Nove Meses
37 Capítulo 33 — Os momentos de tormenta
No capítulo anterior:
— Você faz o mesmo com ele, não é mesmo? Não sei porque a raiva.
♥
Capítulo 33 — Os momentos de tormenta
Lucy
17 de Novembro de 2001
Mais um mês havia se passado, foram longos trinta dias que eu vivi um de cada vez.
Naquela manhã de sábado, mesmo que ainda muito cedo o sol ameaçava surgir no horizonte. A briza gélida me rodeou assim que coloquei os pés portão a fora. Abri os braços, querendo atrair para mim toda aquela energia positiva que o clima exalava.
A moto parou em frente de casa e Loke me entregou o capacete.
— Pensei que a princesinha estaria dormindo até agora. Liguei diversas vezes e não me atendeu.
Ri enquanto ele terminava de fechar o capacete.
— É crueldade Loke você me acordar em pleno sábado às sete da manhã. Deveria te processar por isso.
— Você quer receber, não é my love? — Apontou-me o banco, e entendi que ele queria que subisse logo.
Andar de moto com Loke era no mínimo inusitado, mesmo que já tivesse feito isso anteriormente eu não deixava de temer pelas nossas vidas. Isso porque o engraçadinho se preocupava mais com os garotos que estavam na rua do que com o trânsito. Ele insistia em assoviar, outrora buzinar e meu rosto quase entrava em combustão nessas situações.
— Eu tenho algo para te mostrar — Falou, assim que descemos da moto. Abrimos a biblioteca e antes que eu a olhasse ele gritou. — Surpresa!
Bem, era realmente inesperado. Sobre o chão havia diversas caixas, de todos os tamanhos e tipos. Se fosse mesmo o que eu estava pensando, Loke deveria estar soltando fogos de artifício por dentro.
— São... — Comecei, mas ele me interrompeu.
— Livros? Sim. Chegaram logo depois que você saiu ontem. E advinha quem os mandou? Seu antigo patrão baby, o gato do Dragneel nos presenteou.
Andei abismada por entre as caixas, Loke me entregou uma tesoura e juntos abrimos uma por uma. Havia tantos livros, tantas histórias, tantas vidas para serem vividas. Emoção tomou de conta dos meus poros, eu mal podia acreditar.
— É incrível. Não tem como explicar é maravilhoso Loke.
— Sim, eu fiz questão de enviar uma carta de agradecimento. Eu queria ter a honra de fazê-lo pessoalmente, mas ele parece mais uma raridade impossível de ser alcançada.
Eu apenas ri, Loke ainda não sabia, mas as visitas do Senhor Igneel haviam se tornado freqüentes.
Foi preciso quase três horas para que conseguíssemos ajeitar todo aquele material, encontrar espaço para todos os livros, registrar cada um deles. Quando acabamos, foi como se um elefante estivesse saindo de cima de nós, sentei na cadeira, cansada. Mesmo que tivesse deixado o trabalho pesado para ele, era como se o meu cansaço aumentasse gradativamente. Loke sentou ao meu lado, e encarou intensivamente minha barriga.
— Você já consegue senti-lo? — Perguntou. Passou a mão sobre o relevo no meu ventre, e ficou acariciando-a por alguns minutos.
— Ainda não. Mieko disse que posso senti-lo pela primeira vez entre a décima sexta a vigésima semana. Não é nenhuma lei, mas ocorre na maioria dos casos. A gestação varia muito de mulher para mulher.
— E o sexo, quando ficará sabendo se é uma menina ou um menino?
— Bem, acho que isso vai demorar um pouco mais. — Ri, e coloquei minha mão sobre a de Loke. Nós dois ficamos naquele movimento, sem vontade de parar. — Alguém aqui resolveu aprontar e cruzou as perninhas.
— Você é tão incrível Lucy, como ele pode não estar ao seu lado? — Inquiriu. Abaixei os olhos para o chão, a esse momento ele deveria estar fazendo o mesmo com Lisanna, aproveitando cada segundo daquele momento maravilhoso que se tornara a gestação. — Se eu não gostasse da mesma fruta que você, juro que te pegaria para mim.
Bem, foi impossível não rir. Ele conseguia colocar graça em assuntos tão sérios.
— Na verdade ele não sabe, não ainda. — Franziu as sobrancelhas, em dúvida. — Não sei por quanto tempo mais poderei continuar escondendo. Senhor Igneel me ligou, ontem, perguntando-me quando chegaria esse momento. Há tantas formas de falar, não tem como mais esconder. Pode ser com alguém contando, ou ele pode me avistar na rua. Agora, que há tanto tempo não o vejo, parece que se tornou ainda mais difícil dizer a verdade. Por outro lado, eu sinto que esse momento está mais perto que nunca.
— E talvez esteja mesmo. Agora que sua barriga já é visível Lucy, não tem como negar.
Eu sabia disso, que a qualquer momento a verdade poderia vir a tona para Natsu.
*
Loke me deu um rápido selinho de despedida, e se foi. Eram duas horas da tarde, a biblioteca havia acabado de fechar, e nós finalmente teríamos nosso bendito descanso. Entrei em casa e mal havia aberto a porta e senti um vento forte bater em mim. Logo depois senti braços me circularem. Quando olhei para frente, primeiro reconheci Levy sentada no sofá e depois vi a dona dos braços que quase me sufocavam: Virgo.
— Você está mesmo com saudades em. — Falei, e ela me largou.
— Quinze dias Lucy. Como você conseguiu ficar sem mim todo esse tempo?
Coloquei a mão na testa, em um falso drama.
— Foi difícil Virgo, pensei que não iria resistir. Tinha dias que passava a noite toda acordada apenas pensando em você.
— Engraçadinha. — Deu-me um tapa no braço.
Levy assistia tudo e ria do sofá, adorando a cena. Nós caminhamos para o meu quarto onde poderíamos ficar mais a vontade, sem deixar de antes, passar pela cozinha e adquirir a adorável barra de chocolate branco.
— Espero que tenham novidades. — Comentei.
— Bem, eu te diria que tenho um encontro com Igneel Dragneel, o bofe mais lindo do pedaço a daqui exatamente cinco horas e cinqüenta minutos, mas isso não é mais nenhuma novidade para vocês duas. Sinceramente, aquele homem é incrível em todos os aspectos. — Concluiu com um sorrisinho que ao mesmo tempo demonstrava felicidade e no instante seguinte, se aproximava de algo bem mais pervertido.
— Parabéns, Igneel é o segundo homem na lista dos mais desejáveis de 2001.
— E você Levy? — Perguntei. — O que tem de novo para nós?
— Nada, só que ficarei sem o meu namorado pelos próximos dez dias. Gajeel vai para o Brasil, visitar a avó que está mal.
— Isso é realmente um saco. — Quebrei um pedaço da barra saborosa. — Antes que me perguntem, vou logo avisando não há nada de interessante que possa lhes contar.
— Eu já esperava por isso, sua vida é tão pacata que me da tédio. — Virgo pegou o pedaço de chocolate que estava em minha mão. — Agora trabalhando naquela biblioteca prevejo que o barco realmente terminou de afundar.
Nós rimos, mas logo nos calamos. Havia um assunto que estávamos loucas para questionar, mas elas ainda não haviam pronunciado nada em respeito a mim. Foi por isso que comecei, seria necessário somente um gatilho para que ambas fizessem o resto. Por mais que não fosse certo, eu queria saber como ele estava e se ainda se lembrava de mim.
— E Natsu, como está?
Virgo parou de comer e me olhou, ansiosa. Ambas soltaram um amontoado da respiração que estavam guardando.
— Achei que você nunca iria perguntar, estava louca para falar. — Disse afoita. — Aquela casa está pegando fogo Lucy, eles brigam mais do que respiram. — Para prestar maior atenção a conversa Levy se levantou do chão e veio sentar ao meu lado. Catou o meu chocolate roubado da mão da garota de cabelos rosa, e o abocanhou de uma só vez. — Mas o melhor você não sabe. Esses dias Natsu veio me perguntar sobre você.
Minha atenção se voltou totalmente a ela nessa parte.
— O que ele disse? — Levy se adiantou antes que eu perguntasse.
— Ele me perguntou como a Lucy estava. Eu disse que ela havia seguido em frente. — Minha sobrancelha franziu ao perceber o duplo sentido que havia nessa frase. — Eu falei exatamente assim, mas Natsu presumiu que você havia encontrado alguém.
Abaixei os olhos para minhas unhas que estavam precisando ser feitas, e disse baixinho.
— E você não fez questão de desmentir, não é mesmo?
Ela balançou a cabeça. Se não fizesse algo do tipo, não seria Virgo. Apesar de tudo, eu deveria ser agradecida, Natsu não precisava saber que eu ainda sofria por ele. Esse fato apenas aumentaria ainda mais o seu ego. Se ele nunca veio me procurar é porque no fundo não sentia a minha falta.
— Pois fez certíssimo Virgo, eu faria a mesma coisa. — Levy interveio. — Ele agora está casado, que se resolva com a mulher. Quanto a você, senhorita Heartfilia, precisa encontrar alguém que lhe complete amorosamente.
— Seria mais fácil se Loke não fosse gay. — Comentei, e as duas riram ao mesmo tempo.
Eu estava trabalhando todos os dias com ele, uma pessoa carinhosa e que gostava de mim, se quisesse me conquistar eu lhe daria todas as chances. Mas, para meu infortúnio, eu deveria estar preocupada em vê-lo tão apaixonado por Natsu quanto eu.
Passaram-se três horas de muitas conversas, brincadeiras e chocolates. Não sabia que havia tantas coisas para colocarmos em dia. Depois de um tempo, percebi o quão me mantive afastada, havia tantas coisas que deixamos de vivermos juntas. Parecia que pouco a pouco estávamos nos afastando, e eu não queria que aquilo acontecesse.
Elas eram minhas melhores amigas, tão diferentes quanto o céu e o mar, mas que no fundo me completavam. Estavam comigo em tantos momentos que era difícil me imaginar um dia sem elas. É como se tivessem se tornado parte de mim.
*
Esfriou de repente, e a sensação no meu peito indicava que aquilo não era algo bom. Minha cabeça por outro lado, me fazia pensar que era loucura mesmo. De toda forma, o fato era que o clima havia se transformado rapidamente.
— Olha quem veio nos visitar... — Sting abriu a porta e mal havia terminado de falar, quando vi Yukino entrando.
Ela estava diferente, as mudanças eram bem visíveis, tanto fisicamente como eu imaginava emocionalmente. Ela usava um lenço escuro na cabeça que amarrava de lado. Era claro que não havia mais sinais de cabelo.
Parecia ainda mais branca do que o de costume, e também mais magra.
— Yukino. — Mamãe cumprimentou-a carinhosamente. Ela riu, em resposta.
— Olá sogrinha. — Falou.
Yukino usava um vestidinho florido de cores escuras, e uma jaquetinha Jeans por cima. Estava encantadora com aqueles trajes, parecia uma princesa daqueles contos de fada. Ela de alguma forma, exalava uma pureza nostálgica.
— Oi Lucy. — Disse, ainda próxima do meu irmão. Fui até ela, e peguei em suas mãos. Não sabia exatamente o quão ruim poderia ser minha aproximação. Eu deveria lavar as mãos antes de tocar nela? Poderia passar-lhe algum mal?
— Estava com saudades. Faz tanto tempo que não lhe vejo. — Comentei. Ela sorriu, e as coisas mudaram totalmente.
Sting a soltou e nós nos sentamos no sofá. Mamãe foi para a cozinha preparar algo para lancharmos. Um minutinho depois, ela gritou por meu irmão, parecia haver algo na cozinha que a assustava. Talvez um inseto?
— Como você está Lucy? — Yukino me perguntou. Senti que com ela era como estar com Virgo e Levy, uma pessoa em que eu poderia confiar.
— Tentando levar a vida da melhor forma possível. — Comentei. Ela levou as mãos até a minha barriga e a acariciou lentamente.
— Meu maior sonho é ser mãe, quero muito ter um filho algum dia.
— E você terá. — Disse-lhe. — Só espero que eles não se pareçam com Sting, se tiver a mesma cara feia daquele moleque, pobre das crianças. — Nós duas rimos, provavelmente se meu irmão estivesse aqui estaria soltando fogo pelas ventas.
— Vocês dois já voltaram a se falar? — Questionou-me repentinamente.
Aquela pergunta me pegara desprevenida, porque a resposta não me agradava em nada. Até hoje ele não havia trocado mais que alguns diálogos básicos, tentando me evitar na maior parte do tempo. Quando eu insistia em uma conversa, ele falava que não, que minha falta de confiança nele havia cortado aquela relação que tínhamos antes. O máximo que eu conseguia eram palavras grossas que ele inquiria em relação ao pai do meu bebê. Sting, mesmo sabendo da verdade, não conseguia encarar Natsu. Sua raiva ainda era maior que qualquer coisa.
Talvez eles nunca fossem gostar um do outro.
Por incrível que pareça, eu tive a proeza de afastar o meu irmão de mim.
— Não. Ele mal se comunica comigo, eu já não sei o que fazer. A cada dia que passa sinto que as pessoas estão se afastando de mim. — Suspirei cansada. Yukino me encarava com olhos tristes, arrependi-me por ter falado aquilo para ela. O que eram todas essas coisas comparadas com o que estava enfrentando? Eu realmente não sabia quando deveria me calar. — E você? Como está o procedimento...? — Parei. Eu sabia que aquele era um assunto delicado, mas para minha surpresa ela não se mostrou receosa.
— Estamos seguindo com a quimioterapia, os médicos estão confiantes. Estou fazendo de tudo para conseguir sair dessa. Eles me falaram que a força de vontade conta muito e isso eu tenho de sobra. — Ela moveu a mão para a esquerda da minha barriga e sorriu, talvez imaginando coisas. — Às vezes isso não é possível, e eu sinto que estou me perdendo no meio disso tudo, mas graças aos céus tenho o seu irmão para me resgatar do fundo do poço. Uma parte bem ruim disso tudo são os efeitos colaterais: a perda de cabelos — Ela riu e apontou para a cabeça —, algumas inflamações na boca, tem vezes que sinto falta de equilíbrio e coordenação, mas esses hematomas são o que realmente me perturbam. Não dá nem pra usar um shortinho curto para passar ciúmes em Sting. — Brincou e nós duas rimos.
— Ele com certeza não iria gostar disso. — Comentei. Bem, digamos que ele sabia ser possessivo, cioso e rabugento.
— Mas apesar de tudo eu estou conseguindo prosseguir. Não sabe quantos cabelos diferentes consigo ter, e não se engane, eu amava meus fios prateados, no entanto, não é que o loiro e o ruivo me caem bem? — Soltamos gargalhadas. Gostaria de ser assim como ela, encontrar graça até nas piores situações.
Nós nos levantamos, e tão velozmente como o tempo a cena diante de mim prosseguiu. Yukino se ergueu e no instante seguinte vi seus olhos se fechando e ela caindo no chão. Tentei segurá-la, mas não imaginei que uma força extra fosse um dia tão necessária. Nós duas caímos, eu de joelho e Yukino deitada, tendo apenas as minhas mãos amparando sua cabeça.
Meu coração se acelerou diante o horror da cena a minha frente.
— Sting! Mãe! — Gritei em desespero. Mal se passaram dois segundos e os vi correndo até nós. — Precisamos levá-la ao hospital! Chama meu pai!
— Ele ainda não chegou em casa. — Falou enquanto meu irmão pegava a namorada nos braços e depositava-a no sofá. — Vou ligar para uma ambulância.
Temi o pior e meu terror ficou ainda maior quando vi os olhos de Sting. Estavam desesperados, olhava Yukino como se fosse perdê-la a qualquer momento. Nunca tinha visto um olhar de tanto pânico. Naquele momento compreendi, Yukino era tudo na vida do meu irmão, e pelas graças do céus, que ele não a perdesse naquele momento.
Encarei o relógio, já estava tarde. O que aconteceria se a ambulância não chegasse logo, e porque papai ainda não estava em casa até agora? Eu não precisava de mais preocupações nesse momento.
— Eu vou levá-la. — Sting pronunciou de repente.
Segurei em seu ombro antes de dizer:
— Papai está com o carro Sting, é melhor esperar, eles já estão chegando. — Disse, tentando convencer a mim mesma.
Ele me olhou por sobre os ombros, mas não falou nada. Suas mãos tremiam acompanhando o ritmo acelerado das minhas.
Mamãe olhava tudo abismada, tão aterrorizada quanto eu. Yukiko não reagia aos protestos de Sting e meu coração batia cada vez mais acelerado com isso. Só pedia ao senhor que tudo corresse bem.
Horas pareceram passar dentro de alguns minutos.
Sting segurou as mãos dela entre as suas e as apertou levemente. Foi quando ouvi o barulho muito bem conhecido se aproximando. A ambulância havia chegado.
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