Nove Meses
29 26 — Inimigo a espreita
Notas iniciais
Natsu continuou a conduzir por mais alguns minutos, dez, para ser mais exata. Eu jamais esqueceria o que ele estava fazendo, pois poderia não estar interferindo, mas resolveu me ajudar.
Quando chegamos à rua da casa da avó de Yukino, o carro diminuiu drasticamente a velocidade e nós caçamos a residência certa. Era a última da rua, escondida entre as muitas outras.
Fiquei incerta sobre o que fazer. Por sorte havia Natsu ao meu lado que, mais decidido do que eu, apertou a campainha. Foram necessários alguns segundos para que aparecesse para nós uma senhora já de idade.
— Dona Glacy?
— Sim? — Aproximou-se das grades do portão.
Não pude evitar o sorriso que me preencheu a face, ela parecia encantadora. Tinha cabelos brancos presos no alto da cabeça num amontoado folgado. Usava um vestido longo de cor clarinha e uma sapatilha parecida cobria-lhe os pés. Os olhos eram pequenos de cor castanha muito clara.
— Eu sou Lucy Heartfilia, irmã de Sting. — Seus olhos se arregalaram em espanto, entretanto, ela logo exibiu um sorriso contido.
— O menino Sting? — Abriu o portão e ficou bem a minha frente. Pensei o que aconteceria agora se fôssemos pessoas de má índole, preferiria que ela tivesse se mantido lá dentro. — Como ele está? Faz algum tempo que não vem me visitar. Sempre estava aqui com Yukino, mas depois do que aconteceu não voltou mais. Espero que esteja bem.
— Estaria melhor se tivesse notícias de sua neta. — Observei como seu corpo se retesou, e o olhar que mantinha grudado ao meu até o momento se desviou para o chão. — Será que nós poderíamos ter uma conversa?
— Claro, claro. Entrem — Ela escancarou o portão para que nós pudéssemos entrar. Olhou simbolicamente para o garoto ao meu lado e eu o apresentei:
— Esse é o meu amigo Natsu, ele está me fazendo companhia.
Ele sorriu contagiante para a idosa.
— Muito prazer, Dona Glacy.
— Tão encantador quanto o menino Sting. — Quando estávamos completamente dentro ela passou o cadeado no portão. — O prazer é meu, querido. Vamos, vamos, acabei de coar o café.
A casa era modesta, decorada de forma mais antiga. De um modo que eu não estava acostumada, mas esse fator não tirou toda a graça do local. Ela trouxe três xícaras de café e alguns biscoitos super atrativos.
— A sua neta não quer ser encontrada, D. Glacy, mas eu preciso achá-la para saber como está.
— Sinto poder não lhe ajudar nisso, querida, não tenho notícia de Yukino. — Ela bebericou um pouquinho o café e mordiscou um dos biscoitos.
— A senhora sabe sobre... — Não consegui finalizar. Temi que não soubesse do estado de saúde da neta, e caso minhas suspeitas realmente fossem reais, tinha certeza que aquela não era a melhor maneira de ficar sabendo.
— O câncer? Sim eu sei. — Ela colocou a xícara novamente no lugar. Peguei a que havia trazido para mim e Natsu fez o mesmo.
— Sabe se ela já iniciou o tratamento? — Perguntou-lhe Natsu.
Balançou a cabeça, negando.
— Não. Ela mal me falou sobre a doença, foi como se... Viesse estritamente em busca de algo. Entrou, ascendeu à bomba rapidamente e se foi. Sem me deixar muitas escolhas. — Ergueu o prato com os biscoitos em direção a Natsu. Ele pegou um, e ela voltou o objeto outra vez ao lugar.
— Nós sentimos muito. Por isso mesmo precisamos encontrá-la, para que possamos ajudá-la.
— Acho que ela não precisa de ajuda, Yukino não é boba, ela preza pela saúde. Deve estar fazendo de tudo para melhorar.
— Como tem tanta certeza? — Questionei. Não senti tanta convicção no que dissera. Pensei que talvez ela apenas quisesse nos livrar da angustia que estava sentindo. Sua atitude era honrável, mas isso não era a melhor opção para sua neta.
— Eu conheço-a bem. — Disse desviando mais uma vez o olhar do meu.
— Escute senhora, nós queremos apenas o melhor para Yukino. — Natsu pegou as mãos gorduchas e brancas da senhora. Era um toque carinhoso, mas acima de tudo respeitável. — Não se lembra de nada que disse? Algo que pode nos ajudar a encontrar seu paradeiro?
Ela ficou nervosa, mas era esperado. Não podíamos medir suas ações diante da situação que estava vivendo. Uma avó é como nossa segunda mãe, o sofrimento para aquela idosa seria igual ou pior do que se fosse com a própria filha.
— É uma pena, mas não sei de nada. — Seu lábio inferior tremeu. Refleti sobre a quantidade de lágrimas que deveria estar segurando.
Com Yukino fora de assunto não havia muito do que pudéssemos falar. Ela me perguntou sobre Sting mais uma vez e eu disse que conseguira um novo emprego e que ia bem na faculdade.
Vinte minutos mais tarde nós nos despedimos dela a beira do portão, e prometi que faria com que meu irmão viesse lhe ver. Quando entramos no carro, suspirei pelo fracasso da nossa missão, e Natsu apenas lançou-me um olhar pelo canto dos olhos.
Trinta segundos depois que começara a dirigir senti que o automóvel parava.
— Algo errado?
— Sim, essa história que ela nos contara não me parece verdadeira. — Ele saiu do carro e fiz o mesmo. — Nós vamos voltar lá.
— Eu não entendo. Você acha que ela está mentindo para nós? — Questionei-lhe. Ele acenou positivamente e meus debates interiores aumentaram. Dona Glacy não tinha motivos para nos ocultar a realidade, ficou claro que ela também quer o melhor para sua neta, o mesmo podia se dizer de nós.
— Acho que ela tentou, mas não conseguiu demonstrar tanta preocupação. Claro, havia inquietação em relação à doença da neta, no entanto, nada parecido acontecia quanto ao seu paradeiro.
Meus olhos piscaram perante o seu raciocínio. Se eu voltasse no tempo um pouquinho, para a nossa conversa, poderia notar esse detalhe. Fiquei agradecida pela mente de Natsu ser capaz de captar o que eu não conseguira. Caso ocorresse de eu vir sozinha a essa visita não captaria nada importante.
— O que você acha, Natsu?
— Se o que me disse for verdade, e aquela senhora for à pessoa mais próxima que há de Yukino, creio que ela saiba o paradeiro dela, ou até mesmo a esteja a acobertando.
— Bem, seja o que for, nós não poderemos ter certeza agora. — Abaixei meus olhos para as pedrinhas que havia no chão. Talvez se tivesse percebido antes, poderia ter feito algo para tentar descobrir a verdade por trás daquela história.
— Claro que podemos Lucy. — Ele pegou minha mão e não pude evitar o pensamento que me ocorrera: Natsu estava fazendo isso com bastante frequência em tão pouco tempo. Espantei esses pensamentos e voltei para o que interessava.
— Como?
— Nós voltaremos lá para averiguar.
Meu corpo se alarmou com o que dissera.
— Você não está pensando em nos fazer pular o portão, certo Natsu? — Se aquela fosse a sua ideia, ela já havia sido completamente descartada por mim. Tentei criar milhares de alternativas. Quem sabe eu não achasse um grampo dentro da minha bolsa, isso funcionava nos filmes, certo? Sempre havia alguém abrindo a fechadura com uma, porque não poderia funcionar em um cadeado?
— Não Lucy, ela não trancou o cadeado quando nós saímos. Vi quando ela o passou no portão, mas ficou entretida com a nossa conversa sobre Happy. Quando nos fomos para o carro ela seguiu para dentro da casa.
— Você é algum agente disfarçado? Como conseguiu prestar atenção nesse detalhe? Estou me sentindo uma idiota aqui. — E era verdade. Eu me sentia agora como uma formiguinha em frente a um leão forte e selvagem. Talvez ele já soubesse até sobre a minha gravidez e apenas não deixara que ninguém percebesse.
Repensei. Não, isso não.
Natsu riu e vi seus dentes brancos se mostrar com tanto afago.
— Não, você não é idiota. O que aconteceu com a namorada do seu irmão lhe afetou mais do que a mim, que nunca tive nenhum contato com ela. Talvez seja isso que tenha me feito perceber algo a mais. Se tudo não fosse proposital, eu também não teria entendido.
— Isso foi premeditado? Você a distraiu com essa intenção?
Ele sacudiu a cabeça. Seus dedos apertaram os meus, e encarei a fundo os seus olhos. Antes que algo a mais pudesse vir a acontecer quebrei o contato. Disse que nós deveríamos ir logo se quiséssemos descobrir algo.
Quando chegamos novamente ao portão, olhei pela janela da frente tentando avistar Dona Glacy. Não consegui captar sua presença em nenhum lugar próximo. Natsu abriu o portão lentamente não emitindo nenhum ruído. Assim que estávamos os dois dentro ele voltou a passar o cadeado, da mesma maneira que estava anteriormente.
— Você sabe que o que estamos fazendo é crime, não é mesmo? Podemos ser indiciados por violação de domicílio. — Sussurrei em seu ouvido. Ele olhou feio para mim, e entendi que era um pedido mudo de silêncio.
Aquela nossa pequena aventura estava fazendo meu coração acelerar. Havia bastante tempo desde a última vez que fiz algo do tipo, uns bons anos para ser sincera. Lembro-me que a última vez foi para pegar fruta da casa do vizinho.
Natsu nos puxou até o canto da parede. Ele ficou a minha frente de forma que estava mais perto da janela e podia olhar por ela.
— Estou ouvindo vozes, mas o som está muito fraco. Temos que nos aproximar um pouco mais.
Uma ideia me cruzou a mente assim que vi o corredor do outro lado da casa. Nós poderíamos averiguar por ele, desde que conseguíssemos passar sem que ninguém nos visse. Cutuquei seu braço e apontei para a direção oposta a qual estávamos. Ele pareceu entender e olhou novamente janela adentro.
Quando percebeu que ninguém nos veria puxou a nós dois até o outro lado. Andamos pelo corredor e as vozes pouco a pouco foram ficando mais altas e nítidas.
— Vovó, a senhora não falou que eu estava aqui, certo? Por favor, me diga que não. — Ouvi uma voz que até então não havia reconhecido.
— Não, minha menina. Não faria nada para lhe prejudicar, no entanto, ainda sim me sinto muito mal por ter mentido para aqueles jovens. Eles me pareciam boas pessoas e realmente se preocupavam com você. — Identifiquei aquela voz como à de D. Glacy. Agora só me bastava descobrir quem era a outra pessoa.
— Obrigada... — A voz se tornou inaudível e andei mais alguns passos para conseguir ouvir melhor. Natsu me acompanhava em cada movimento. — Eu sei que Lucy é uma boa pessoa, mas ela contaria tudo para Sting. Ainda não estou preparada para encará-lo.
Bingo! Reconheci imediatamente a voz quando disse o nome do meu irmão: Era Yukino.
— É ela. — Contei a Natsu. No entanto mesmo sem conhecê-la, ele também já esperava, dada a sua reação. — Você tinha razão. Ela não só sábia, mas estava escondendo a neta. — Beijei-lhe o rosto em agradecimento e senti suas mãos descerem para a minha cintura. Afastei-me antes que Natsu me fizesse esquecer a minha promessa e beijar-lhe de verdade ali mesmo. — Muito, muito obrigada Natsu! — Tampei a boca quando percebi a altura com a qual tinha falado.
Mesmo assim, era tarde demais. Yukino e a avó apareceram no fim do corredor, há alguns centímetros de nós, com os rostos alarmados.
— Oh Meu Deus! O que vocês estão fazendo aqui? — A namorada, na verdade ex- namorada do meu irmão nos perguntou. — Lucy e...?
— Natsu. — Eespondeu. Olhei inquisitivamente para ele que apenas deu de ombros.
Essa ideia de entramos aqui nunca me pareceu tão idiota. Engoli em seco, sem saber como lhe contar a verdade. Nós não só tínhamos sugerido que sua avó era uma mentirosa ao invadir a sua casa para investigarmos, como também estávamos fazendo algo muito errado. Desde quando eu invadia a casa dos outros? Tentei convencer a mim mesma que era por um bom motivo.
— Olha, eu sei que parece muito ruim, mas nós apenas queríamos averiguar melhor. Não fique chateada Yukino, todos estão preocupados principalmente Sting. Ele está deplorável.
Ela abaixou os olhos e sua avó lhe apertou os ombros. Ela parecia mais preocupada com a neta do que com o fato de estarmos ali.
— Vocês não tinham o direito de estarem aqui. — Ela sussurrou. Consegui captar a voz embargada que se esforçava para não demonstrar.
— Eu tenho uma parcela de culpa também querida. Não consegui disfarçar muito bem. Nunca fui boa em mentir.
— Não vovó, a senhora fez o que pôde por mim. Deveria mesmo saber que uma mentira dessas não se sustentaria por muito tempo. — Ela colocou suas mãos sobre as da avó, e sorriu triste. — Venham até a sala, vocês certamente têm algumas perguntas para fazer.
Peguei Natsu pela mão e puxei-o comigo à medida que nós nos aproximávamos do cômodo em que estávamos há pouco tempo atrás. Meu corpo em nenhum momento se deixou relaxar, e eu duvidava seriamente que isso fosse acontecer com a situação que estávamos vivenciando.
Pensei se seria o certo em ligar para Sting, e avisar-lhe que havíamos encontrado Yukino, que aparentemente estava dentro do possível bem. Ao menos não se encontrava perdida por aí, passando fome e frio como a minha mente fez-me imaginar.
Quando nos sentamos outra vez no sofá instalou-se um silêncio que muitas outras vezes eu já presenciara igual. Era constrangedor, medonho, sem alternativas. Quebrei aquele incômodo com uma frase que não consegui segurar dentro da boca.
— Nós só queremos o seu bem, Yukino. Sempre saiba disso.
— Era isso o que eu temia. — Ela falou baixinho. — Não consigo encarar o olhar de pena que todos estão lançando a mim. Eu não queria isso, eu posso estar doente Lucy, mas ainda não estou a sete palmos abaixo da terra.
— Não... — Tentei falar, mas fui interrompida por ela.
— Não adianta negar, por mais que tente, ainda sim está evidente em seu rosto. — A avó mais uma vez apertou-lhe o ombro. Yukino avistou-a e desviou a face. — Até mesmo nas pessoas mais próximas de mim, consigo enxergar. É como se todos já tivessem prevendo a minha morte.
— Acho que você pode estar enganada. — Natsu tomou a palavra, moderado. Ele controlou o tom para que não a assustasse. — Eu não lhe conheço, mas já vi pessoas próximas a mim viver situações semelhantes. Não é dó o que eles sentem. Pode ser para outras pessoas quais nunca te conheceram, no entanto, para os que estão ao seu redor, aqueles que gostam de você e te amam, é apenas a inconformidade. Assim como é difícil para você aceitar a conviver com a doença o mesmo é com eles. Todos estão confusos, amedrontados por não saberem como conseguirão te ajudar. — Ele me abraçou de lado e eu sorri para ele. Não era exatamente pena o que eu sentia, acredito que ele esteja indo por um bom caminho. — Afastar aqueles que te amam, também não será uma boa opção. É em momentos como esses que precisa de apoio, esse é o melhor que eles têm a lhe oferecer.
Em pouquíssimos momentos desviei o olhar de Yukino, mas, quando o fiz por apenas um segundo, notei como algumas palavras mudaram o seu semblante.
Natsu se calou, mas vi a reflexão perambular a cabeça da jovem de cabelos curtos. Tudo que Natsu falara para ela de certo modo fora vivenciado pelo próprio. Teve uma época, e creio que até hoje, que ele precisou das pessoas que o amavam ao seu lado, mas infelizmente ele as afastou de si, enfrentando a dor e o desespero do passado sozinho.
Natsu apenas sabia que aquele caminho não traria bons resultados.
— Você tem razão — Ela sorriu de olhos nublados. — Eu tenho sido uma boba, não é mesmo? Acho que suas palavras me abriram os olhos. Eu queria tanto ter Sting comigo, acho que as minhas forças aumentariam apenas com um abraço seu.
— Vamos até ele então. — Natsu convidou-a ates que eu pudesse pensar em fazer. Fiquei grata por ter ele ao meu lado. Yukino perguntou a avó o que achava de tudo isso, e ela acariciou-lhe o rosto respondendo:
— Acho que deve ir.
Ela abraçou a idosa e depois veio até nós. Alguns minutos depois, quando havia se recomposto, nos seguimos para o carro. Pedi desculpas para dona Glacy pela falta de educação e por termos invadido sua casa. Ela não encarou a situação tão ruim, foi quando soube que no fundo estava agradecida. Estava certa quando disse que não era boa em mentiras, e percebi que aquela estava lhe matando.
Deixei de ir ao lado de Natsu e acompanhei Yukino no banco de trás. Nós conversamos sobre diversos assuntos, tentei distraí-la no caminho e fiquei feliz quando consegui algo parecido. Em determinado momento, o contexto da doença acabou interferindo em nosso meio.
— Eu tenho leucemia linfóide aguda. Uma equipe de médicos especializados no assunto discutiram sobre o meu caso e acharam melhor começar o tratamento com a quimioterapia. Eu vou sair dessa Lucy, não vou deixar que essa doença me mate.
Meu estomago se revirou com essa hipótese. Mas não pude deixar de lado a sua determinação, que era o pilar para conseguir vencer o câncer. Ver Yukino tão determinada me dava forças para não abaixar a cabeça para os meus próprios problemas. Ela estava em condições tão difíceis, e ainda sim se negava a desistir. Era um exemplo a ser seguido.
— Desculpa pela forma como a tratei no outro dia em minha casa. Eu só queria proteger Sting. Eu nunca o vi tão mal, aquela foi a primeira vez. Ele te ama Yukino, não duvide por nenhum momento disso.
Ela sacudiu a cabeça. Não tive certeza do que ela queria passar, exatamente.
— Eu entendo. Eu também o amo Lucy, muito. Eu não quero morrer, e vou fazer o máximo que estiver ao meu alcance para que isso não aconteça. No entanto, tenho ciência que a minha determinação não poderá resolver tudo, eu só quero passar todo o tempo que tenho ao lado dele.
Lágrimas vieram aos meus olhos, abaixei os olhos para que não corresse o risco dela ver nenhuma. Tentei despercebidamente enxugar algumas delas.
— Como você consegue? — Mantive minha face na mesma posição, longe do seu olhar. — Os meus problemas são tão insignificantes perto dos seus, e até hoje, ainda não aprendi a lidar com eles.
Tive a súbita vontade de contar a ela sobre a minha gravidez, é estranho, mas senti que poderia confiar nela. Se não estivesse preocupada por tanto tempo em enxergar apenas o lado do meu irmão, certamente uma bela amizade já poderia ter surgido entre nós.
— Sei que não somos muito próximas, mas conte comigo para o que precisar. — Levantei, finalmente, o meu rosto. Algumas lágrimas ainda desciam por ele. Perguntei-me se estava sendo fraca por isso, ou irresponsável, desde quando havia me tornado a vítima? Chorar não ajudaria em nada Yukino.
— Eu digo o mesmo, farei tudo que estiver ao meu alcance para lhe ajudar. — Inesperadamente senti ela me puxando para um abraço, que retribui inicialmente relutantemente. Alguns segundos depois, porém, essa situação não existia mais. Parecíamos duas amigas que não se viam há muito tempo e desejava extinguir apenas naquele abraço toda a distância que enfrentaram.
Aquela garota era tão forte que não sabia como era capaz de existir algo assim. Deveria ser ela a estar se debulhando em lágrimas, mas, mesmo com a situação que estava enfrentando, isso não estava acontecendo.
— Amigas? — Perguntou-me quando estávamos nos afastando.
Olhei para Natsu e ele nos olhava as vezes pelo retrovisor. Consegui captar seu aceno de cabeça.
— Amigas. — Respondi.
Natsu parou o automóvel no lado da rua oposto ao que ficava a minha casa. Yukino desceu do carro e ficou me esperando na sombra do lado de fora. Passei rapidamente para o banco da frente.
— Não tenho palavras para agradecer o que fez não só por mim, mas também pela minha família. Muito, muito obrigada Natsu.
— Acostume-se a isso Lucy, lhe ajudarei sempre que estiver ao meu alcance. — Ele passou uma mão pela minha face, úmida pelas lágrimas que desceram há pouco.
— Eu sei, foi erro meu deixar isso acontecer. Chorar na frente dela não lhe dará forças.
— Chorar não é sinal de fraqueza Lucy, é sinal de sentimentos, de que você sente algo. Não se sinta mal por isso. — Ele deixou um beijo carinhoso no auto da minha testa. Saí do veículo depois disso. Jamais esqueceria o que ele fez por mim nesse dia de hoje.
Yukino e eu observamos juntas ele se afastar.
— Você tem muita sorte Lucy, ele me parece ser uma pessoa muito boa.
— E é, um pouco ranzinza às vezes, mas possui um bom coração. — Ela tocou em meus braços e nos dirigimos para a entrada da minha casa.
Abri a porta e vi que meu irmão estava sentado no sofá, inquieto. Assim que ouviu o barulho da porta sendo aberta, seus olhos foram lançados para mim. Não permaneceram assim por nem mesmo um segundo, porque imediatamente correram para a pessoa atrás de mim.
Ele se levantou abruptamente e correu até onde estávamos. Afastei para o lado dando passagem a Sting. Meu irmão abraçou Yukino fortemente, erguendo-a no ar no mesmo instante em que seus lábios se encontraram com os delas.
— Eu te amo, Yuk. Amo muito. Por favor, diz que me perdoa.
Ela sorriu acariciando-lhe o rosto, e vi, pela primeira vez, as lágrimas descerem pelo rosto de Yukino.
*
Deitei na cama depois do banho relaxante que havia tomado. Estava realmente precisando muito disso, sentir a água quente descer pelas costas, como se estivesse extraindo toda a calamidade que foi o meu dia.
Yukino, papai, mamãe e Sting ainda estavam jantando a alguns cômodos de mim. Peguei o celular no instante em que começara a tocar. Era um número desconhecido, meu coração se alegrou, apenas com hipótese de poder ser Natsu.
Atendi com um delicado “oi”, mas todas as minhas alegrias se esvaíram.
— Soube que passou boa parte do seu dia com o meu filho. Eu já lhe avisei uma vez Lucy, afaste-se enquanto ele tem uma boa impressão de você.
Tentei parar o tremor que meu corpo adquiriu. Eu não poderia demonstrar fraqueza para ela. Forcei minha voz a soar despreocupada.
— Como conseguiu meu número?
— Não acho que isso tenha muita importância, só liguei para relembrá-la que já foi avisada Lucy. E olha, leve em consideração que não gosto de avisar muitas vezes. Na próxima vez, terei uma conversa muito interessante com Natsu. — E em seguida, desligou.
“Cão que ladra não morde” Tentei me convencer disso. “Mas tem alguns que mordem, muito doído ainda por cima”
Deveria haver alguma forma de virar esse jogo ao meu favor. Não poderia deixar que ela continuasse me chantageando. Se houvesse alguma forma, algum segredo... O celular voltou a tocar. Pensei no que poderia dizer a Yukiko, que lhe deixasse desarmada.
— Eu não vou mais suportar seus...
— Lucy? — Perguntou confuso.
— Natsu? — Questionei de volta.
— Você costuma ser tão amorosa em todas as suas ligações? — Consegui captar o tom de deboche. Meu rosto entrou em combustão. Porque eu não poderia simplesmente atender antes de soltar uma avalanche de palavras? Se ele me pedisse uma explicação agora queria ver meu cérebro trabalhar tão rápido.
— Não, é que...
— Não precisa se explicar Lucy. — Ele riu — Queria saber como está. A dor de cabeça já se foi?
— Ah... — Eu nem me lembrava mais disso. Os incidentes me fizeram jogá-la para escanteio. — Estou ótima.
Sentei na cama, balançando as pernas, inquieta.
— E a outra moça?
— Acho que ela e o meu irmão se acertaram. — Falei animada. — Provavelmente estão namorando novamente.
— Você parece feliz. — Natsu propôs. E realmente era o que se passava comigo. Ver como Sting estava bem acalentava uma parte do meu coração. — Lucy, na casa de campo você disse que tinha algo para me contar, porque não aproveita a oportunidade?
Meu coração gelou com a ideia, mas nunca, nunca em minha vida contaria para Natsu por telefone que ele seria pai. Vai precisar de todas as minhas palavras para tentar convencê-lo. Não posso fazer isso se não estivermos
— Pare de ser tão curioso, Dragneel. Eu já lhe disse que falarei para você quando já tiver se resolvido com Lissana.
— Será logo então. — Declarou. — Ela estará voltando no final da próxima semana. Ou talvez até antes. — Ele ouviu meu suspiro de pânico, e tentou me acalmar. — Ainda estamos firmes nisso, não é mesmo Lucy?
— Sim.
— Não se preocupe, sei o que devo fazer. Será o melhor para todos nós. — Um barulho ao fundo pareceu lhe despertar a atenção. — Boa noite Lucy, ligarei novamente amanhã.
Ele não me deixou despedir. Já estava desistindo de tentar entender quando percebi que a chamada não havia sido encerrada. Aproximei novamente o celular do ouvido, tentando saber o que poderia ter acontecido com Natsu.
— Você não está curioso para saber o que ela tem a lhe contar meu filho?
— Yukiko há quanto tempo você está aqui ouvindo a nossa conversa?— Natsu parecia muito irritado. Questionei-me do modo como ela poderia ter escutado tudo que nós dizíamos e a única coisa que me veio a mente foi o viva-voz.
— Se estava tão preocupado assim com o que estava conversando não deveria deixar alto para que todos pudessem ouvir.
— Eu estou no meu quarto, acho que isso não seria um problema aqui dentro. Mas vejo que nesta casa já não se tem muita privacidade. — Outro barulho ecoou chamando agora a minha atenção. — Estava vendo alguns papeis que meu pai me dera, ele quer que eu entre na empresa também.
— Olha que boa novidade.
— Esqueça isso. Apenas... Se retire do meu quarto.
Depois disso não consegui ouvir mais nada e encerrei a chamada.
Outro problema me atingira em cheio. Yukiko agora sabia que eu tinha algo para contar a Natsu. Na “melhor” das hipóteses poderia considerar o fato de eu ter dormido com ele, mas, eu não poderia saber onde isso poderia resultar. Se ela quisesse mesmo contar sobre isso para ele, porque já não teria feito? Ela não tinha nada a perder.
Nesse momento, tudo que eu não poderia deixar acontecer, era a sua descoberta sobre essa criança que está para nascer.
Um medo súbito me acometera.
E se, pela raiva que tinha de mim, resolvesse descontar tudo no meu bebê?
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