Junho, 2015

Do fim do Grande Salão, excepcionalmente decorado em luxuosas luzes douradas e mesas com arranjos mágicos em cores neutras, Draco acompanhou os conhecidos e compridos cabelos cachos loiros em tom terroso, se balançando na pista de dança enfeitiçada para parecer um céu atipicamente estrelado na Escócia.

O ano letivo terminava e a cerimônia de formatura dos estudantes do sétimo ano também, incluso aquela que rotineiramente usava uma corrente de ouro com pingente em formato de medalha estampando um modelo rústico e medieval de uma rosa-dos-ventos. Sabia que era uma das joias mais antigas do cofre da família, mas não hesitou assim que seus olhos recaíram sobre a peça esquecida em um busto não datado.

A menina não sabia disso, é claro, nem mesmo sua mãe, mas por algum motivo nunca deixava o acessório de lado, qualquer que fosse a ocasião ou roupa que estivesse trajando, o que, de certa forma, o aquecia por dentro. Imaginava o que Granger teria dito ao entregar a ela o presente e a que altura havia feito, mas era tudo o que podia fazer.

Sua atenção, então, recaiu sobre a mulher de cachos semelhantes, embora mais curtos e muito mais escuros, estacada próxima à ilha de bebidas providenciando um drink para si mesma. A festa já estava no fim e ela não alimentava muitas cerimônias para fazer o que tinha vontade, ponderou com um sorriso irônico. Tudo entre eles começara em uma ocasião muito semelhante àquela, mas eram tempos completamente diferentes e mesmo o clima entre as pessoas agora era mais ameno e menos tenso.

Meneando a cabeça, deixou o canto recluso em que vinha se mantendo e caminhou até ela, que se acomodava contra o balcão alto e observava o movimento, encontrando sem dificuldade a filha no meio da multidão de alunos recém-formados e convidados, a observando por um momento, a cabeça pendente para o lado esquerdo e um sorriso orgulhoso muito discreto. Granger, por ser quem era, costumava estabelecer certa distância às pessoas. Assim, com exceção dos amigos muito próximos, ninguém se aproximava com facilidade, mesmo durante Hogwarts.

Ela o notou assim que se aproximou, os olhos castanhos o medindo por um instante, como que decidindo se valia à pena ficar ali ou permitir que ele ficasse, antes de se voltar a atenção à pista de dança novamente. Guardando as mãos no bolso, sem qualquer surpresa que ela parecia ainda mais bonita do que anos antes, com feições melhor definidos e um gosto refinado para maquiagem e moda, tendo em vista o vestido preto e dourado de ombros à mostra, que trajava; porém, decidiu não continuar a encará-la ou passaria horas apenas fazendo isso.

— Você fez um bom trabalho, Granger.

Acompanhou o ligeiro apertar de lábios e o pequeno sorriso amargo repuxando o canto direito. Aquele nunca seria um campo neutro entre eles, tinha consciência disso; não após o que acontecera em seu nascimento, não depois de sua escolha, mas talvez fosse a última vez que teria a chance de falar a respeito.

Desde então, desde a última vez em que se viram naquele quarto na Casa dos Black, nunca mais tocaram no assunto, tornando-o velado mesmo quando a menina passara a ter aulas de Poções com Draco e ele passara a acompanhar relativamente de perto seu crescimento.

Nas raras vezes em que se encontraram no mesmo ambiente, através de um olhar cuidadoso, silenciosamente segredavam àquela realidade em si mesmos e no que haviam sido. Então, seguiam em frente, por todo um ciclo de dezessete anos. E continuariam seguindo, sabia, mas falar em voz alta tornava um pouco mais real.

Às vezes, em seus piores dias, era como se aquela garota sorridente, repleta de amigos e pessoas que cuidavam dela, sequer fosse dele. Nesses dias, hesitava e engolia em seco, incapaz de se ver no direito de afirmar que era – apesar de se parecer muito com ele –, afinal, Draco indiscutivelmente a deixara para trás, para Granger, como ela dissera que haveria de ser.

— Eu sei. – Notou que ela tinha a intenção de encerrar a conversa e o contato, mas o remoer dos dentes contra a parte interna e sua natureza conhecidamente curiosa a traíram. – Como você consegue?

Compreendeu imediatamente o que Granger queria dizer, sentindo cada músculo de seu corpo mais tenso do que de costume. Então, somente se deixou perder o olhar no teto enfeitiçado do salão por um instante, como se tivesse de escolher bem as palavras, embora soubesse perfeitamente como ultrapassava os dias vendo a menina crescer, sentindo o conhecido esmagar interno e o constante sabor amargo de quem sabia ser tarde demais – para pedir perdão, tentar reparar um passado de escolhas mal feitas ou qualquer coisa do tipo.

— Eu apenas... – Deu de ombros antes de murmurar, quase displicentemente. – Aprendi a amá-la à distância.

Dessa vez, Granger realmente o fitou, percorrendo suas feições como que para conferir se falava a verdade – a inconformidade latente em toda a sua postura. Se viu tentado forçar um sorriso amargo pelo efeito desconhecido e imediato que os olhos castanhos brilhantes ainda tinham sobre si, desarmando-o por completo ao mesmo tempo em que parecia acusar: ‘covarde’. Como na outra vez, em um cenário bem diferente, não estava errada.

Entretanto, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, a menina se aproximou soando um tanto desesperada.

— Mãe?! – Ambos se voltaram a menina, que vinha tentando soltar algo preso às suas costas. – Me ajuda a soltar essa faixa?

— Merlin! – Granger exclamou em um tom exasperado, imediatamente deixando o drink de lado para ajudar a garota, puxando os cabelos do local onde havia enroscado. – Seu cabelo vai ficar uma bagunça pelo resto da noite.

A faixa em questão, verde esmeralda com o emblema prateado da serpente luxuosamente costurado na altura do peito, utilizada pelos formandos de cada casa, e sobreposta ao vestido de seda em tom champanhe, silenciosamente o orgulhava. Na época, parecia ter sido uma surpresa que a filha da maior representante viva da Grifinória fosse sorteada para a Sonserina, mas Draco, da mesa dos Professores, somente repuxou um sorriso de canto e observou, no passar dos anos, todos os motivos que a faziam pertencer à sua casa. Não se tratava de um erro do Chapéu Seletor.

— Ah... Olá, Professor Malfoy!

Ela cumprimentou ofegante após levantar os braços para ter a faixa retirada pela cabeça com a ajuda de Granger.

— Como vai, Srta. Granger?

Meneou a cabeça acompanhando de maneira distraída Granger dobrar a faixa de maneira cuidadosa para ser guardada. Se perguntou como fora para ela receber a notícia de que a menina havia sido selecionada para a Sonserina, mas também percebeu que nunca a conhecera suficientemente bem para prever uma reação. A garota que fora reagiria diferente da mãe que se tornara, disso tinha absoluta convicção.

— Tio Harry está indo embora, ele disse que quer falar com você.

— Tudo bem... Er...

Ela pigarreou, se voltando à Draco repentinamente sem saber como continuar, então apenas meneou a cabeça na direção delas – em despedida. Com um aceno de mão distante e um sorriso incerto, a garota acompanhou a mãe, que se concentrou novamente nos cabelos da filha, tentando ajeitar a bagunça de cachos revoltosos muito claros enquanto caminhavam entre as mesas na direção de Potter.

Havia sido um choque colocar os olhos na garota pela primeira vez, ainda um bebê, mas fora paralisante quando a vira novamente, aos onze anos, no momento da Seleção das Casas. Os fios podiam ser claros em feições completamente Granger, mas olhar nos olhos dela era como ver seus próprios olhos, exceto que mais brilhantes, menos pesados e repletos de passado.

Ela tinha uma boa vida, concluiu, era tarde demais para observar de longe a escolha que poderia ter feito.

Respirando fundo, Draco deixou o salão mais rápido do que gostaria, tomando o caminho do aposento dos professores. Ao adentrar o conhecido corredor de pedra, que ecoava seus passos no sapato negro bem lustrado, imediatamente franziu o cenho pela figura encolhida no chão ao lado da porta, que parecia cochilar sob pesadas vestes sonserinas de inverno.

— Ei, o que está fazendo aqui?

Se agachou na altura dele, cuidadosamente penteando os fios loiros e muito lisos, que caíam pela testa. Os olhos de Scorpius, mesmo sonolentos àquela hora, também eram como os dele; e, sem que sequer tivesse consciência, como os dela.

— Eu só senti sua falta e hoje é o último dia do ano letivo, então...

Scorpius murmurou dando de ombros e Draco meneou a cabeça, ciente de que o menino recém chegado a Hogwarts ainda não havia se adaptado muito bem à dinâmica do internato.

— Venha aqui. Senti sua falta esse ano também. – O garoto passou os braços magros por seu ombro e Draco o abraçou. Como Granger e sua filha, haviam sido só por muito tempo e talvez nunca fossem deixar de ser. No entanto, não sabia cada aspecto da vida da menina, como sabia sobre Scorpius. Assim, fechando os olhos, estreitou o abraço e apoiou a cabeça contra a do filho. – Sempre irei sentir.

Tinha poucas certezas em sua vida. Scorpius era uma delas, mas essa sempre seria a mais dolorida e tangível.

FIM

Notas finais
Então, essa foi a segunda e última parte da história! Ficou tudo bem, mas não bem como a gente gostaria. Eu ando gostando cada vez mais desse tipo de história em que as coisas se ajeitam, mas se ajeitam como na vida: agridoces. É uma realidade em que a filha de Hermione é apenas Granger, como ela disse que seria. Eu gosto de explorar essa camada mais covarde de Draco. Acredito que diferente de Hermione, ele não teria o altruísmo necessário pra ir contra os padrões, pra lutar pelo que ama/amou. E a vida seguiu. Muito obrigada pelos comentários, afinal, fazia algum tempo que eu não vinha com uma dramione, então foi bom testar essas águas novamente. Vocês são sempre gentis! Espero que tenham curtido e me contem o que acharam dessa parte! Até uma próxima ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!