Nove Meses
2 2 — Dias de tormentas
Notas iniciais
Lucy pov on:
11 de setembro de 2001.
Meus olhos deslocaram para a TV pequena pretinha de quatorze polegadas, instituída no canto da parede logo a cima de um rack velho torto.
Sentei no sofá onde permaneci pasma por alguns longos segundos, não querendo acreditar no que estava acontecendo, segurei o coração alarmada, tudo empacou, o mundo havia parado.
A fumaça tomava de conta, as pessoas pulavam do alto tentando se salvar, mas isso apenas lhes servia para antecipar o seu encontro com a morte.
O telefone da cozinha tocou, e eu prontamente fui atendê-lo aumentando antes o volume do aparelho elétrico ao máximo.
— Lucy, está com a televisão ligada? — Era Levy, e azulada parecia assustada sua voz soava atemorizada. Ofegava.
— Sim, também juro não acreditar. — Falei ouvindo os repórteres anunciarem o ataque terrorista.
— Como isso pôde acontecer? As torres gêmeas...
— O Pentágono também foi atingido. — Ouvi a notícia.
— Lucy, Cana tá em Nova York, estamos preocupados, já tentamos nos comunicar, mas não deu certo... — Falava rápido demais, as palavras comiam uma as outras, meu cérebro não conseguia processar.
— Fale devagar. — Pedi amenamente. A azulada respirou e fez uma pequena pausa. — Mamãe está em estado de choque. E eu não sei o que fazer — Ouvi os pequenos soluços de minha amiga. Ela estava chorando, e me amaldiçoei por não estar perto.
Cana Alberona é irmã mais velha de Levy, a diferença pequena de idade é apenas de dois anos. A Alberona se mudou para os Estados unidos, cerca de um ano atrás, onde faz faculdade de administração, por lá encontrou melhores oportunidades que aqui no Japão. É casada com Yutaka, um moreno vigoroso, e juntos tiveram a pequena Hanako, doce, gentil e linda, muito parecida com a mãe.
— Ei amiga não chore. Quais as possibilidades de ela estar por lá? Han? Mínimas se não nulas. Notícia ruim chega rápido, fique calma. Nada aconteceu. — Tentei acalmá-la, porém no fundo em um cantinho reservado o mesmo medo me corroia.
— Não sabe o quanto quero acreditar, peço tanto para que nada tenha acontecido.
— Não aconteceu. — Garanti.
— Mamãe está chorando, vou confortá-la. — Falou e um breve silêncio se destacou. Despedi-me rapidamente antes de Levy finalizar a chamada.
Voltei o telefone ao seu lugar, parei para refletir, não havia possibilidades de algo trágico acontecer à morena. Aquela família desmoronaria se algo ocorresse, Levy não suportaria tamanha dor, não após perder o pai tão recentemente. Seria um choque muito grande. Manhattan é enorme, não há chances, não pode ter.
O que fazer para ajudá-la? Pensaria em algo mais tarde. Agora o trabalho estava a minha espera.
Vesti algo decente antes de conferir-me, a calça é justa e a blusa larga. Não é muito agradável minha imagem no espelho, contudo estava confortável e assim mesmo ficaria.
São onze da manhã, a todo o momento surgiam notícias sobre o ataque ao World Trade Center, alguns repetiam aquelas que já haviam sido anunciadas, todos os canais discorriam sobre o mesmo acontecimento.
Cacei o controle entre as almofadas, apertei o botão vermelhinho vendo a televisão apagar-se. Estava pronta para ir. Verifiquei as portas antes de sair, deixando a chave por baixo do tapete de entrada, caso mamãe voltasse mais cedo.
As ruas de Tóquio estavam bastante movimentadas, os comércios acessíveis e agitados, os carros parados formavam um longo congestionamento, os motociclistas faziam zig zag e passavam rapidamente à frente. Pelas calçadas andavam poucos pedestres, com sacolas repletas de roupas e alimentos. Suspirei, aquela visão era habitual nos dias da capital.
Pesquisei as horas no pequeno relógio de pulso, marcavam onze e vinte quatro, teria mais seis minutos para chegar ao serviço, caso não queira ser despedida, e ainda por cima carregando um filho no ventre.
Por algumas horas me permiti esquecer, mas este assunto não podia ser ignorado, estava esperando um filho, um herdeiro que seria muito rico e poderoso se descobrisse sua origem, qual não era meu interesse. Estava disposta a enfrentar sozinha tudo que me vem pela frente, pelo meu filho, por essa criança que crescia em meu ventre, por ela iria lutar, pelo bem do meu bebê.
O taxi virava a esquina quando fiz sinal com a mão, logo parou ao meu lado. Dei o endereço da casa dos Dragneel, onde atualmente trabalhava de arrumadeira.
Não foram muitos os minutos, e estávamos de frente à residência de uma das famílias de grande importância do Japão. Paguei o senhorzinho com as últimas notas que me sobrava na carteira.
Passei pelo portão da frente e entrei pelas portas dos fundos que levava a cozinha. Ingressando no cômodo me deparei primeiramente com Virgo, uma jovem cozinheira que já estava há algum tempo com a família. Apresentava cabelos rosados, e um corpo chamativo, era muito atraente e sabia fazer bom proveito de sua beleza. O rosto sempre pintado, e os olhos não largavam as lentes azuis, os lábios brilhosos e carnudos. Seu maior objetivo — se assim posso chamar — era conquistar o senhor Igneel, o dono da casa nobre.
No início enfrentamos alguns desentendimentos, porém agora nos entendíamos muito bem, ela é uma das poucas que podia contar nesses momentos difíceis, apesar de ser a segunda cara, a saber, de minha gravidez, e mesmo que muito ambiciosa, uma ótima amiga.
— Na hora, admiro a pontualidade. — Pronunciou cortando o peixe em pequenos pedaços sobre a tabua de cozinha.
Deixei que a bolsa que carregava nos ombros descansasse sobre o balcão.
— É melhor garantir o emprego, meus pais precisam dessa renda no final do mês.
— Se você contasse a verdade, não seria necessário. — Parou o que fazia e virou-se em minha direção. — Pense Lucy, a mordomia que teria: roupas, sapatos, fartura, você merece ser tratada como uma princesa está gerando a criança de um príncipe.
— Isso não me interessa, ele nunca acreditaria em mim, além de estar de casamento marcado, não quero destruir um lar. — Ela negou com a cabeça, e sibilou com os lábios as três letras que eu resolveria tudo, ao menos em parte: DNA.
Sim, apenas um exame de DNA e poderia exigir tudo. Para o meu filho, claro.
— Em New York, as coisas estão pegando fogo, aqui já ultrapassou um incêndio. Lucy, se você se arrumasse com o bonitão do Dragneel, todas nós seriamos beneficiadas, poderia me ajudar a ir para as alturas, seus problemas seriam resolvidos, seu filho, sua família, você, todos viveriam na riqueza. Para de ser boba mulher, aprenda a tirar proveito do que a vida está lhe oferecendo. — Disse e não acreditei, minha boca se abriu dando livre passagem para os mosquitos que estivessem por ali. Era ridículo. Ela pensava assim?
— Primeiramente não tem como eu me arranjar com o Natsu porque ele mal me conhece, no máximo me viu umas duas vezes pelos corredores. Segundo, eu não lhe ajudaria em nada, você precisa fazer isto com seu próprio esforço. — Olhou-me indignada, mas eu estava certa. Como uma cozinheira de uma hora para outra viraria, por exemplo, uma governanta? Impossível! Além de que, ela era especializada nessa área, fiquei na dúvida se saberia fazer outra coisa. Seria mais fácil procurar um novo emprego. — E por último, não tenho interesse no dinheiro dessa família, o que me preocupa agora é apenas o meu filho, e só nele eu vou pensar.
— Você é maluca pra jogar pelo ralo essa oportunidade, está desafiando a sorte, ela não costuma bater na mesma tecla duas vezes. Reflita bem.
— Tenha certeza que sim, Virgo.
— Como pode ser tão burra? Pense na grana que vai obter, vamos Lucy, faça o que digo.
— Eu não sou burra e nem interesseira, do que me adiantaria estar com ele e ser infeliz pelo resto dos meus dias?
— E quem disse que vai durar por muito tempo? Você se casa, pede comunhão de bens, solicita o divórcio, pega metade da grana do seu maridinho, e vaza para Bahamas meu bem, esquentar essa carne branca.
Oh... Tão obvio.
— Você é maluca sabia? — Segurei o riso, caçando a avental nos armários abaixo da pia. Seria tudo de bom se fossemos para Bahamas, mas Natsu eu e nosso filho ou filha o que viesse seria muito amado.
— Não, não sou. Pare de ser inocente, por Kami aproveite essa oportunidade. — Virgo faltou pouco me puxar os cabelos e ri, com sua ação de jogar espuma da bucha em mim, como o dia ensolarado que era não vi problemas.
— Eu não vou dar o golpe da barriga. — Disse. Ela jogou as mãos pro alto, contraiu as pálpebras e os lábios, contou até três e respirou fundo.
— Eu desisto, não há jeito pra você. — Gargalhei, o clima entre nós mudava com muita facilidade.
Virgo saiu da cozinha quando Sra. Dragneel apareceu e chamou-a para resolverem os últimos detalhes do almoço daquela terça-feira. Concentrei-me nos afazeres e busquei na dispensa algumas vassouras, espanadores, rodos, águas sanitárias, detergentes, e alguns mais. Caminhei para a sala de visitas e encarei os vinte cincos degraus à frente, todos haveriam de ser limpos com escova. Quase chorei só de pensar no esforço a ser feito pelos meus braços, esse seria um daqueles dias que mau passava pela ducha, antes de cair de cama.
Comecei pelo vigésimo quinto, onde molhei com o pano encharcado e esfreguei com o sabão de barra, botei os fones de ouvido, e ali comecei uma longa e cansativa tarde. Contudo, antes da música me embalar, ouvi os murmúrios que vinham do cômodo de baixo, exatamente abaixo das escadas, a parte mais frágil da casa. Era a biblioteca, arranquei os fones e os joguei dentro da blusa, limpei mais ou menos o lugar enxugando com o pano úmido e colei os ouvidos no chão na tentativa de ouvir
Precisavam falar tão baixo?
— Entendeu bem Virgo?! O sushi tem que ser cortado em rodelas perfeitas. — A consorte falou.
— Sim senhora. — Ouvi a voz da garota de cabelos rosados um tanto quanto irônica, ela não tinha medo de perder o emprego?
— Agora não é necessário mais os seus serviços, pode se retirar. — Escutei a porta bater-se e continuei na mesma posição ao ver do alto a albina atravessar por onde Virgo acabara de sair.
— Lissana quanto tempo não a vejo, senti tantas saudades. — A voz da senhora soou fina e melosa, aquilo me deu náuseas.
— Digo o mesmo Yukiko, estou tão ocupada com os preparativos para o casamento que não me resta tempo para vir visitar-lhes.
— Não há problemas, depois que casar-se com meu filho estaremos morando todos juntos. — Algo assim já se passava pela minha cabeça, porém é tão cruel para nós empregados, o que faríamos com mais uma frívola? De fato, o trabalho vai aumentar. Além de saber que todas as noites eles passariam juntos, no mesmo quarto, na mesma cama... Destroça meu coração.
— Há sim, vamos nos ver sempre... — Tentei forçar quando ela abaixou o tom de voz. Prensei ainda mais a cabeça contra o piso.
— O que faz aí garota?! — Rapidamente despreguei-me do chão com o susto. Deparei-me com o desespero ao ver de que se tratava. Fechei os olhos e pedi para que aquilo não estivesse acontecendo.
— Vamos, responda! — Falou o rosado. Apalpei o chão, verificando se ele ainda estava ali. E agora?
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