Novo Dia
1 Capítulo único
Era um novo dia.
Ou talvez um velho dia, e nada mais. Nada mudava. Ela passara as últimas duas, três horas examinando o interior do casulo que fazia com os cobertores. Com as cortinas abaixadas, poderia ser qualquer momento do dia, do mês, do ano, da década ou do século... Ela poderia ser a pessoa que quisesse, na época que quisesse. O tempo, debaixo das cobertas, era imutável. Talvez, enquanto ela se mantivesse escondida, ela seria imutável também.
Em seu esconderijo, ela examinava as cicatrizes de seus braços. Tantas. Sempre presentes. Mas poderiam ser esquecidas facilmente, se ela apenas puxasse as mangas para cima. Desviasse os olhos.
As horas se arrastavam. Que dia da semana era? Segunda? Terça? Talvez quinta? Final de semana? Ou as férias já haviam começado? Estava com fome. Logo alguém viria lhe dizer que era hora de ir para a escola. Mas ela não queria sair da cama, de seu esconderijo imutável. E se um dia, ao invés de se arrastar para a escola, ela simplesmente se encolhesse mais em seu cantinho e dissesse “Hoje não”? Perguntava-se isso quase todo dia, geralmente depois de rezar para morrer na próxima vez que dormisse. Para que a próxima vez que fechasse seus olhos, fosse a última. Nova demais para ter tantos pensamentos negativos, ela ouvia.
Havia água sanitária em uma garrafa. No chão. Debaixo da cama. Ela deixava o braço pender da cama, apertando-o entre o móvel e a parede, roçar a tampa, ciente de que a liberdade estava lá. As vozes encorajavam. Poderia fazê-lo ainda escondida. Estender o braço. Pegar a garrafa. Tirar a tampa. Virar tudo. Iria doer como os sete infernos, mas ela sabia que dor nenhuma poderia aplacar a que ela estava tentando matar. Combater dor com dor. Como os bombeiros fazem, criando um novo incêndio para acabar com o outro, esperando que eles se consumissem. Levaria tempo até encontrarem seu corpo – com alguma sorte, já não passaria de um monte de pele sobre um mar de sangue. Perguntava-se quem seria o azarado. Se o sangue já estaria seco. Se secaria em seu cabelo, ou se este escaparia. Se eles queimariam os lençóis e o colchão, ou o que seria feito deles.
Sim, lá estava a cura para todos os males. Mas ela sabia, era covarde demais para fazê-lo.
Piorou, depois de um tempo. Passou a pegar a garrafa, olhar longamente para ela. Mas sempre a colocava de volta no lugar, com um sentimento de quase antecipação. Como uma criança, que se vê forçada a devolver um brinquedo de volta à estante por não ter dinheiro naquele momento. A criança olha, coloca-o com cuidado. Logo, diz a si mesma, com esperança infantil, promessas.
Chegou a desenroscar a tampa, até mesmo cheirar o líquido, duas vezes. Olhava ao redor. Via as paredes imutáveis. Sua pequena redoma de vidro. Isolada do mundo. Olhava de volta para o líquido. Hoje não. E continuou com isso, até que chegou um dia em que pensou diferente.
Hoje sim. E levou a garrafa aos lábios, virando e bebendo até a última gota.
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