Nove Meses
2 Descoberta
Notas iniciais
A música irritante soou em meus ouvidos, e eu tateei automaticamente meu celular pela mesa de cabeceira até conseguir desligá-lo.
Primeiro dia de aula após o recesso de Natal.
Eu não estava preparada para isso, com certeza não. Olho minha barriga por cima do cobertor e, involuntariamente, repouso minhas mãos em cima. Não há relevo, não há movimentos, mas eu sinto alguma coisa ali. Infelizmente, não é verme ou algo do tipo.
Não pense, Ally, se você ignorar, passa a deixar de existir.
Levantei de má vontade, indo para o banheiro fazer minha higiene matinal, depois do banho, vesti uma calça vermelha, e uma blusa listrada de manga comprida, porque ainda era inverno. Geralmente usava anabelas para ir ao colégio, já que sou meio baixa, mas dizem que pode ser perigoso para a gravidez, por conta do equilíbrio e risco de cair, então optei pela sapatilha preta.
– Bom dia, querida – meu pai beijou o topo da minha cabeça.
Meu pai era o melhor do mundo. Ele tinha uma loja de música, onde eu trabalhava após as aulas, a Sonic Boom. Ele me ensinou todos os instrumentos que eu sabia tocar, e eu fui seu maior consolo depois que Penny foi para África. Foi ele o maior incentivador do meu sonho de ser musicista. Eu não poderia desapontá-lo, não depois de mamãe ter nos deixado.
As sapatilhas faziam meus pés coçarem. Olhei para o andar de cima, quase podia visualizar meus saltos. Olhei para os meus pés, e para meu ventre.
– Bom dia, pai – respondo, pegando uma fruta. Sentia-me enjoada.
– Não vai comer, querida? Você precisa se alimentar direito.
Você nem imagina...
– Não, papai – dou um sorriso amarelo para ele – Estou atrasada para a aula, de qualquer maneira. Só tenho que trocar meus sapatos.
– Esses parecem ótimos para mim, querida.
– Papai – revirei os olhos, dando uma risada obviamente forçada. – Você não entende nada de moda.
Troquei minhas sapatilhas pelos saltos e desci as escadas correndo, pulando os degraus e desejando um bom trabalho para o meu pai. Eu não estudava muito longe da Marino, então não demorei a chegar.
Foi a coisa mais estranha que já me aconteceu.
Todos, absolutamente todos, me encaravam.
– Me confirmaram que era verdade – ouvi uma garota do décimo ano comentar. Ela cochichava com uma, que respondeu:
– Não parece verdade para mim.
Franzi o cenho, andando pelos corredores. Por onde eu passava, os olhares estavam em mim, e os cochichos também. Será que colaram algo nas minhas costas sem eu perceber?
No nono ano, o primeiro que eu tive na Marino e com Austin, ele colou uma placa com “a vaca faz” escrito, e por onde eu passava, as pessoas faziam “muuuuuu” para mim.
Eram bons tempos, com certeza mugirem para mim era melhor do que o problema que tinha hoje em dia.
– Ouvi dizer que ela não sabe quem é o pai.
– O que me surpreende é alguém querer transar com ela.
Estaquei no lugar, olhando para as duas meninas veteranas como eu que riam maldosamente. Uma delas, por sinal, acenou com os dedos, enquanto a outra fazia cara de nojo.
Revirei os olhos, sentido as lágrimas e a fúria chegarem, e respirei fundo, tentando me acalmar para achar Austin.
E matá-lo!
Eu confiei nele, e ele contou para todo mundo! Agora todos sabiam o que não deviam saber, e o inferno que era minha vida nesse colégio aumentaria mil vezes.
– Ally? Ally Dawson, a esquisita? Puta merda! – ouvi um jogador de basquete comentar com a namorada
– E nós que somos os burros – a namorada respondeu.
Então eu virei por um corredor e lá estava ele. Brincando com os amigos jogadores, provavelmente contando para eles, para depois rirem de mim.
Meus batiam furiosamente contra o chão. Quando ele botou os olhos em mim, seu sorriso morreu e a confusão deu lugar. Que fingido!
Empurrei-o contra o armário, e os amigos dele nos olharam assustados. Austin também parecia assustado.
– Você contou? Seu maldito! Eu confiei em você, e a primeira coisa que acontece quando eu piso no colégio é todo mundo falando sobre a droga da minha gravidez.
Ele arregalou os olhos, e se apressou em negar.
– Você está mesmo grávida? – um moreno alto, de olhos verdes, amigo de Austin perguntou, e eu empurrei Austin de novo. – Calma, pega leve, gatinha. Não foi por Austin que eu soube. Foi por aquele esquisito que ta sempre colorido. Na verdade, eu soube pela amiga da irmã dele.
Soltei Austin, sentindo minha têmpora doer. A dor de cabeça já vinha, provavelmente pela falta de um café da manhã decente e dos problemas que me cercavam.
Ok. Dez soubera provavelmente por Trish, e isso não era realmente um problema, eu confiava em Dez. Só que ele devia ter contado para a irmã que contou para a amiga, e assim sucessivamente.
Minha vida era oficialmente uma droga.
Ouvi o sinal tocar, mas não estava com a menor vontade de ir para a sala, então sentei no chão, com as costas apoiadas contra os armários que antes eu empurrara Austin contra.
– Ally, você está bem?
– Minha vida está arruinada, Austin. Eu tinha tudo perfeito, ou na medida do possível. E agora eu não tenho mais nada.
Senti seu braço me rodeando e eu apoiei minha cabeça em seu ombro. Novamente ele me consolando, novamente estranho.
O corredor estava vazio, então por isso nenhum de nós dois viu a necessidade de fingir que não nos conhecíamos ou a pose de ódio eterno. Não que Austin fosse meu melhor amigo agora, mas ele me ajudou, e eu não posso ficar com raiva ou indiferente.
Uma sombra apareceu no fim, e eu estiquei minha cabeça para ver quem era.
Não. Não. Não.
Essa não.
Dallas me encarava em um misto de confusão e raiva, seus cabelos castanhos estavam jogados para trás, o que me dava uma boa visão de sés olhos castanhos. Ele não estava nem um pouco contente.
Levantei-me em um salto, quase caindo, se não fosse por Austin me segurar. Ele olhou para os meus pés e arregalou os olhos. Eu entendi: depois conversamos sobre isso.
– Ally, o que está acontecendo aqui?
– É... eu... estou aqui com o Austin, conversando – funguei, tentando tirar os vestígios de lágrimas.
Austin bateu a mão a própria testa.
– Moon, pode nos deixar a sós? – perguntou friamente. Olhei para Austin, implorando para que ele ficasse, não queria encarar Dallas agora.
Nem nunca, de preferência.
– Acho que vou ficar por aqui mesmo – Austin respondeu no mesmo tom.
Dallas deu de ombros.
– Ok. É verdade o que eu ouvi por ai, Ally? – se aproximou de nós dois. Aproximou-se demais. – É verdade que está grávida?
Puxo o ar com força, na ideia de que talvez se entrar muito ar, meus pulmões não vão aguentar e vão explodir. Infelizmente isso não acontece, e a única coisa que eu consigo fazer é abaixar a cabeça e assentir.
Sinto as mãos de Austin apertarem de leve meus ombros, e me senti um pouco mais confiante.
– Certo – fez um barulho com os lábios. – Com quem você transou?
Levanto minha cabeça com tanta rapidez que meu pescoço dói. As lágrimas ameaçam voltar, mas eu as engulo, Dallas não merece, não mesmo.
Eu posso ter entendido errado também. Dallas não falaria isso.
– Desculpa, acho que eu entendi errado – minha voz não passava de um sussurro.
Alguns alunos passavam ali, e quando viram a cena, estacaram.
– Não entendeu não. Com quem mais você transou? Com o Austin – o olhar dele estava carregado de desprezo. – Até que faz sentido, essa coisa de ódio e reclamação era só desculpa para você estar dando para ele – não pensei, juro que não.
Em um momento, a voz dele aumentava mais e mais, e em outro, minha mão ardia com o tapa estralado que eu dei em sua face.
As pessoas que olhavam arregalaram os olhos, e eu ainda podia ouvir o barulho ecoando no corredor.
– Nunca mais chegue perto de mim, seu nojento – empurro Dallas e mesmo com os protestos de Austin, saio correndo.
Não vi para onde estava indo até chegar ao auditório do colégio. Era um lugar usado par grandes reuniões, apresentações do clube glee, e os recitais. Hoje estava completamente vazio e com quase todas as luzes apagadas. Apenas o palco estava iluminado, e lá, o piano.
Eu amava o piano com todas as minhas forças, era a ele que eu recorria sempre que as coisas estavam ruins. Eu passei anos sem tocar um, pois quando pequena, era o único instrumento que Penny tocava, e era muito doloroso ouvir as notas novamente.
Sentei no banco, abrindo-o, toquei poucas notas aleatórias para ver se não estava desafinado.
Eu tinha doze anos quando tomei coragem para tocar um piano novamente, e então não parei mais.
Resolvi tocar a melodia suave, porque eu precisava me acalmar. Não acreditava que Dallas, o namorado perfeito, aquele que dividiu sua primeira vez comigo, que sabia que eu era dele e eu sabia que ele era meu, falara tudo aquilo.
A melodia era uma que minha mãe tocava para mim todas as noites antes de eu ir dormir, era música clássica, porque ela queria que eu fosse o mais erudita o possível. Foi a música que eu mandei para mandei para Julliard na minha audição.
Ela representava tudo que eu estava perdendo. Minha juventude, meu namorado, meu futuro, minha mãe.
Tudo estava dando errado, e nem era meio dia ainda.
– Não sabia que tocava piano – parei de tocar imediatamente ao ouvir a voz de Austin, ele vinha para o palco com um sorriso suave.
– Acho que a única coisa que você sabe sobre mim é que eu estou grávida, Austin. – respondo seca.
Ele se senta do meu lado, e continua a melodia. Não deixo de ficar surpresa. Seus dedos se movem delicadamente contra as teclas e eu não deixo de notar que em seu punho há sangue grudado.
– O que houve? – perguntei.
Ele sorriu sem graça e tentou limpar na calça jeans.
– Não é como se fosse exatamente o meu sangue. – meu queixo cai e eu assumo rapidamente que o sangue era de Dallas.
– Ele mereceu – digo finalmente – Não sabia que conhecia Chopin – retruco.
– Acho que a única coisa que você sabe sobre mim é que eu fui completamente babaca com você. – me imita.
Lembro de todas as vezes que Austin me humilhou, zombou de mim, ou me irritou de algum jeito. Antes, meu sangue ferveria, agora, só consigo sentir o vazio que Dallas deixou.
– Tudo bem – suavizo – Você tem sido legal comigo.
Toco umas notas aleatórias, sentindo todas as frustrações do mundo caindo sobre meus ombros. Quando dou por mim, estou chorando de novo, e isso me deixa com mais raiva.
Não queria estar chorando por Dallas, não queria estar chorando por não ir estudar em Nova York, não queria estar grávida.
– Está tudo dando errado – fungo, chorando mais – Eu vou ter um filho antes dos dezoito, meu pai vai me odiar, Dallas foi um completo babaca. Eu perdi a chance em Julliard. Meu futuro acabou.
Ele me abraça, e logo eu molho a camisa dele toda.
– Você disse Julliard? – perguntou, e eu concordei levemente. – Vou para lá em setembro. Íamos nos encontrar por lá.
– Seria mais bullying da sua parte – zombei e ele riu.
– Eu tinha uma queda por você no nono ano – ele disse e eu o olhei assustada – Já passou, mas eu te achava bonitinha e inteligente. Por isso eu te zoava, você me deixou de ego ferido e eu queria chamar sua atenção.
Ri mais, gargalhando, logo ele me acompanhou e éramos dois imbecis rindo de alguma coisa tão imbecil quanto.
Austin me fez um favor imenso, e ainda fazia. Ele me fazia esquecer.
Como em um daqueles desenhos animados, uma lâmpada acendeu em cima da minha cabeça.
– Austin, ainda tem como eu encontrar com você em Julliard.
Ele franziu o cenho e me olhou pensativo. Devia estar me imaginando amamentando e tocando piano. Brincando com o bebê enquanto todos compõem.
– Como exatamente? – finalmente perguntou.
Levantei-me em um salto, quase caindo de novo, se não fosse por ter me segurado no piano.
– Vamos matar aula, preciso da sua ajuda para me livrar disso.
Fale com o autor