

Muito estranho.

Um movimento brusco sacudiu os galhos, me fazendo pular de susto. Era algo grande. Mas como eu ainda não conseguia ver? Estava escuro. Ou será que eu só não estava enxergando bem? Não sei dizer. Tinha ouvido histórias de lobos nas redondezas. Na verdade, não, não tinha lobos nas redondezas. De onde veio esta ideia?

Ai, meu Deus! Será que era um lobo?!

Uma figura pulou do meio das folhas. Sufoquei e nenhum grito saiu.

Estava vendo tudo, mas não estava vendo nada.

Meu corpo bateu contra o chão. Minha mão doía muito.

De repente, uma luz. Forte. Cegante.

Um perfume adocicado invadiu meus tímpanos e um grito nas minhas narinas. O peso se removeu de mim, mas permanecia imóvel. Passos apressados se desenharam à minha direita.

Quando retornei a mim mesma, vi pétalas amarelas caindo suavemente ao meu redor. O perfume era muito forte. Tossi, me levantando. Olhei para os lados e acabei avistando, num quase-breu, alguém saltando a cerca para o vizinho.

Minhas mãos estavam trêmulas e as vozes agitadas cresciam. Não podia deixar que os convidados se aproximassem de mim. Não podia deixar que mais alguém se ferisse. Usei uma mão para segurar a outra e impedir o tremor. Em vão.

— Não, não, não! — Olhei para todos os lados.

Corri até uma outra porta, a abrindo de uma vez só. Esbarrei em alguns cozinheiros e derrubei panelas no chão.

— Ariana! O que aconteceu?! — Gritaram.

Com o horizonte girando e numa corrida estonteante, percorri o caminho até o banheiro, onde girei a chave e bati minhas costas contra a porta. Diante do espelho, meus lábios pálidos contrastavam com a tonalidade carmesim que expelia por entre meus dedos. Aparentava ser um vapor, mas também tinha características líquidas.

A energia expeliu da minha mão, atingindo a parede. O espelho rachou-se em mil pedaços. Vidros de perfume estouraram contra as paredes e o chão estava coberto de objetos.

A água do vaso sanitário borbulhava e as luzes piscavam até que estouraram. Encolhi-me no canto do banheiro. Ainda de pé, tentei proteger o rosto.

O calor exacerbado e a velocidade imparável do meu coração foram lenta, porém gradualmente, diluídas por uma sensação serena e relaxante que me invadiu pelas costas. O calafrio aumentou, mas senti meu corpo ficando cada vez mais fraco. Deslizei pela parede ladrilhada até atingir o chão. Respirei fundo, e tudo se aquietou como num passe de mágica. Um feixe de luz fortíssimo vinha por baixo da porta, iluminando o banheiro agora escuro. O trinco da porta também ficou reluzente, se abrindo sozinho.

Avistei a silhueta do meu tio. Seus olhos castanhos arregalados e uma postura cautelosa. Eu sabia que ele não queria me assustar e possivelmente agravar o desastre iminente, mas ele nunca o fez. Tinha a sorte de dizer que ele nunca foi motivo para susto.

A luz que ele emitiu cessou em suas mãos. Fiquei alguns segundos calada, me recuperando.

— Você tá bem?

Fiz que sim com a cabeça.

Levei alguns minutos até me reerguer. Usando corredores que apenas funcionários tinham acesso, fui levada até o meu quarto. Só podia torcer para que não fosse descoberta por nenhum convidado. Fiquei na minha cama, deitada. Não demorou até que minha mãe abrisse a porta.

— O que estão fazendo aqui?! Estão se escondendo de novo? Está sendo requisitada lá embaixo, Ariana!

Todos ficamos em silêncio. Era difícil saber como contá-la ocorrido.

— A magia da Ariana… ela… — disse meu tio.

— Ai, meu Deus! De novo?! Ariana! — disse ela, se aproximando da cama. — Quantas vezes terei de te dizer para não usar seus poderes?!

— Não foi isso! — rebati.

— Eu sabia que você estava deixando ela fazer feitiços, Mariano! Eu o perguntei e você mentiu para mim!

— Não! — disse ele. — A Ariana não fez nada.

— Eu nunca deveria ter deixado você cuidando dela! Você é mole tal qual seu irmão!

— Eu sempre fiz o que é melhor para ela! Por isso a ajudei agora há pouco no banheiro. Estava na festa quando meus poderes me alertaram sobre a alteração nas luzes.

Senti uma pressão nas têmporas enquanto a discussão se acalorava. Agora sim parecia uma reunião em família.

— Tinha alguém lá fora. — falei, fazendo com que ambos olhassem para mim.

— O quê? Como assim? — perguntou ela.

— Estava se escondendo nos arbustos... e tentou me atacar.

— Meu Deus! Você se machucou?! Eu vou chamar a polícia!

— Não! — gritei. — Se chamá-los, eles vão ver as pétalas no gramado.

— Pétalas no jardim, Ariana?! É um jardim! Por que desconfiariam de que foi magia?!

— Desconfiaram da última vez. — disse Mariano. — Por que acha que não quiseram seguir com as investigações da morte do papai e da mamãe?

— O quê? Do que estão falando? Estão insinuando que a polícia tenha algum tipo de desconfiança?

— Esqueceu que eu fiquei horas sendo interrogada, mãe? — perguntei. — Ou sua preocupação com sua marca te deu amnésia?

— Ai, Ariana! Nem comece com esses seus dramas! Estamos falando de coisa séria!

— E aquilo não foi sério?! Você tem noção do que poderia ter acontecido caso os policiais descobrissem que eu sou uma bruxa?

— Mas não descobriram! Agora se você continuar falando alto desse jeito, centenas de pessoas vão descobrir. Sua avó te levou num dentista quando criança e consertou seus dentes, mas pelo visto, faltou consertar a língua! Quer jogar os negócios da família pela janela?!

— Negócios da família? Tinha alguém lá fora! E ainda pode estar por perto!

— E o que faremos, então?

— Primeiro? — perguntou meu tio. — Acalmar os ânimos. Segundo, descobrir como era esta pessoa.

— Acho que era um homem, pelo tamanho. Era bem alto. — falei, tentando me recordar. — Estava vestido de preto, mas tinha algum símbolo roxo na roupa. Tenho quase certeza que usava uma bota também.

Mariano levou as mãos na cabeça, andando em círculos. Meu coração apertou. O que era?

— Não é possível. Não é possível! — disse ele.

— O que foi?! — perguntei, aflita. — É o que eu estou pensando que é?

— É a mesma descrição... — disse Mariano. Sua voz estava enrolada. — dos assassinos do meu pai e da minha mãe.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.