Notas iniciais
Olá, os capítulos serão separados por personagens, traduzindo, os personagens contas as histórias narradas nos capítulos. Espero que gostem e boa leitura.

A Selva do Sul é densa, quente e grande. Muito grande. O cavalo de Qimin parece muito cansado e ela também está. A selva é bonita, cheia de animais exuberantes, exóticos, plantas grandes, pequenas, de várias cores e formas. O animal que Qimin mais acha bonito é o Tigre Albino, um animal de pelagem curta, branca, seus olhos sempre azuis como o Mar do Leste. Seus dentes de sabre são grandes, uns vinte e cinco centímetros, esse animal é longo e corre muito, muito rápido. Mata um cavalo em questão de segundos. Um Elefante Peludo em minutos. Esse animal maravilhoso vive longe dos homens, mas quando resolve aparecer não pode passar despercebido.

Há uma crença antiga de que, se um homem matar um Tigre Albino, que são filhos da Lua, os outros deuses deverão a ele um favor. E esse favor deve apenas beneficiá-lo, não pode pedir que sua amada volte depois de morta, ou que sua mãe se cure de uma doença trágica, muito menos que alguém morra. Não, não, esse pedido deve beneficiá-lo de outra forma: se curar de uma doença, for o mais forte de todos os outros ou, se por acaso ele encontrar a Mãe Albina, a maior tigresa albina, ele pode pedir a imortalidade. Mas isso é somente uma crença e Qimin não acredita nisso. Nem mesmo acredita nos deuses.

Ela já tinha pedido tantas vezes para ajudarem-na. Ajudar sua mãe e seu pai a se entenderem novamente. Ela não sabia o que tinha acontecido com eles, o porque de terem brigado, mas isso tinha de acabar, Qimin já não mais aguenta ficar vendo os dois discutirem ou nem olharem na cara um do outro. Seu pai mudou de quarto, sua mãe, vez outra, leva um homem moreno e muito bonito para o quarto dela. Os almoços são infernais, nenhuma conversa, somente comem mecanicamente, a garota tenta puxar assunto com os dois, mas nunca dá certo e agora seu pai a enviou nessa viagem idiota.

Seu pai é Lorde Julie, senhor do Leste, senhor das Uvas Brancas. Qimin viaja para o castelo Black, castelo do Rei e de seu amado Príncipe, o jovem Malmer. Ele é lindo, pensou ela. Lindo como a manhã de primavera. Qimin o viu uma vez, mas foi o suficiente para se apaixonar e no alto da torre do Rei, Qimin e Malmer se beijaram, foi à primeira vez dela e ela lembra como se tivesse sido o dia anterior a este. Qimin o ama verdadeira e puramente. Eles trocam mensagens, Qimin enviando seus pássaros brancos e o Príncipe, seus pássaros negros do alto da Torre de Verão. Uma torre solitária, alta e que no inverno neva.

–Sor Irimin, já estamos chegando? Minhas coxas estão me matando.

–Sim Milady, estamos próximos. Mais alguns quilômetros.

Qimin bufou, já estava cansada de esperar. Queria logo ver o Príncipe, então notou algo se mexendo nos céus. Um pássaro azul é um dos pássaros de seu pai. O pássaro abriu as asas e voou até o cavalo de Qimin, esta parou, desatou o nó na pata do bicho e desenrolou o papelzinho:

“Qimin, cuidado com os macacos de cara azul na floresta. Espero por você no Castelo Black.”

A caligrafia era reconhecível, não era de seu pai de maneira alguma, suas letras eram detalhadas, escritas com cuidado, com tinta boa, penas caras. Essa era escrita com tinta barata e com uma pena de galinha com um pedaço de pau na ponta. As letras escarranchadas de Paul a fez continuar a caminhada. Cada vez mais rápido.

O castelo Black, como o nome já diz, é preto. Todo preto. Suas pedras negras postas uma em cima da outra por gigantes dão corpo ao castelo cheio de torres altas e vigorosas. A grande muralha de pedras verde-escuras protege o castelo. As torres dispostas a cada doze metros, cheias de arqueiros e espadachins. As cavalarias sempre postas nas quatro entradas com pontes levadiças acima de poços com crocodilos monstruosamente grandes e com dentes afiados. A segurança é máxima. Três gigantes de trinta metros estão de pé em pedestais de pedras cinzentas com arcos enormes que começam no alto de suas cabeças e terminam enfiados no chão.

A ponte desce lentamente com o barulho de correntes rangendo. Correntes grossas descem a ponte de madeira. Os cavalos, assustados, passam correndo pelas pontes, Qimin tem o vislumbre de um crocodilo saltar e quase chegar até a ponte.

–Não se preocupe Milady, eles não vão te morder.

Ela sorri para o cavaleiro que guarda a ponte.

Assim que entra, trombetas são tocadas, o Príncipe sai à sacada e sorri para ela. Qimin tira o lenço que está enrolado em seu pescoço e o prende nas rédeas de seu cavalo. Ela desce com um salto e corre para a entrada do castelo Black e seu corpo se choca com o do Príncipe e ambos caem. Um olha para o outro, assustados e caem na risada e seu pai, o Rei, sai pela grande porta de ferro com desenhos de Gigantes e homens caminhando juntos para a guerra Norte-Sul. O grande homem careca a levanta com um puxão e abraça. O cheiro de vinho vem a seu nariz e seus olhos lacrimejam com o fedor.

–É muito bom te ver jovem menina.

–Também é muito bom te ver, Minha Graça. Perdem-nos pela demora.

–Ora, não demoraram nada- disse o jovem Príncipe-, vamos entrando cavaleiros. Milady, vamos comer. Aposto que estão com fome.

Todos os cavaleiros descem de seus cavalos. Ao todo são dezesseis homens e uma mulher. Essa mulher é sua Amma. A Amma é uma mulher comprada do Oriente, cheia de bons modos, Amma foi requisitada a cuidar Qimin e com isso se tornou sua melhor amiga.

–Que belo salão, meu Príncipe.

–Ora, é um salão modesto, devo admitir. O Grande Salão ainda está sendo reconstruído. Devo dizer que este é aconchegante. Só cabem dois mil homens aqui.

–Dois mil? Ora meu Príncipe, é mais que aconchegante. Lá em casa um pequeno salão cabe quinhentos. Aqui cabem dois mil.

O Príncipe se limitou a sorrir.

–Venha, quero lhe mostrar uma coisa- ele segurou na mão dela, tirando-a da fila e entraram em um quarto apertado e foram caminhando até chegarem a uma escada acoplada na parede externa do castelo. É uma queda livre no poço dos crocodilos, sem duvida que é. –Não tenha medo. Não vou deixá-la cair. Nunca!

–Eu sei- ela sorriu e continuaram subindo as escadas. Em pouco tempo estavam sentados em uma passarela de pedras com uma gárgula na ponta. O Príncipe brincava com uma pequena adaga de cor avermelhada na lâmina e marrom no cabo.

–Ganhei do meu pai semana passada. Ainda não pude usar.

–As boas lâminas tem nome, meu Príncipe. Qual é o nome desta?

O Príncipe olhou para a garota e sorriu amavelmente e respondeu:

–É Qimin, minha Senhora.

A garota sentiu seu coração pular de felicidade. Não podia conter tamanha felicidade. O seu amado, o Príncipe Malmer deu o seu nome a uma lâmina real.

–Minha Senhora?

–Sim meu Príncipe.

–Como é no Leste?

–Ora meu Príncipe. Como aqui, mas lá não têm gigantes- ela apontou para a careca de um-, não tem crocodilos, ou tantos cavaleiros a minha porta. Lá o castelo é mais simples. O mar é lindo, azul como safiras.

–Me parece lindo.

–E é. Um dia poderemos correr pela praia de areia branca. –Ela saltou para perto dele e pegou suas mãos. Olhou fundo nos olhos e continuou a contar- Fazer as longas trilhas, visitar os jardins Rosa, cheio de flores que exalam perfumes adoráveis. Vosmicê vai adorar meu Príncipe.

–Vou, é?

–Sim. Vai. Por quê?

–E se eu disser que não posso sair daqui? Ainda há rixa entre o Norte e o Sul, minha Senhora.

–Mas lá há guardas. Eles podem nos guarnecer.

–Sim, eu sei. Mas não posso. Não agora.

A garota abaixou a cabeça de descontentamento, mas o Príncipe foi rápido, levemente levantou-a com a mão no queixo e aproximou seus lábios dos dela envolvendo-a em um beijo cálido e doce como mel. Suas mãos subiram pelo braço macio como algodão de Qimin e ficaram ali, como em um de muitos sonhos dela.

–Me desculpe minha Senhora- ele disse assim que o beijo se desfez.

–Não há no que se desculpar meu Príncipe. Agora vamos. É hora de jantar.

As grandes mesas de madeiras foram recheadas com porcos assados, frutas, aves, carnes bovinas, farofas, grãos, patês, entre outros. Vinhos do bom, e grandes jarras de água e hidromel.

–Tudo está perfeito, meu Príncipe.

–Fico feliz que esteja gostando, minha Senhora.

O silêncio prevaleceu assim que a Vossa Graça bateu o cabo da colher de prata em uma taça de cristal, criando um som aterrorizante.

–Todos sabemos o porque nos reunimos aqui e não é pela Filha do Leste. Oh não, com certeza. –Disse se levantando.

–Então, pelo o que é Majestade? –Perguntou ingenuamente Qimin, sem saber de nada.

–Seu pai não lhe disse, querida? Estamos reunidos aqui, como um Conselho.

–Conselho? Mas para que Majestade? –Perguntou Sor Irimin.

–Há duas semanas, meus gigantes que cuidam da atividade pesqueira do Sul encontraram uma coisa no mar. Um monstro que os Mestres chamaram de Dragão do Mar.

O tumulto foi instantâneo. Várias cabeças se moveram e os cochichos começaram e pararam assim que o Rei retomou a voz.

–Enquanto tiravam o monstro da água, um dos meus gigantes foi mordido pela criatura e sua carne apodreceu e ele morreu ontem à tarde.

–Mas Dragões não deveriam cuspir fogo, Majestade?

–Sim, foi o que pensamos, então, os Mestres de minha casa procuraram nas escrituras antigas e encontraram as respostas: Dragão do Mar não cospe fogo e sim veneno. Em seus caninos o veneno desce como seiva assim que estão dentro do corpo, este mata um homem. E como vocês tiveram conhecimento, mataram um gigante. E tem mais, a algumas Luas Amarelas, nossa Mãe previu lagartos que cospem Sois. Dragões.

–Mas Dragões estão mortos. Extintos. E são do Oriente meu Rei. O Sul e o Oriente têm ligações políticas, se tivessem Dragões eles nos falariam, não é?

–Essa é uma pergunta que não sei te responder, meu caro amigo.

–E nossos gigantes? Poderão nos defender?

–Como sabem em nossas praias existem pedestais postos a cada cem metros. Neles, gigantes de trinta metros estão postos, prontos para nos defender. Seus arcos com flechas e tudo o mais, mas não temos mais gigantes de trinta metros. Se estes morrerem, não posso garantir nada meus amigos. Nossos gigantes atuais atingem de dez a quinze metros, ainda não se tornaram adultos.

–Então, estamos sem defesa?

–Não, isso jamais. Ainda temos nossos gigantes e ainda temos o nosso exército. O maior de todos. E os unicórnios. Ainda existem unicórnios selvagens de fato, mas os que temos, nos ajuda. Eles são sagrados e como sabem são aproveitados depois que morrem. Seus chifres e sangue são coisas dos deuses.

–E o Norte?

–A única coisa que sabemos é que pagam suas dívidas em dia. Aliás, são os mais ricos.

–E o Ocidente?

–Deles nada sabemos. Ouviram-se boatos, vindos da Muralha que, no Ocidente, feras sanguinárias estão andando soltas. Mas não temos nada confirmado.

–Por que vim para cá? Isso é coisa para ser tratada com o meu pai. -Qimin disse despertando curiosidade dos demais.

–Não temos pais para sempre, minha jovem. –Disse o Rei- Você se tornará a Senhora do Leste um dia, seu pai não tem herdeiro homem e pelo o que soube, você já aflorou.

Qimin olhou para a Amma que balançou a cabeça em negação para a jovem. Admitindo que nada disse.

–E por que estou aqui? Meu pai ainda não morreu e eu deveria então, estar procurando por um marido.

–Olha como fala menina- disse um dos cavaleiros do Rei.

–Deixem-na falar como quiser- disse o Rei. –Não vai mudar nada mesmo.

A raiva estampou seu rosto. Ela queria disparar ofensas ao Rei, mas sabia que nada mudaria e que talvez pudesse ser decapitada.

–Quando sua Mãe disse que os Dragões irão aparecer?- Ela perguntou.

–Ela somente vê, não marca datas- disse o Rei. –Voltando ao assunto, seu pai ainda não arranjou um pretendente para entrar em você e botar um filho aí, no seu ventre?

A menina não respondeu.

–Eu queria que transmitisse ao seu pai que, meu filho Malmer já tem uma pretendente. Ela é das terras mais ao sul. Seu pai está atrasado.

Ela olhou para o Príncipe e as lágrimas brotaram em seus olhos. Ela não podia acreditar no que acabara de ouvir. O Príncipe somente abaixou a cabeça e levantou-a novamente, imponente. A garota saiu corrida do salão, gritando: “Abram o portão, abram o portão”. E sem esperar passou por ele e entrou na selva.

Ela não sabia onde estava indo, não queria saber, queria chegar em casa o mais rápido possível. Não teve tempo de planejar isso.

Clack!

O som despertou curiosidade. Ela parou e observou atentamente as folhagens que se mexiam. Com um salto, um Tigre Albino a derrubou. Suas grandes patas brancas estavam em cima de sua barriga e ombro, prensando-a contra o chão. Qimin virou o rosto com medo. Os olhos azuis safira da fera a olhava atentamente e algo aconteceu, algo que nem ela esperava: o tigre lambeu seu rosto.

Qimin abriu os olhos, vendo a fera. Era apenas um pequeno tigre, ainda não tinha se tornado um adulto.

O barulho de cascos fez a orelha do animal girar como um radar. Captando os barulhos. Assim que o cavalo apareceu, o animal saltou mais alto ainda, cravando suas garras no corpo do animal e seus pequenos dentes no pescoço, rasgando a carne e fazendo o líquido vermelho espirrar em Qimin.

O cavalo caíra de lado, morrendo aos poucos e um cavaleiro de armadura negra levantou empunhando uma espada. Sor Irimin desferiu um golpe, mas o tigre foi mais rápido, bateu suas grandes patas na mão do Sor, derrubando a espada e avançando em cima do cavaleiro.

–NÃO!- Qimin gritou antes que o tigre pudesse fazer alguma coisa.

Ele a matará, ela ouviu a voz ecoar em sua cabeça. Ela balançou a cabeça em negação e a fera voltou para a selva densa.

–Não quero ficar aqui- ela disse.

–Eu sei. Amma me mandou. Após sua saída o Rei nem se preocupou em mandar alguém para buscá-la.

–Aquele gordo idiota.

–Lamento pelo Príncipe.

–Como, como sabe? Amma!

–Não precisa ser seu melhor amigo para saber e ver como você o olha. Agora vamos. Vamos voltar para o Conselho.

Notas finais
Espero que tenham gostado e não deixem de comentar.