Nove Meses
9 9 — O motivo pelo qual ela estava chorando
Notas iniciais
Era normal sentir tanta alegria por um simples obrigado? Não, não era. Mas eu estava imensamente feliz. Apenas nesta tarde havia conversado com Natsu mais que em todo o tempo de trabalho. Conheci hoje um lado dele que era sincero no amor por seu animal de estimação.
— Disponha. — Deixei-me sorrir. Dei-lhe uma última olhada antes de entrar.
*
Sexta Feira – 14 de setembro de 2001
Dois dias se passaram, eu caminhava ligeiramente pelos corredores a procura do senhor igneel, precisava conversar com ele a respeito de minha carga-horária. Há exatos trinta e cinco dias estava trabalhando em turno vespertino, até ai nenhum problema. Mas a questão é que, a partir da próxima segunda-feira as aulas estariam retornando.
A greve havia finalmente acabado e voltaríamos à ativa na faculdade. E como meu curso funcionava em tempo integral, eu não dispunha mais desse tempo.
Eu sabia onde encontrá-lo, pelo menos imaginava. Chegando ao lugar desejado, dei dois toques leves na porta, ouvindo um entre baixinho.
Logo ao ingressar no local eu pude avistá-lo, sentado em sua mesa, encarando as paredes. Quando me notou pareceu se espantar, mas logo soltou um pequeno sorriso.
— Igneel. — Murmurei lembrando-me de chamá-lo apenas pelo primeiro nome. Fechei a porta atrás de mim. Olhei ao meu redor, e ao contrario da última vez que visitei este lugar, a atmosfera estava densa. Uma sensação ruim se apoderou de mim. Algo me dizia que deveria sair imediatamente dali. — Posso falar contigo? — Perguntei indo contra o meu sexto sentido. Uma péssima escolha.
— Claro, deixe-me apenas... — Ele foi interrompido bruscamente por Yukiko que saiu do pequeno banheiro ofuscado no canto daquele cômodo. Ela me encarou mortalmente, desejando com um simples olhar que eu evaporasse. Senti um frio repentino se apossar de mim. Sim, eu tinha que sair o mais rápido possível do escritório.
— Então já chegou a esse ponto? Até mesmo te chama de Igneel? Você é pior do que eu imaginava. — Ela vociferou, faltava muito pouco para voar em seu pescoço. Estava descontrolada.
— Yukiko, por favor, não faça uma cena aqui. Eu mesmo pedi que me chamasse assim, ela trabalha há muito tempo conosco. — Ele se virou para mim, cansado daquela discussão com a mulher que parecia ter se prorrogado horas. — Lucy sente-se. Podemos conversar.
— É isso mesmo Igneel? Vai me deixar falando sozinha?
Eu olhava tudo aquilo me amaldiçoando. Era uma intrusa naquele ambiente, era óbvio que os dois estavam tendo uma conversa séria.
— Eu não quero atrapalhar, posso voltar outra hora. — Disse me dirigindo até a porta. Queria sair imediatamente dali.
— Não! — Sr. Igneel aumentou a voz. Levantou-se de repente batendo ambas as mãos na mesa. O som fez até mesmo eu me assustar. — Yukiko sairá. Nós já terminamos. — Ele a encarou. — Se retire, por favor.
A senhora estava paralisada, parecendo não acreditar no que acontecia.
— É assim? Você vai preferir ela a mim? — Dos seus olhos escorriam lágrimas. Lágrimas de ódio. Eu nunca imaginei vê-la chorar, da mesma maneira como eu nunca achei que veria Lissana no estado em que vi algumas horas mais cedo.
Hoje era um dia de muitas surpresas.
Yukiko fechou os olhos tentando se conter, no seu percurso até a porta parou ao meu lado. Meu corpo de enrijeceu e acreditei que aquele fosse o meu fim, tamanha era a fúria que seus olhos transmitiam, mas ela apenas continuou andando firme.
— Talvez seja melhor eu voltar outra hora. — Falei. Ele deveria querer ficar só, e o assunto que eu tinha a tratar, não era propício no momento.
— Fale Lucy, não deixe que as besteiras de minha esposa atrapalhem sua vida. É importante não é mesmo? Pode dizer. — Sentou-se novamente, mas eu ainda não estava convencida. Não deveria falar nada agora, não saberia nem mesmo como dizer. — Por favor, ignore tudo isto que você viu. — Ele se levantou outra vez, rodeou sua mesa e afastou a cadeira em que eu deveria me sentar.
Receosa eu fui até ela. Não era de minha vontade, mas na segunda começaria a faculdade, hoje já era sexta-feira, e provavelmente não o veria mais nesse meio tempo. Ele era um homem muito ocupado, precisava aproveitar essa oportunidade de encontrá-lo em casa.
— Eu... — Enrosquei meus dedos na calça, tentando inutilmente encontrar algo que pudesse agarrar, contudo o jeans estava colado demais ao meu corpo para isso.
— Vamos Lucy, pode me dizer. — Dizia enquanto ainda voltava ao seu lugar, encorajando-me. Sua voz era mansa e calorosa. Respirei fundo antes de começar a disparar.
— Bem, senhor — Ele me olhou de cara feia, e imediatamente me vi corrigindo. — Igneel. Segunda eu estarei voltando para faculdade, e como sabe os estudos ocupam boa parte do meu dia. Eu não poderei trabalhar à tarde. — Esperei por alguma reação sua, mas ele continuou pacífico.
— Eu fico feliz que a greve tenha terminado, os maiores prejudicados eram vocês, alunos. — Ele sorriu — O que pretende fazer?
— Eu gostaria de saber se poderia voltar a trabalhar no mesmo horário de antes, após o término da faculdade eu venho para cá.
— Pode sim, Lucy. Eu não quero que o trabalho lhe atrapalhe no seu curso. Não há nada melhor que estudar, pode ter certeza. — Concordei.
Nós dois nos calamos. Eu não tinha vontade de puxar assunto com o patrão, e nem sabia se deveria. Era tão estranho, pouquíssimas foram às vezes que tive a oportunidade de conversar com ele, sempre que tinha algo para resolver sobre o trabalho, resolvia com Yukiko.
— Eu já tenho que ir — Procurei uma desculpa qualquer — Tenho muito trabalho para fazer. — Me levantei voltando a cadeira para seu lugar.
Igneel olhou o relógio de pulso e franziu o cenho.
— Mas é quase seis, o seu horário já terminou. — Ele me olhou sem compreender.
— Ainda tenho algumas coisas para arranjar — Sorri sem graça.
— Lucy se você demorou, foi por ter muito trabalho a fazer. — Ele organizou os papeis sobre a mesa. — Eu gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer a você por ter ajudado Natsu naquele dia. Fico realmente grato por isso, não estou conseguindo me comunicar com ele nesse últimos dias, na verdade devo dizer anos. Ele mudou muito depois que conheceu a noiva.
— Eu fiz com muita boa vontade Igneel. Sempre que precisarem da minha ajuda, podem me falar.
— É uma garota de ouro Lucy. — Levantou-se da cadeira, ajeitando alguns papeis sobre a mesa. — Você já está indo não é mesmo?
— Eu ainda tenho que termi...
— Resposta errada Lucy. Não quero que trabalhe mais do que é paga. Por hoje o seu trabalho já terminou. — Ele foi até a porta e a abriu para mim — E não insista, ou me deixará muito zangado.
— Tudo bem. — Iria sair andando, mas para minha surpresa Igneel também veio atrás de mim. Ele girou a chave na porta, jogando-a no bolso no momento seguinte.
— Se você está indo agora para casa, eu me ofereço para lhe levar.
— Não! — Falei quando ele mal havia terminado a frase. Uma carona com Igneel era algo que nunca passou pela minha cabeça. — Quero dizer... Eu não quero incomodar.
— Não será incômodo algum. É caminho para empresa, vou passar praticamente em frente a sua casa.
Não poderia negar que me evitaria dor nas pernas, Sting não podia vir me buscar a esta hora, e minha única opção seria voltar andando por um longo percurso. Mas tinha um motivo de força maior que me fazia querer negar, era que, eu não queria imaginar o que as pessoas pensariam ao ver o patrão me deixando de carro na porta de casa. As malditas fofocas rolariam soltas, e me perturbariam pelo resto do mês.
— Eu agradeço, mas é melhor não.
— Eu não aceito não como resposta Lucy, quero me garantir de que não vai agora à área de serviço pegar uma vassoura para limpar qualquer outro cômodo que falte. Aguardo-te na garagem, vou esperar até que dê tempo de pegar os seus pertences. Não me faça ter que voltar para lhe buscar.
— Senh...
— Senhor não Lucy. — Ralhou — Para você é Igneel. É tão difícil assim a pronuncia de meu nome?
— Não, mas não agrada a sua mulher que eu te chame assim. — Murmurei juntando as pernas, tímida.
— Desde quando Yukiko tem esse poder? — Olhou-me inquisitivo, levantado uma das sobrancelhas. Vendo que não teria uma resposta de minha parte ele continuou — O nome é meu, senhorita. Eu escolho como as pessoas me chamam. — Ele sorriu semelhante a uma criança, mostrando os dentro brancos e brilhantes. O sorriso de Natsu deveria ser parecido. Eu gostaria de conhecer. — Eu não sabia que tinha todo esse medo dela, Lucy.
— Não é medo.
— Então é o quê? — Seu sorriso se extinguiu completamente. — Eu sou casado com ela, mas não é por isso que Yukiko virou minha dona. Por favor, não pare para cumprir todos os caprichos de minha esposa. — Bufou pela minha insistência. Isso ele e Natsu tinham em comum, ambos não eram de muita paciência.
— Está certo então, vou buscar a minha bolsa. — Ele concordou e nos andamos juntos por alguns instantes, até que fomos obrigados a nos separar.
Fiz o caminho de volta à cozinha feliz, eu teria uma carona. Não eram todos os dias que isso acontecia, eu devia agradecer a Deus por me livrar de andar até em casa. Ao chegar no cômodo tão conhecido por mim, inspecionei todo o local a procura de minha bolsa, mas não existia nenhum rastro dela.
Aquele desespero inicial se apossou de mim, eu não poderia perdê-la, não mesmo.
Comecei revistar tudo novamente, quando meus olhos avistaram a cadeira afastada da mesa, lembrei-me de imediato o lugar onde estava. Bati a mão na testa, eu era mesmo muito boba.
Sai da cozinha apressadamente, não era minha intenção fazer o senhor Igneel aguardar por muito tempo, eu sabia que homem nenhum gostava de esperar.
Cheguei à porta da biblioteca, desta vez não encontrei empecilho algum para entrar.
A bolsa estava sobre a mesa, jogada de lado. Peguei-a e conferi se estava tudo ali dentro. Era de meu costume esquecer as coisas, principalmente meus pertences.
Passei-a pelos braços e comecei a andar novamente, mas parei assim que senti algo peludo se enroscar em minhas pernas. Olhei para baixo e vi Happy esfregar a pequena cabeça na minha calça.
— O que foi amiguinho? — Ele se encolheu quando o peguei. — Está com medo? — Acariciei seus pelos.
Passos se aproximaram de nós, ergui meu olhar para ver Natsu parado na porta, ofegante. Vendo seu estado eu me arriscaria a dizer que havia corrido uma maratona.
— Happy, não fuja mais de mim. — O rosado se escorou na porta, respirando fundo.
— O que aconteceu? — Ousei perguntar. Ele não parecia muito disposto a me responder, apesar disso, veio uma resposta de sua parte.
— Nós estamos correndo há uma hora pela casa; surpreende-me que não tenha escutado. — Desencostou-se da parede e veio pegar Happy de meu colo. — Ele simplesmente fugiu ao ver Lissana. Ela é alérgica e se assustou com ele.
“Parece que essa não foi uma boa escolha” Completei mentalmente.
— Eu não sabia, teria sugerido outra coisa se fosse de meu conhecimento que ela era alérgica.
Eu sabia também que a falha não havia de ser em nenhum momento minha. Natsu estava prestes a se casar e não sabia que a noiva era alérgica a gatos. Desta vez o erro veio de sua parte, mas decidi por não tocar no assunto.
— Não há nada melhor que Happy. — Afirmou convicto. — Não foi o melhor para ela, mas é para mim. Pensarei em algo para presenteá-la. Não teria coragem mesmo de dar esse danadinho a ninguém. — Acariciava seus pelos azulados carinhosamente.
Pus a mão sobre a barriga afagando-a, não havia um motivo, apenas seguia o meu coração. Eu estava de alguma maneira comunicando-me com meu filho ou filha, era realmente muito estranho ou talvez fosse algo apenas da minha cabeça, o curioso, era que, fazendo isso eu me sentia ainda mais próxima da minha criança.
Poderia ser apenas bobeira de uma mãe de primeira viagem.
— Você está passando mal? — Perguntou sem me olhar, brincando com Happy. Encarei-o sem entender.
— Não, por quê? — Olhou-me de cima dos ombros, fazendo pouco caso.
— Está alisando a barriga.
— É meu costume fazer isso — Menti, inventando um pretexto de última hora.
Arquitetei uma desculpa para sair dali, Sr. Igneel estava a minha espera e provavelmente já deveria estar cansado de tanto esperar.
Quando cheguei vi ele dispensado Max, tomando conta do volante. Sentei no banco do passageiro, pousando a bolsa no colo. Conversamos por boa parte do percurso, assuntos sem muita importância.
Ele estacionou em frente de casa, despediu-se mim e partiu logo em seguida. Agradeci por não haver muita gente na rua àquela hora, torcia para que o menor número de pessoas possíveis tivesse presenciado o ocorrido. Principalmente as velhas fofoqueiras de plantão, que não deixavam nada passar. Orava para que elas estivessem embaladas no sono da tarde.
Adentrei em casa, vendo-a vazia. Rumei direto ao meu quarto, onde chutei os sapatos, e tirei a liga que prendia meu cabelo. Corri para o banheiro me esbaldando com a água quentinha que banhava meu corpo.
Enxuguei, vestindo um par claro de roupas intimas. Encarei-me no espelho, meu corpo ainda não tinha muita diferença para os olhos de fora, apenas minha barriga dava a impressão que havia me alimentado mais que o necessário.
Eu descobri na minha última visita a Dra. Mieko que estava na verdade de seis semanas e não de três como imaginava, havia feito as contas erradas. Era algo muito simples, mas eu ainda conseguia me atrapalhar. Eu também não podia me culpar tanto, os últimos acontecimentos vinham me deixando um tanto abalada.
Vesti um blusão que eu dizia ser camisola, era grande e pegava no meio das minhas pernas. Calcei os chinelos que estavam debaixo da cama, torcendo para que não tivéssemos visitas hoje, eu não gostaria de sair às pressas para trocar de roupa.
Joguei a calça Jeans dentro do cesto, fiz uma nota mental de não usá-las com tanta frequência. Conselho da Dra. Mieko. Providenciaria mais que depressa roupas folgadas para o trabalho.
Segui para a geladeira, escolhendo cuidadosamente o que iria comer. Deveria ter mais cuidado com meu cardápio.
Escolhi algumas frutas para compor meu prato. Descasquei duas laranjas, piquei uma fatia de mamão, e peguei dentro de uma vasilha de plástico dois pedaços cortados de melancia. Olhei para o utensílio redondo, e achei melhor devolver um dos pedaços da fruta vermelha. Eu não poderia comer em excesso.
Sentei no sofá, com o prato sobre uma almofada que estava em meu colo. Cacei entre o estofado o controle da televisão, ligando-a em seguida. Passei de canal até parar em um de notícias. Falava algo sobre uma garotinha que foi sequestrada, e mantida em cativeiro. A matéria já estava no final e logo começou outra, com o apresentador dando alguns pitacos sobre o ocorrido.
Prestei atenção em cada detalhe dessa nova matéria, minha atenção dirigia-se apenas a TV. Esqueci-me até do mamão preso no garfo. Então era isso, esse era o motivo de Lissana estar chorando tão desesperadamente hoje mais cedo nos braços de Natsu.
Aumentei o volume querendo ter certeza daquilo que eu ouvia. Mesmo que ela não estivesse na minha lista de amigas, eu tentava compreender a dor da albina. Eu nunca havia passado por algo parecido, e jamais desejaria passar.
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