Nove Meses

14 Barcelona


Notas iniciais
Oláaaaaaaa. Como vão? Eu disse que não abandonaria e aqui estou eu. Considerações: — Quero agradecer a todos que comentaram. É sempre bom ver que, por mais que eu demore, sempre vai ter os fiéis leitores que me fazem tão feliz. — A música citada nesse capítulo é Barcelona, do George Ezra. Não é necessário que escutem, mas eu adoraria, é ótima. — A fanfic está na segunda metade, o que significa que logo, logo ela vai acabar ): Dependendo da recepção de vocês, pode acontecer uma continuação, mas ainda não tenho certeza. Então comentem enquanto há tempo, recomendem, favoritem. Significa muito! — Não revisei, então caso achem algum erro, me avisem para poder corrigir. Aproveitem!

Dizem que quando você está perto de morrer você vê toda sua vida passando diante dos seus olhos. Então talvez, inconscientemente, eu soubesse que não iria morrer, porque depois que eu desmaiei tudo que passou pela minha cabeça era um vazio enorme.

Para não mentir totalmente, eu tive um sonho em meio a sons estranhos. Na verdade, o sonho em si foi completamente estranho.

Eu estava em uma praça, mas não era qualquer praça. Nem ao menos era nos Estados Unidos. Eu estava na Praça Sant Felip Neri. Em Barcelona. O que eu estava fazendo lá, eu não fazia a menor ideia, mas ir para Barcelona sempre foi um dos meus maiores sonhos e já que eu estava por lá, por que não aproveitar?

Ela era cercada por prédios góticos do século XIX, mas não era feia por isso; dava um ar atemporal e majestoso. Era simples e quase esquecida por ficar escondida entre tantas ruas. Tinha uma fonte mediana e desbotada no centro dela, e sentada ali, brincando suavemente com a água da fonte, estava uma menina.

Meu coração deu uma volta, e eu senti que, mesmo sem conhecê-la, ela era a pessoa mais importante da minha vida, ou, pelo menos, eu gostaria que fosse. Parecia ter uns dezesseis anos e os cabelos longos e castanhos estavam soltos, escondendo seu rosto de mim.

Eu queria me aproximar, mas tinha vergonha. E se ela me despachasse? Se ela não quisesse falar comigo? Ela não tinha obrigação nenhuma de ouvir o que quer que eu quisesse dizer a ela. Resolvi vencer meus receios e me aproximar dela.

— Com licença — encosto devagar no ombro dela e ela se vira bruscamente para mim.

Seu rosto é branco, mas bronzeado e seus olhos castanhos esverdeados estão vermelhos, assim como seu nariz, indicando que ela havia chorado recentemente. Ela se levanta em um rompante e eu recuo um passo, ela é bem mais alta que eu.

— Você não tinha o direito de fazer o que fez!

Do que você está falando, sua louca?

— É tudo sua culpa! — continuou acusando.

Eu recuo mais um passo, conforme ela vai avançando em minha direção. Estou assustada, aquela adolescente louca poderia fazer alguma coisa comigo e, grávida, correria o dobro de risco.

Então sinto falta de alguma coisa. Olho para baixo, e minha barriga não está mais protuberante. Não estou mais grávida.

Arregalo os olhos e volto para a menina. Como não notei antes? Os olhos de Dallas, o porte magro igual ao meu. Nosso nariz era exatamente o mesmo.

— Você é....

Mas ela me interrompe, não parecendo mais irritada, mas confusa, ela inclina a cabeça para o lado, como se um lado da cabeça pesasse mais que o outro.

— Acorde, Ally. — seu tom de voz era distante.

— Como?

Acorde.

Abro os olhos em supetão, fechando-os logo em seguida devido a claridade excessiva do lugar. Tento me mover, mas algo no meu braço me machuca, então desisto.

Tento abrir os olhos novamente, dessa vez devagar, e percebo que estou deitada em uma cama de hospital e no meu braço se encontra uma intravenosa com um liquido transparente. O que raios eu estou fazendo no hospital?

De repente, o sonho que eu tive me atinge como um soco e eu olho para minha barriga, estranhamente desesperada para que a bebê ainda estivesse ali.

E estava. Minha barriga protuberante era evidente por baixo da camisola e do lençol do hospital. Senti um alivio tão profundo e sincero que é quase impossível de descrever.

Ajeito-me na cama como dá, sem machucar a agulha na minha veia e me matar de algum jeito. Quando terminei, a porta do quarto se abriu e Austin entrou, com um copo de café na mão e bebendo por um canudinho. Ele estendeu os olhos em minha direção e pensei que ele fosse se jogar em mim. Seus olhos estavam avermelhados e ele parecia pálido demais, ainda usava as mesmas roupas do dia do jantar, então imaginei que não estivesse há tanto tempo assim no hospital.

Ele sorriu de lado e suspirou aliviado, a tensão em seus ombros se esvaiu no mesmo momento. Seus olhos cansados brilharam.

Eu entendi que ele não precisava sempre fazer um escândalo quando me via em situações assim, ele estava feliz por me ver e demonstrava isso perfeitamente. Esperava que eu também parecesse tão feliz por o ver quanto eu me sentia.

— Vou chamar o médico, Alls.

E simples assim, saiu. Ninguém nunca tinha me chamado de algo que não fosse Ally. É um daqueles nomes que não tem como apelidar, porque ele em si já parece um apelido. Gostei de como soou nos lábios de Austin.

Se bem que estou gostando dele a tal ponto que não importa a baboseira que ele diga, vai soar bem nos lábios dele.

Maldito loiro patético e lindo.

Ele volta rapidamente com um médico alto, forte, por volta dos quarenta anos, loiro e com olhos azuis puros como um dia de sol sem nuvens. Parecia vindo direto de um catálogo de modelos. Desculpa, Austin, mas tenho um novo amor.

Austin reparou como eu olhava para o médico e fechou a cara, pigarreando. O médico sorriu para mim e olhou alguma coisa na ficha que carregava. Até o sorriso dele era lindo, meu Deus.

— Você deu um baita susto no seu namorado, hein, Srta. Dawson. — a voz dele parecia como o coral de mil anjos.

— O que aconteceu, afinal? — pigarreio, sentindo minha voz dura e áspera por ficar muito tempo sem falar.

— Você teve uma crise de hipertensão. Sua pressão sanguínea aumentou muito, quando chegou aqui ela estava em 25 por 3. Tem sorte de não ter acontecido nada com você ou com o bebê de vocês — ele sorriu para Austin, que forçou um sorriso de volta — Pelos exames que fizemos em você, pudemos ver que você já sofria de hipertensão antes; é hereditário, mas com a gravidez se intensificou. Você provavelmente deve ter saído bastante da dieta. Estou certo?

— Talvez — mas minha cara de culpada não nega. — E o bebê, dr...?

— Solace — ele responde — Apolo Solace.

— Como o deus grego da medicina. — digo, focando em deus grego.

Ele ri, como se já tivesse ouvido aquilo antes.

— Meu filho e o namoradinho dele, Nico, brincam bastante sobre isso. — ele olhou a ficha novamente — De qualquer jeito, o risco da gravidez aumentou bastante. Dieta não vai ser suficiente se você corre risco de eclampsia. Você tem sua obstetra, sim? — assinto — Vou passar umas medicações, mas como não sou especializado, marque uma consulta o mais rápido possível para ver melhor.

Ele anota umas coisas que Austin tenta ver por cima do ombro, mas falha.

— Se eu tomar esses remédios vou melhorar, não é?

— Não é motivo para abandonar a dieta, mas sim, sua pressão se estabilizará — ele lança um último sorriso para mim e para Austin — Vou deixá-los à vontade, com licença.

E me deixou sozinha com Austin; estava assustada, confesso. Não queria ficar sozinha com Austin, não quando eu e minha irresponsabilidade quase nos mataram, eu e a bebê.

Não suportaria olhar para ele sabendo do risco idiota que eu nos pus, e por causa do que eu omitia.

As coisas seriam tão mais fáceis se o bebê fosse de Austin, ou mesmo se eu não tivesse grávida. De preferência a última opção.

Ele se sentou ao meu lado na cama e acariciou minha bochecha levemente, me fazendo estremecer com o toque e fechar os olhos. Era tão natural, tão bom, fazia eu me sentir tão em paz e tão esperançosa. Como um simples toque podia fazer isso comigo?

Senti seus lábios em minha testa e sorri levemente com o gesto. Ele se afastou e sorriu também.

Era a sensação de passar o dia fora e voltar para a familiaridade do lar. Austin era minha casa.

— Fiquei preocupado com você — ele disse.

— Eu só causo problemas, não é mesmo? — tento fazer piada. Missão falhada.

— Só me promete que nunca mais vai deixar eu te levar a nenhum restaurante que não seja vegetariano?

Eu sorrio, talvez não tão falhada assim. Os olhos castanhos de Moon estão grandes e intensos pertos dos meus. Ele está perto demais, mas nenhum dos dois está disposto a quebrar o momento. Podíamos nos beijar depois.

— Contanto que nunca me deixe a ir a nenhum outro por conta própria.

Nossas respirações se cruzam e ele solta uma risadinha.

— Acho que isso é um acordo.

Esse é o sinal. Austin sela nossos lábios delicadamente, sem pressa ou urgência. Apenas dois jovens apaixonados tentando entender o que sentiam em meio tantos problemas. Ele queria sentir o mais puro e honesto de mim, assim como eu queria o mesmo.

Somos um do outro agora; apenas o encostar dos nossos lábios.

Quando Austin abre os lábios para aprofundar o beijo, batidas na porta são ouvidas e ele se separa rapidamente, me fazendo bufar frustrada.

Até eu ver quem está na porta.

Os cabelos loiros estão presos em um coque mal feito e os óculos vermelhos estão postos de qualquer jeito no rosto. Ela veste uma calça de pijama, uma blusa branca e uma jaqueta por cima. É ai que percebo que é madrugada ainda.

O que Angie veio fazer no hospital de madrugada?

— Atrapalhei algo, não é? — ela parecia se sentir culpada e sorria de lado.

— Angie! — exclamo. Austin tinha que ir embora. — O que está fazendo aqui?

Austin se levanta para dar espaço para Angie vir e me abraçar delicadamente. Entretanto, ele franzia o cenho para a situação, não entendendo por que exatamente uma mulher desconhecida estava ali.

— Seu pai me ligou assim que soube. — olho acusadoramente para Austin, que arregala os olhos como se dissesse “esperava que eu fizesse o que?” — Ele não pode vir agora porque está resolvendo algum problema com sua mãe e eu não consegui esperar até de manhã. Estava preocupada demais com vocês duas.

— Com licença — Austin interrompe, chamando a atenção para ele e me fazendo esquecer rapidamente do possível problema envolvendo Penny — Mas quem você é?

— Angie Edwards, você deve ser Austin Moon — ela se apressou e estendeu a mão para ele, que retribuiu o aperto, ainda duvidoso — Ally fala muito de você.

Obrigada por me constranger, Angie.

Não deixo de pensar que ela faz igualzinho a uma mãe. Ela seria perfeita até mesmo para mim. Até mesmo para mim...

— Angie é uma amiga da família. — me adianto antes que Angie pudesse dizer que adotaria o bebê. Esperava não soar tão desesperada — Mais para minha possível madrasta.

Os me encaram com os olhos arregalados, mas com motivos diferentes. Austin parece quase malicioso e Angie parece desesperada. Espero que ela entenda.

— Claro... — ela murmura, ainda um pouco confusa. Força um sorriso para Austin — Embora Lester e eu sejamos bons amigos, apenas. Ally exagera. Austin, será que pode me deixar a sós com Ally um minutinho?

— Com certeza — o olhar desconfiado se suaviza, mas não muito. — Vou buscar mais um café, você quer?

— Não, obrigada. Já vou embora, Ally está em boas mãos — ele sorri abertamente e sai do quarto, nos deixando sozinhas. O sorriso doce de Angie some no mesmo instante — Você está louca? Que história é essa de que estou saindo com seu pai? Ele nem faz o meu tipo!

Sufoco a risada, principalmente porque sei que não estou em condição de rir. Minha pilha de mentiras não para de aumentar e, cada vez mais, incluo novas pessoas que não tem absolutamente nada a ver com minha covardia.

Conto para Angie que venho escondendo de Austin e meus amigos sobre a adoção, sobre meus medos e sobre as expectativas dos meus amigos em relação ao bebê. Sobre o quão covarde eu era por não abrir o jogo e deixá-los pensando que daqui a cinco meses seriamos todos uma grande família feliz.

— Tudo bem — ela suspira por fim — Mas não se torture desse jeito, querida, não vai fazer bem para nenhuma das duas. Você já é bem grandinha e tenho certeza que vai tomar a decisão certa.

Ela não questiona sobre minhas dúvidas sobre a adoção e eu também não me manifesto para falar nada. Acho que ela sabe que eu tenho dúvidas constantes e prefere se guardar. É justificável. Queria que ela perguntasse, porque não tenho mais ninguém para falar sobre isso. As únicas pessoas não podem saber de jeito nenhum. Não por enquanto, pelo menos.

Mais uma coisa para guardar somente para mim. Sinto-me mais cansada ainda e não consigo reprimir o bocejo.

— Não tenho certeza de nada, Angie — resmungo, sentindo meus olhos fecharem.

— Durma bem, Ally. Nos falamos depois, querida.

Já estou de olhos fechados e sinto seus lábios na minha testa. Reprimo a vontade de dizer “boa noite, mãe” e, antes das luzes se apagarem, sinto que já estou dormindo de novo.

(...)

Quando acordo de novo, é porque a luz do Sol bate em meus olhos. Levo um tempo até perceber que não tem mais nada pinicando meu braço. Assumi como um bom sinal, que em breve eu seria liberada.

Olhei em volta do quarto em busca de Austin, mas não era ele que estava ali.

Era o dia de visitas inesperadas, só pode.

Dallas olha para mim, seus olhos estão calorosos, mas totalmente diferente do que eu me lembrava. Não parecem mais os olhos da pessoa que eu amei. Era igual e familiar, mas, ao mesmo tempo, completamente estranhos a meu ver.

Ele não sorria, mas Dallas nunca foi muito dado a sorrisos, de qualquer jeito. A voz dele e seus olhos sempre disseram tudo. Sinto-me nostálgica dos momentos que passamos juntos, mesmo estando em outra.

Ele sempre seria meu primeiro amor. Eu e ele tínhamos uma conexão. Um filho. Não era algo que se apagava ou esquecia assim só porque eu tinha alguém novo em minha vida.

— Fiquei preocupado com você. Trish me contou.

Eu definitivamente precisava de amigos menos fofoqueiros.

— Fico surpresa que tenha se lembrado de mim — confesso, não deixando de revelar meu ressentimento.

— Eu fui um babaca, não é?

— Foi — respondo em um tom carinhoso. Não consigo ficar com raiva dele.

Ele ficou um tempo em silêncio, apenas sentado na cadeira do acompanhante. Parecia tenso, nervoso. Nada em comum com o menino despreocupado e feliz que eu sempre conheci.

— Você está bem, Dallas?

Dallas me encara e seus olhos estão cheios de lágrimas.

— Você foi a primeira menina que eu amei para valer. Eu sempre disse que estaria com você em qualquer situação, Ally e na primeira oportunidade eu ajo como um imbecil completo.

— Não podemos negar isso... — deixo minha voz morrer e ele solta uma risadinha chateada.

— O que estou querendo dizer é que eu sinto muito — ele respirou fundo, parecendo buscar coragem — E que eu estou com você. Para o que você quiser. Você é uma ótima garota e não merece passar por isso sozinha.

—Não estou sozinha — digo automaticamente, me lembrando de todos os meus amigos e Austin.

— Eu sei. Austin está montando guarda lá fora, só me deixou entrar por cinco minutos — revirou os olhos — Sei que você tem Austin e eu não reivindicando você. Mas Austin não é o pai e isso é uma coisa que nós temos que fazer juntos. Se não quiser a criança, concordo com a adoção e se quiser... ela terá meu nome — ele respira fundo algumas vezes até falar de novo — Não garanto que vou ser o mais presente do mundo, eu ainda estou tentando me acostumar com tudo isso, mas estou assumindo minha responsabilidade. Estamos juntos nessa.

Tenho vontade de chorar. Nós dois fomos dois adolescentes que se amaram muito e que cometeram um erro. Jovens no geral cometem um erro, mas o nosso era um erro irreparável; que nos forçava a crescer e a amadurecer rápido demais e com uma força absurda. Coisa que nenhum de nós dois estava preparado para vivenciar.

Por eu carregar a menina, eu aceitei e cresci muito mais rápido que Dallas, que não tinha os mesmos “incentivos”. Não que ele estivesse certo em fazer o que fez e falar o que fez, mas eu compreendo e aceito as desculpas.

Sinto-me aliviada. Por mais que eu tivesse Austin, essa sempre melhor saber que a pessoa que me ajudou a fazer o bebê estava me apoiando, que dividiria a responsabilidade e as consequências das minhas escolhas, seja lá quais fossem. No meu intimo, eu sabia que Austin não lidaria muito bem com minha escolha sobre a adoção. Uma escolha que, no fim, cabia apenas a Dallas e a mim.

Acho que parte da minha indecisão de contar era porque minha escolha nunca seria completa se Dallas não estivesse em comunhão com ela.

Rapidamente conto a ele o que eu estava fazendo, sobre o sexo da criança e sobre Angie ser uma mulher prestativa, bondosa, responsável e com boa condição financeira. Deixo Dallas informado a respeito de tudo na gravidez. Ele apenas assente, fazendo uma pergunta ou outra, mas ouvindo tudo.

— Tenho que ir — ele olha no relógio, depois que eu conto tudo — Acho que também extrapolei a contagem do Austin, só que não estou realmente preocupado com isso — ele deixa um beijo em minha testa e sorri — Me mantenha informado, tudo bem? E me mande o telefone de Angie, quero falar com ela também.

Assinto, ainda feliz por ele ter decidido compartilhar esse momento comigo e ele sai do quarto, acenando.

Austin coloca a cabeça para dentro do quarto, sorriso não estava estampado em seu rosto como usual. Ele estava pensativo demais.

— Podemos conversar?

(...)

Austin está sentado a um tempo na beirada da minha cama, de frente para mim, com as pernas cruzadas como chinês. Eu estou na mesma posição que ele. Não sei porque ele não fala nada e só me encara com aquela cara de quem está constipado, mas não aguento mais apenas olhar.

Estou entediada e impaciente nesse hospital, o médico não apareceu de novo para me dar alta e todas as minhas visitas me deixaram consumida. Quero que ele me distraia. Quero que ele fale.

Sendo que eu conheço Austin, então sei que ele não vai falar. Está nervoso demais para tal. Eu tomo a iniciativa.

— Sabe um lugar que eu sempre quis visitar? — ele levanta a cabeça e me encara curioso e nega levemente — Barcelona. — lembro-me do sonho com minha filha adolescente que eu tive.

— Every time you have to go, shut my eyes and you know. I'll be lying right by your side, in Barcelona...¹ — ele cantarola e eu só consigo sorrir.

Quase nunca tenho a oportunidade de ouvir Austin cantar e sempre é algo gratificante, principalmente quando é uma das minhas músicas favoritas.

— Exatamente.

— Quem sabe um dia não vamos juntos? — ele sugere, sonhador.

— Seria ótimo. Sonhei com Barcelona hoje, por isso estou comentado — ele provavelmente nota que eu pareço perturbada falando sobre isso e não pergunta nada sobre o sonho.

Ficamos em silêncio novamente e eu sinto que fiz minha parte. Quebrei o gelo. Agora era com Austin.

Ele abre a boca e fecha várias vezes, indeciso sobre como começar.

— O que Dallas queria? — explico a ele, ocultando as partes sobre a adoção — Não gosto disso.

— Você não tem que gostar ou desgostar — solto, mas logo percebo que fui rude demais — Sinto muito.

— Não — ele sacode a cabeça — Está certa. Não tenho motivo para opinar. É só que esse tempo inteiro eu nunca senti ciúmes de Dallas ou me senti ameaçado porque eu sabia que enquanto ele rejeitasse Noah, seu coração estaria fechado para ele e ele não teria chance. Agora... sei que você o amou e eu me pergunto.... — deixou a voz morrer.

— Dallas foi importante. Ele sempre vai ser. — deixo claro para não haver nenhum desentendido — Mas você falou certo, eu o amei. Não o amo mais. Independentemente das escolhas que eu e ele tomaremos juntos.

Ele respira aliviado, a maior parte da insegurança dele se foram e eu rezo internamente para ele me perguntar o que eu tanto queria ouvir. O que ele tanto enrolava.

— Austin — tomo a iniciativa, antes que passássemos o dia inteiro ali — Sim, eu quero.

Austin joga a cabeça para trás, rindo e se inclina sobre mim, beijando meus lábios. Tudo pareceu certo. Tudo pareceu natural.

Talvez eu e Austin não durássemos muito, ou talvez ficássemos juntos para sempre. Não importava agora. Não importava minhas mentiras.

Importava mesmo nós dois.

Juntos.

Agora.

Notas finais
¹ - Toda vez que você tem que ir, fechei meus olhos e você sabe. Eu vou estar deitado do seu lado, em Barcelona O QUE ACHARAM AMIGS?