Nove Meses
8 A viagem!
Notas iniciais
–Não vejo problema em ir !
–Não posso deixar você sair assim …. e se …. não se sentir bem ? E se ... precisar da minha ajuda, e se …
–José Miguel! Chega!
–Mas Valentina… eu não posso deixar que vá!
–Mas eu vou e pronto! Estou me sentindo muito bem, além do mais, vai ser importante para mim, não pode me boicotar porque tenho uma aliança no dedo com seu nome!
–Não é nada disso… não estou querendo mandar em você… está sendo injusta!
Ela levantou os olhos para o céu, no mesmo instante em que ele a segurou pela cintura, depois deslizou a mão pela sua barriga, que começava a mostrar os primeiros sinais.
–Por favor… meu amor….
–Não venha com chantagem, José Miguel!
Ele deu um beijo de leve em seus cabelos. Estava querendo matar Sr. Ernesto por pedir a sua mulher para resolver situações em outra cidade, naquelas condições e por três semanas!
–Mi cielo… — Seus olhos cor de mel suplicavam por apoio. — Eu preciso fazer isso, senão… somente daqui há dois anos …e é … muito tempo !
–Nem tanto assim, nossos filhos estará maior, você já vai estar em forma e livre de perigos!
–Você acha que corro perigo, viajando para algumas reuniões importantes???? — Ela começou a se irritar de verdade com os argumentos dele! -São apenas reuniões com pessoas importantes e assinaturas de contratos, José Miguel! Não vou para um treino de guerra!
–Viagem de avião, dias cansativos, muito tempo de concentração e além do mais… você pode se estressar!
–Tudo que simplesmente vivo no meu dia a dia, e continuo aqui… sem nenhum problema!
Ele suspirou, nada a convencia!
–Eu… vou sentir a sua falta!
Aquele tom de voz, quase como um lamento, e a expressão de um garoto carente quase a fez desistir, mas não ia fazer aquilo. Ela precisava ir aquela viagem! Seus lábios se tocaram de leve e eles se separaram, estavam na sala dele e, mesmo que estivesse fechada, ainda assim, era ambiente de trabalho.
–Por favor, Mi cielo… não posso ceder aos seus… seus… encantos!
Um sorriso divertido surgiu nos lábios dela, enquanto ele ainda parecia desolado.
Longe dela, com toda certeza, ia se sentir perdido e deslocado. Mesmo que ela não admitisse, inspirava cuidados, precisava ser cautelosa em suas ações, se cuidar em todos os momentos. Ter paz para levar sua gravidez da melhor maneira possível.
Por que ela não entendia? Já não tinha mais argumentos, como fazer para convencê-la e aquilo estava acabando com ele.
–Vou contar ao Sr. Ernesto que está grávida!- Ele havia acabado de chegar de viagem e não sabia da gravidez ainda.
–Nem pensar! Se perdermos esses contratos e essas novas filiações, juro que nunca vou te perdoar.
Ele arregalou os olhos e soltou de sua cintura. Que drama!
–Calma… também não precisa se estressar, eu… não quero, mas sou obrigado a aceitar. Se acha que é o melhor a fazer…. que seja! Vá em frente!
–Não quero sair assim, com essa sua teimosia em discordar de mim, não vou me sentir bem, sabendo que está zangado!
–Não estou zangado, apenas… chateado!
–Tudo tem o mesmo efeito para mim!
Ele abaixou a cabeça e foi se sentar.
–Está bem… prometo tentar!
Uma batida na porta colocou um ponto final na conversa, logo mais à tarde, ela estaria partindo para Cancún.
….......
Ele a ajudou a arrumar as malas, verificou o tempo em Cancún, e como era inverno, encheu uma sacola extra de roupas quentes e quase não se desgrudou dela antes de se despedir.
–Está tão quieto, me disse que não está zangado, mas acho que não acredito.
–Só estou preocupado.
Ele segurava sua mão, sentados na sala de espera, e estava mesmo muito calado, com uma expressão carrancuda.
–Não tem por quê! Olha… eu juro que se eu não me sentir bem, largo tudo e volto para casa.
Ele levantou a cabeça rapidamente, a encarando, como se ela tivesse dito alguma coisa alarmante.
–Não quero nem pensar nessa possibilidade. Se eu perceber que alguma coisa está errada com você… eu… eu… pego o primeiro avião!
–Ai meu Deus… Mi cielo! Isso é tudo tão... dramático.
Ele suspirou profundamente, muito descontente.
–José Miguel… por favor… não fique assim! Você me prometeu.
Ele largou a sua mão para abraçá-la e puxá–la para mais perto.
–Eu sei…
–Além do mais, três semanas passam rápido.
Havia um movimento razoável de pessoas indo e vindo e ela se surpreendeu com o gesto delicado dele. Sem se importar, ele baixou sua cabeça e beijou sua barriga pouco saliente.
–Vocês prometem cuidar da mamãe? O papai vai ficar esperando por vocês três… não deixem que ela fique nervosa, está bem?
–Mi cielo... seu bobo!
Ele sorriu para ela e beijou seus lábios bravamente.
….......
O avião era confortável, mas para ela em particular, não estava nem um pouco e a mudança brusca de temperatura lhe deu um pequeno mal estar.
Ela fechou os olhos e tentou manter sua mente em algo agradável.
José Miguel!
Ele parecia cada dia mais comprometido com aquela relação, e ela sentia uma crescente segurança nos gestos dele.
Tinha certeza que podia contar com ele em todos os momentos, e isso não tinha preço!
Além de saber o quanto seu amor parecia florescer a cada nova manhã.
Ela passou a mão pela barriga e sorriu.
–Vocês estão nos trazendo muita felicidade, nossos pequenos anjos!
….......
1ª semana
Ela quase não teve tempo para nada.
Muitas reuniões, tinha pouco tempo para se alimentar, e o frio estava cortante.
Eles se falavam com bastante frequência e era sempre emocionante.
Reencontrou uns amigos da época em que morou na Cidade do México e até parecia que o tempo havia parado para elas. Tinham energia de sobra para badalar nas poucas horas de folga, mas ela preferia descansar, afinal levantava muito cedo e tinha uma extensa programação.
Eles estavam em seis pessoas, três homens e três mulheres.
Lucy, uma mulher bastante brilhante e agitada, Penn, mais recatada, Lennon completamente maluco e dono de uma curiosidade impar, Connor, carrancudo e mal humorado e o que mais se identificava com Valentina, Samuel. Ele era inteligente, prestativo e tinha bom humor.
Ela, Connor e Lennon eram casados.
Eles conversavam em um enorme salão antes de se recolherem para seus quartos, todos sabiam da gravidez e ficavam em volta dela a mimando o tempo todo.
–Eu não penso em ter filhos tão cedo!
–Também não pensava, Lucy… mas… aconteceu.
Samuel se virou para ela com seu sorriso brilhante.
–Eu não deixaria minha mulher por aí, nessas condições, grudava nela feito carrapato.
Valentina devolveu o sorriso, imaginando que se seu marido pudesse, faria exatamente a mesma coisa.
–Não deixe meu marido ouvir, quase não me deixou vir!
As mulheres olharam para ela curiosas.
–Sério?
–Muito sério, Penn! Não consigo dar um passo sem que ele me vigie feito um cão de guarda depois do descobrimento da gravidez.
Todos riram com a observação dela.
–E isso é ruim?
–Que nada! Apenas finjo que estou zangada, mas ele é… um doce!
–Que graça!
Ela sorriu mais uma vez e se levantou.
–Gente… até amanhã, estou muito cansada.
Samuel a acompanhou até a porta de sua suíte.
–Boa noite Valentina, durma bem!
–Obrigada!
Ele lembrava Greg, era animado na mesma proporção e bastante carinhoso.
….......
José Miguel não conseguia ficar parado quando chegava do trabalho, aquela casa sem ela, era assustadoramente vazia.
A falta que estava sentindo quase o deixou maluco. Falar com ela estava sendo sua melhor hora e ele acabou por perceber que o que sentia era muito maior que havia imaginado.
Nada o deixava mais feliz que pensar nela e em seus filhos. Por diversas vezes ele entrava no quarto de hóspedes e ficava imaginando como eles o decorariam.
–Acho que estou ficando maluco!
Até um tempo atrás, aquilo jamais passaria pela sua cabeça. Pensar em móveis infantis, cores de parede, bichos de pelúcia e fraldas, muitas fraldas.
Ele pegou o telefone e se sentou no chão.
–Oi Bonita!
–Oi Mi cielo…
–Já está na cama?
–Sim… acabei de me cobrir… aqui está congelante, nem o aquecedor parece resolver. O que foi? Aconteceu alguma coisa?
Eles já haviam se falado logo pela manhã, mas ele sentiu necessidade de partilhar a ideia com ela.
–Que cor gostaria de pintar o quarto dos bebês?
–Como? Você me ligou para perguntar isso?
–Sim… qual o problema?
–Nenhum… apenas que… fiquei surpresa.
–E então?
–Você já está fazendo planos?
–Preciso ocupar a minha mente… não tem sido fácil, essa casa vazia!
–Oh! — Ela adorava quando ele admitia seus sentimentos,. -Amor… — Ele fechou os olhos e seu coração deu um salto ornamental ! Era muito bom quando ela o chamava daquele jeito, tudo ao redor, parecia adquirir um novo brilho. -Também sinto a sua falta, não paro de pensar em você, um minuto sequer!
–Eu sei…
–Hum… talvez tons suaves… que tal… amarelo?
–Parece bom!
–Verdade?
–Sim…
–Onde você está?
–No quarto de hóspedes… ops… no quarto dos bebês!
Ela sorriu. Tinha que admitir que queria mais do que tudo, estar com ele, planejando.
….......
2ª semana
Assim como na primeira, a correria tomou conta de seus dias, e ela já não parecia ter a mesma disposição.
Eles fizeram umas pesquisas de máquinas que tinham acabado de serem lançadas no mercado, equipamentos de última geração.
Naquele dia em especial, ela não teve como não se lembrar dele.
A arquitetura no início não era seu santo de devoção, porém após o casamento deles ele tomou gosto pela profissão e passou a planejar algumas construções e a ser reconhecido por elas.
Uma de suas construções mais elogiadas foi um centro de reabilitação para pessoas, crianças ou adultas, que portassem alguma necessidade especial.
De repente a imagem dele surgiu no telão ao lado de um artigo importante sobre aquela construção e a opinião dele sobre as máquinas usadas na construção.
Um largo sorriso surgiu em seu rosto e ela chegou a corar.
Aquela era uma das poucas vezes em que ele se deixou fotografar e ela se lembrava perfeitamente daquele dia.
Quando ele havia recebido a proposta para uma série de edições da revista sobre arquitetura mais importante do país, também recebeu a visita do editor chefe e com ele, uma fotógrafa renomada que parecia ter se encantado por ele.
Ela se lembrava de sua falta de jeito e aquilo gerou um interesse maior ainda por parte da profissional. Ficava ainda mais encantador quando demonstrava timidez.
A mulher, muito bonita, havia deixado até seu telefone, mas eles já estavam juntos e Valentina teve que admitir que nunca havia sentido tanto ciúme em sua vida.
Naquela mesma noite ele não poupou esforços em demonstrar que não tinha o menor interesse em nenhuma outra mulher que não fosse ela. E mais uma vez, a falta dele estava ficando insuportável.
Por quase duas horas, os artigos de seu marido foram expostos e analisados profundamente. Era fantástico e ela não conseguia esconder seu orgulho.
Ao final daquele dia, todos a rodearam para saber mais dele, estavam curiosos, até mesmo Charles.
E ela explicou que ele era infinitamente impressionante, respeitado e que tinha uma mente brilhante.
….......
–Valentina? O Senhor Montesinos é seu supervisor?
–Não Lucy… por que?
–Ele é muito bonito, com toda certeza deve ser interessante estar ao lado dele, ele deve ter alguém!
Valentina arregalou seus olhos e teve uma vontade imensa de rir.
Como ela estava ali pela fábrica e a fábrica não levava seu sobrenome no nome, praticamente ninguém sabia que era uma propriedade dela.
.-Mas… não trabalha na fábrica também?
–Sim… Penn, mas ele não pode me supervisionar.
–Não?
Ela balançou a cabeça e sorriu para seus amigos, todos curiosos, atentos à conversa.
–E por que? Ele não é um dos donos? — Alguém quis saber.
–Porque sou casada com ele... Herdei a fábrica dos meus pais.
Lucy levou a mão à boca e quase se engasgou.
–Oh ! — Seus olhos pareciam pedir desculpas pela petulância.
–Puxa vida… por que não nos contou antes… que era casada com o famoso Senhor Montesinos!
–Não houve oportunidade, Samuel!
–Deve ter muito orgulho dele!
–Tenho sim, Lennon… um orgulho imenso.
Naquela noite, ela falou com ele com animação, estava feliz em lhe contar que ele era um exemplo... para muitas pessoas.
Como sempre, ele ouvia tudo calado, mas quando ela disparou que seus filhos se orgulhariam do pai, ele se manifestou.
–De qualquer maneira, eles já irão nascer orgulhosos pela mulher maravilhosa que você é!
….......
3ª semana
Depois que haviam descoberto sobre sua vida pessoal, todos pareciam interessados em tudo o que ela dizia.
Se as duas semanas foram puxadas, aquela estava sendo ainda mais.
Já se podiam notar pequenas olheiras, e o quanto seu corpo parecia cansado. Suas pernas pareciam pesar toneladas, e ela estava tendo dificuldades para acordar. Queria muito que aquela semana voasse e ela pudesse voltar para os braços dele, para seus cuidados e seus carinhos.
– Valentina? Você parece tão cansada… tem certeza que está bem?
–Não se preocupe, Lucy… estou bem sim!
Mas ela não estava. Talvez fosse sua pressão que estava baixa demais, ela só pensava em se enfiar debaixo dos lençóis e dormir até não poder mais, mas tinha que ser forte e prosseguir.
Instintivamente, quando precisava de forças, ela acariciava sua barriga que já estava em evidência e sorria com doçura. Ser mãe estava lhe dando muito mais suavidade e calma.
–Sente falta de casa, não é?
–Muita falta... não posso negar.
–E de seu marido?
Ela arqueou suas sobrancelhas, a pergunta a deixou surpresa.
–Muito mais!
….......
Se José Miguel estava sentindo falta dela, aquela semana estava sendo castigante.
Ele mesmo pintou as paredes do quarto de hóspedes, substituiu a cama de casal por uma bicama bastante confortável e colorida, conseguindo assim, espaço suficiente para acomodar os berços e um armário para as roupas dos bebês.
Estava louco para mostrar a ela o que havia feito, e esperava sinceramente que ela gostasse do tom suave em amarelo que ela havia sugerido.
Agradecia aos céus que aquela seria a última semana que estaria sem ela, logo poderia sentir seus braços em torno dele, dormir agarrado a ela e beijar infinitas vezes sua barriga que já devia estar muito mais aparente.
Assim que depositou o prato sobre a pia, seu telefone tocou. Sabia que era ela.
–Oi, Mi vida!
–Bonita… como é bom ouvir a sua voz!
Ela não soube dizer o porquê, mas teve uma vontade enorme de chorar. Talvez fosse a sensibilidade da gravidez, ou talvez fosse mesmo o desejo de estar com ele.
–É bom ouvir você também.
–Eu… estou louco para saber como está sua barriga, tem notado diferença?
–Bastante, vai se surpreender quando ver!
Ele sorriu, contava os minutos para que acontecesse.
Eles contaram como foi o dia de cada um. Um pequeno silêncio, depois ele disparou.
–Eu te amo, Mi Bonita!
–Eu também te amo, Mi Cielo … espero que esses dois dias voem!
–Eu também.
–Vou desligar, estou morrendo de sono.
–Durma bem, meu amor!
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