Nove Meses
3 3 — Uma difícil escolha
Notas iniciais
O que fazer em momentos assim, de total desespero?
— Você pode falar? — Perguntou encarando-me seriamente. Remexi a cabeça para cima e para baixo, fazendo que sim. — Então, porque não responde? — Sua voz dura e ácida me deu ânsias, contive a vontade de sair correndo e me esconder, aparecer somente quando tudo estivesse resolvido. Encarei a espuma que escorria entre meus dedos e me dispus a pensar em uma resposta convincente.
— Estava apenas l-limpando. — Oh droga! Estou certa de que minha voz foi responsável por me entregar.
— Com as orelhas? — Natsu aproximou-se, e de forma indelicada chutou o balde preto para o lado, observei a água fazer trilha pelos degraus abaixo. Meus olhos seguiram caminho no corpo disposto a minha frente, comecei por encarar o pé, visualizando todo o seu corpo antes de concentrar-me em seu rosto.
Qual seria sua reação em saber que espera um filho da arrumadeira? O quanto seu orgulho seria ferido?
— Eu apenas abaixei-me para pegar o brinco que caiu. — Essa era velha, mas a única que estava sempre à disposição.
— Você não tem orelha furada. — Falou o obvio, e fiquei abismada. Como não pensei nisso alguns segundos atrás?
— Por isso mesmo, eu o trazia em mãos, ele se perdeu em meio a tanta espuma quando caiu, eu apenas abaixei-me para procurá-lo. — Inquiri. Ele me lançou um olhar desconfiado.
— E você o encontrou?
— Não, mas não é tão importante assim.
Natsu direcionou sua vigilância a mim, encarou-me por completa e fiz o mesmo vendo minhas roupas em alguns pontos molhados.
— Preciso que faça uma faxina.
— Claro, assim que terminar seguirei com o senhor. — Chamá-lo assim soava estranho.
— Acho que não entendeu, preciso para agora mesmo.
— Desculpe-me, mas tenho que terminar a limpeza nas escadas, ordens de sua mãe. — Falei enxugando as mãos no pano que em breve usaria para retirar poeira do corrimão.
— Deixe que eu me entenda com Yukiko, apenas faça o que lhe pedi. — Consenti, torcendo para que não sobrasse nada para mim depois.
— Sim senhor.
— Vamos para o meu quarto. — Falou naturalmente.
— S-seu q-quarto? — Discorri assustada. Ele queria...?
— Claro, preciso que organize, está uma bagunça. Algum problema?
— Não. — Suspirei. Por um momento me ocorreu que ele houvesse se lembrado.
Prendi os chinelos entre os dedos, o sabão o fazia escorregar tanto para frente e para trás. Ao decorrer do caminho que fazíamos, marcas foram implantadas no chão, minhas e de Natsu. Resultado de nossas solas molhadas.
Passávamos em frente a muitas portas, todas conhecidas devido aos muitos anos de trabalho. Ainda não foi citado, mas desde os dezesseis anos estou com essa família. Tudo começou quando mamãe descobriu ter diabete, e os remédios sendo muito caros me obrigaram a ir à procura de um emprego. Pela minha pouca idade, era difícil encontrar algo que pudesse fazer, mas o senhor Igneel foi uma das poucas pessoas que depositou sua confiança em mim, me dando esse serviço. A ele sou muito agradecida.
Chegamos à frente do quarto do rosado, a trinca de metal foi pressionada para baixo e a passagem ficou livre. Atravessamos para dentro do cômodo masculino.
Lembranças da noite mágica me consumiram por dentro, como eu gostaria de poder apagar da memória. A cama bagunçada onde nós dois havíamos nos amados com tanta paixão, mesmo ele acreditando ser outra pessoa. As camisas e calças jogadas, quais uma noite eu também as havia deixado na mesma condição. Pensar que minha mão brincou tão livremente pelo corpo que agora eu contemplava apenas com um medíocre olhar.
O que deveria fazer para conseguir esquecê-lo?
— Quero que forre a cama com aqueles lençóis, — Apontou para algumas peças de pano, dobradas em uma pilha sobre o divã, próximo ao guarda-roupa. — Distribua as lâmpadas douradas pelas luminárias inclusive as de mesa. — Apontou com os dedos para que eu seguisse seu raciocínio. — E quanto ao perfume quero que borrife quando estiver de saída, para que o cheiro não fique tão forte, preciso desse quarto limpo as oito. — Terminou, e não imaginei que desse tempo. Além de muito espaçoso, o quarto dava entrada para mais dois cômodos, o banheiro — Que ficaria provavelmente horas limpando. — e outro que não é de meu conhecimento. — Entendeu?
— Sim, estará tudo pronto a tempo.
— Assim espero. Se fizer seu trabalho corretamente dar-lhe-ei uma boa gratificação, sei que a limpeza dos quartos não fica sob sua responsabilidade, mas eu não disponho de tempo.
— Não é necessário. — Examinei cada detalhe do quarto desorganizado. Teria mesmo muito trabalho.
— Seja da forma que quiser, apenas cumpra os afazeres. — Falou, e saiu pela porta me deixando só, acompanhada de muito trabalho.
Busquei antes todos os materiais que seriam necessários.
Comecei pelas janelas, onde encontrei muita poeira preservada, os cantos perdiam as cores originais para dar lugar a uma suja e embaçada.
Agora sim, minha tarde estava começando.
*
Despejei a água suja do balde no ralo do banheiro. Estava cansada, e precisava urgentemente de banho e uma coberta quentinha.
Eram sete e meia, a lua dava fracos indícios de que apareceria. À tarde me tinha passado muito rápido.
Meu estomago roncou, não havia me alimentado bem nesse meio tempo. Provei apenas uma fruta e um pouco de suco, trago por Virgo as escondidas.
Tirei a luva branca agora encoberta de uma cor marrom, nunca imaginei retirar tanta poeira de um mesmo lugar.
O banheiro brilhava com tal intensidade que me ardia os olhos. Os azulejos brancos refletiam a minha silhueta. Saindo pela porta carregando o balde preto, onde havia muitos recipientes vazios, concentrei-me no pequeno frasco sobre o criado-mudo, espalhei o perfume por todo o quarto sentindo o aroma invadir minhas narinas. O cheiro era estonteante. Borrifei um pouco no meu pulso, para guardar de recordação.
Abri as pequenas janelas para que a fragrância se esvaísse um pouco, depois de todo o trabalho pronto me perguntei: para que tudo isso?
Obviamente ele não se preocuparia de continuar dormindo nessa baderna, já que o vinha fazendo há tanto tempo. Então por quê? Poderia ser...
Como um copo de água fria, a resposta me atingiu dolorosamente. Estava certa de que, todo o meu trabalho serviu para que ele e a noiva desfrutassem se uma calorosa noite de amor, claro, para que mais seria? Tudo fazia sentido, os lençóis novos na cama, o perfume...
Algo se rasgou dentro de mim e sei que foi meu coração, ele estava tão fraco, tão incrivelmente machucado, que não sabia por quanto tempo seria capaz de resistir.
Larguei o balde no chão daquele quarto, sem me importar com o que Natsu acharia da minha atitude, tudo o que queria era sumir. Correr para bem longe. Esse idiota. Deveria esquecê-lo, eu tinha esse dever.
Percorrendo os corredores praticamente voei ao passar pelas escadas, me compliquei no antepenúltimo degrau e fui de cara ao chão. Meu queixo se chocou contra o plano e pude sentir o gosto ferroso domar minha boca, correndo pela língua e descendo pelos dentes.
Estava atordoada e minhas vistas davam voltinhas, me espantava sentir todos os dentes inteiros e fortes.
Ainda tonta, meus olhos por um momento me fizeram acreditar que havia um salto agulha parado a minha frente. Voltei a encarar, e realmente existia.
A senhora Yukiko de frente a mim transmitia um olhar duro e irritado. Trazia em mãos um envelope de tamanho médio e cor vermelha, preso pela fina fita branca. Na frente estava visível o nome de Natsu e Lissana, se não estivesse enganada aquele deveria ser o convite de casamento. Com isso meu coração foi esmagado, esmigalhado, perfurado.
— Levante-se. — Soou dura e assombrosa. Não fez questão de estender o braço em forma de ajuda, seria demais esperar algo assim. — É bom te encontrar, queria mesmo lhe falar.
Obriguei-me a levantar e assumir uma posição ereta em sua presença.
Meus olhos observavam-na, e eu acredito, com o medo estampado claramente.
Para querer me falar antes do dia de pagamento, é porque algo realmente sério haveria de estar acontecendo, ou precisava de mim em mais algum serviço.
Esperei curiosamente que não fosse nenhuma das duas opções, e que alguma nova houvesse surgido.
— Acompanhe-me. — Virando graciosamente sobre os saltos Yukiko fez caminho por entre os corredores, acompanhei-a calada sentindo a dor em minha boca.
A cada passo vacilante que dava, percebia a senhora me olhar pelos cantos dos olhos.
Paramos em frente a uma porta que eu não conhecia tão bem, talvez já estivesse ali umas duas ou três vezes, aquele era o escritório do Sr. Igneel.
Limpo e arejado, o ambiente possuía uma cor marfim maravilhosa, o clima tão descontraído diferente de todo o restante da casa. É estranho. Sempre imaginei um escritório, com a atmosfera áspera e pesada, as paredes pintadas de preto ou marrom escuro, vi o quanto estava enganada quando entrei aqui pela primeira vez.
Yukiko sentou-se em uma das muitas cadeiras espalhadas pelo cômodo, me indicando outra. Respirou profundamente duas vezes, apertou as mãos, segurou a barra da saia escura, e por fim decidiu-se. Deduzi que era muito difícil o que tinha a dizer, parecia tão nervosa.
— Primeiro quero lhe agradecer... — Falou baixinho, um murmuro quase sussurrado. No seu rosto um semblante aborrecido.
— Me agradecer por quais motivos? — Oh, não podia acreditar que a senhora estivesse grata por algo. Esse momento iria estar eternamente registrado em um dos cantos maléficos de meu consciente.
— A minha primeira reação ao ver as escadas transbordando em água foi em despedi-la, mas Natsu esclareceu as coisas.
— Ah Sim, não é nada. — Sim, é tudo. Internamente dei pulinhos de alegria, e pela primeira vez na vida soltei um sorrisinho superior. É tão bom vê-la assim.
Seu olhar escureceu, provavelmente porque no fundo ela sabia que eu me divertia em vê-la nessa condição.
— Nesta família nunca foi permitido à entrada de empregados em nenhum dos quartos, a não ser Dona zoraide, mas ela já se foi a um bom tempo, como sabe. — Encarou-me. — Já está ciente que nesses cômodos estão alguns pertences valiosos, então qualquer coisa que tenha desaparecido ou esteja faltando saberemos que foi voc... — Interrompi-a.
Uma raiva horripilante apoderou-se de mim, senti os cabelos da cabeça ficar de pé. Como ela ousa?
— Não continue, por favor, senhora. Posso ser pobre, mas meus pais sempre fizeram questão de prezar por uma boa educação, não seria capaz.
— Pode ser, conheço seu pai ele trabalhou por muitos anos conosco. — O que? Como não sabia disso? Porque papai nunca fez questão de contar esse pequeno detalhe, sabendo que sempre trabalhei aqui? — Sei que ele é um homem íntegro, mas algumas atitudes suas deixam a desejar, tenho o dever de conferir.
— Fique a vontade, senhora.
— Busque sua bolsa. — Pediu.
Levantei a contra gosto, irritada com o insulto. Ajeitei a roupa amassada, passando a mão pela blusa e a calça.
Quando voltei, à senhora examinava cautelosamente o envelope em mãos, observando cada detalhe.
— Aqui. — Estendi a bolsa. Ela pegou sem receio, abriu-a, e fuçou dentro até que estivesse satisfeita. — Como pode ver que não roubei nada. Quando me encontrou tinha acabado de terminar. — Falei amargurada, e ela afirmou ligeiramente.
Mandou que me sentasse de volta, e disse que tinha outro assunto a tratar também. Não ouve um pedido de desculpas ou nada semelhante, apenas deu mais uma ordem. Estava farta de todas elas.
— Bem, Lucy. Inicialmente eu queria lhe falar sobre outro assunto.
— Sim.
— Como já sabe o casamento de Natsu está prestes a acontecer. — Queria lhe dizer que sabia, e não gostava de lembrar. — Contratamos o Buffet, mas queremos que nossos próprios empregados também se encarreguem de servir, sabe... Questão de confiança.
Respirou e fez uma pausa momentânea.
— Queria que ajudasse Lucy, trabalha aqui a um bom tempo, sabe como gostamos que as coisas sejam feitas.
Engraçado, a poucos praticamente me acusara de ladra, e agora vem me pedindo para que sirva no casamento do filho dela? Há não, é muita humilhação para um só dia.
— Então o que me diz?
— Quando será exatamente?
— Daqui um mês.
— Não posso, desculpe-me. — Me olhou esperando mais respostas. Eu continuei — vou ajudar na festa de aniversário de meu irmão. — Menti. Mas nem morrendo seria capaz de me prestar a isso. Ainda me restava o meu orgulho. Ferido, mas ainda era o meu orgulho.
— Contará com um bom dinheiro incluso em seu salário, não acha melhor repensar e me dar esta resposta amanhã?
— Já estou decidida senhora, infelizmente não vou poder.
— Sabemos que sua mãe precisa de remédios, e mesmo assim você está negando o dinheiro Lucy, não entendo.
E nem nunca vai entender.
— Já tem a minha resposta senhora. Não posso aceitar.
— R$ 600,00. É o que cada um dos garçons do bufê receberá. O que me diz?
Puxa vida! 600,00 reais? Isso facilitaria muito os meus dias, é muito dinheiro. Ao menos para mim, que sempre precisei trabalhar um mês inteiro para receber pouco mais que isso. Grana demais para uma noite.
— Eu...
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