Nove Meses

41 Capítulo 37 — Mágoas do coração


No capítulo anterir:

“Não esperei que terminasse, e pouco me importei com as conseqüências que poderiam vir. Corri até o quarto que ultimamente também havia se tornado o meu, e parei com a mão na fechadura. Meu coração palpitou; um misto do que acabara de descobrir sobre o plano perverso que duas pessoas arquitetavam para mim, e o fato de Natsu ter acordado. Foram tantas horas desejando que aquele momento chegasse, e tudo que queria agora era estar ao seu lado. Naquele instante já não sabia por quais motivos chorava, apenas desejava no mais profundo do meu ser que conseguisse vê-lo. E com esse último pensamento abri a porta.”

Capítulo 37 — Mágoas do coração

Não é preciso muito para ser feliz quando se sabe encontrar beleza nos menores detalhes. O simples ato de se estar com as pessoas que gosta já é o suficiente para desencadear aquela alegria incondicional que sentimos quando recebemos a notícia mais esperada do ano. Um carinho, palavras de afeto, isso já é o suficiente para ser feliz. No entanto, quando meus olhos se encontraram com os dele, pensei que aquilo era tudo o que eu precisava para minha vida, desde que fosse possível ficarmos juntos.

Em todas essas semanas, procurei não me lembrar da sua existência, tentando seguir em frente, pois era o que ele havia feito. Agora, posso perceber que tudo o que fiz foi me enganar, no fundo, eu sempre soube, Natsu jamais sairia da minha cabeça. Ele era o meu primeiro e único amor, e acredito, que ninguém seria capaz de tomar esse posto dele.

Num primeiro instante seus olhos estavam atordoados, vidrados no teto branco logo acima. Meus dedos se esforçaram para fechar a porta, contudo senti que minhas forças estavam se esvaindo. Ele nem mesmo havia me olhado e conseguiu sugar tudo de mim.

— Natsu. — Sussurrei e ele permaneceu do mesmo modo, impenetrável. Tentei desvendar o que se passava naqueles pensamentos, mas nada em sua expressão demonstrava algo. — Fico tão feliz que tenha acordado. Todos estávamos muito preocupados.

— O-o que aconteceu? — Gaguejou, reencontrando a voz. Cerrou os olhos, e depois lentamente vi eles se esbugalharem. Provavelmente ele havia se lembrado de alguma coisa. — Eu estava seguindo Yukiko e Lisanna e... Acho que bati com o carro.

— Sim, mas você já está bem.

— Yukiko havia atirado em... Oh Meu Deus! Como está Virgo?

Recordei-me da imagem da minha amiga no momento em que chegara ao hospital, havia tanto sangue, e eu não sabia para quem correr. Natsu naquele momento também se encontrava ferido, e quando abaixei minha cabeça sem saber o que dizer, consegui visualizar ainda o líquido vermelho e viscoso em minha mão. Balancei a cabeça tentando dispersar aquelas imagens.

Eu não queria preocupá-lo, mas também não poderia mentir. Decidi então que a verdade seria o melhor caminho, mesmo que ela doesse tanto.

— Houve algumas complicações desde que a trouxemos para cá... — Respirei fundo, era difícil dizer para mim mesma como aquela garota que havia se tornado parte de mim estava mal. — Virgo está em coma.

Houve um tempo de silêncio e Natsu soltou a respiração. Seus olhos eram tristes ao mesmo tempo em que havia um cansaço sobre eles.

— Sinto muito. Eu sei que ela é sua amiga, e também... próxima ao meu pai. Não consigo acreditar que Yukiko tenha... — Natsu parou, visivelmente encontrando forças para falar.

— Natsu não precisa falar agora, você se acidentou e precisa de descanso...

Sua cabeça fez um leve movimento e se virou para o lado. Pela primeira vez desde que ele fechara os olhos no dia do acidente finalmente estava visualizando eles me encarando novamente. Sua expressão se alterou e agora eu poderia dizer o que estava pensando: Assombro foi o primeiro deles.

— Eu estava tentando dizer a mim mesmo que era alguma espécie de loucura que resultou do acidente, mesmo que isso seja tão idiota. — Fixou o olhar na minha barriga. — Desde quando Lucy? Quando fomos à fazenda e lhe fiz aquela pergunta e você mentiu pra mim. Você esteve com o pai do seu filho esse tempo todo? Eu não entendo... — Seu semblante estava magoado. — Não entendo porque todos mentem para mim. Você foi capaz de algo tão cruel até mesmo quando achei ser o fim... Por quê?

Ele tentou se mover, no entanto, diante a dor se manteve parado.

— Natsu.

Sussurrei, o estômago deu uma incrível cambalhota la dentro. Tentei me mexer e aproximar mais da cama, e foi nesse instante que eu percebi que estranhamente eu não tinha o controle: Nem do meu corpo e muito menos da situação. Eu vi a amargura estalando profundamente dentro de seus orbes e pareceu aumentar quando pela terceira vez seu olhar fixou no meu ventre. Instintivamente meus dedos já estavam sobre ele, acariciando como vinha fazendo desde que descobri sobre sua existência.

— Você se lembra do que eu lhe disse antes de... — Puxei o ar, e foi como se meus pulmões gritassem agradecidos. Não havia notado que prendia a respiração já há algum tempo. — Antes de você desmaiar?

— Sim e isso tudo é o que piora a situação. — Se agitou, e sua mão boa apertou levemente o lençol da cama. Seu semblante se escureceu e tentei acalmá-lo. Ele havia acabado de acordar, e essa conversa não lhe faria bem. Onde eu estava com a cabeça quando entrei assim no quarto? — Qual era o seu intuito me dizendo aquilo naquele momento? Nós dois sabemos que isso impossível. Diga-me o que queria Lucy! Diga-me!

— Eu... — Afastei-me um pouco alarmada. Olhei para ele, e o quão abatido estava sobre a cama, como prosseguir com isso agora?

— Apenas me diga logo!

— DROGA NATSU! Esse filho é seu, você me entende? Ele é seu Natsu. Nunca houve outra pessoa em minha vida que não fosse você! — Gritei e ele se assustou um pouco com minha explosão. Eu não percebi de imediato, mas quando as lágrimas tocaram meus lábios observei que elas já transbordavam pelo meu rosto. — Essa criança foi gerada por um erro meu talvez o pior da minha vida. E eu sei que eu posso não merecer o perdão, mas eu a amo, mais que minha própria existência.

Ele me olhou como se me achasse maluca, e, bem, diante do modo como os fatos foram colocados talvez eu fosse mesmo. Ele não sabia da noite do seu aniversário, conseqüentemente não há um maneira de achar que isso fosse possível.

— Pare! Pare! Você está achando que sou idiota?! Pare! — Tentou se levantar, mas parou quando aparentemente uma dor maior lhe atingiu. O instinto me levou até onde estava, e toquei seu braço, vendo minhas lágrimas chegarem até ele. Tentou se afastar, mas quando notou a parede atrás de si, apenas me encarou, esperando.

— Foi na noite do seu aniversário, Natsu. Lisanna saiu para levar a mãe até em casa e seus pais a acompanharam.

— Sim, eu me lembro muito bem do que aconteceu.

Não o interrompi, e quando terminou sua fala continuei com a minha:

— Você e seus primos tomaram umas doses, e depois disso, eles foram embora. Você ficou jogado no sofá e eu não podia deixar que dormisse assim, sabendo o quão mal acordaria. Mas eu juro Natsu, nunca foi minha intenção que alguma coisa acontecesse. Você precisa acreditar em mim, que eu tentei negar até onde pude, eu...

— O que você está querendo dizer? — Ele não terminou, mas o olhar alarmado deixou claro que havia entendido. — Nós... Nós...

— Nós ficamos juntos. Foi naquela noite que essa criança foi concebida.

Sua expressão dizia claramente o quão assombrado se encontrava com aquela história. E, diante de sua testa franzida e o aperto de lábios, não sabia se havia dado muita credibilidade para as minhas palavras. Ele parecia não querer me olhar, e foi esse fator que me fez reconsiderar e saber que sim, em algum lugar dentro dele havia acreditado.

— Isso não é possível... Não pode ser possível, eu me lembraria disto, eu...

— Não Natsu! Você não pode se recordar porque não sabia nem mesmo o que estava diante de seus olhos. Você me confundiu com... — Um nó se construiu na minha garganta, por mais que tivesse pensado sobre isso um milhão de vezes e convivesse com essa realidade todos os dias, era difícil pensar nas circunstâncias as quais as coisas aconteceram. — Com Lisanna. Quando ficamos juntos você achava que estava com ela.

Seus olhos se fecharam e senti quando os meus fizeram o mesmo, tentando reprimir as novas lágrimas que estavam se formando. Passei a mão grotescamente diante dos olhos tentando pará-las e agradeci quando percebi que por um momento elas haviam estacado.

— Eu tentei resistir, e mesmo como todas as minhas forças eu fui fraca, errei quando sucumbi a um momento de desejo, uma necessidade física, entretanto, além de tudo, me permiti um momento de felicidade. Eu não posso nem mesmo falar de quantas maneiras eu fui desonesta comigo e com você. E nem de quantos modos eu posso pedir perdão, e você ainda estará no direito de me negar. Sinto muito por não ser a melhor pessoa e fazer a escolha certa por nós dois naquele instante, por ter a opção de parar e mesmo assim ainda continuar. Eu cometi um erro Natsu, mas eu sou humana, e como qualquer outro, eu também faço coisas injustas. Eu estou arrependida, ok? Mas não consigo mudar as coisas que aconteceram.

Ele riu, um som amargo, que com toda certeza podia afirmar que não era verdadeiro.

— Isso não foi um erro Lucy, foi muito além. Você me usou, mentiu e enganou assim como elas o fizeram. — Ele balançou a cabeça, e percebi o movimento que seus cabelos completaram. Muitos foram os momentos que havia feito o mesmo antes, observa cada detalhe de sua expressão, e me agarrava a isso quando a situação parecia difícil demais. Abri a boca para tentar me defender, mas vi que não havia o que dizer por mim mesma. Ele estava com a razão, de algum modo, eu conseguira magoá-lo do mesmo modo que Lisanna e Yukiko. — O que aconteceu em seguida, depois daquela noite?

— Quando acordei na manhã seguinte, não estávamos apenas nós dois, mas também a sua mãe. Acho que não é muito difícil imaginar qual foi à reação dela, certo? Ela sempre me odiou desde o momento em que coloquei os pés naquela casa, e isso só contribuiu para que toda sua raiva se intensificasse. Yukiko me colocou pra fora do quarto, mas antes de sair, implorei para que não lhe contasse nada. Não achei que fosse o fazer, mas ela sabia que teria algo contra mim.

— E você pensou em me contar sobre isso? Se eu não tivesse lhe visto, ou fosse a tragicidade das últimas ocorrências você me deixaria saber da existência dessa criança?

O silêncio predominou por alguns momentos dentro do quarto, antes que criasse coragem para falar.

— Eu pensei sobre isso mais vezes do que possa imaginar. Convivi com esse pensamento desde o momento que descobri sobre a gravidez. Todos os dias desses últimos meses travei uma guerra comigo mesma, apenas imaginado como seria quando descobrisse. Tinha dias que tudo que eu mais queria era que você soubesse, que estivesse comigo, mas não e tão simples assim, você sabe que não.

— Mas que diabos! Quantas oportunidades você teve de fazê-lo Lucy? Quantas? —Mais uma vez, mesmo que inconscientemente tentou se levantar. Seu rosto se contorceu, mas nenhuma reclamação deixou seus lábios.

Tentei lhe ajudar, mas o olhar que me direcionou fez com que meus pés ficassem paralisados. Olhei para o soro em seu braço e notei que ele estava prestes a sair, engoli em seco, ele estava deitado ali, me olhando de baixo, e mesmo assim conseguiu que me sentisse ainda mais acabada. Ao lado da cama, seus dedos se movimentaram e por um momento pensei que fosse tocar o meu ventre, no entanto eles pararam com meio caminho, e tudo que vi foi o aperto que se formou na mão, os nós dos dedos estavam brancos diante de tanta força que utilizava.

Eu não podia imaginar quantos tipos de dores diferentes estava sentindo, tanto física como emocional.

O momento que tanto tentei evitar estava ali, passando diante dos meus olhos. Tudo que podia pensar é que estava perdendo Natsu. Há dois dias pensei que ficaria sem ele por causa daquele acidente, agora, sei que não vai se preciso isso para tirá-lo de mim. O meu medo, minha fraqueza e minha mentira são suficientes para isso.

— Quando seu irmão invadiu meu casamento foi porque descobriu a verdade?

Abaixei os olhos, focando no volume que se sobressaia na minha barriga.

— Sim, ele havia descoberto apenas alguns minutos antes. Sting achou que você não queria assumir, estava furioso e não teve como explicar a situação antes... Antes que o fizesse.

— Droga!

A mão que estava boa bagunçou os cabelos e vi o quão tenso estavam os seus ombros. Não era bom que fizesse tanto esforço logo após ter acordado. Mas o que poderia fazer eu? Ele não me queria nem mesmo por perto.

— Eu quero um exame de DNA. — Disse convicto.

— O que? — Inquiri abismada. Mas onde eu estava com a cabeça, essa seria sua atitude mais crível. Aquela história toda no fim parecia trama de novela mexicana. O pior era que eu estava dentro dela.

— Agora saia. — Sua voz soou baixinha, nada mais que um murmuro.

— Natsu, por favor...

Aterrorizei-me com o pensamento. Minha garganta voltou a arder e senti que não demoraria muito para voltar a desmanchar bem em sua frente, no entanto, o único pensamento de que talvez nunca mais quisesse voltar a nos ver... Senti as pernas bambear e não sabia por quanto tempo conseguiria continuar assim.

Uma dor estranha, que não havia como explicar se instalou. Era algo triste associado com o desespero.

— Saia.

— Natsu. — Quando sussurrei seu nome pela segunda vez, notei o tremor que se alastrou pela minha voz. — Natsu...

— Saia Lucy!! Eu... eu preciso pensar.

Vacilei quando tentei dar dois passos para trás, entretanto provavelmente ele não percebeu. Mordi o lábio inferior e senti o gosto salgado da lágrima que descia. Não era justo, não depois de tudo pelo que passamos.

Tentei encontrar seu olhar, mas este estava firme no piso embaçado.

Foi lento e desengonçado o trajeto que me levou até a porta, e quando senti o contato frio da fechadura nos meus dedos, não o olhei nos olhos, mas as palavras, independente da minha vontade, deixaram a minha boca:

— Eu te amo.

E nada mais sincero jamais havia saído de mim. Talvez aquele não fosse o melhor momento para isso, no entanto era simplesmente mais forte do que eu.

Ouvi o suspiro profundo, mas não fiquei para sua próxima reação. Quando me vi novamente na companhia daquele corredor frio e inexpressivo, o controle que ainda mantinha se desfez com a passagem do primeiro segundo. Tateei a parede, e mirei os bancos que haviam logo ao lado.

Achei que não chegaria até este, contudo braços fortes me seguraram antes que eu me perdesse no chão do hospital, olhei para cima, e vi cabelos tão vívidos e fortes quanto aos dele.

— Ele me odeia. Natsu me odeia senhor Igneel.

E pela segunda vez naquele mesmo dia, eu estava com a cabeça em seu peito, onde deixei que toda a angústia, descontentamento e tristeza gritassem por liberdade.

Notas finais
Boa tardeee, como estão? Sei que falei que postaria ontem, mas realmente não teve como. Espero que tenham gostado do capítulo e provavelmente estarei postando o próximo no domingo. Peço desculpas pelos erros mais grotescos como sempre. Digam-me o que acharam da reação do Natsu, se acharam um absurdo ou coerente com o personagem. Ou só tiverem vontade de acertar-lhe um soco mesmo kkk. E quanto a Lucy? Bem, eu fiquei com pena dela porque sofrer por amor é realmente uma merda. Kk Tenho mais seis capítulos prontos e os que comecei a escrever agora já estou encaminhando para a reta final da fanfic. Bem, até domingo então. Beijinhos♥