Notas iniciais
Esse capítulo é o auge da short fic, ok? O próximo a ser postado amanhã será o season finale. Mas espero que curtam e chorem com esse capítulo.

Os meses foram passando e eu continuava com Nanda. Fizemos tudo certinho: tivemos um primeiro encontro, um segundo, um terceiro

até pedi-la oficialmente em namoro.

Mas algo estranho acontecia de vez em quando. Às vezes, ela dormia lá em casa e acordava se sentindo mal, meio pálida. Às vezes, sumia por uns três dias, recusava minhas ligações e depois aparecia cheia de amor para dá.

Claro que ela não estava me traindo, disso eu tinha certeza. Mas havia algo que não a deixava em minhas mãos completamente. -Nanda?- essa era umas épocas que ela estava sumida. Estava tentando falar com ela pelo celular.

-Sim, amor.- a voz dela estava fraquinha.

-O que aconteceu, querida? Onde você está?

-Não é uma boa hora, Daniel.

-Onde você está, Nanda?- minha voz se tornou mais autoritária.

-Não, Daniel. Não posso. Simplesmente não posso.- ouvi a voz grossa de alguém no outro lado.- Te amo.- e desligou o celular.

Havia um homem com ela.

Ela estava me traindo.

A única porra de certeza que eu tinha sobre a gente era que ninguém estava traindo ninguém.

Peguei a primeira coisa que vi e taquei na parede. Perdi o controle sobre mim mesmo e comecei a quebrar as coisas que via pelo caminho. Por fim, soquei a parede até ver manchas vermelhas de sangue sobra a tinta clara na parede. Minhas pernas fraquejaram e eu caí de joelhos, sentindo as lágrimas escorrerem livremente pelo meu rosto.

Eu estava quebrado por dentro.

Sequei as lágrimas, peguei as chaves do carro e parei em qualquer bar no centro de Londres.

-Uísque, por favor.- o barman atendeu e me serviu uma dose.

As horas foram passando e cada vez eu ficava mais bêbado. Podia estar parado, mas sentia o mundo rodando rapidamente. -Senhor, temos que fechar.- assenti, jogando o dinheiro no balcão. Cambaleei até o carro, sentando no banco do motorista e batendo a cabeça no volante.

Eu precisava vê-la. Precisava mostrar a ela o quanto eu estava sofrendo.

Liguei o carro e fui dirigindo rápido até a casa dela.

Mas num momento, teve um apagão e só escutei uma buzina muito alta...

Xx.

A luz branca que me atingiu os olhos, fez-me fechá-los novamente, pela grande ardência que causara. Sentia minha cabeça pesada e todas as partes do meu corpo doloridas. Percebi minha perna no alto e tentei mexê-la, mas senti uma dor lancinante.

-Quieto, senhor. Estou administrando analgésicos e logo a dor passará.- voltei a abrir os olhos, acostumando- àquela luz intensa e vendo uma garota de branco, com uma seringa na mão e injetando algo na bolsa pendurada.

Logo a sensação de entorpecência tomava conta de mim e eu apaguei de novo.

Xx.

Voltei a acordar, as dores estavam mais fáceis de administrar. Não sabia há quanto tempo estava internado naquele hospital, nem como estava meu estado.

Olhei para o lado e vi Nanda sentada na poltrona, extremamente pálida e com um equipo de soro ao seu lado. Havia um curativo na dobra de seu cotovelo e ela parecia estar mal. Seus lábios sempre vermelhos e macios estavam ressacados e opacos.

Os cabelos estavam bagunçados, diferente das disciplentes ondas que via sempre. Abaixo dos seus olhos havia escuras olheiras e bolsas, como se ela não dormisse bem há dias. Estava mais magra e parecia fraca.

Ela desviou os olhos da TV e sorriu:

-Oi, Daniel.

-Nanda? O que você está fazendo aqui? Está passando mal?- tentei levantar, mas ela me parou com a mão.

-Quieto, mocinho. Vai se machucar mais. Não bastam a perna quebrada e os ferimentos no rosto?- sua voz saiu melancólica. Ela parecia estar sentindo muita dor, mais do que eu.- Já volto.

Ela saiu andando rápido até o banheiro e bateu a porta. Alguns minutos depois, voltou, tão pálida quanto antes, mas o lábio meio arroxeado, como se estivesse com frio. Ela sentou ao meu lado, na beirada da cama.

-Por que fez isso?

-Nanda, você está me traindo?- desabafei antes que meu momento de coragem sumisse.

-O que? Qual seu problema, Daniel. É óbvio que não estou te traindo. Eu já disse e repito: eu te amo.

-Tem certeza?

-Não confia no meu amor?

-Ouvi a voz de um homem quando liguei para você.

-Sim, era o enfermeiro.

-Enfermeiro? Há quanto tempo está aqui, Nanda?

-Mais do que imagina. Vivo mais aqui do que em minha própria casa.- ela deu um riso sem emoção. Umedeceu os lábios e respirou fundo.

-O que você quer dizer, Nanda?

-Eu tenho câncer, Daniel.

-O QUÊ?- meu coração começou a acelerar e eu fiquei com falta de ar. Minha visão foi escurecendo e vi Nanda sendo afastada dali.

Xx.

Voltei a acordar, mas as luzes estava apagadas. Mexi-me na cama e senti algo macio e percebi Nanda deitada ao meu lado.

Não ela. Ela não podia ter câncer. Não a minha menina. Senti as lágrimas invadirem meus olhos novamente e minha respiração acelerar.

Percebi Nanda se mover e coçar os olhos infantilmente, encarando-me. Um sorriso triste se formou nos lábios, enquanto ela se aproximava de mim.

-Me diz que não é verdade.- ela só balançou a cabeça, negando.- Quanto tempo?

-Que eu descobri ou que tenho de vida?

-Tanto faz.

-Nove meses. Quanto ao que me resta... Preferi não saber.

-Nove meses?- eu mordi o lábio.- Foi...

-Antes de começarmos a namorar. Dois meses para ser exata.- uma lágrima escorreu dela. De mim, já haviam escorrido várias.- Por que não me contou antes?

-Lembra quando estávamos na praça e eu disse que não era perfeita para você?

-Mas eu já estava envolvido.

-Imagine eu, Daniel, imagine eu.- agora, ela não segurava as lágrimas.

-E seus sumiços eram...

-Eram as semanas de quimioterapia.

-Mas seu cabelo...

-O cabelo cair nem sempre é um efeito colateral da quimioterapia, sabe? Mas eu não ligava ou avisava a você porque estava no hospital. Vamos dizer que meu estômago não aceita isso muito bem. Eu fico fraca demais, magra demais. Enfim, doente demais. E não queria nem sua pena, piedade ou nojo.

-NÃO!- ela se assustou quando me exaltei.- Não.- repeti baixinho.- Eu não seria capaz disso. Eu ficaria ao seu lado, sempre. Eu te amo, Nanda.

-Uma hora você ia desistir, Daniel. Todos desistem.

-Não, minha querida. Os outros desistem porquem não sabem o que é amar e se devotar a isso. Quando eu digo que eu te amo, não é para eu estar somente no lado feliz, mas para te ajudar nos tristes.- minha voz saía meio engrolada. Ela chorava mais e mais. Eu abri os braços e a ela se deitou ao meu lado, enquanto eu a apertava.

-Oh, Daniel, estou com tanto medo.

-Eu também, minha pequena. Mas tudo vai dar certo, ok?- eu esperava, torcia, implorava que isso acontecesse.

Xx.

Os dias se passarão e minha relação com Nanda era cada vez mais profunda e apaixonada.

Tínhamos medo do que poderia acontecer em seu futuro, mas aproveitávamos como se fosse nosso último dia juntos.

Eu acordei cedo no dia e estava com uma tigela de cereis de chocolate e leite na minha mão quando ela desceu. Usava minha blusa social do dia anterior e tinha os cabelos desgrenhados. Culpa minha, confesso.

-Bom dia, amor.- ela sorriu com o adjetivo e sentou ao meu lado.

-Bom dia, querido.-virei para ela dar um selinho e voltei a comer meus cereais. Deixei a tigela sobre a mesinha de vidro e agarrei ela.

-AAAAAAAAAAAAH! Me solta, seu maluco.- ela ria, enquanto eu fazia cócegas nela. Ela se debatia, mas estava vermelha de tanto rir. Eu gostava de vê-la assim: coradinha. É como tudo fosse o mais normal.

Por fim, deixei-a respirar, enquanto subia por seu corpo e e capturava seus lábios num beijo cinematográfico.

Assim que separei nossos lábios, ela me abraçou e pude sentir seu perfume natural, novamente comparável ao sereno nas mais belas flores.

-Vamos fazer o que hoje?- ela me perguntou.

-Agora, eu vou sair. Sozinho.- ela fez biquinho- Depois eu volto e te digo o que faremos, ok?

-Ok, amor. Eu acho que vou descansar mais um pouco.

-Se precisar de alguma coisa, me liga. Qualquer coisa. E não esqueça de comer algo, está muito magra.

-Tá certo, papai, pode deixar.- dei um beijo em sua testa e saí.

Hoje era o dia. Passei por algumas lojas e escolhi um vestido de gala bem bonito para ela. Um par de sapatos e um colar.

Sairíamos para jantar e ela teria a noite mais inesquecível de sua vida. Meu celular tocou.

-Alô.

-Daniel, oi! Faz tempo que não nos falamos.

-Dougie, dude, quanto tempo.

-Tá disponível para um café?

-Com meu amigo, claro!

Meia hora depois nos encontramos numa Starbucks. Nos abraçamos como se não nos víssemos há anos e desatamos a conversar:

-Como está, Daniel?

-Estou bem, cara. Nanda e eu estamos aproveitando.

-Sério? E como vai a saúde dela?

-Ela faz a quimio regulamente. Esses dias são os piores, mas fora isso, estamos namorando bastante, saindo.

-E o sexo?

-Safado como sempre, certo? Está ótimo. E como vai você? -Estou namorando sério. Ela se chama Rachelle. Nanda gostaria de conhecê-la.- eu sorri. Conversamos mais um pouco, contei os planos de hoje e depois voltei para casa. Já eram 18:00.

-Nanda, estou em casa.- vi bastos cabelos negros cobrirem minha visão e as pernas dela em minha cintura.

-Estava com saudades, amor.- eu sorri. Vi em seus olhos um brilho de felicidade e senti-me mais feliz ainda.

-Também estava com saudades. Olha, comprei isso aqui para você. Eu quero que fique a mulher mais linda desse mundo para as outras pessoas, porque pra mim, não importa o que veste. Aliás, despida é melhor. Você sempre será a mulher mais linda desse mundo para mim.- o sorriso dela ia de orelha a orelha.- Às 20hrs, em ponto.

Ela subiu correndo a escada e eu tomaria banho no andar de baixo.

Às 20hrs, eu levantei e esperei-a na escada. Uma característica de Nanda era a pontualidade. Ela desceu as escadas no vestido preto que eu comprei para ela: havia duas fendas laterais que subiam até a metade da coxa e um ombro só; os sapatos a deixavam uns 10 centímetros mais alta e o colar com o pingente verde escuro refulgia na pele de alabastro dela. Os cabelos caíam com cachos perfeitos nas pontas e usava uma maquiagem suavem, porém com os lábios bem vermelhos.

-Você está divinamente linda. Tem certeza que não é um anjo que apareceu na minha vida?

-Acho que quem irá me salvar é você, Daniel. E não posso dizer que está lindo. A perfeição não pode ser adjetivada com palavra tão baixa.- sussurrou em meu ouvido e mordeu o lóbulo, deixando-o escorregar entre os dentes.

-Não me tente, garota. Se não, nem saímos de casa hoje. Não estou muito afim de mostrar a bela mulher que tenho para esse bando de homens tarados.

-Vamos, bobo.- ela beijou docemente meus lábios e saímos. Podíamos ter 21 anos, mas agíamos como um casal de adolescentes apaixonados. Abri a porta do carro para ela e fui até o meu banco.

No restaurante, todos nos encaravam como se fôssemos o mais belo casal dali. E realmente éramos.

Fizemos nossos pedidos e conversamos sobre meu trabalho.

Eu herdei uma empresa do meu pai e trabalhava em casa. Era um trabalho que sustentava nossos gastos, apesar de eles não serem tão grandes assim e me permitiam uma vida de luxo, ao contrário da vida simples que eu desfrutava. Assim, que chegou a sobremesa, eu levantei da minha cadeira e bati com uma colher na taça de champanhe, chamando a atenção de todos.

-O que você tá fazendo?- ela falou, com um sorriso sapeca no rosto.

-Nanda, eu te amo muito. E desde que te conheci, nunca mais tive vontade de ter outra mulher, de deixá-la por qualquer que fosse. Sua simplicidade, beleza, paixão e carinho me cativam e me prendem até hoje. E não será só hoje ou amanhã. Será o resto da vida. Não importa que você diga que não é perfeita para mim. Eu não preciso da perfeição quando tenho você, amor.- ela sorria, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto.- Você me ensinou a amar e aceitar qualquer defeito, querida. Você me ensinou que podemos lutar contra qualquer medo. E eu quero, Nanda... Ou melhor, preciso. Precisar é a palavra certa. Preciso que você aceite o meu pedido de casamento. Nanda, casa comigo?

Todos do restaurante bateram palmas, enquanto ela levantava e dizia em alto e bom som:

-SIM. É claro que eu caso. Oh, Daniel, é claro que eu caso.- ela me abraçou e nos beijamos ali, enquanto o som das palmas era intensificado. Ela se soltou de mim e bateu na taça de champanhe fazendo todos se calarem.

-Eu queria dar duas notícias. A primeira é que, eu não respondo mais por mim. Agora, respondo por mim e por ele.- ela passou a mão pela barriga.- Parabéns, Daniel, você será pai.- minha respiração acelerou e meu sorriso se alargou por todo o rosto.

Passei a mão pela barriga dela e dei um beijo suave em seus lábios.

-Obrigado. Muito obrigado- mexi os lábios, para que somente ela entendesse.

-E tem mais. Essa segunda notícia é boa, mas veio de algo ruim. Daniel, querido.- ela puxou meu rosto para que eu encarasse seus olhos verdes- Eu fui ao médico hoje entregar os exames. Além da gravidez, eu descobri que...- ela começou a chorar novamente- Eu estou curada! Eu não tenho mais câncer.

-O QUE? SÉRIO?- eu a levantei no alto e comecei a rodar com ela em meus braços.

-Amor, a gente tá no restaurante.- ela falou. Coloquei-a no chão e percebi que chorava tanto quanto ela. Pagamos a conta e voltamos pra casa. Ela subiu correndo no quarto, me puxando pela gravata e fazendo uma cara digna de atriz pornô.

Ela me jogou na cama e ficou em pé, abaixando o zíper do vestido. O mesmo escorregou por seu corpo.

-Esqueci-me de falar, há mais uma notícia.

-Qual?

-Eu fiquei tão feliz quando saí do médico que passei numa loja da Victoria's Secrets. Eu comprei várias lingeries novas.- ela estava usando uma vermelha, tomara que caia e a calcinha era toda rendada, mas não tapava nada. Joguei a cabeça para trás, arfando.

-Assim você me mata, Nanda.

Xx.

Um mês depois....

Ela estava linda no vestido dela. Era um simples, com uma saia não tão aberta e antes de abrir a saia, no fim do espartilho, vinha uma fita preta de seda que atrás formava um belo laço e contrastava com a brancura do vestido. Era o dia mais feliz de minha vida.

Dois anos após o casamento...

-Amor, vamos tomar sorvete?- ela pedia sorvete com uma cara tão fofa que dava vontade de morder.

-Claro, amores de minha vida.- selei seus lábios e depois dei um beijo em sua barriga. Estávamos no nosso segundo filho e faltava pouco para ele nascer. Nossa primeira filha, Sophia, estava na avó, passando o fim de semana.

Fomos andando até a sorveteria perto da minha casa. Descemos a rua e num segundo, estávamos rindo, noutro comecei a sentir muita dor e ouvir gritos. Muitos gritos.

Xx.

Novamente aquela claridade maldita. eu estava no hospital. Acordei de repente e pedi informações a enfermeira:

-Você e sua esposa foram atropelados por um motorista bêbado.

-Como ela está?- falei desesperado.

-Senhor, se acalme.

-Eu quero ver minha esposa.

-Por favor, senhor, acalme-se.- entrou um médico na sala.

-O senhor deve ser o marido de Nanda.

-Sim, como ela está?

-Ela entrou em trabalho de parto e teve um menino saudável.

-Que bom, doutor.

-Não é tudo. Infelizmente, como ela sofreu de várias fraturas e cortes, além de um traumatismo, está em coma.- sentei na cama e comecei a chorar. Uma das razões da minha vida, a principal delas estava em coma.

-Posso vê-la?- ele assentiu e eu fui seguindo ele. Olhei por trás da parede de vidro e vi minha esposa deitada, cheio de tubos espalhados pelo corpo e num respirador.

Aproximei-me lentamente, vendo a quantidade de cortes em seu rosto e corpo. Toquei sua bochecha fria e pálida, afastando os cabelos de seu rosto.

-Nanda, aguente firme. Já passamos por coisas piores.-ela poderia estar desacordada, mas sabia que me ouviria.

Xx.

Os dias passaram e passava todas as horas ao seu lado ou vendo nosso bebê. Eu dei o nome de David. Era uma criança forte e saudável e tinha os cabelos de Nanda. Sim, ele tinha muito cabelo.

Levava o bebê para o quarto e ficava conversando com ambos, a fim que isso funcionasse. Podia ver as batidas do coração de Nanda acelerar em nossa presença, mas não havia outro tipo de reação ou movimentação. Até hoje.

Hoje, trazendo o bebê como sempre e conversando, reparei em seu dedos se mexendo e chamei o médico rapidamente.

-Doutor! Minha mulher, ela se mexeu.- ele veio correndo saber o que estava acontecendo. Fiquei na porta com Dave em meu colo, curioso para saber o que estava acontecendo.

-É a mamãe, meu filho, ela está se mexendo.

-Senhor, ela está acordada.- sorri abertamente e entrei apra falar com ela.

-Nanda, Nanda, meu amor, você está bem!- fiquei bem perto dela e selei seus lábios. Ela deu um sorriso fraco.

-Daniel, a verdade é que não estou bem. Estou aqui só para me despedir de você.

-Não, Nanda, você está bem. Olhe o David, é a sua cara.- ela acariciou o rostinho pequeno dele e sorriu abertamente.

-Mas a boca dele é igual a sua. E espero que tenha um sorriso tão bonito quanto.

-Não, Nanda, você verá o sorriso dele. Verá como ele ficará bonito se formando, tendo família.- as lágrimas escorriam novamente.

por meu rosto. A enfermeira chegou e tirou David de mim.

-Daniel, por favor, é meu destino morrer jovem.

-Não, Nanda, não é. Você venceu o câncer, pode vencer isso também.- ela chorava tanto quanto eu.

-Daniel, eu já disse que você é a melhor coisa que aconteceu em minha vida?

-Nanda, por favor, não me abandone.-eu estava de joelhos e ela fazia cafuné, enquanto me olhava.

-Você é a coisa mais preciosa, a jóia mais rara que apareceu em minha vida. Você me mostrou um Sol, quando eu só poderia ver as nuvens. Me mostrou o que é ser amada, quando eu só via pena e piedade. Mostrou o lado bom da vida, Daniel, quando eu achava que nada daria certo.

-Nanda, não, por favor...

-Sabia que no dia que eu cantei no pub, eu iria voltar para casa e me suicidar? Se você não tivesse me perguntado para quem era a música, eu teria ido para casa decepcionada com minha última arma e veria o fim da minha vida ali. Você me proporcionou os melhores anos da minha vida.

-Nanda, fique quieta, por favor.

-Quando chegar em casa, Daniel, pegue meu livro preferido. E verá que há algo nele para você e para as crianças. Deixe um beijo para Sophia e diga a ela e a David, todos os dias pela manhã, que mamãe os ama muito e que, mesmo não estando fisicamente, estou perto, olhando tudo que ele faz.- eu levantei e encarei-a em seus olhos. Beijei seus lábios como costumava fazer e senti que era uma despedida.

-Eu te amo, Nanda.

-E eu amo você incondicionalmente, Daniel. Não direi adeus, porque voltaremos a nos encontrar algum dia. Não logo, mas voltaremos a nos ver. E estamos no mês de novembro, Daniel.- passei a mão uma última vez, até ouvir um barulho no aparelho. Os enfermeiros me empurarram e surgiram como aparelhos para fazê-la voltar. Mas não haveria volta.

Xx.

O dia seguinte fora o enterro. Chovia demais, mas fiz questão de enterrá-la mesmo assim. Foi bastante gente e assim, tive noção de quanto Nanda era querida. Seus pais, tios, primos, amigos. Meus amigos foram também, todos chorando.

Para mim, não havia mais lágrimas no mundo.

Cheguei à minha casa, bem mais vazia e solitária e coloquei as crianças para dormir um pouco a tarde e fui para nosso quarto. Deitei em nossa cama e senti o cheiro tão marcante dela. Havia um livro ao lado da cama. Era o livro preferido dela. Comecei a mexer nele e vi um envelope cair.

Havia um recado dentro dele.

"Daniel, amor da minha vida

Se você está lendo isso, creio não estar mais ao seu lado. Mas queria brincar com você, só um pouco.

Há vários envelopes escondidos em lugares estratégicos pela casa. A cada novo envelope, haverá uma pista diferente., ok?

Primeira pista: uma vez, Dougie estava de ressaca e veio para cá. Só que ele vomitou num lugar não muito bom. Se lembra?

Então vai lá."

Corri para o quarto das crianças, antigo quarto de hóspede e mexi no criado mudo. Foi a única coisa que Nanda não quis mudar de jeito nenhum naquele quarto. Remexi por entre as folhas e encontrei um envelope. Abri e tinha duas coisas: duas fotos e uma carta.

Uma das fotos era ela e Dougie na foto, com uma garrafa de tequila. Sorriam abertamente e possivelmente bêbados. Eu quis tirar essa foto porque ela estava feliz. a outra era do dia seguinte, quando ela estava dormindo. Eu sempre dizia que a via dormir porque era a coisa mais fofa que ela fazia.

"Daniel, hei.

Sua memória não está tão ruim, certo? Lembra que você gostava de me ver dormir, apesar de eu não ver graça nenhuma?

E quando estávamos bêbados, nós três. Coitado do Dougie, foi uma péssima noite. Mas vamos a próxima dica.

Segunda pista: É o meu lugar preferido com exceção do quarto. Tem uma coisa que gostamos muito lá."

Desci para a cozinha e procurei onde guardávamos os potes de Nutella. Éramos chocólatras e adorávamos Nutella. Embaixo dos potes, havia um terceiro recado e mais duas fotos.

A primeira era do aniversário dela, enquanto fazíamos o bolo. Teve uma guerra de farinha e a cozinha virou um caos. Ela tirou uma foto assim da gente. A outra, foi quando eu a sujei toda de Nutella e ela fez uma cara infantil para a foto. Eu mordia a bochecha dela e estava tão sujo quanto.

"Nutella, hein? Aquilo caiu dos céus, junto com você. Isso me lembra de uma arte que fizemos na cama. Eu, você, Nutella. Inesquecível, huh? Tão inesquecível quanto limpar aquela cozinha toda enfarinhada.

Terceira pista, my boy: Na segunda vez que nos vimos, você o carregou. Dentro dele, há mais fotos e a próxima pista."

Peguei o violão dela e descobri uma envelope ali. Peguei as fotos: uma era a que eu cantava no pub e a outra, era ela no violão. Ela usava uma blusa social minha e tinha os cabelos desgrenhados. Estava tão compenetrada em tocar que nem percebera quando eu tirara a foto.

"Amor,

Deve estar se perguntando onde acho essas fotos. Tsc tsc, aprenda a colocar uma senha que não seja 'senha', ok? Tirar fotos minhas assim não deveria ser permitido. Vamos à quarta pista.

Quarta pista: Minha coleção coleção de sapatos. Você saberá onde está."

Subi até nossos closet e vi a imensa coleção de sapatos dela. Mas havia uma em especial que ela gostara muito. Aliás, ela amava aquele sapato. Era um Louboutin com laços atrás que eu dei à ela quando comemoramos três meses de namoro. Dentro do envelope, havia uma foto dela com uma blusa social fechada abaixo do busto e mostrando a barriga de 6 meses. Ela estava de lado e olhava para a barriga, enquanto o Sol batia em seu rosto. A outra era uma em que eu segurava o nosso filho. Ela tirara a foto.

"Oi, amor.

Eu te darei a última pista, ok? Mas primeiro, quero que faça uma coisa. Ponha minha música preferida da minha banda preferida para tocar. Ele está no mesmo lugar que a quinta e última pista.

Quinta pista: Uma vez eu disse a você que tinha uma terceira notícia. Onde eu a guardava?"

Fui até a gaveta de lingeries dela. Havia um envelope grosso ali dentro e o CD estava ao lado. Pus no micro-system e sentei na poltrona reclinável.

A voz de Axl Rose começaria a soar logo, enquanto eu tremia, pegando a última carta.(coloque November Rain para tocar)

When I look into your eyes

I can see a love restrained

But darling when I hold you

Don't you know I feel the same

'Cause nothing lasts forever

And we both know hearts can change

And it's hard to hold a candle

In the cold november rain

We've been through this such a long, long time

Just trying to kill the pain, oh yeah

(Quando olho nos seus olhos

Posso ver um amor contido

Mas querida, quando te abraço

Você não sabe que eu sinto o mesmo?

Porque nada dura para sempre,

E nós dois sabemos que os corações podem mudar

E é difícil segurar uma vela

Na chuva fria de novembro.

Nós estamos nessa busca a tanto, tanto tempo

Simplesmente tentando matar a dor, oh yeah)

Eu não queria abrir aquele último envelope. Era me fazer acreditar que ela havia partido para sempre. Que não chegaria com seu sorriso típico e feliz por eu ter obedecido suas ordens na carta.

Era acreditar que eu não a teria mais em meus braços e não sentiria seu cafuné, antes de dormir. Não veria seus olhos brilharem todos os dias, pela manhã, quando via nossa filha acordando e a chamando de mamãe.

Não sentiria seu corpo quente contra o meu em nossos momentos íntimos e não tocaria mais em suas curvas esculpidas para mim. Nunca mais.

Os dedos tremiam enquanto eu abria o envelope grosso. As fotos eram todas dela com lingeries sexies e sapatos altos. Uma foto era um tipo novo. Havia algumas conhecidas por mim e outras que eu nunca havia visto.

A carta começava assim:

"But lovers always come

And lovers always go

An no one's really sure

Who's letting go today walking away

If I could take the time

To lay it on the line

I could rest my head

Just knowing that you were mine, all mine"

(Mas amores sempre vem

E amores sempre vão

E ninguém está realmente certo

De quem está deixando partir hoje... Indo embora

Se eu pudesse usar o tempo

Para falar francamente

Eu poderia descansar minha cabeça

Simplesmente sabendo que você foi minha, toda minha)

Virei o verso da folha, onde começava a carta propriamente dita.

"Amor,

Espero que tenha gostado das lingeries, não pude te mostrar todas, mas torço para que goste de me ver nelas.

Você deve estar se perguntando porque eu fiz esse jogo com você. Deve estar se pergunta porque uma morta faria isso.

Todas as fotos foram dos momentos mais felizes que nós tivemos, querido.

Eu nunca deixei de te amar, em nenhum momento.

Nosso relacionamento foi um raio de Sol num dia nublado. E depois, transformou as nuvens escuras em brancas e clareou todos os meus dias, motivando-me a nunca desistir.

E é isso que eu peço, Daniel, nunca desista. Nunca desista de viver, por mais tentador e provocativo que seja.

Morrer não é resolver os problemas e sim abandoná-los e deixá-los a outras pessoas."

Minhas lágrimas molhava as folhas que haviam nas minhas mãos.

So if you want to love me

Then darling don't refrain

Or I'll just end up walking

In the cold november rain.

(Então, se você quiser me amar

Então querida, não se contenha

Ou simplesmente terminarei andando

Na fria chuva de novembro)

Na chuva fria de novembro, ela sempre repetia. Só porque eu me declarei a ela e nos beijamos num parque, embaixo da chuva. No mês de novembro.

Pode ser idiota, mas ela dizia que era a coisa mais romântica, pois já estava escrito antes mesmo de querermos nos aproximar.

Voltei a ler a carta:

"Do you need some time... on your own

Do you need some time... all alone

Everybody needs sometime... on their own

Don't you know you need sometime... all alone"

(Você precisa de um tempo?... para você

Você precisa de um tempo?... totalmente sozinha

Todo mundo precisa de um tempo.. para si

Você não sabe que precisa de um tempo?... Totalmente sozinha?)

Claro que você precisa de um tempo, amor. No início, você negará que eu morri. Não aceitará isso e se isolará do mundo. Depois sentirá raiva. Muita raiva. Principalmente de Deus. Não fique bravo com Ele. Ele só tira as pessoas na hora certa e as faz se encontrar novamente na hora certa. Depois, tentará barganhar com Deus. Mas eu já estou morta e não adianta nada tentar me fazer reviver, certo? Ficará depressivo, beirando a morte e terá que ver os pontos de felicidade. Quando isso acontecer, descobrirá que aceitou minha morte e estará pronto para seguir adiante.

I know it's hard to keep an open heart

When even friends seem out to harm you

But if you could heal a broken heart

Wouldn't time be out to charm you

(Eu sei que é difícil manter um coração aberto

Quando mesmo os amigos parecem te machucar

Mas se você pudesse curar um coração partido

O tempo não pararia para te encantar?)

-Não, Nanda, eu não aceitarei. Nunca.- falava alto, sentindo o gosto salgado em minha boca. O rádio continuava a tocar:

Sometimes I need some time... on my own

Sometimes I need some time... all alone

Everybody needs some time... on their own

Don't you know you need some time... all alone

And when your fears subside

And shadows still remain

I know that you can love me

When there's no one left to blame

So nevermind the darkness

We still can find a way

'Cause nothing lasts forever

Even cold november rain

Don't ya think that you need somebody

Don't ya think that you need someone

Everybody needs somebody

You're not the only one

You're not the only one

(As vezes eu preciso de um tempo... para mim

As vezes eu preciso de um tempo... totalmente sozinho

Todo mundo precisa de um tempo.. para si

Você não sabe que precisa de um tempo?... Totalmente sozinha?

E quando seus temores se acalmarem

E as sombras ainda permanecerem

Eu sei que você pode me amar

Quando não sobrar mais ninguém para culpar

Então não se preocupe com a escuridão

Nós ainda podemos encontrar um jeito

Porque nada dura para sempre

Nem mesmo a fria chuva de novembro

Você não acha que precisa de alguém?

Você não acha que precisa de alguém?

Todos precisam de alguém

Você não é a única

Você não é a única)

A música acabou.

Mas minha vida não e eu a continuaria por Nanda. Porque ela pediu. Olhei suas últimas palavras.

"Você não me esquecerá, mas seguirá sua vida. E vai perceber que se tornará mais forte a dor. Ela nunca deixará de existir, mas você será resistente a ela.

Eu te amo tanto, Daniel, que seria maior que o Universo e suas milhões de galáxias. Se cuide e cuide dos nossos filhos.

Beijos,

da sua amada Nanda."

-Beijos para você, Nanda. Do seu amado, Daniel.

Notas finais
Você tem alguma opinião? Crítica? Dá um review que eu respondo, ok? Beijos e chocolates para vocês ;)