Nova Terra
6 Malmer
A tarde no Norte era fria, assim como cedo e à noite. Muitos disseram a Malmer que o frio da tarde pode ser mais severo que o da noite, pois no fim da tarde, as bestas de gelo caminham e com elas a devastação gelada. Claro, um garoto das terras do verão jamais acreditaria nisso e junto da Filha do Leste isso se tornaria algo inevitável e poderia contestar que nada disso é real.
Seus cavalos trotavam devagar, a neve deixava tudo branco, os caules das árvores estavam brancos até um metro acima do chão, os lobos albinos corriam de um lado para o outro a procura de caça, uma coruja branca pode ser vista graças ao fato dela ter alçado voo e viajado pelo ar e apanhado um pequeno animal no chão e levado para o alto de uma árvore. O silêncio entre os dois era grande, nenhuma palavra foi dita em toda a caminhada até que Malmer ficou de saco cheio e começou a conversar com a Filha do Leste.
–Qimin, você está gostando da visita ao Norte?
–Estou meu Príncipe.
O silêncio voltou a reinar, até que vozes puderam ser ouvidas. Malmer desceu de seu cavalo e prendeu sua rédea em uma árvore e foi silenciosamente até atrás de alguns arbustos para ouvir o que falavam. Qimin repetiu e ficou junto de seu Príncipe. Suas mãos se encontraram na neve fria, mas logo se afastaram, ficaram atentos ao que diziam:
–Você não pode matar todos naquele castelo!- Disse uma voz doce e suave.
–Eu posso tentar, por você, posso tentar, não seria nenhum inconveniente.
–Você é muito bobo.
–Não, — ele beijou-a, não podiam ver o rosto dela, mas sim seus cabelos esvoaçantes-, eu não sou bobo- ele beijou-a novamente e agora sua mão entrava em seu casaco encontrando o seio da mulher-, por você eu faço qualquer coisa- seus beijos passaram para o pescoço dela.
–Ele vai nos matar se não fizemos que nos foi mandado.
–Eu sei, estamos perto do castelo, vamos dar um tempo, o.k.?- Voltou a beijá-la.
Os dois caíram na neve, e rolaram, seus casacos de peles escuras ficaram manchadas de branco. Seus cabelos se misturaram e suas mãos procuravam algo que não demorou a ser encontrado. Os lábios da mulher se separaram dos lábios dele e Malmer e Qimin viu que o homem havia tirado seu casaco de pele. Sua camiseta branca folgada foi tirada revelando seu abdômen definido e voltaram a se beijar. As mãos da mulher pegaram em alguns cordões da calça do rapaz e desataram o nó e ela virou o rosto para que ele pudesse beijar seu pescoço e ela os viu. A mulher empurrou o homem:
–Eles nos viram!
Os dois se levantaram e começaram a correr.
–Vai logo, vai!- A camiseta e o casaco voltaram a seus devidos lugares e em mãos um punhal com o cabo talhado a mão.
Seus pés afundavam na neve, Qimin e Malmer não tiveram tempo de montar em seus cavalos, correram o máximo que puderam. Suas pernas queimavam, mas não podiam parar, vez outra olhavam para trás e viam os dois correndo, o homem era mais rápido, os cabelos louros da mulher dançavam no ar, seus olhos eram penetrantes, azuis como safira, seus lábios carnudos e vermelhos, mais vermelhos que sangue.
O medo atingiu o coração de Qimin, uma lâmina passou rente a seus ouvidos, o zunido era mais que amedrontador, sentiu a ponta de sua orelha arder e soube na hora, ela estava machucada. Qimin olhou para trás novamente e viu o homem lançar uma nova lâmina, essa acertou sua perna e ela desabou. Malmer parou e olhou para ela, avaliando a situação, o casal ainda estava longe, longe o suficiente para correrem mais um dez metros, mas então ele fugiu, deixando Qimin deitada no chão, com a perna sangrando.
Seu medo martelava em seu peito que até doía. Suas pernas não mais aguentavam correr, mas também ele jamais cogitou a ideia de parar. Malmer tropeçou em alguma coisa, uma raiz talvez e desabou morro abaixo. Seu corpo se transformou em uma bola de neve e parou quando se chocou com uma árvore grossa. Sacrificadamente ele se sentou, encostado na árvore gemendo de dor. Tateou sua costela e sentiu a dor nauseante.
Ele estava morto!
Estava morto no momento em que decidiu sair do castelo, estava morto no momento em que decidiu ouvir a conversa do casal. O quebrar de um galho seco o despertou algo ou alguém se aproximava, Malmer tentou se levantar e começou a caminhar, com uma das mãos na costela. Agora não só sua costela doía, mas sua perna também. Aos poucos chegou perto do Rio Quente, no lado oeste do castelo e viu a construção e os guardas no alto da escadaria. Sentiu-se aliviado e começou a descer mais um morro, mas dessa vez escorando-se de árvore em árvore. Seus pés cederam assim que chegou ao pé da escadaria, ele estava salvo, forçou seu corpo a se manter ereto e ficou parado, ainda com a mão na costela fraturada. Com certeza algum Mestre iria cuidar dele, mas assim que começou a caminhada novamente, uma mão tampou sua boca e a outra pós uma lâmina afiada em seu pescoço.
–Vem comigo garotinho- disse a voz, uma voz masculina, ele sentiu os braços fortes do homem envolver seu abdômen e a dor gritou, e gritou alto. Aos poucos sua visão foi ficando turva e logo tudo se apagou e Malmer adormeceu.
Com um baque seu corpo se chocou com a neve e ele acordou, gemendo de dor:
–Deixem-no em paz!- Gritou Qimin, Malmer logo reconheceu sua voz.
Sua perna estava sem a lâmina, suas mãos estavam amordaçadas.
–Deixem-no em paz, estou avisando.
–E o que você pode fazer menina?- A loura franziu o cenho e se ajoelhou junto dela – O que vocês ouviram? Se me contarem- ela apoiou a ponta da lâmina do punhal na bochecha de Qimin – eu deixou vocês irem em paz – ela desceu a lâmina na diagonal, abrindo um ferimento que escorreu sangue.
Qimin olhou para Malmer que ainda gemia no chão de dor, ele estava machucado. Ela tinha que ajudá-lo, tinha que ajudá-lo.
–Ouvimos que ele- ela balançou a cabeça para o homem- destruiria o castelo por você.
–E destruiria mesmo- ele riu.
–E o que mais? E o que mais?
–E que alguém mataria vocês dois. Alguém os mataria. Agora nos solte.
–Só isso? Ora, pensei que fosse mais.
–Só isso! Você disse que nos deixaria ir embora.
–Não, eu nunca disse isso, disse que os deixaria ir em paz. E em paz vocês vão!- Ela segurou Qimin pelo pescoço e a ergue, suas grandes unhas entraram na carne sangrando e machucando-a. Seu ar esvaiu-se e ela sentiu seu coração martelar rapidamente que pensou que ele iria abrir um buraco em seu peito.
–Qimin- Malmer gritou-, Qimin, não! Solte-me- disse ele se mexendo bruscamente nos braços do homem, mas logo parou assim que sua costela protestou. — Qimin, não! Solte-a!- Ele gritou.
–Com prazer.
As unhas da mulher se desenterraram da carne e o corpo caiu inerte e logo estaria tão frio quanto o gelo.
–Aí meus deuses, não!
Malmer sentiu sua costela protestar novamente e o homem apertou-a mais forte ainda e seu grito poderia ter sido ouvido pelos quatro reinos.
–O que vai fazer comigo?
–Isso- a mulher desferiu um golpe com o punhal abrindo uma boca na garganta de Malmer que esguichou sangue que manchou a neve branca.
O homem soltou o corpo morto e olhou para os dois e novamente para a mulher.
–Vamos- ela disse- temos que ir para o castelo. Temos um Rei para matar.
–Espere- ele disse, olhando para os corpos e disse:- Ainda não terminamos o que começamos – e com suas mãos frias, envolveu o corpo frágil da mulher comparado ao dele e a beijou intensamente no frio do Norte.
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