Nova Primavera

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá! Esta fic faz parte da linda Coletânea "O Significado das Flores", organizada por Nekoclair. Esse projeto foi a oportunidade perfeita que tive para arregaçar as mangas e finalmente colocar no papel algo que eu já queria escrever há algum tempo, desde quando, um belo dia ao navegar pela internet, descobri que os russos têm umas superstições bem interessantes relacionadas às flores xD No caso, resolvi falar sobre a flor Lilás, cujo significado é "amor" e "inocência" e é uma flor, digamos, poderosa para eles. Resolvi ter como foco o ponto de vista do Victor, afinal, quem melhor que o nosso amado russo de cabelos prateados para nos apresentar um pouquinho das tradições de seu país, não é mesmo? Embora a fic tenha saído um pouco mais angst do que eu esperava... Enfim, sejam bem vindos e espero que gostem dessa one que escrevi com tanto carinho! ^^

Boa leitura!

Nova Primavera

Era uma manhã clara do início de abril em São Petersburgo. Como fazia todas as manhãs quando estava na cidade, Victor levava Makkachin para passear pelo quarteirão da rua onde morava, próximo ao centro. Caminhava com o animado cão ao seu lado na guia, sem pensar em nada, apenas seus olhos azuis como o céu sem nuvens a observar a beleza da paisagem primaveril a sua volta. Victor apreciava a passagem das estações, gostava de como tudo, em tão pouco tempo, se transformava. Com as ruas e telhados das casas já livres da neve e as árvores floridas que permeavam as calçadas, nem parecia que, há menos de um mês, toda a cidade estava tomada pela brancura do inverno russo. Agora, o frescor da primavera chegara. Como se a vida se renovasse, tudo ficava mais colorido, mais vibrante, e uma grande variedade de flores, bem como produtos relacionados à Páscoa, enfeitavam as prateleiras das lojas e supermercados. O ar ainda era frio na sombra, mas o tímido sol, lentamente subindo na imensidão celeste, trazia um calor aconchegante, e Victor sentia que sua pele alva era acariciada gentilmente pelos raios solares. Então, seus pensamentos voltaram-se a Yuri. Seu solnyshko¹.

Abriu um sorriso, pensando em como ele ainda dormia tranquilamente na cama que compartilhavam. Não havia preocupações, agora que mais uma temporada de competições de patinação artística, tão desgastante para os dois patinadores veteranos, havia acabado. Nas férias, Yuri se permitia dormir até mais tarde e, como Victor sempre acabava levantando mais cedo, adorava ter a oportunidade de preparar um café da manhã delicioso e, por vezes, levar o café para ele na cama. Se, quando voltasse do passeio com Makkachin, Yuri ainda estivesse deitado, era o que faria naquela manhã.

No caminho de volta, passou por uma floricultura que ainda não abrira as portas. Mesmo com a proteção do vidro da vitrine em que algumas flores estavam expostas, era possível sentir um delicioso aroma vindo da loja. O cheiro das flores chamou sua atenção e ele se voltou para olhar mais de perto a diversidade de arranjos, buquês, mudas e vasos que o estabelecimento oferecia. Era tudo tão lindo que não pôde evitar um sorriso de coração formar-se em seus lábios. Queria levar algo para Yuri, algo que expressasse o puro amor que sentia por seu noivo. Não, não era uma ocasião especial, apenas mais um dia comum em suas vidas. Porém, Victor não precisava de um motivo para presentear o homem que tanto amava. O simples fato de poder tê-lo ao seu lado já era especial, uma felicidade que, por tanto tempo em sua vida, desejou ter.

Então, por entre os balcões repletos de flores, um buquê em particular se destacou em seu olhar. Pequeninas e delicadas flores de cor lilás formavam cachos que compunham o arranjo, a coloração das pétalas dava o nome à diminuta flor que se multiplicava em raminhos verdes em abundância. Seu perfume trazia-lhe antigas lembranças e, logo, Victor se viu mergulhado em memórias remotas, porém marcantes, de sua juventude.

Recordou-se de quando era apenas uma criança de cinco ou seis anos que, aos finais de semana, adorava frequentar um lindo parque, não muito longe da antiga casa onde morava com seus pais. Lá havia um lago onde se podia patinar no inverno, quando congelava, e havia também gramados e jardins floridos na primavera e no verão, nos quais ele gostava de correr e brincar. Era sempre acompanhado de sua melhor amiga e vizinha, Katya, uma garotinha um pouco mais velha que ele, de cabelos pretos e olhos muito verdes, que sonhava em, um dia, tornar-se uma grande bailarina do Balé Bolshoi, tendo Lilia Baranovskaya como sua grande inspiração. Até achava-se parecida com ela, o que a motivava ainda mais a seguir seu sonho.

Foi Katya quem incentivou Victor a praticar balé quando criança. Ela sempre lhe mostrava passos novos que tinha aprendido, e o fazia com tanta empolgação que o garotinho começou a ficar entusiasmado com a ideia de juntar-se a ela na dança clássica. Poderia ser uma atividade divertida, ele pensava, já que se assemelhava à patinação artística, que já praticava, estimulado por sua mãe, que também o acompanhava em praticamente tudo que fazia. Se ele adorava tanto dançar e rodopiar com seus patins pelo gelo, fazer isso num salão de dança não deveria ser tão difícil, não é mesmo? Só era, digamos, diferente, talvez num ritmo mais lento, mas a satisfação de acertar os passos e dançar conforme a música era igualmente gratificante. O fato de ele ser o único menino numa aula repleta de meninas também não o incomodava, pois tinha facilidade em se enturmar com elas, não se importando muito com o que falavam os outros garotos ou, até mesmo, adultos que insistiam em dizer às crianças o que fazerem. Talvez, ele não fosse como os outros. Talvez fosse mais delicado e se interessasse mais em dançar do que em jogar o bruto hockey no gelo, como a maioria dos garotos. Para ele, isso não significava muita coisa, nem sequer entendia porquê os meninos e as meninas da sua idade, normalmente, não gostassem de se misturar. Tudo que lhe importava era fazer o que lhe desse alegria.

Victor era muito grato a Katya por ter lhe mostrado o balé, pois este foi um grande auxiliador no aprimoramento de sua patinação pelos anos seguintes, quando decidiu que queria seguir em frente como patinador. Também era muito grato a sua mãe, que lhe dava apoio em qualquer coisa que resolvesse fazer. A Sra. Nikiforova era uma jovem mulher, de corpo esguio, cabelos dourados e olhos azuis que foram herdados por Victor, e empolgava-se facilmente até com as mais simples coisas da vida. Sempre que podia, ela estava presente nas idas das duas crianças ao parque, para observá-las brincarem. Levava-lhes uma cesta com sanduíches, biscoitos e suco, que ela mesma preparava, e os três comiam juntos agraciados pelo perfume e pelas lindas cores das flores ao redor.

Certo dia, dentre tamanha variedade de arbustos e plantinhas, uma delas chamou a atenção de Victor. Era diferente de todas as outras, possuindo um lilás vibrante. Pendia de arvoretas em cachos abundantes com diminutas petalazinhas, tão delicadas que pareciam que, a qualquer momento, poderiam se desfazer e seus pedacinhos, assim, seriam levados pela brisa morna do verão.

Ele se fascinou com aquelas encantadoras flores e perguntou a sua mãe como se chamavam.

― São Lilases. Sabe, Vitya, essas flores são muito poderosas ― a mulher respondeu, sorridente.

― Poderosas? ― agora, Victor estava mais curioso do que nunca.

― Sim. Ela é a flor daqueles que sabem amar e acreditar. Se há algo que você deseja muito, seu desejo pode ser realizado com elas. Estas flores, normalmente, possuem apenas quatro pétalas, mas existem algumas de cinco pétalas. Estas são raras, então, se você tiver a sorte de encontrar uma, faça seu pedido enquanto a come. Seu desejo, assim, irá se realizar.

― É sério? Eu posso comê-las e fazer um pedido? ― o garotinho perguntou, ainda mais admirado. Em sua inocência pueril, pensou como era incrível que plantinhas tão pequenas e frágeis pudessem esconder tal força.

― Pode sim. Elas são bem saborosas!

― Mas eu não tenho nenhum pedido pra fazer agora...

― Eu tenho! ― disse Katya, enquanto procurava por alguma daquelas flores com cinco pétalas num dos cachinhos de um arbusto repleto delas.

― Ah, é? Qual?

― Eu...

― Não, Katenka, você não pode dizer seu desejo em voz alta ― a mãe de Victor interrompeu a menina, mas sua fala era doce. ― É segredo, tem de guardar só pra você, senão não vai funcionar.

― Entendi ― os olhinhos da menina brilharam. ― Ah, achei uma, veja!

― Puxa, tão rápido! Acho que você está com muita sorte.

Retirando a florzinha do ramo, Katya fez seu pedido e a mastigou. Victor imaginava que ela pedira para se tornar uma Prima Ballerina como Lilia, ambiciosa como era. Tempos mais tarde, aos 16 anos de idade, embora seu desejo ainda não tivesse se concretizado, ela havia dado mais um grande passo para tal, passando a integrar a Companhia de Dança Bolshoi como sempre sonhara. A esta altura, ela e Victor já não tinham mais a mesma amizade de antes e as circunstâncias da vida, mudanças e prioridades os fizeram se afastar, cada um seguindo seus próprios caminhos. Porém, embora o contato entre os dois fosse escasso, Victor ainda ouviu falar dela e de sua carreira por muito tempo, soube de suas conquistas e, recordando-se das ambições que ela tinha quando criança, concluiu que estava caminhando a passos firmes em busca de seu sonho e ficou muito feliz por ela. Katya, da mesma forma, alegrou-se por seu amigo de infância ter se tornado um homem de renome no mundo esportivo.

Aos seis anos, Victor ainda não tinha um desejo tão forte a ponto de recorrer àquele pequeno ritual, como Katya fizera quando menina. Era um garotinho que achava que, se aquela flor era tão poderosa e dava tanta sorte, o pedido deveria ser muito especial. Então, sem ainda possuir uma ambição como a de sua amiga, a patinação lhe era apenas uma diversão e ele ainda não desejava fazer dela algo maior do que isso, embora seus professores e parentes mais velhos insistissem para que ele a levasse mais a sério, pois diziam que tinha um grande potencial e poderia se tornar famoso e bem sucedido no futuro. Apenas sua mãe não o pressionava, sempre com um belo sorriso em seus lábios rosados de batom a lhe dizer que só deveria fazer o que tivesse vontade.

Tudo mudou um ano depois.

Victor podia se lembrar claramente daquele dia. Uma terça-feira de manhã, que deveria ter sido como qualquer outra, tornou-se o momento em que sua vida mudaria completamente pela primeira vez.

Mãe e filho estavam na cozinha, terminando de tomar o café da manhã. Deveriam se apressar, pois já começavam a se atrasar para os compromissos do dia. Como sempre, ela o levaria para a escola, a mesma onde dava aulas em meio período como professora de literatura. O pai já havia encerrado o desjejum e também se preparava para sair para o trabalho, ajeitando a gravata e o paletó na frente do espelho da sala. Era um homem de aparência séria que, mesmo confinado por horas a fio num escritório de contabilidade, gostava de se manter sempre muito bem apresentável. Seu trabalho, afinal, era-lhe muito importante, não reservava muito tempo para a família e, Victor sentia, ele parecia cada vez mais distante do próprio filho.

― Vamos Vitya, já terminou? ― a mãe perguntou, a voz mais cansada do que o normal. O menino reparou como seu rosto estava pálido.

― Já sim, mamãe ― respondeu, levantando-se da cadeira e vendo-a pegar a louça da mesa para lavá-la.

Quando o garoto já ia saindo da cozinha para pegar sua mochila, o som de seus passos no piso frio foram silenciados pelo barulho estridente de vidro se quebrando, espatifando-se em estilhaços pelo chão.

Seu corpo virou-se num movimento involuntário, os olhos arregalados a observarem a mulher caída. O coração comprimiu-se em seu peito, como se algo o apertasse, o esmagasse até fazê-lo em pedaços, como os cacos de vidro espalhados ao redor de sua mãe.

― Mamãe!

O garoto correu até ela, sentindo pedacinhos de vidro sob seus chinelos de flanela, e ajoelhou-se ao seu lado, sem se importar com a dor de ter seus joelhos arranhados por lasquinhas pontiagudas.

― Querida! O que aconteceu? Victor, saia daí, você quer se machucar com o vidro?! ― o pai berrou, puxando-o para o lado pela gola da camisa e inclinando-se em direção à esposa para pegá-la e tirá-la do chão frio.

Victor nunca viu seu pai tão desesperado. Nunca o ouvira gritar, nem mesmo demonstrar preocupação com coisa alguma. O que quer que fosse que havia com sua mãe, devia ser sério, e o aperto em seu peito doía tanto que fez seus olhos encherem de lágrimas.

O homem colocou sua esposa no sofá e, rapidamente, ligou para o hospital. A ambulância estava a caminho. Agora, só restava esperar.

~o~

No hospital, Victor não conseguia pensar em nada. Tudo a sua volta parecia um borrão e as vozes das pessoas ao redor não passavam de zumbidos distantes. Ele queria sair de lá, mas não podia. Precisava ver sua mãe, precisava saber se ela estava bem. Sabia que a estavam examinando e isso demoraria o dia todo, então ele esperou. Após um tempo que lhe pareceu uma eternidade, o médico disse que ele e seu pai podiam vê-la e o garoto caminhou ao lado dele a passos pesados até o quarto onde ela estava.

Ela parecia dormir tranquilamente naquela cama de hospital, mas Victor não podia deixar de pensar em como deviam ser desconfortáveis aqueles fios que os médicos haviam prendido em seus braços. E então, a observou melhor e se culpou por só agora ter percebido como ela estava mais magra. Ainda era linda, o esparadrapo colocado em sua testa não diminuía sua beleza. Porém, parecia tão fraca, tão frágil, como não notara nada antes?

― Papai, o que tem a mamãe? ­― o garotinho perguntou ao ver seu pai voltar ao quarto do hospital depois de conversar com o médico por intermináveis minutos.

― Filho... Sua mãe tem uma doença muito grave. Chama-se leucemia ― o pai respondeu com a voz rouca, quase um sussurro, e seus olhos demonstravam tristeza. O nome daquela doença ecoou em sua mente e Victor nunca mais o esqueceu.

― Ela vai ficar bem?

― ... Faremos o possível.

Victor era apenas um garotinho de 7 anos e, em sua inocência, ele sabia o que fazer para salvar sua mãe da leucemia. Ela era como a flor Lilás, delicada, mas muito forte, capaz de realizar sonhos e trazer felicidade. Então, no dia seguinte, foi até o parque sozinho à procura de uma daquelas florezinhas de cinco pétalas, como ela havia explicado. O dia estava nublado e chuvoso, mas ele procurou e procurou por entre todos os galhos que pendiam daquelas arvoretas, molhando-se com os pingos que caíam da fina garoa, e não desistiu até que, finalmente, encontrasse. Sentia-se com sorte.

Com os olhos brilhantes de esperança, mastigou as pétalas úmidas de uma só vez, desejando que sua mãe se recuperasse.

~o~

Victor podia se lembrar claramente de todos aqueles meses que se seguiram. Ás vezes sua mãe estava em casa, às vezes no hospital. A quimioterapia fez os longos e lindos cabelos dourados caírem pouco a pouco. Sua mãe também ficava linda de lenço na cabeça e, se seus cabelos precisassem cair para que ela melhorasse, estava tudo bem.

Mas nada estava bem quando ele a ouvia gritar de dor durante a noite, vomitar tudo o que comera no jantar por causa dos fortes remédios que atacavam seu estômago e cambalear de fraqueza ao passar de um cômodo a outro da casa. Nada estava bem quando via seu pai cabisbaixo, com as roupas amarrotadas, sentado em sua escrivaninha a fazer contas e mais contas enquanto tragava um cigarro, e depois mais um, resmungando coisas sobre como faria para pagar os tratamentos da esposa e uma empregada para cuidar da casa ao mesmo tempo e, em seguida, culpando a si mesmo por pensar em dinheiro enquanto sua mulher morria aos poucos.

"Não. A mamãe não vai morrer. Estamos fazendo de tudo para salvá-la, eu acredito nela."

Victor continuou a acreditar. E isso porque sua mãe continuava a lhe dirigir o mesmo sorriso doce, mesmo quando presa a uma cama de hospital. Continuava a lhe contar histórias bonitas e a lhe aconselhar a fazer tudo que amava.

― Ame, Vitenka. Você deve amar as pessoas e sempre querer o bem. Ame as coisas que faz e, assim, será sempre feliz.

As coisas que Victor mais amava no mundo naquela época eram sua mãe e a patinação. Então, quando ele se sentia triste por vê-la tão doente, ia para o rinque onde praticava e por lá ficava horas e horas, distraindo-se até que alguém o mandasse voltar para casa. Já fazia tempo que ela não ia vê-lo patinar ou dançar balé, mas podia senti-la em seu coração a cada passo que dava. Um dia, resolveu apresentar para ela lá mesmo no quarto do hospital uma coreografia nova de dança clássica que estava aprendendo. O espaço era pequeno, então ele teve de adaptá-la um pouco, mas dançou lindamente, girando seus pequenos pés em sapatilhas bege sobre o chão de piso frio, subindo e descendo os braços levemente como um passarinho aprendendo a voar.

Foi a última vez que ela o viu dançar. Foi a última vez que ele a viu sorrir e chorar lágrimas de felicidade. Naquele momento, sentiu que seu desejo se realizava. Sua mãe estava bem, estava curada de toda dor.

No inverno de seus oito anos, porém, Victor viu sua mãe partir. Ele não entendia. Fizeram de tudo... Ele desejara tanto, tanto, ela parecia melhor! Fizeram de tudo e nada funcionou... Talvez tivesse sido ingênuo em acreditar, talvez as histórias que sua mãe contava não fossem reais.

No que acreditaria agora?

Como se o mundo tivesse se tornado muito pequeno, o garotinho se viu paralisado, sem saber para onde correr e fugir. Estava tudo acabado, desmoronando ao seu redor como tábuas mal encaixadas. Seu coração parecia querer sair do peito, tão confinado estava na dor de sua tristeza. Seu corpo todo doía e só o que conseguia fazer era chorar, lágrimas escorrendo sem parar por suas bochechas rosadas. O que poderia fazer, afinal? Não havia nada. Sua mãe nunca mais estaria consigo.

Victor lembrava-se de como a casa havia se tornado grande depois que sua mãe se fora. Grande, solitária e silenciosa. Certa noite, alguns dias após o enterro, jantando com seu pai, ele resolveu quebrar esse silêncio.

― Papai... No final do mês vou ter uma apresentação de patinação. O senhor vai assistir?

― Victor, você sabe que não tenho tempo.

Por que perguntara se já esperava por essa resposta? Ele nunca foi a suas apresentações e nunca iria.

― A mamãe sempre arranjava tempo para ir. O senhor nem se importa comigo... ― disse sem pensar, voltando os olhinhos tristes para o prato de comida ainda cheio.

― Como pode dizer uma coisa dessas? É claro que me importo, sou seu pai! ― respondeu, a indignação nítida em sua voz. ― Eu me preocupo com você, quero que seja alguém na vida! Vamos, diga, o que você gostaria de ser quando crescer?

― Papai... Eu não sei... Acho que quero ser patinador artístico.

― Patinador? ― o pai suspirou, pegando a garrafa de vodka que estava ao lado do prato e bebendo um bom gole do líquido transparente, como se isso o acalmasse. Naqueles tempos, parecia que a única coisa capaz de fazer o viúvo relaxar era o álcool, e ele andava bebendo mais do que de costume. Victor, porém, não se lembrava de tê-lo visto realmente bêbado, apenas se recordava de que, por vários anos desde a morte de sua mãe, todas as noites após o jantar seu pai tinha o estranho comportamento de se trancar no quarto e de lá não sair até o dia seguinte, o que só mudou quando passou a se relacionar com outras mulheres. De todo modo, o garotinho de oito anos que estava à mesa com seu pai naquela noite o ouviu desgostosamente prosseguir com a conversa após um longo gole direto da garrafa e uma garfada da comida insossa que ele havia preparado. ― Pois bem, patinador. É uma carreira arriscada, você deve saber. Olha, eu confesso que nunca concordei com o fato de você se dedicar a essas coisas que não têm um futuro certo. Balé, patinação, ou o que quer que seja... Sua mãe insistia em deixar que você praticasse tudo isso e eu só relevava porque suas notas na escola sempre foram muito boas. Eu sempre esperei que meu filho se tornasse um grande médico ou engenheiro no futuro, alguém com uma profissão estável e que fosse importante. Vê-lo fazer essas coisas de garotinha não era bem o que eu tinha em mente quando você nasceu. Ah, ao menos se praticasse um esporte de verdade...

― M-mas não são só garotas que praticam! E é um esporte de verdade... ― Victor engoliu em seco, segurando-se para não chorar na frente de seu pai. Por que tudo o que ele falava ultimamente doía tanto? Talvez fosse melhor não ter iniciado aquela conversa.

― Que seja, já não importa mais. Talvez eu tenha de aceitar, não é mesmo?

― ...

― Victor, olhe para mim.

― O que foi?

― Sua mãe era uma mulher especial, ela amava demais a nós dois e não iria querer que brigássemos. Sei que as coisas entre nós não estão tão boas ultimamente, mas ainda somos uma família, certo?

― Certo.

― E eu nunca obriguei você a nada, então pode fazer o que quiser, desde que não arrisque sua vida. Só o que peço é que continue a ir bem na escola e termine seus estudos, ouviu bem? Mas se não mudar de ideia no futuro e realmente for continuar com isso de ser patinador, que faça direito e se torne o melhor que já existiu. Ao menos sua mãe se sentiria orgulhosa...

Victor notou como seu pai falava sério. Não lembrava de tê-lo visto sorrir genuinamente alguma vez na vida e, naquele jantar, pela primeira vez, sentiu pena do homem sentado a sua frente. Ele não sabia ser amoroso como sua mãe e não era de gentilezas, mas tinha seu próprio jeito de expressar o que sentia. Mesmo desapontado, sejam lá quais fossem seus motivos, ainda se importava com seu filho e isso deveria bastar.

As palavras duras e sinceras do pai se repetiram na mente de Victor e nela ficaram gravadas para sempre.

Pelos anos que se passaram, Victor seguiu fielmente as palavras de seu pai, para provar a ele e a si mesmo que era capaz de se tornar o melhor. Também, para sentir que sua mãe se orgulharia de suas conquistas. Deixou que seu cabelo crescesse, queria tê-lo tão longo e brilhante como o dela, embora o prateado de seus fios, que tinha desde que nascera, nunca seriam como a linda cor dourada das madeixas de sua mãe das quais ele se lembrava tão nitidamente. Cada medalha de ouro que ganhava dedicava secretamente a ela.

Com o passar do tempo, esqueceu-se do que era se divertir no gelo e o dever de manter o status que adquiriu passou a ser sua maior preocupação. Chorou ao ter de cortar a longa cabeleira, por pressão dos patrocinadores, que desejavam que ele tivesse uma imagem mais madura e viril diante das câmeras. Depois, viu que, realmente, aquele estilo já não fazia mais sentido em sua vida e até começou a se sentir melhor com a mudança de visual, acostumando-se rapidamente com os cabelos curtos que sempre usara na infância. Continuaria a ser a lenda russa Victor Nikiforov, afinal.

Só se deu conta de que se esquecera completamente das palavras de sua mãe quando conheceu Yuri Katsuki.

Era uma noite após mais um Grand Prix no qual conquistara o primeiro lugar e, mesmo entediado, fora obrigado por sua equipe a ir participar do banquete de gala após a competição. Normalmente este tipo de festa lhe era muito enfadonha, mas daquela vez não se arrependia nem um pouco de ter ido. Afinal, naquela noite, sua vida mudaria completamente pela segunda vez.

Lá conhecera o amor de sua vida. Aquele belo homem de olhos amendoados e determinados, de sorriso tão puro e espírito livre a dançar e provocar a todos os convidados com seu show de sensualidade, movimentando seu corpo pelo salão e por um poste de pole dance, que sabe-se lá como aparecera na festa, como se nada importasse no mundo além daquele momento de satisfação. Podia ser que estivesse um pouco alterado pela bebida, mas Victor o achou magnífico mesmo assim. E sentiu-se perdidamente apaixonado ao vê-lo aproximar-se de si e pedir que fosse seu técnico.

"Ame, Vitenka. Você deve amar as pessoas e sempre querer o bem. Ame as coisas que faz e, assim, será sempre feliz".

De repente, a voz doce de sua mãe ecoou em sua mente. Já fazia tanto tempo... Não sabia porquê se esquecera daquelas palavras, mas sentia em Yuri uma nova chance de seguir aquele precioso conselho. Sentia que o japonês lhe daria a oportunidade de se reencontrar e buscar uma felicidade há muito tempo perdida.

Estava certo.

"Apenas seja quem você realmente é".

Ele nunca mais se esqueceria desta frase dita por Yuri. Ao ouvi-la, foi como se os cacos de seu coração tivessem se juntado finalmente, como se tivesse se reencontrado com seu eu de mais de vinte anos atrás e recuperado toda sua inocência, voltando ao tempo em que era apenas um garotinho feliz de seis anos de idade que gostava de observar as lilases, violetas, tulipas e tantas outras flores do jardim daquele parque que frequentava com sua adorada mãe. O tempo em que não era Victor Nikiforov, mas apenas Victor.

Yuri o fez sentir o verdadeiro amor e lhe devolveu a vontade de aproveitar a vida e as coisas dela que mais lhe traziam felicidade. Sempre que o via patinar, colocando todo seu coração no gelo, revisitava o tempo em que a patinação era a fonte de alegria e diversão daquele pequeno garotinho de cabelos prateados, um tempo que lhe parecia tão distante que vinha como imagens desbotadas em sua memória. Agora, tinha a oportunidade de construir memórias tão belas como aquelas ao lado dele, finalmente capaz de colocar em prática as palavras gentis de sua mãe, das quais jurou que nunca mais se esqueceria. Não agora que tinha Yuri para guiá-lo pelo caminho da felicidade.

E era por isso que, sempre que possível, queria presentear seu noivo. Via no gesto uma forma simples de agradecê-lo por tudo o que representava em sua vida, embora talvez nada fosse bom o suficiente para expressar o tamanho infinito de sua gratidão.

Sem se dar conta de quanto tempo havia se passado desde que parara para observar as flores na vitrine, saiu de seus devaneios quando uma funcionária da loja abriu a porta e o cumprimentou.

― Bom dia! O senhor deseja alguma coisa? ― ela perguntou com um sorriso gentil.

― Ah, sim. Eu gostaria de levar algumas flores pra uma pessoa especial.

― Oh, entendo! Já sabe qual arranjo vai levar?

― Este aqui ― disse com convicção, apontando para o buquê de lilases.

― Ótima escolha, estas realmente são muito bonitas!

Victor voltou para casa com o buquê numa mão e a guia de Makkachin em outra, sentindo o coração leve como uma pluma. Quando chegou, viu que Yuri estava na cozinha preparando café e uma parte de seu plano de levar-lhe café da manhã na cama foi por água abaixo. Mas estava tudo bem, porque também adorava tudo que Yuri preparava e só o fato de poder estar com ele na primeira refeição do dia já era suficiente para fazê-lo feliz.

Soltou Makkachin da coleira e este foi correndo para cumprimentar o japonês, pulando em suas pernas como se fosse um filhote, e não o cão idoso que era.

― Bom dia, Makka-chan! Como foi o passeio? ― Yuri perguntou animadamente e o cão o respondeu com um breve latido, abanando a frenética cauda. ― Hahaha, vocês demoraram, devem ter ido longe! ― continuou ao ver Victor se aproximar.

― Na verdade não fomos muito longe, mas eu me distraí ― o russo explicou, inclinando-se para depositar um beijo rápido nos lábios do noivo. Em seguida, estendeu-lhe as flores. ― Aqui, comprei um presente pra você.

― Ah Vitya, você e seus presentes surpresa! ― Yuri comentou sentindo as bochechas corarem enquanto pegava o buquê. ― Obrigado, eu adorei! São tão lindas e cheirosas...

Victor sentiu seu coração falhar uma batida ao ver Yuri se deliciar com o aroma adocicado das lindas flores, destacando-se com sua beleza ímpar entre elas.

― São flores de Lilás, siren como chamamos em russo. Acho que nunca te contei isso, mas sabia que aqui na Rússia temos uma superstição sobre elas?

Victor sabia que Yuri adorava conhecer mais sobre os costumes russos, assim como o russo gostava de aprender sobre as tradições japonesas, então, durante o café da manhã, contou a seu noivo sobre o ritual da mesma forma que sua mãe havia lhe contado há mais de vinte anos. Yuri o ouvia narrar as histórias de sua infância com interesse, sem conseguir esconder o entusiasmo de fã e a curiosidade que tinha em saber tudo sobre o homem com quem logo se casaria. Já conhecia o lado triste de seu passado, então alegrava-se muito quando podiam falar de passagens felizes da vida.

― Vitya, eu realmente gosto muito de saber mais sobre as coisas do seu país, ainda mais agora que estou morando aqui ― Yuri disse enquanto olhava para o buquê que agora jazia em um bonito vaso sobre uma mesinha de canto sob a janela, enfeitando a sala. ― Sei que você não é muito de superstições, mas não custa nada acreditar em algo que só pode nos fazer bem, não é?

― Você tem razão, lyubov moya². ― Ah, como amava aquele jeito de Yuri, o qual ainda preservava um lado inocente que combinava perfeitamente com a pureza das flores que acabara de dar a ele.

― Mas, sabe... No momento eu não tenho nada pra pedir, pois já tenho tudo que sempre desejei. Uma carreira próspera, um lar tranquilo... ― fez uma breve pausa, fixando os olhos castanhos nos azuis de Victor. ― E tenho você ao meu lado. O que mais eu poderia querer?

― Yuri...

Sempre que não sabia o que dizer, tão encantado ficava com as carinhosas palavras de seu noivo, tudo o que conseguia fazer era beijá-lo. Encostava-lhe os lábios gentilmente e sentia ser correspondido, a boca quente do japonês a comprimir-se contra a sua entre pequenos estalidos. Beijavam-se com todo o amor que reinava em seus corações e sentiam que se bastavam. Nada mais poderiam querer além da felicidade que compartilhavam.

― Victor, tem uma coisa que queria pedir a você... ― Yuri voltou a falar quando cessaram os beijos. ― Poderia me levar a esse parque de que você falou? Fique curioso para conhecer.

― É claro! Podemos ir quando quiser, ficarei feliz em levar você até lá.

A cada dia que se passava desde que conhecera o japonês, a gratidão só crescia em Victor e faria de tudo para vê-lo sorrir. E então, num fim de semana, ele, Yuri e Makkachin foram visitar o belo lugar tão marcante nas lembranças do russo.

Como era de se esperar, Yuri adorou o ambiente, deslumbrado com a variedade de flores que cresciam pelos jardins bem conservados do parque. Fez questão de tirar várias fotografias e correr pela grama com Makkachin, que parecia igualmente empolgado em perseguir pequenas borboletas que voavam por entre as árvores e arbustos. Victor contentou-se em observá-los, descansando debaixo de uma árvore quando, ao desviar o olhar para o chão distraidamente, uma florzinha lilás caiu ao seu lado sendo trazida pelo vento. Cinco petalazinhas repousavam sobre a grama.

Por algum motivo, o rosto de sua mãe lhe veio à lembrança. Pegou a flor com todo cuidado entre seus dedos. Depois, pensou em Yuri e em seu sorriso.

Olhou para o céu. Poucas nuvens flutuavam na imensidão azul, era um lindo dia.

Seguindo o singelo ritual russo, como se não pudesse quebrar a tradição, levou as petalazinhas à boca, desejando que todos aqueles momentos de felicidade ao lado de Yuri nunca se acabassem.

Notas finais
Glossário
(1) solnyshko: "solzinho", "pequeno raio de sol", em russo.
(2) lyubov moya: "meu amor", em russo.

É isso, pessoal! Espero que tenham gostado ♥ Um beijo e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!