Nove Meses
31 28 — Novos planos
Ela realmente estava chorando, lágrimas grossas desciam uma atrás da outra por seu rosto. Senti-me arrebatada diante da situação, com as novas informações que os meus ouvidos mal podiam acreditar.
— Com licença. — A enfermeira, que dada à situação já era esperada, finalmente apareceu. — Está tudo bem?
— Sim. — Yukiko respondeu. — Eu já estou de saída. Pode pedir para o meu filho entrar.
Quis gritar para que parasse quando a vi saindo por aquela porta. Tudo em que pensava era no motivo de ter citado minha mãe. O que ela teria a ver com Yukiko, o que poderia ter feito para causar tanto ódio da mãe de Natsu?
— Hey Lucy — Ele apareceu, e um sentimento agradável preencheu meu peito. Sentou-se ao meu lado, e agarrou uma de minhas mãos. — Minha mãe acabou de sair e disse que você não tinha nada de grave, o médico não quis me passar mais informações. Como está se sentindo?
— Bem... — Respirei profundamente. Se Natsu ainda estava agindo normalmente comigo era porque nada sobre a gravidez havia chegado aos seus ouvidos realmente. — Me desculpe ter que fazer você passar por isso.
— Eu não preciso de desculpas Lucy, não vejo nada que seja preciso ser desculpado. Tudo o que peço é por explicações. Por favor, seja sincera comigo. — Ele deu um sorrisinho pequenininho de lado. — O que minha mãe disse que tinha para me contar?
Sinto muito, Natsu. Mas ainda não estava na hora de revelar a verdade. Não enquanto seu amor não fosse forte o suficiente para me perdoar.
— Eu vou pedir demissão. — Apertei os seus dedos. — Não estarei trabalhando mais em sua casa no próximo mês.
— Por quê?
— A faculdade está muito puxada. Arrumei um serviço que me custe menos tempo.
Natsu beijou o alto da minha testa.
— Não sei o motivo de tanto mistério por causa disso. Tem certeza que é só isso Lucy?
Foi difícil, mas afundei meus sentimentos dentro de uma caixinha e fechei-a por alguns segundos.
— Sim, Natsu. Acredite em mim.
— Eu confio em você, Lucy. E se está dizendo, então acreditarei.
Quando meus sentimentos voltaram daquela caixinha na qual os guardei, trouxeram algo consigo. Quanto maior fosse o amor, mas terrível se tornaria a verdade. A confiança que nutria por mim seria dilacerada pela mentira.
A situação parecia não estar mais sobre o meu controle, e tudo que consegui identificar cravado no fundo da minha alma foi o medo de perder Natsu.
Yukiko agora sabia da verdade, e o que ela faria com isso?
*
Autora:
Tokyo — Cázaque Hotel — Quarto 68
— Seja bem vinda de volta Lisanna. Não tive a oportunidade de te receber bem quando chegou em casa. Espero que não se importe de ter saído às pressas, mas nossa conversa não poderia acontecer ali. Champanhe?
— Agradecida, Yukiko. Prefiro não beber. Quero estar completamente sã quando tiver a tão esperada conversa com Natsu.
— Você já sabe o que a espera, não é mesmo?
— Sim. Natsu terminará comigo. E de acordo com as informações que me tem dado, é tudo por causa da empregada loira, estou certa? — A garota mudou de ideia. Seguiu até onde a mulher estava e pegou a taça cheia que Yukiko havia acabado de preparar.
— Está bem com isso?
— Claro que não, eu vim preparada. Muito bem preparada, devo dizer.
Elas sentaram-se na mesa da bela cozinha. Não era nem de longe parecida com a que possuíam na mansão Dragneel,mas aquela, para um simples local de encontro, era suficiente.
— Devo alertá-la que a situação mudou bastante. Mas primeiro, diga-me, porque resolveu antecipar a sua volta?
— Eu já não tinha o que fazer em Bueno Aires, mamãe não se sentirá melhor por causa de mim. Não há esperanças para meus irmãos.
— Sinto muito, por isso.
— Eu também. Mas foi melhor assim. Mira e Elfman contariam a verdade para Natsu. E acabaria com o meu casamento. Esse acidente, apesar de trágico, não foi de todo mal.
— E não há mais ninguém que saiba o que aconteceu entre você e Laxus?
— Não. Tomei muito cuidado quanto a isso.
Bebericou um pouquinho mais da bebida. Num ímpeto tirou de dentro da bolsa uma foto antiga, onde se encontrava sua família e também o jovem garoto Natsu.
— Você não voltou a se encontrar com ele, certo Lisanna? Eu perdoei uma vez, não sei se posso fazer novamente.
— Claro que não Yukiko, — A garota de cabelos curtos se levantou, rumou à janela da cozinha e ficou a olhar o belo jardim que jazia lá fora. — Você não tinha outra opção, estou certa? Não ousaria me prejudicar quando sabe que posso fazer o mesmo contigo...
Uma sensação estranha que se iniciara no estômago de Yukiko tomara conta de todo o seu corpo. Por mais infeliz que fosse, a jovem tinha razão em relação a isso. Se Lisanna contasse tudo o que tinha conhecimento a seu respeito para Igneel, nem dois segundos se passariam até a separação. E com toda a influência que possuía, talvez nem os melhores advogados fizessem com que ela conseguisse muito.
—... Mas acredito que não precisaremos chegar a isso, eu amo Natsu mais que qualquer outro, sei que sabe disso.
— Então acredito que possamos iniciar nossa conversa.
— E do que se trata? — Lisanna se virou para a mulher que já não se sentava tão confortavelmente como acontecia anteriormente. Ela estava na ponta da cadeira, e o semblante que trazia consigo deixava claro que o que tinha para falar não era nada agradável.
— Recorda-se bem da noite de aniversário de Natsu, sim? — Com o aceno da companheira, ela continuou: — Naquela noite aconteceram coisas que você ainda não ficou sabendo, e tudo está ligado a uma pessoa em especial: Lucy Heartfilia.
— A empregadinha de novo? O que aconteceu? — Interessada na conversa Lisanna se aproximou de Yukiko, desta vez preferiu a cadeira logo ao lado da Sra. Dragneel.
— Momento depois do mal estar de sua mãe, onde você foi obrigada a levá-la até a sua casa, algo aconteceu debaixo de nossos narizes, sem que nenhum de nós percebesse. — A jovem trouxe a taça próxima de si, sem compreender ainda a importância que tinha aquele assunto. Pelas informações de Yukiko, nada de grave havia acontecido.
— O que?
— Você sempre teve conhecimento desse amor de Lucy por Natsu, certo?
— E como não? Isso é visível para todos. Acho que apenas Natsu ainda não tinha percebido.
— Bem, ela soube muito bem aproveitar a situação. Na manhã seguinte a festa, entrei no quarto de meu filho e encontrei os dois juntos.
A taça que estava na mão de Lisanna se transformou em milhares de cacos espalhados pelo chão. O rosto passivo de qualquer reação se modificou de tal maneira que ficaria irreconhecível a qualquer um.
Apertou os olhos ao mesmo tempo em que os dentes forçavam um contra o outro com uma brutalidade anormal.
Ela voltou a se sentar, abismada com o que Yukiko havia acabado de contar. De tudo que imaginara que ela poderia lhe expor isso sobressaiu a todas as suas expectativas. Então a empregadinha foi capaz de tanto. A dor da traição penetrou profundamente suas garras no coração negro da jovem, traição essa que nem mesmo Natsu sabia.
— Isso não é tudo Lisanna, essa noite que nunca veio a ser de conhecimento de Natsu gerou frutos.
A moça sentiu o corpo paralisar com as palavras recém proferidas pela mulher. Que fosse tudo menos o que estava imaginando.
— Diga-me, por favor, que não é o que estou pensando.
— Você é inteligente o bastante para isso, estou certa que já descobriu do que estou falando. Lucy está esperando um filho de Natsu. O herdeiro dos Dragneels.
A jovem sentiu como se todo o ar fosse lhe tomado por alguns segundos, e depois foi como se ele voltasse de uma vez só. Apertou entre os dedos o forro que cobria a mesa que logo veio a descobrir ser de vidro. Os nós dos dedos se tornaram brancos, tamanha a força que fazia.
— Eu juro que acabo com ela — Proferiu. Os lábios se ergueram num sorriso adorável, tão inocente que Yukiko diria que amoroso se não conhecesse a garota a sua frente.
— Não, você não vai. Enquanto meu neto estiver com ela nada de mal lhe acontecerá. Esse não é um pedido Lisanna, é uma ordem.
— A essa altura do campeonato você já deveria saber que eu não obedeço ordens! — Levantou-se. O tapa que desferiu na mesa fez Yukiko se afastar por alguns centímetros. — Principalmente de você.
— Não se esqueça que posso acabar com o seu noivado, uma única palavra querida, e está tudo desfeito.
— Eu posso acabar com o seu casamento. Acho que estamos em um mesmo terreno Yukiko. Agora você irá escolher se vamos nos ajudar ou destruir.
A Sra. Dragneel respirou profundamente. Não sabia se Lisanna seria capaz de chegar tão longe ao ponto de acabar com duas vidas, talvez fossem apenas blasfêmias de um momento de raiva. Por outro lado, uma garota como aquela que se importara tão pouco com a morte dos irmãos não seria capaz de eliminar a moça que poderia lhe tomar o homem que amava?
— É apenas uma criança Lisanna, ela é completamente inocente. Não faça isso. Você se arrependerá pelo resto de sua vida.
— Você compreende a situação melhor que eu, não é mesmo? Acho cômico estar sendo repreendida pela pessoa que teve coragem de se desfazer do próprio filho. Independente do que eu fazer não estarei cometendo o crime mais bárbaro que existe nessa terra: Eu não abortei um filho meu.
As palavras da jovem foram o ápice da paciência da mulher, que nunca imaginou que poderia sentir a raiva que nutria por Layla Heartfilia ser direcionada a outra pessoa. Mas ali estava esse sentimento novamente, totalmente voltado para a moça. Por apenas alguns instantes, mas mesmo assim, eram eles.
— E você nem mesmo poderá pensar em um aborto. Nunca poderá ter um filho Lisanna, já imaginou só o que Natsu diria sobre isso?
— Ele me apoiaria.
— Não quando souber que tem outra mulher esperando um filho dele. O que me diz sobre isso?
— Ele não conseguirá perdoá-la. No fim independente ou não de eu ser infértil, ele ficará comigo.
Yukiko gargalhou, por longos e intermináveis segundos, de forma escandalosa, sem limites, humilhante.
— Natsu está completamente apaixonado por essa menina, dou no máximo algumas horas para que ele a perdoe. Acho que você ainda não entendeu, estamos falando de um bebê. Uma criança que ele sempre quis ter. Apenas esse fato já é o bastante para mudar o rumo da história. Quando ele souber que você é responsável pela morte não só do filho, mas também da garota de que gosta, não consigo nem mesmo imaginar qual seria sua reação. Acho que você deveria pagar convênio com a funerária, evitaria pegar sua família desprevenida.
— Qual é a sua idéia então? Você também não está feliz com essa situação. — Perguntou a mulher de curtos cabelos claros.
— Nós podemos unir o útil ao agradável.
— O que está querendo dizer com isso, sogrinha?
— Você acha que conseguirá amar o meu neto algum dia?
— Não estou entendendo, Yukiko.
— Eu proponho que façamos do filho de Lucy, o seu filho. Essa será a criança que você nunca poderá ter. — Disse, de forma ágil e simples, como se aquele fosse apenas mais um assunto para discutir com as vizinhas no fim de tarde.
Lisanna pegou a taça de champanhe da acompanhante esquecida sobre a mesa, gostando do rumo que a conversa estava tomando. Se o pirralho ou quem sabe pirralha fosse parecido com Natsu, poderia quem sabe nutrir algum sentimento. De qualquer forma o que resolveria seu problema no futuro seria mesmo a adoção, pelo menos dessa forma não teria que mexer com tanta burocracia.
— Precisamos apenas armar um bom plano, para que ninguém desconfie de nada. O que você acha, gosta da idéia de ser mãe tão jovem?
— Yukiko... Estou adorando. — Riu. Realmente foi a melhor idéia que a sogra teve em anos. O rosto de Lisanna estava radiante de felicidade, o de Yukiko, porém continuava com a mesma passividade de sempre.
— O que faríamos com Lucy, depois de tudo?
— Eu não me importo com ela. Depois que o meu neto estiver comigo, sinta-se a vontade para prosseguir com seus planos em relação à Lucy. Não irei mais interferir.
— Você realmente pensou em quase tudo Yukiko. Eu posso chegar agora mesmo para Natsu e dizer que estou esperando um filho seu, a primeira parte é a mais simples de todas. Mas se o que me disse for mesmo realidade, com a paixão que seu filho nutre pela empregada não seria suficiente para retomar o relacionamento comigo.
— A não ser que... — Yukiko começou.
— Que ele ache que eu não esteja em meu saudável estado mental. — Ela sorriu de lado e continuou. — Se a namorada grávida que acabou de perder os irmãos em um acidente horrível tiver como consequência desse fato lastimoso entrado em uma profunda depressão, ele não se arriscaria tanto. — Lisanna concluiu.
— Ele abandonaria Lucy com um piscar de olhos.
— Com tudo isso nem mesmo se ela lhe contasse que está esperando um filho dele, Natsu me deixaria. Não com a presente probabilidade de um suicídio de minha parte. Afinal, eu estarei muito abalada com a situação da minha família. E quando chegar à hora do parto e a criança que Lucy está esperando nascer morta e ele ver o filho que tem comigo, não me resta dúvidas de qual será a sua reação.
— É bem provável Lisanna que Lucy nem mesmo conte que está grávida. Quando ela souber que você também é uma gestante com a menção da dúvida em Natsu, ela se calará. Felizmente ela é tola e esse ponto.
— Não vai ser tão simples assim Yukiko, não sabemos qual é a médica dela, nem se ela concordará com o que vamos propor.
— Não, tudo estará resolvido se por algum incidente ela não puder realizar o parto de Lucy. Eu, como uma boa avó, irei sugerir um médico de minha confiança.
— Acha que tem alguém assim por aí?
Yukiko voltou a soltar uma gargalhada.
— É o que mais tem minha jovem, muitos estão nessa pelo dinheiro. Precisamos apenas encontrar o lugar certo para procurar. Eu já tenho uma idéia.
— Deixo esses detalhes com você. — Ela se levantou, e carinhosamente passou a mão pela barriga lisa. — Vamos, levante-se, parabenize a mais nova mamãe. Estou de nove semanas.
Yukiko sorriu. O plano estava feito.
Com tudo completamente esquematizado o dia da volta de Lisanna a casa dos Dragneels chegou mais rápido do que esperava, o tempo parecia estar a favor delas. Foi quase infernal esperar mais dois dias naquele hotel, mas ela assim o fez.
Agora, ali estava ela, no quarto de Natsu Dragneel ansiosa pelo tão esperado reencontro. Olhou-se no espelho, sua aparência não poderia estar melhor. Ela abaixou a cabeça quando ouviu a porta ser aberta e apenas pelos sapatos já estava ciente de sua presença. Ela sorriu pequenininho e então as lágrimas caíram pelo seu rosto. Mirou os olhos do amado e finalmente disse:
— Natsu...
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