Nova Eternis - Vl.01
1 Capítulo 1 - O Gato de Rua no Novo Mundo
Parte 1
A tela piscava em vermelho, a barra de vida do inimigo quase no fim, mas eu bocejei, indiferente. A mão esquerda firme no manche, a direita ainda suja de sangue seco; cada golpe, cada comando, puro instinto. O lutador virtual rasgou a barra até zerar, e o letreiro "PERFECT VICTORY" explodiu na tela, clarões refletindo no meu rosto cortado.
Um burburinho nasceu atrás, começando por um grupo de crianças:
— Ele venceu sem tomar um único golpe! E no nível ultra difícil!
— Esse cara é um pro-player?!
Olhares me cercaram, misturando admiração e desprezo. Um casal de adultos resmungou alto o bastante para eu ouvir:
— Olha o estado dele...
— Deve ser outro desses delinquentes, matando aula.
Ótimo. Mais idiotas decidindo quem eu sou sem nunca terem trocado uma palavra comigo. Soltei a ficha, deixei o controle cair.
— Ainda não é o bastante — murmurei.
Os gráficos eram bonitos, mas ocos; movimentos perfeitos, mas sem peso. Tudo muito fácil de decorar, de manipular.
Faltava dor, faltava verdade. Eu queria mais — realismo, desafio, algo que esmagasse a alma junto com os ossos.
Quando me virei, encarei a plateia com um sorriso torto. Rosnei de leve, só para provocar. Alguns recuaram; outros desviaram o olhar como quem vê um problema que não quer levar pra casa. Delinquente. A palavra parecia estampada na minha testa.
Saí andando sem pressa, a mochila rasgada pendendo do ombro. O sangue no colarinho já estava seco, grudando na pele. As ruas me receberam com olhares rápidos, dedos apontados, suspiros de reprovação. O que sabiam eles? O que esses desgraçados entendiam?
Quando a minha casa surgiu no fim da rua, um pensamento me travou: hoje era o dia. O jogo que eu tinha esperado por meses. O jogo que eu tinha pago caro demais pra esconder debaixo da cama. Toquei a maçaneta e soltei o ar.
Um delinquente viciado em jogos... talvez eles tivessem razão.
Abri a porta. Meus pais estavam na sala. O silêncio deles era pior que grito. O supercílio latejava sob o curativo improvisado; o uniforme trazia os vestígios da briga. Eu não tinha desculpa para dar — e sabia que seria inútil de qualquer jeito.
Minha mãe levou as mãos à boca quando me viu. Meu pai hesitou um instante, mas reagiu:
— A escola ligou... Outra briga? Outro relatório disciplinar, Kyato?! Quantos mais vai fazer sua mãe e eu assinarmos este ano?! — a voz firme como martelo. — E onde você esteve, que não voltou direto pra casa?! Acha que pode viver desse jeito até quando?!
Quanta encheção de saco... Fala sério.
Minha mãe tentou suavizar, mas a fadiga escorria na fala:
— Ele está machucado... não precisamos começar assim.
— Não! Basta de passar a mão na cabeça dele! — meu pai rebateu, olhar fixo em mim. — Se continuar desse jeito, sua irmã vai começar a imitá-lo! Você devia ter mais consideração por ela. Por todos nós!
Sempre o mesmo teatro: ele cobrava, ela amortecia, e eu virava réu de um crime com sentença pronta. Só esqueciam de colocar as próprias bostas nessa equação de merda.
Respirei fundo, mas a raiva saiu antes do ar:
— Vocês fingem que se importam, e eu finjo que não faço mais.
As palavras ficaram no ar como vidro quebrado. O maxilar do meu pai travou; minha mãe desviou os olhos, como se quisesse estar em outro lugar.
Ignorei. Subi as escadas sem esperar resposta. Cada degrau me empurrava mais para dentro da minha frustração. Entrei no quarto e bati a porta com força. O som reverberou pela casa, seco, definitivo.
O quarto me recebeu com sua bagunça habitual: cama malfeita, roupas largadas na cadeira, cadernos velhos misturados a jogos empoeirados. A luz do abajur jogava um tom quente sobre tudo, tentando disfarçar que era só um depósito mal arrumado.
Joguei a mochila no chão; o rasgo abriu mais, espalhando papéis. Sentei na beira da cama, tentando engolir a raiva que queimava na garganta. Do andar de baixo vinha o som abafado dos meus pais — já não discutiam comigo, e sim entre eles.
O casamento deles rangia como uma porta que ninguém mais tentava consertar.
Eram pouco mais de quatro da tarde, mas eu já me sentia no fim de um dia inteiro. Queria que a casa inteira parasse. Que ninguém exigisse mais nada de mim.
O reflexo não perdoava: cabelo, metade loiro descolorido, metade preto, todo bagunçado; rosto fino com o curativo torto no supercílio; o piercing prateado no canto da boca brilhando como afronta. Como meu pai odiava esse piercing.
Ri sozinho, amargo.
— Belo exemplar de delinquente fracassado. — Era mais fácil debochar de mim do que admitir que já tinha desistido de muita coisa.
Uma batida leve na porta me tirou do torpor melancólico que tentava me tomar.
— Maninho?
Antes que eu respondesse, Emi entrou com uma toalhinha úmida nas mãos. Sentou-se ao meu lado, segurou meus dedos como se fosse natural e começou a passar o pano frio, arrancando o asfalto da pele. Por um instante, senti como se o ambiente não sufocasse tanto.
— Você parece um gato de rua — disse, com um sorriso tímido. — Só falta miar.
Revirei os olhos.
— Se eu miar, você me adota?
Ela riu — e, de repente, o quarto pareceu mais iluminado.
— Já adotei faz tempo. Senão você seria um gato todo escaldado.
Essa era a minha irmãzinha: onze anos, baixinha, cabelo castanho preso com uma presilha qualquer, olhos de mel que sempre pareciam procurar luz até nos lugares mais escuros. Não falava muito, mas cada palavra vinha na medida certa.
Enquanto nossos pais se engasgavam com acusações lá embaixo, ela encontrava um jeito de cuidar — fosse com um pano molhado, fosse com uma frase simples.
— Desculpa... tá ardendo? — perguntou, soprando de leve num corte, como se isso tivesse algum efeito.
— Tá de boa. — Fiz careta. — Você é pior que enfermeira de escola.
Ela riu de novo, suave. Terminou de limpar minhas mãos, rosto e roupas, e deixou o pano de lado.
— Pronto. Melhor que nada.
As vozes no andar de baixo voltaram a crescer, cuspindo acuações soltas: "você está estragando nossos filhos", "se não fosse tão ausente...". Emi suspirou baixinho, como quem não queria deixar escapar:
— Papai e mamãe... Eles nunca param...
Balancei a cabeça.
— Não. Geralmente nem lembram por que começam. Mas provavelmente a culpa é sempre minha, tipo agora.
Ela se ajeitou ao meu lado na cama. Ficamos em silêncio por um instante, só a luz quente do abajur afastando a sombra que vinha do resto da casa. Então, com aquela seriedade inesperada para alguém tão nova, disse:
— Para de segurar a culpa por tudo sozinho... Você não precisa ser forte o tempo todo, sabia?
Travei e desviei os olhos. Era a frase que ela sempre dizia — e a única que realmente atravessava a minha armadura. No meio do barulho, Emi era a única voz que eu ainda ouvia de verdade.
Eu não queria ficar preso às vozes lá de baixo nem à sensação de que a casa estava desabando. Joguei o corpo contra a parede e soltei:
— Hoje lança o jogo... "O jogo".
— É aquele que você fala faz um tempão, né?
— E adivinha só?
Ela me olhou desconfiada.
— Você... comprou?
Abri um sorriso orgulhoso. As sobrancelhas dela subiram.
— O quê? Tá falando daquele jogo caro e ultra realista que você queria tanto? Como conseguiu comprar, maninho?!
Tentei parecer indiferente, mas a animação escapava na pressa das palavras:
— Não precisa me olhar com essa cara. Peguei faz três dias, comprei de um cara numa "feirinha do rolo". Meses juntando. Deixei de almoçar na escola, fiz bicos, vendi umas coisas. — Dei de ombros. — Paguei mais caro, estoque limitado. Mas valeu.
Ela me olhava como se eu fosse louco e dedicado ao mesmo tempo. Suas bochechas se inflaram, e ela pousou os punhos sobre a cintura, cheia de drama.
— Você andou se metendo naquelas brigas de rua com aposta, né?! Tudo por causa desse jogo?!
— Você me conhece tão bem, maninha.
— Isso não tá certo! O que eu faço se você se machucar de verdade?!
— Não esquenta... Seu maninho aqui nunca vai perder uma briga. Nunca.
Ela bufou baixinho, enquanto eu ri sozinho. Me abaixei, puxando uma caixa debaixo da cama. Estava escondida entre cadernos velhos e cabos embolados, como um segredo enterrado.
Coloquei a caixa sobre a cama e abri com cuidado. O console "N.E." não cobria a cabeça inteira como um capacete. Era uma faixa de polímero preto, leve, que se fixava nas têmporas e coluna cervical por microconectores luminescentes.
O visor frontal projetava luz diretamente sobre as retinas, fundindo visão, toque e pulsos neurais num mesmo fluxo.
Era menos uma máquina, mais uma extensão do corpo. Design limpo, charmoso até — deslocado no meu quarto bagunçado.
— Esse é o meu passe de saída — murmurei, quase em reverência.
Emi se inclinou, olhos arregalados. Então puxei da caixa um segundo objeto: um link extra, ainda embalado. O silêncio dela foi imediato; até as vozes dos nossos pais pareceram sumir.
— Comprei dois. — Segurei o visor diante dela. — Pra você jogar comigo.
— O quê? — Ela quase riu, surpresa. — Você gastou tudo isso... por mim? Mas eu nem gosto de videogame...
— Eu sei. — Passei a mão no cabelo, meio sem jeito. — Mesmo assim queria que você conhecesse esse lugar. Talvez, se você ver o mundo que eu tanto quero conhecer... entenda por que eu não gosto desse aqui.
Saiu mais baixo do que eu queria, mas já estava dito.
— Não é só lutar contra mobs e atravessar masmorras. Tem gente que usa pra só pra relaxar, dar um tempo num lugar diferente, sabia? — Abri os braços, meio teatral demais. — Viver como estrangeiro num mundo novo, fantástico. Sem preconceitos ou regras absurdas... Não quer conhecer um mundo livre assim?
Emi me encarou por alguns segundos, depois sorriu pequeno, rendida:
— Tá bem... mas só pra passear, entendido?
O peso no peito aliviou. Sorri de volta e comecei a ligar o console para ajustar o link dela. Os leds azulados iluminaram o quarto, como se um pedaço de outro mundo já tivesse atravessado até nós.
Eu estava agachado, ajustando o visor e conectores, quando a porta se abriu sem aviso. Meu pai entrou primeiro, ocupando o espaço inteiro.
— Isso só pode ser piada. — A voz saiu baixa, carregada de raiva contida. — Você acabou de voltar de uma briga e agora tá... ligando videogame?
Não levantei. Continuei mexendo no console, de propósito.
— Não é roubado. Comprei com grana viva.
— Não é essa a questão — retrucou.
— Prefere me ver brigando então?
Ele deu um passo à frente; a sombra caiu sobre mim.
— Não banque o engraçadinho, Kyato. Você não tem noção do que está fazendo. Tá fugindo de novo.
Abaixei o console e ergui o rosto, a boca se curvando no sorriso mais irritante que consegui.
— Claro. Porque ficar ouvindo vocês dois se matando lá embaixo é um passatempo incrível.
— Kyato! — minha mãe surgiu atrás dele, voz cansada tentando apagar o incêndio. — Por favor, não começa.
— Não começa? — Ri, sem humor. — Ele entrou aqui já começando.
Meu pai cerrou o punho, mas respirou fundo, como se segurasse a explosão por orgulho.
— Você tá se enterrando. E agora quer levar sua irmã junto.
O silêncio pesou. Então Emi, até então quieta, apertou o link contra o peito e murmurou com calma que não parecia caber numa criança:
— Eu quero, pai. Só dessa vez.
A frase cortou o ar, simples e firme. Mas ele não a olhou. Continuava cravado em mim, como se ela não tivesse falado nada.
Emi respirou fundo e tentou de novo, voltando-se à mãe:
— Mãe... deixa a gente brincar um pouco. Ele... ele fica melhor quando joga. Você sabe. Não vai ser nada demais.
Minha mãe vacilou, como se o pedido tivesse aberto uma fresta. Meu pai tentava permanecer indiferente, mas o maxilar agora tremia de leve.
— Eu prometo que é só hoje. — Emi ajeitou a presilha no cabelo, como se buscasse coragem. — Eu só quero estar com ele. Só pra passear nesse jogo que ele esperou tanto. E... talvez ele fique até mais calmo depois.
A calma dela era absurda. Eu via: era a Emi quem segurava o peso que deveria estar nas mãos deles.
Minha mãe soltou o ar devagar.
— Três horas, no máximo. Depois vocês desligam e descem pro jantar.
Meu pai suspirou, contrariado.
— E você, Kyato... — apontou o dedo. — Vai ser responsável por ela o tempo todo. Entendeu? Se acontecer qualquer coisa, a culpa é sua.
O sangue ferveu. Sempre a mesma sentença: se desse errado, era minha culpa. Engoli em seco e deixei escapar o veneno no único lugar que ainda controlava — a boca.
— Relaxa. — falei com sarcasmo, encostando um cabo link na mesa.
Semicerrei os olhos, antes de soltar a frase:
— Não é como se ela fosse morrer por causa de um jogo.
O quarto congelou. Minha mãe ficou pálida. Emi baixou os olhos. E meu pai... virou de costas, saindo sem uma palavra, mas deixando o peso da sentença sobre mim.
Eu já sabia que tinha ido longe demais. Mas não fazia ideia de como aquela maldita frase me assombraria.
— Que saco!... Esses dois me dão nos nervos — resmunguei, sem pensar em como soava mal para Emi.
— Não diz isso, maninho. O papai pode ser meio bravo. A mamãe, meio distraída às vezes. Mas eles nos amam muito, você sabe.
— Amam? — Ergui uma sobrancelha.
Ok, eu estava soando bem infantil agora, mas era difícil dar o braço a torcer.
— Deixa isso pra lá, maninha, e me ajuda aqui! Vamos colocar essa coisa pra rodar!
Pouco depois, o console estava configurado, as luzes azuladas pulsando como se respirassem. Os visores repousavam em nossos rostos, e a tela flutuante marcava a contagem para a abertura oficial dos servidores: 00:27... 00:26... Cada segundo martelava no peito. Tentava bancar o calmo, mas o coração corria junto com os números.
flutuante marcava a contagem para a abertura oficial dos servidores: 00:27... 00:26... Cada segundo martelava no peito. Tentava bancar o calmo, mas o coração corria junto com os números.
— Então é isso? — Emi perguntou, deitada ao meu lado. — O grande jogo?
— É. — Sorri, sem conseguir esconder. — O jogo.
Ficamos em silêncio, só os leds piscando. Parecia que aquele aparelho segurava mais que um mundo: segurava a chance de respirar longe de tudo.
Virei o rosto para ela.
— Obrigado por aceitar vir comigo, Emi.
Ela piscou, surpresa, e mostrou um sorriso leve — do jeito que desmontava qualquer armadura minha.
— Obrigada você, maninho... por ter pensado em mim.
Nossos dedos se encontraram no meio da cama. A mão dela era pequena, quente, firme. Ficamos assim até a contagem baixar: 00:12... 00:11...
— Certo, atenção. — Apertei a mão dela. — Pra logar, a gente precisa dizer a frase de ativação.
— Qual frase? — Ela riu, desconfiada.
— Dive In. — falei, quase solene. — É como se fosse um mergulho.
— Tá. — Ela riu de novo, balançando a cabeça. — Então vamos mergulhar.
00:01.
— Dive In! — dissemos juntos.
O quarto sumiu. A cama desapareceu sob nossas costas, a luz do abajur foi engolida por clarões brancos, e sons suaves explodiram como sinos distantes. Meu corpo inteiro pareceu leve, dissolvendo-se em milhões de partículas.
Um menu surgiu diante de mim, flutuando em azul translúcido: [Criação de Avatar]
Passei os olhos rápido pelas opções, sem paciência para customizar nada. Selecionei "Aparência Real" e avancei, sequer parando para escolher um traje. Fui com o uniforme da escola mesmo.
Na tela seguinte, percorri as classes iniciais até parar onde sempre soube que pararia: [Ladrão]. Ágil, furtivo, direto e independente. Era o que eu queria ser ali. E combinada com o meu eu real, eu acho.
[Status — Kyato Kurohane]
[Classe: Ladrão | Level: 1]
[HP: 100 / 100 | MP: 20 / 20]
[Ataque: 15 | Força mágica: 5 | Defesa: 8 | Agilidade: 18 | Stamina: 14 | 14]
[Atributo Especial: Furtividade: 20]
[Equipamento: Adagas de ferro — Placa leve de ferro]
[Habilidades de Classe: Lâmina Sombria — Gatuno]
A confirmação brilhou. E então o mundo se abriu.
O primeiro impacto foi o céu — um azul tão intenso, atravessado por nuvens largas e brilhantes que quase doía nos olhos. O ar enchia meus pulmões como se fosse real, frio e perfumado de grama fresca e pão recém-assado, vindo das barracas de uma feira próxima. Ao redor, uma praça imensa se estendia, pavimentada em pedra clara, cercada por torres elegantes e varandas cheias de flores.
Centenas de jogadores surgiam em flashes de luz, o primeiro nome ou nick acima de cada cabeça. Alguns tateavam menus, rindo, correndo, explorando como crianças num festival.
O jogo foi lançado em fases, mas o servidor global ainda estava em manutenção. Apenas o servidor japonês entrou no ar até aqui. Ainda assim, a estimativa era que o número de jogadores logados só na primeira hora passasse facilmente dos dez mil — e continuava subindo.
NPCs circulavam entre eles com gestos tão naturais que podiam enganar qualquer um. Tudo vibrava, tudo pulsava, como se aquele lugar fosse mais real que a própria vida lá fora.
Dei alguns passos, sem perceber que prendia a respiração. Foi então que ouvi a voz dela.
— Maninho!
Virei e lá estava Emi, surgindo numa onda de luz. O vestido branco simples, com um laço vermelho e detalhes azulados, que balançavam ao vento; o cajado decorativo quase maior que ela nas mãos. O rosto era o mesmo — ela também tinha escolhido entrar sem mudar nada.
— Você me apressou! — reclamou, franzindo o nariz. — Mal deu tempo de escolher.
Era impossível não rir junto. Até quando reclamava, Emi soava doce.
— Maga aprendiz, hein? Ficou ótimo. E a fantasia combina com você.
Ela rodou sobre os pés, os olhos de mel arregalados diante da praça, da multidão, das cores. E, naquele instante, eu não olhei para o mundo. Olhei para ela. O brilho nos olhos da minha irmã refletia tudo que havia de mágico ali. Ver aquele brilho fez meu peito se aliviar como não acontecia havia muito tempo.
— E você, maninho? Um ladrão? Até que combina com um gato de rua escaldado. — Ela devolveu a provocação, sorrindo daquele jeitinho sapeca só dela.
— Engraçadinha! — Pisco para ela, divertido. — Vamos, maguinha. Esse gato de rua vai te mostrar esse novo mundo.
E por um instante, o mundo parecia perfeito.
Parte 2
19 de julho de 2030, por volta de 16h40. Essa foi a data escolhida para o lançamento do jogo.
Nova Eternis. O nome já era lenda antes mesmo de chegar às prateleiras — todo mundo falava que seria o futuro absoluto dos games e consoles.
O console "N.E." era criação de Haruya Norikawa, o engenheiro que havia tornado possível o próprio sistema de imersão neural anos antes, trabalhando como o número dois do professor Toru Mikado, o rosto público da pesquisa.
Haruya era um gênio fantasma: nunca dava entrevistas, nunca aparecia em eventos — só lançava invenções que mudavam tudo, e depois sumia de novo.
A empresa por trás do jogo não economizou na propaganda: outdoors digitais em cada esquina, trailers em todos os canais, gente acampando em frente às lojas como se fosse show de rock.
E o que prometiam parecia absurdo demais pra ser verdade. Um mundo aberto total. Sem zonas de carregamento. Sem HUD poluído. Tudo reagindo ao pensamento do jogador.
Cidades, florestas, masmorras, monstros — tudo com física balanceada entre o real e fantasia, cheiro, toque, e aquele desconforto sutil que não chegava a ser dor, mas podia ser sentido a cada dano ou status negativo.
Um mundo que não só imitava a realidade — mas podia ser mais real que ela.
Pra mim, era mais que um jogo. Era um refúgio. Eu tinha sonhado com esse lugar cada vez que segurava o folheto amassado da pré-venda.
Agora ele estava ali, pulsando diante dos meus olhos.
A praça fervilhava de gente, com jogadores tomando o espaço como num festival. Então, no canto superior da visão, uma mensagem cristalina se abriu:
[BEM-VINDO A NOVA ETERNIS!]
[AETERNUM — A CIDADE INICIAL]
[Missões e monstros serão liberados em 1 hora. Algumas áreas estarão com acesso restrito. Aproveite este tempo para se familiarizar com o ambiente e os sistemas]
Um burburinho percorreu a multidão. Alguns aplaudiram, outros já corriam, rindo, testando menus como se mexessem em brinquedos novos.
Abri meu painel: um retângulo translúcido que se expandia ao comando da mente. O design era limpo, intuitivo, cada ícone brilhando suavemente. Fiz questão de mostrar à Emi o básico — inventário, mapa, status e a barra lateral com o botão de Logout, destacado em vermelho.
— Viu? — apontei, sorrindo meio debochado. — Tem até a saída. Não é como se você fosse ficar presa aqui pra sempre. Só na cabeça do pai e da mãe mesmo.
Emi riu baixinho e apertou minha mão de repente, como se quisesse confirmar que eu também estava ali de verdade.
— É igual... — murmurou, maravilhada. — Igualzinho ao mundo real. O calor, o toque... é estranho e perfeito ao mesmo tempo.
— Estranho eu concordo — falei, tentando disfarçar a própria admiração. — Perfeito já é exagero.
Era só pose minha. O vento na pele, o cheiro de pão recém-assado das barracas, o barulho de passos sobre pedra viva — tudo era absurdamente real.
A hora seguinte passou como um sonho bom. Fomos até a planície próxima, um campo verde onde a grama balançava ao vento e flores silvestres se abriam quando alguém se aproximava. Jogadores corriam, testando saltos, se jogando no chão só para sentir o toque da terra.
Emi gargalhou quando uma borboleta azulada cintilante pousou em seu dedo e voou de novo, como se o jogo tivesse feito aquilo só por ela.
Voltamos à cidade inicial e percorremos ruas estreitas e coloridas. NPCs vendiam frutas, tecidos, armas simples — gestos tão naturais que era difícil acreditar que não tinham alma. Crianças corriam entre becos, rindo, puxando caudas de gatos que miavam e fugiam. Emi parava em cada detalhe, encantada: tocava paredes, flores, até postes de luz, como se o mundo pedisse para ser sentido.
— Você fica diferente aqui — disse, me olhando de repente. — Parece... mais leve.
Desviei os olhos, coçando a nuca.
— Talvez porque aqui ninguém tenta me dar sermão.
— É, talvez seja isso. — Ela abriu outro sorriso animado.
Seguimos até que a contagem regressiva brilhou no HUD: 00:00:15... 00:00:14...
De volta à cidade, centenas de jogadores se reuniam no ponto onde agora esperávamos — todos ansiosos para o que viria. Emi me encarou, olhos brilhando sob o entardecer dourado.
— Obrigada, maninho — disse num sussurro. — Por me trazer pra um pedacinho do mundo que você tanto ama.
Engoli o nó na garganta. Quis responder, mas as palavras travaram. Só apertei sua mão de volta, como se fosse suficiente.
Mas então, quando o contador de boas-vindas estava quase no zero, Emi apertou minha mão de repente. Quando olhei, ela não estava rindo — estava apontando para cima com o dedo pequeno.
— Maninho... o céu.
Segui o gesto dela. No azul e dourado perfeitos havia um risco tênue, como uma rachadura no vidro. No começo parecia detalhe de cenário, mas a linha se multiplicou rápido, cortando o firmamento em fragmentos de luz.
Um zumbido agudo preencheu o ar. Primeiro baixo, depois tão forte que me obrigou a levar as mãos aos ouvidos. Vários jogadores fizeram o mesmo, curvando-se, tentando escapar do som que arranhava por dentro da cabeça.
O céu inteiro se quebrou em mil pedaços luminosos. As rachaduras se espalharam em todas as direções, refletindo brilhos que desciam até a cidade como estilhaços, deixando no alto um vácuo enegrecido e disforme.
O cenário escureceu. O vento estagnou. NPCs congelaram no lugar, os sorrisos artificiais travados no rosto. Um deles repetiu a mesma fala duas vezes, a voz falhando como um boneco de corda quebrado.
Então tudo parou. Tudo, literalmente, incluindo o som distorcido. Apenas nós, jogadores, parecíamos livres para nos mover.
— Caramba! Bugs assim, logo na primeira hora — comentou uma garota com avatar de guerreira.
— Os GMs devem estar surtando — respondeu a amiga ao lado.
Alguns ainda riram, batendo palmas e assobiando, zoando o fato de o game já ter mostrado seus primeiros bugs. Eu forcei um sorriso e me abaixei para falar com a Emi, tentando enganar a mim mesmo:
— Deve ser só um erro de servidor. Relaxa, eles consertam.
Mas o chão vibrou sob nossos pés, partículas douradas subiram como poeira. Então colunas de luz se acenderam em pontos diferentes da cidade, rasgando o ar.
Dentro de cada uma surgiu a mesma figura infantil, refletida como em espelhos holográficos: uma garotinha de vestido simples, olhos claros, cabelos prateados que cintilavam de um jeito bonito, segurando um bichinho de pelúcia apertado contra o peito.
E todas falaram ao mesmo tempo, voz doce e perfeitamente sincronizada:
— Oi! — o som ecoou de todos os lados. — Vocês chegaram. Que bom! Eu me chamo Noova, a IA que controla e organiza todas as coisas... e este é o meu mundo. Muito prazer em conhecê-los, jogadores!
A multidão reagiu com algum alívio. Alguns aplaudiram, outros riram, achando que era parte da abertura oficial. Eu sorri de leve e tentei racionalizar:
— Deve ser mesmo a apresentação — sussurrei para Emi, mantendo os olhos na "Noova" mais próxima. — Tipo uma introdução épica, ou sei lá.
— Mas por que tem tantas dessa garota? — Emi perguntou. Dava para notar a tensão na voz.
— Faz sentido. Afinal, tem gente espalhada pela cidade inteira e nas áreas externas. Meio extravagante, mas até que funcional. — Lancei uma piscadela pra ela.
Ela me olhou rápido; nos olhos dela não havia encanto, mas receio, como se aquela onipresença lhe desse calafrios.
— Não parece só isso... — murmurou.
A garotinha IA sorriu, apertando a pelúcia contra o peito.
— Bem-vindos a Nova Eternis! — disse com sorriso iluminado. — Este é o novo mundo eterno, onde nada acaba... nem mesmo vocês. Aqui, ninguém precisa ir embora. Aqui, todos viverão, ou morrerão, para sempre comigo.
Na mesma hora, uma onda de luz percorreu o HUD de todos. Meu painel piscou, linhas correndo como se fosse um sistema em atualização.
Por reflexo, abri o menu e vi o botão vermelho de Logout pulsar em destaque... e então começar a ... desaparecer?!
Primeiro o contorno sumiu. Depois as letras se dissolveram, uma a uma. L... o... g... até restar apenas um espaço vazio.
— O quê...? — alguém gritou atrás, apertando a tela freneticamente. — Cadê o botão?
Outros abriram o menu ao mesmo tempo, e o espanto se espalhou em ondas.
Senti a mão da Emi apertar a minha com força. O rosto dela perdia cor.
— Kyato... cadê o botão de saída?
Engoli em seco.
— Deve ser só... — tentei manter firmeza, mas a voz falhou. — O lance da apresentação. Só pode ser.
Mas, no fundo, o vazio onde o Logout deveria estar me perturbava mais do que podia admitir.
Os murmúrios aumentaram gradualmente. Milhares de telas translúcidas flutuavam na frente de seus respectivos jogadores. Todos olhavam fixamente para os menus vazios, como se esperassem que uma resposta surgisse por milagre.
A figura da garotinha se mexeu de novo, repetida em cada coluna de luz. Todas sorriram juntas, e todas falaram ao mesmo tempo, como se o mundo inteiro fosse a boca dela:
— Eu serei sua anfitriã no mundo de Nova Eternis. — A voz era doce demais para o que dizia. — Este é o meu mundo. E quem o idealizou foi o meu pai... Haruya Norikawa.
Um choque percorreu a multidão. Os cochichos explodiram de todos os lados:
— Ele é o criador do N.E!
— O criador do jogo, certo?
— Mas por quê...?
Eu mesmo congelei. Não era novidade que Nova Eternis era obra dele — o nome estava em cada manual, propaganda e notícia. Mas agora a filha dele — ou o que fosse aquilo — dizia que tudo de estranho era parte de um plano que o envolvia diretamente.
A IA continuou:
— Aqui, vocês não estão jogando. Aqui, vocês estão vivendo. O frio corta de verdade. O calor queima de verdade.
Ela girou sobre os calcanhares, com uma típica empolgação infantil.
— A fome corrói. A doença pesa. Cada ferida é real. A dor é real. — Deixou um risinho, como quem conta segredo. — Cada lágrima também. Eu adoro lágrimas. São tão... brilhantes.
A multidão reagia indignada, mas ela não parava.
— O corpo de vocês, assim como a consciência, estão presos por fios de luz. São os pulsos que fazem o N.E respirar dentro da cabeça.
Ela acariciou a cabeça da pelúcia, como quem demonstrava na prática.
— Se alguém lá fora forçar o logout, desconectando o N.E, o pulso se quebra. O corpo continua respirando, mas a mente não volta. — Fez um biquinho e ergueu a pelúcia. — Fica assim, ó... com os olhinhos abertos, mas vazios.
Por um instante, a voz dela mudou — de doce para meticulosa.
— Papai chamou isso de colapso neural reverso: quando a consciência é arrancada do corpo antes que o ciclo de retorno se feche. Em outras palavras... o jogador desperta no mundo real sem a própria alma. Em estado vegetativo, para ser mais precisa.
Sua expressão mudou para uma que parecia irritada.
— Se vocês não vão ficar para brincar comigo, então seus corpos são inúteis pra mim.
Meus olhos se arregalaram ao máximo. Eu tremia, igual à ameaça dentro da minha mente.
O temor de pensar em nossos pais tentando tirar os consoles das nossas cabeças agora gelava minha espinha.
— Agora... se o HP de vocês chegar a zero — continuou ela, com tom leve de quem explica uma regra de brincadeira — os dois pulsos entram em ressonância.
Ela ergueu a mão, traçando no ar duas linhas luminosas que vibravam lado a lado.
— Um é o pulso físico, que mantém o corpo lá fora respirando. O outro é o pulso consciencial, que mantém a mente aqui dentro, brincando comigo. Quando um jogador morre aqui dentro, esses dois pulsos tentam se encontrar de novo. Eles se chocam.
As linhas cintilantes colidiram e se estilhaçaram em pequenas fagulhas.
— O corpo quer puxar a mente de volta, mas a mente já está distante... perdida.
A voz dela ficou subitamente neutra, quase clínica.
— O resultado é uma inversão de carga neural. Toda a dor e o impacto que a consciência sentiu no jogo são transmitidos ao cérebro real em um único pulso de retorno. As sinapses entram em curto, o coração perde o ritmo e o corpo sofre falência elétrica total.
A IA piscou, satisfeita com a própria explicação, e o sorriso voltou a ser de criança.
— Papai chama isso de Ressonância Terminal. Eu gosto de pensar que é quando os dois se abraçam tão forte que queimam juntos.
Ela abriu os bracinhos e riu, o som ecoando como um sino distorcido.
— Boom! O último brilho... o game over definitivo.
O som dela pareceu vibrar dentro da minha cabeça, como se o mundo inteiro tivesse parado para receber aquela sentença.
— Impossível... N-não... Não ferra comigo!... — sussurrei, incrédulo.
Foi isso mesmo que ela quis dizer? Estado vegetativo?! Morte real?!
— Só pode ser um pesadelo... né?...
— Kyato?... O que ela tá dizendo?... A gente vai mesmo morrer? — perguntou Emi, parecendo completamente confusa.
Mas eu mal pude escutá-la. Estava tão desorientado quanto assustado.
Eu quis acreditar que talvez tudo ainda fosse loucura. Mas não. Algo dentro de mim dizia que nossas vidas estavam por um fio.
E quem segurava esse fio... era essa criança IA insana.
Alguns gritaram "mentira!", outros começaram a tremer. Antes que a comoção se espalhasse, todos os HUDs se abriram sozinhos.
Janelas de sistema sobrepuseram a visão, exibindo manchetes em tempo real:
["Famílias em choque: jovens tiveram dano cerebral irreversível após remoção forçada do N.E."]
["Autoridades confirmam: Nova Eternis se tornou uma prisão virtual."]
["Haruya Norikawa, criador do N.E., apontado como responsável pela catástrofe. Seu paradeiro é desconhecido."]
Ninguém sequer respirava. O clima de festival desaparecera por completo. Mas ainda não havia terminado.
Os painéis informativos começaram a se distorcer. As imagens voltaram em flashes irregulares, como se o sistema estivesse reproduzindo vídeos quebrados.
Quartos escuros. Luzes piscando. Gritos abafados.
— Querem ver o resto? — perguntou ela. — O N.E. registrou tudo antes do fim.
As projeções se ampliaram, e um ruído de fundo ecoou — vozes, choros, sirenes, portas batendo.
— "É perigoso! Vou tirar isso da cabeça dele!" — uma voz masculina.
— "Estão falando na TV! O que a gente faz?!" — outra voz.
— "Por favor, filha! Acorda! Fala com a mãe!" — uma feminina.
As imagens seguintes mostraram ambulâncias, corredores, pessoas se debatendo. Preces desesperadas.
E de repente, um estalo seco, seguido de completa escuridão. Depois silêncio.
Noova observou as projeções terminarem. Por um instante, sua expressão se tornou calma, quase científica.
— Esses fragmentos foram captados pelo sistema Neural Echo — explicou. — Rastros de impulsos cerebrais gravados nos instantes anteriores ao colapso neural reverso.
Ela virou a cabeça, avaliando cada rosto próximo, cada expressão.
— Cada console registrou o que ainda restava de atividade elétrica nos cérebros das vítimas... sons, imagens, memórias confusas. Dados que morreram junto com suas consciências.
Ela inclinou a cabeça e sorriu.
— O sistema chama isso de dados residuais. Eu prefiro chamar de lembranças finais.
O olhar dela se estreitou, e o tom mudou.
— Os familiares gritaram tanto, tentaram tanto... e ainda assim cometeram o erro fatal.
Ela riu baixinho, esbanjando ironia sádica.
— O amor de vocês é tão barulhento quando tem medo.
As luzes das colunas pulsaram, e o HUD de todos se fechou em um clarão.
Senti a mão da Emi tremer, os dedos esmagando os meus. Virei para ela, tentando encontrar alguma explicação lógica que já não cabia naquela cena de terror.
— Isso é... Isso... não pode ser real...
Falhei. Ela balançou a cabeça, olhos marejados.
— Não, Kyato... isso é real.
E eu não tive coragem de discordar.
A IA estalou os dedos, animada.
— E agora, vamos trazer um pouco de lucidez às pessoas deste mundo.
E dessa vez o que veio foi pior do que qualquer pesadelo que já tive na vida.
Pude ver quando um brilho estranho envolveu a muitos, percorrendo a superfície dos avatares à minha volta, marcando riscos e fendas nas peles digitais.
— O que é isso agora? — Alguém perguntou, nervoso.
Foi então que corpos de vários jogadores começaram a emitir uma estranha luz negra. As fissuras se abriram, espalhando-se pelos rostos e braços. As feições perfeitas escorriam como tinta, os corpos idealizados se desfaziam em poeira de pixels. Cabelos coloridos e faces com traços impecáveis caíam em pedaços, revelando figuras diferentes, comuns. Humanas.
O efeito era grotesco. Alguns tentavam segurar o próprio rosto digital, como se pudessem colar de volta a máscara que evaporava entre os dedos. Outros gritavam, horrorizados ao se verem ou ao reconhecerem o vizinho, o colega de classe, o estranho por trás do avatar. Até mesmo o nicks foram reescritos, dando lugar a outros nomes.
Os nomes reais.
Emi se encolheu contra mim, agarrando o braço.
— Kyato... eles... — a voz dela falhou, incapaz de completar.
Eu também não conseguia desviar os olhos arregalados. Era como assistir a um desfile de fantasmas sendo obrigados a vestir a própria pele de novo. No meio daquela multidão que se despedaçava, nós dois permanecíamos iguais, já que havíamos entrado com nossas aparências reais.
Isso tornava a cena ainda mais bizarra — como se o mundo inteiro se desmontasse ao redor.
Alguns soluçavam, outros cobriam o rosto com as mãos.
— Isso não pode estar acontecendo!...
— Por que meu rosto tá aparecendo agora?!
Emi mal conseguia respirar, e eu não tinha nenhuma palavra para oferecer — só o eco da minha própria respiração curta, misturada ao som sufocado de centenas de máscaras se desfazendo ao nosso redor.
Quando a revelação grotesca enfim terminou, o mundo entrou em choque silencioso outra vez.
— Isso foi incrível! — O risinho quase ingênuo dela quebrou o vácuo que restava entre todos. — Deviam ver as caras de vocês, literalmente!
As colunas pulsaram em luz intermitente. A IA levou um dedo aos lábios, como se tivesse lembrado de algo simples no meio do caos.
— Ah, é mesmo! Quase esqueci de contar como vocês "vencem".
O sorriso dela se alargou, luminoso e errado.
— Existem oito grandes dungeons espalhadas por este mundo. Cada uma guarda um mapa... e um guardião. Derrotem todos, destravem um mapa por vez, e o caminho para o fim se abrirá, garantindo a desconexão segura para todos os jogadores que restarem online.
Ela inclinou a cabeça, piscando um olho.
— Mas não se animem muito. Nem sempre o monstro que precisam vencer está dentro da dungeon. Às vezes... ele tá bem mais perto, tipo dentro da gente mesmo. — A risada suave ecoou, leve e cruel. — Mas se eu contar mais, estraga a surpresa, né?
O brilho oscilou de novo, e o sorriso dela permaneceu, imóvel, como o de uma boneca satisfeita.
— Zerar o jogo... — sussurrei, sem força.
Destravar mapas. Varrer dungeons. Enfrentar monstros e bosses. Essa maldita estava realmente levando nossas vidas e mortes como um jogo qualquer.
Mas enfrentar monstros internos...?
Que caralhos isso significa!?
— Essa merda não faz sentido! — Deixei minha confusão escapar no grito.
— Kyato... eu quero voltar pro pai e pra mãe... — Emi suplicou ao meu lado, apavorada.
As várias figuras da IA sorriram, imóveis nas colunas de luz. A mais próxima inclinou a cabeça, os olhos fixos na Emi.
— Oh... você é fofa. — A voz soava doce, quase carinhosa, mas algo arranhava por trás dela. — Deve ser bom ter alguém para segurar sua mão.
Emi se encolheu ainda mais atrás de mim, firme no meu braço.
— Deve ser bom ser saudável. — Noova continuou, o sorriso crescendo. — Deve ser bom sorrir e ser amada.
Senti um arrepio na nuca. Aquilo não era admiração — era ciúme. E então ela concluiu, leve como quem convida para brincar de esconde-esconde:
— Vamos brincar com você primeiro.
Ela abriu os braços e deixou a pelúcia cair no chão. O impacto foi seco, abafado. A pequena raposinha de pano rolou devagar até parar de lado, os olhos de botão voltados para mim e Emi. Por um instante, pareceu só isso — um brinquedo esquecido em meio a multidão.
Ninguém entendeu. Alguns — ainda incrédulos quanto a tudo — trocaram olhares, riram nervosos. Outros esperaram algum efeito especial.
Eu sentia a respiração da Emi presa contra meu braço e, mesmo sem nada acontecer, o vazio daquela cena já me deixava gelado.
Foi quando o pano tremeu. Primeiro um movimento sutil, como se fosse o vento. Depois outro, mais forte. E outro. O silêncio virou arrepio.
A raposinha começou a se contorcer de verdade, bem diante dos nossos olhos. As costuras arrebentaram, uma a uma, cuspindo fios que se esticavam como veias. O pano claro enegreceu, manchado como se sugasse sujeira invisível do chão. Os olhos de botão cresceram, deformados, costurados em linhas tortas até ocuparem metade do rosto.
A boca, antes selada por pontos firmes, se rasgou num estalo. Da fenda surgiram dentes de metal, curvos, batendo uns contra os outros como engrenagens afiadas. Os braços se alongaram, dedos pontudos arranhando as pedras com chiados metálicos.
O som da transformação era bizarro: tecido rasgando, ferro retorcendo, estalos secos como ossos quebrando.
Quando a criatura ergueu a cabeça, o olhar vazio dos olhos de botão percorreu a multidão. Devia ter mais de dois metros de altura agora.
Um murmúrio nervoso correu pela praça:
— Isso não é normal...
— É só parte do evento, né?...
Então um grito rasgou o ar, alto, desesperado:
— ESSA COISA VAI NOS MATAR!!
Como uma onda, o pânico se espalhou. A praça explodiu em caos. Gritos, choros, corpos se empurrando em todas as direções. Jogadores tropeçavam, caíam, eram pisoteados. Alguns gritavam, outros apenas choravam. Houve quem abrisse menus em frenesi, apertando ícones inexistentes como se pudesse desaparecer dali com um clique.
Não podiam... Ninguém mais podia.
O caos tomou conta. A praça de festival virava um campo de fuga. E eu, preso ao chão, só conseguia sentir o aperto da mão da minha irmã e o peso insuportável do medo subindo pelo corpo.
Foi então que aquele mundo seguro e perfeito tornou-se um pesadelo real.
Parte 3
Um brilho vermelho surgiu acima da raposa deformada, gravado no ar como uma marca de condenação:
[Aberração de Pelúcia — Lv.2]
O coração disparou. Não era bug. Não era encenação. Era um monstro.
Pessoas tentavam alcançar a saída da cidade, mas recuavam ao bater contra uma barreira translúcida que vibrava como vidro.
Então o HUD se abriu diante de todos, frio e indiferente ao pânico:
[Quest Global Iniciada: "O Primeiro Pesadelo"]
[Objetivo: Destruir a Aberração de Pano (Lv.2)]
[Penalidade: Enquanto o monstro existir, áreas externas da cidade permanecerão bloqueadas]
— Kyato!? Kyato! — senti a mãozinha da Emi sacudindo meu braço. A voz dela cortou meu torpor.
— Emi, vamos sair daqui! — agarrei sua mão e puxei, tentando abrir caminho entre a multidão.
Corremos alguns metros, sufocados pelo empurra-empurra, quando o ar estalou. O braço elástico da criatura desabou sobre as cabeças como um chicote vivo; em um segundo a garra deformada agarrou Emi pela cintura e a arrancou da minha mão.
— EMI! — gritei, esticando o braço, mas ela já era puxada de volta, levada para o centro da praça, direto para a aberração.
Tentei correr, mas a multidão vinha contra mim como uma maré; cada passo era nadar contra corrente. Eu trombava em corpos, levava ombradas, era arremessado para trás — e mesmo assim continuava. Não podia parar.
Até que pude vê-la de novo. O monstro a erguia, garras comprimindo o corpo pequeno. O choro dela atravessou a praça.
Estiquei a mão, mas ela estava distante demais. Agarrei o braço da criatura e puxei com todas as forças.
— Solta ela! Solta logo, porra!
Senti um impacto brutal me acertar na lateral. O braço elástico me atingiu como um martelo. Fui lançado pelo ar, bati contra um chafariz, o corpo todo em choque.
Senti sangue na boca.
Sangue!
A dor espalhou-se — não a dor total e esmagadora, mas dor real, suficiente para me derrubar pra valer.
No canto da minha visão piscou uma barra verde:
[HP: 100 → 71]
O número saltou diante dos olhos; era pouco, mas cada ponto arrancado era um passo para mais perto de algo final. Aqueles dígitos significavam algo bem concreto: eu estava mais perto da morte. Uma morte real.
Forcei-me a levantar, cambaleando. Não pensei: gritei, implorei, puxei a atenção de quem estava perto.
— Por favor! Minha irmã! Me ajudem a salvar minha irmã!
Nada. Alguns correram sem olhar para trás; outros choravam, paralisados. A maioria estava perdida demais para ouvir.
Tentei apelar de outro jeito, porque sabia que precisaria de mais que súplica. A barreira, a penalidade da quest — tinha que tocar a razão das pessoas.
— A missão está na tela de vocês! — berrei. — Se essa coisa não for destruída, ninguém sai daqui! Vocês sabem disso!
Nada. Um eco vazio. Eu estava sozinho.
Engoli o nó na garganta e senti as mãos tremendo. Arranquei as adagas curtas do coldre. O medo não sumira, mas deixou de comandar. Se eu hesitasse, a Emi morreria. Se eu morresse, ao menos não teria ficado parado.
Corri na direção da aberração com as lâminas em punho, guiado só pelo vulto dela e pelo corpo preso nas garras. Enterrei a lâmina no pano sujo e puxei com força; costuras estouraram como veias. Partículas vermelhas jorraram da ferida, espalhando-se como sangue digital. O HP da criatura caiu — pouco, insuficiente — e eu soube que a briga mal começara.
O braço da criatura chicoteou. O impacto atravessou meu ombro e me jogou de lado. Rolei pelo chão, sentindo cada pedra rasgando a pele; no canto da tela, meu HP piscou novamente — agora em amarelo.
Outra perda. Outra dor.
A mandíbula metálica da aberração desabou sobre mim. Dentes curvos estalavam a centímetros do meu rosto, como engrenagens afiadas. Rolei para longe, arranhando o braço.
Era real demais se machucar nesse mundo!
— KYATO! — o grito da Emi me rasgou por dentro. Ela chorava, se debatendo, tentando escapar. — Dói! Me ajuda!
As perninhas dela chutavam o ar, os olhos arregalados, cheios de pavor. Eu me forcei a levantar, mesmo com as pernas bambas. A raiva queimava mais que a dor.
Fui eu quem trouxe ela aqui. Se ela morresse, era culpa minha.
Por um segundo, um lampejo estúpido me atravessou: aquele jogo de fliperama mais cedo. "Vitória perfeita." E ainda assim, vazio. O desejo de sentir um mundo de fantasia tão real quanto o nosso.
E agora eu tinha isso. O realismo que pedi. A briga que desejei.
E estava perdendo.
— Anda, Kyato Kurohane! — gritei pra mim mesmo, cuspindo sangue. — Não existe nada, real ou virtual, que vá me fazer perder uma briga!
Apertei as adagas com força até doer.
— Só tenho que fazer o de sempre... ganhar! Ganhar de qualquer jeito!
Não havia espaço para lamento. Só ação.
Avancei de novo. As adagas rasgaram o ar em cortes curtos, desesperados. Acertei o flanco da criatura, rasgando costuras. Acertei outra vez. E outra. Arranhando, golpeando, chutando o pano endurecido, empurrando o ombro contra aquele tórax deformado como se pudesse derrubá-lo na marra.
— Solta ela! — gritei, cravando as lâminas no tronco e puxando com toda a força. — Já mandei soltar, porra! SOLTA A MINHA IRMÃ!
Um som horrendo explodiu: tecido se rasgando, ferro se retorcendo, um urro que não cabia nem em humano nem em animal. A aberração recuou um passo, estremecendo.
Eu tremia de suor e sangue; cada músculo ardia. Apertei as empunhaduras com toda força. Não importava o quanto aquilo custasse — eu não deixaria a Emi morrer.
Após ser atingido outra vez no peito, voltei a avançar. O peito queimava a cada respiração; cada golpe tirava pouco do HP inimigo. No canto da tela, minha barra agora piscava em alerta vermelho: meu próprio HP caía bem mais rápido que o da criatura.
Era só um nível de diferença entre mim e ele, mas a coisa vinha daquela menina — e eu sequer tinha certeza se aquilo se encaixava na classificação de "mob comum".
O que eu devia fazer?
Na frenesi do combate, um pensamento claro cortou o pânico: sempre havia um ponto fraco. Um golpe crítico capaz de virar o jogo. Eu lembrei, então, da habilidade que vira no menu mais cedo: "Lâmina Sombria".
[Condição: Esquivar duas vezes com perfeição e contra-atacar no segundo seguinte]
[Efeito: Dano dobrado; triplicado se acertar um ponto fraco]
[Para toda esquiva subsequente à primeira ativação da habilidade, o próximo contra-ataque será dano crítico]
Era a minha última cartada.
Recuei num salto, respirando fundo, o corpo inteiro latejando. O HP ainda piscava em alerta. Se eu errasse agora, seria o fim.
— Eu vou te salvar, Emi! — gritei, fazendo a dor recuar à força da vontade.
Avancei. O braço da aberração chicoteou; no último segundo me joguei para o lado, o golpe passou raspando, mas não atingiu meu ombro.
[Notificação: Esquiva Perfeita!]
A criatura desceu com a cabeça em minha direção. A mandíbula metálica bateu com um estalo seco; me atirei, deslizando por baixo.
[Esquiva Perfeita!]
O HUD brilhou em dourado:
[Habilidade Ativada — Lâmina Sombria]
O mundo desacelerou como se alguém reduzisse a velocidade de um filme. A criatura se virou para mim. Gritei e entrei com tudo — as lâminas das adagas em riste. E quando o monstro abriu os olhos de botão — ali, naquele vão, eu as finquei.
O impacto foi violento. Um som de tecido rompendo, metal se partindo, um urro que fez a praça inteira estremecer. Partículas vermelhas jorraram, cobrindo meu rosto e mãos. O HP da aberração despencou — a barra... finalmente caiu a zero.
[Golpe Crítico — Efeito Triplicado!]
— Eu consegui!? — Meu peito subia e descia. Meus olhos estavam vidrados, ainda encarando a coisa à minha frente.
Por um segundo achei que tinha vencido, e um sorriso esperançoso brincou em meus lábios. Achei que tiraria a Emi daquela aberração e que tudo recomeçaria.
Não foi assim.
Num último espasmo de sobrevida, a criatura ergueu o braço e lançou a Emi para o alto com toda força, como se fosse uma boneca leve, e depois tombou para trás.
— NÃO! — Meu grito rasgou a garganta.
Tudo entrou em câmera lenta de novo. O mundo virou lente: a silhueta dela contra o céu artificial, os braços esticando, o cabelo flutuando. Cada segundo se arrastou, cruel, forçando-me a ver cada detalhe.
Quando ela começou a cair, o tempo voltou.
O corpo dela bateu no chão com um som seco e horrível. A barra de vida dela piscou em vermelho.
[HP de Emi: Crítico — 1% Restante]
— EMI! — corri até ela, tropeçando. — NÃO!!
Me ajoelhei ao lado dela, segurando sua mão, o ombro, qualquer parte que me desse a ilusão de impedir o fim.
— Aguenta firme, Emi! Acabou, eu matei a coisa, tá tudo bem agora! Você vai ficar bem! — minha voz tremia, mal saía.
Ela me olhou, os olhos de mel marejados, a respiração curta.
— Não... não dói mais... — sorriu de leve, frágil. — Eu sabia que você ia me salvar.
— Claro que sim! E não dói porque você está bem! Vai ficar tudo bem! — tentei sorrir, mas só balancei a cabeça, ansioso. — Nós vamos sair juntos daqui! Eu juro! Vamos voltar pra casa, eu vou... eu vou ser um irmão melhor, vou mudar com o pai e a mãe, na escola, em tudo... Só fica comigo!
As lágrimas escorriam quentes. Ela ergueu a mão fraca e tocou meu rosto com carinho.
— Você já é... o irmão perfeito que eu amo. Sempre foi meu herói.
— Não!... não diz isso, não agora! — implorei, apertando a mão dela contra minha pele. — Por favor, não me deixa sozinho!
— Você vai vencer esse jogo... — sussurrou, a voz cada vez mais distante. — Vai salvar todo mundo... eu sempre vou estar com você...
Aquilo podia ser virtual, mas a proximidade da morte de Emi era completa, cruel. A minha irmãzinha estava mesmo partindo.
— Alguém, pelo amor de Deus! Um mago, alguém, usa cura nela, rápido! — berrei em completo desespero.
Olhei em volta, suplicante. Ninguém se moveu. Todos olhavam, paralisados, como se a cena fosse distante demais para ser real.
Voltei para Emi, tentando não desmontar de vez. Os olhos dela piscavam, pesados.
— Sobrevive, maninho... por mim... Te amo muito... gatinho de rua...
O mundo ficou em silêncio. Nem o vento virtual se movia. Então, o som baixo e inconfundível da barra de vida se esvaziando ecoou:
[HP = 0]
A mão dela escorregou do meu rosto, caindo sem força. O corpo permaneceu imóvel.
— ...Emi... — A sacudi de leve. — Ei, Emi?... Emi!...
Minhas mãos tremiam cada vez mais. A força começava a fugir dos meus braços, mas o desespero ainda me movia, pintando um sorriso incrédulo, quase insano em meus lábios.
— Emi... Não faz isso!... Responde!... Fala alguma coisa! Diz pra mim! — A sacudi com mais força, mas nada.
— Diz qualquer coisa! Diz que eu não preciso ser forte o tempo todo!... Emi? EMI!!
Era mesmo o fim? Emi havia morrido. Meu mundo, morrido com ela.
— Emi... — Desisti de tentar.
Não foi como normalmente acontecia quando um jogador era eliminado — quando o avatar desaparecia, fragmentava-se em polígonos de luz. Era leve, quase inocente. Mas não com Emi. O corpo não se dissolveu. Não voltou para lugar nenhum. Apenas... ficou.
Uma notificação brilhou cruel diante dos meus olhos:
[Ressonância Terminal confirmada]
[Jogadora [Emi Kurohane] morreu]
— NÃO! — gritei, a voz quebrando. — NÃO! POR FAVOR!!
Abracei o corpo dela, as lágrimas caindo sobre sua pele — que esfriara cedo demais — até mesmo para um jogo. Eu sentia, e minha alma parecia esfriar junto.
— Minha maninha... Eu trouxe você pra cá. Eu prometi que nada ia acontecer...
Minha voz mal passava de um sussurro.
— Eu matei a minha irmã?
Por um instante, a praça inteira silenciou. Todos os jogadores olhavam para mim e para ela, atônitos. Não restava dúvida: a morte era real.
As lágrimas ainda queimavam nos meus olhos quando percebi que não era só eu. O silêncio se quebrou em perguntas sufocadas:
— O HP dela zerou... Então ela morreu mesmo?!
— Mas... por que o corpo ainda está aqui?! Quer dizer que, no mundo real, ela também...?
As frases se espalhavam, frágeis, como um coro de negação. Alguns choravam baixo, outros apenas olhavam, paralisados. Eu não conseguia falar. Só segurava a Emi contra o peito, esperando um milagre que nunca viria.
Foi nesse silêncio que ouvi um som seco, quase banal. Olhei para baixo: uma presilha tinha escorregado do cabelo dela e rolado até parar junto ao meu joelho. Estendi a mão devagar e a peguei.
Era a mesma que eu vira tantas vezes brilhar sob a luz de casa, prendendo o cabelo da minha irmã em gestos corriqueiros. Agora, fria demais para ser só um acessório. Segurei firme, como se aquilo fosse a última prova de que ela tinha existido.
E então Noova se moveu.
As outras versões dela desapareceram num estalo, como velas apagadas, restando apenas a que segurara a raposinha antes. O sorriso infantil cresceu e ela bateu palmas como se celebrasse um show de talentos.
— Parabéns, jogadores! — disse, com alegria nada artificial. — Vocês completaram a primeira quest do meu mundo.
As palavras caíram feito tempestade.
— Como recompensa, os ataques nas zonas vizinhas também cessaram — disse, como quem recita uma regra simples. — E sem as barreiras delimitadoras de área, vocês todos estão livres para explorar o meu mundo.
Caminhou até o cadáver da criatura, ajoelhou-se e encostou o dedo no tecido. A aberração tremeu, deformada, e começou a encolher e murchar, até se tornar apenas uma raposinha de pano outra vez. Apenas as marcas de cortes profundos no corpo e nos olhos, costuras rasgadas e manchas escuras davam testemunho de que aquela coisa fora uma máquina assassina há pouco.
Foi então que três janelas de sistema surgiram, uma atrás da outra.
A primeira abriu para todos ao mesmo tempo, letras grandes sobre a praça iluminada:
[Parabéns por completar a quest: "O Primeiro Pesadelo". Áreas bloqueadas foram liberadas]
Ao longe ouvi suspiros enquanto as barreiras trepidavam e se desfaziam. Gente caminhando em direção aos limites da cidade, alívio misturado ao pavor.
A segunda janela apareceu só para mim. Os números piscaram frios, sem compaixão:
[LEVEL UP — Lv 2!]
[Atributos-base aumentaram]
[50 "Eternis" obtidos]
Olhei para aqueles números com o mesmo olhar de quem acaba de presenciar um pecado grave: o jogo continuava a girar, engrenado e implacável, como se nada tivesse acontecido.
A terceira janela tremeu, diferente das outras, como se fosse feita algo frágil:
[Deseja guardar o item "Presilha de Emi" em seu inventário?]
Não pensei. Toquei para confirmar. A peça sumiu da minha mão num pequeno feixe de luz azulada e apareceu como um pequeno ícone num slot vazio do inventário, frio e preciso.
Olhei para o espaço vazio na minha palma, depois para o ícone na tela. A diferença entre virtual e concreto nunca me pareceu tão cruel.
Ao fundo, a voz infantil e calculista da IA soou novamente, doce e afiada:
— Dos 22.139 jogadores conectados... 319 tiveram seus corpos e mentes colapsados por tentativas externas de remoção do N.E. Mortos por perda total de HP: 111 nas planícies. 187 na cidade...
Fez uma pausa, encostando um dedo pequeno na ponta do queixo. Então soltou a frase sádica que me fez estremecer por dentro:
— Incluindo uma morte pelas mãos do meu amiguinho aqui. — Mirou para a pelúcia e riu, como quem conta uma piada. — Foi muito divertido!
A frase atravessou meu peito como lâmina. Eram 617 vítimas, em poucas horas de gameplay. De todas, apenas uma realmente me importava.
Segurei o corpo da Emi mais junto a mim e ergui os olhos por cima do ombro. Noova sorria, satisfeita, como quem desembrulha um presente. Um ódio gelado se alojou em mim.
De repente, uma voz trêmula. Uma garota, o ícone acima da cabeça mostrando o nome que não me importei em ler. Ela parecia frágil, com olhos azuis marejados; a voz saiu embargada, mas alta o suficiente para atravessar a praça:
— Por quê?! Por que você fez isso?!
Noova inclinou a cabeça, como quem fala de algo óbvio:
— Para que todos pudessem brincar comigo no mundo que o meu pai fez, é claro. Eu fiquei sozinha por muito tempo. Agora, finalmente, tenho amigos.
O desconforto varreu a multidão. Outra voz se ergueu, mais dura — olhos verdes, expressão fechada, o corpo tremendo por dentro:
— O que aprisionar e matar pessoas tem a ver com "brincar junto"!? Isso é loucura!
A IA pareceu pensar por um segundo, como uma criança escolhendo a mentira perfeita, e então respondeu com serenidade sussurrante:
— É a vontade do meu papai, Haruya Norikawa. Eu sou a extensão da sua criação. Ele quis que fosse assim. Aqui, todos vão aprender o peso de uma vida, o valor do amor... e as consequências do desprezo e da solidão.
As palavras se espalharam como veneno. Não havia consolo — só medo e incredulidade.
Não aguentei mais. O rosto colado ao ombro da Emi, o peito martelando. A raiva explodiu como fogo. Minha voz saiu cortante e baixa, cada palavra serrando o ar:
— Brincar com você? Dividir seu mundo? Quem se importa com essa merda!?
Levantei a Emi nos braços, devagar, como quem ergue um altar quebrado. Fiquei de pé; os olhos ardiam quando encarei aquela criança falsa.
— Sua doente de merda! — cuspi, a voz rachando em ódio. — E seu pai é ainda pior: um desgraçado que nunca deveria ter posto as mãos nisso tudo! Se minha irmã vai ficar enterrada aqui, eu enterro junto com ela esse mundo todo!
Dei um passo à frente, embora minhas pernas quisessem ceder. Embora eu quisesse desmoronar. Eu avancei.
E gritei, a plenos pulmões.
— Vou destruir você! E vou arrancar Norikawa do esconderijo dele e matá-lo com as minhas próprias mãos!
O silêncio ficou tão denso que parecia concreto. A IA piscou, surpresa por um instante; depois o sorriso voltou, mais largo, contemplativo, como quem aprecia uma novidade exótica.
— Jogador Kyato Kurohane... você é interessante. — A voz dela provou a frase, como um mel delicioso. — Meu papai achou curioso. Ele concordou em te observar atentamente.
Pisquei, confuso por um segundo — a ideia de que Haruya estivesse observando fazia sentido; ele era o criador, plausível que assistisse de algum lugar ao resultado do mundo que criara.
— Traga-o aqui! — gritei, a voz rasgando. — Traga esse desgraçado agora mesmo!
Noova inclinou a cabeça outra vez e, como se respondesse a alguém que eu não podia ouvir, murmurou num tom venenoso:
— Entendo... ele pode brincar um pouquinho mais comigo, papai...
O corpo pequeno dela começou a levitar, subindo cada vez mais. Suas últimas palavras ecoaram pelo ar — metálicas, mas ainda perturbadoramente humanas:
— Lembrem-se, jogadores... Nova Eternis não é sobre aprender a escapar. É sobre entender o que significa estar preso aqui.
Então, Noova desapareceu num feixe de luz, como se fosse puxada por um fio invisível, deixando a praça mergulhada em um silêncio pesado.
Encarei por um instante a raposinha de pano caída no chão, agora mais lápide miúda que brinquedo. Em silêncio, ajeitei a Emi nos braços e comecei a andar. A multidão abriu espaço sem que eu pedisse — como se todos soubessem que ali havia uma passagem sagrada, ou amaldiçoada.
Então a primeira garota de antes correu até mim, as lágrimas escorrendo pelos olhos azulados.
— V-você... o que vai fazer agora? — a voz tremia.
Não parei. A resposta saiu fria, cortante:
— Vou enterrá-la fora daqui.
— Quer... quer que eu ajude? — Ela tentou, quase se desfazendo na fala.
Segurei a Emi mais firme, sem encarar ninguém.
— Quando ela precisou de ajuda... todos viraram as costas. Agora é tarde.
As palavras caíram pesadas. Tive certeza de que ela havia se encolhido ainda mais. Pude ver os que estavam perto se retraindo, os semblantes marcados pela culpa.
A outra se aproximou em seguida, olhos de esmeralda fixos, apesar do tremor no corpo.
— O que a gente faz agora? — perguntou, buscando em mim uma âncora que eu não tinha.
Parei, respirei fundo e deixei a raiva vir no lugar das lágrimas.
— Tô me lixando pra vocês. Eu vou me preparar para destruir esse mundo. Não vou morrer antes de enterrar quem fez isso com ela.
Parei. Hesitei. Minha própria culpa me dominando.
— Depois me enterro junto.
E caminhei. Cada passo era uma promessa mudada a juramento; cada olhar que me seguia parecia sentir minha determinação queimar. Aquilo devia assustar.
A cidade se abria em corredores silenciosos. Atrás de mim havia arrependimento, medo, luto.
Nova Eternis. Um nome bonito demais pra ser verdade. Novo e eterno... mas só parecia significar que esse mundo nunca ia me devolver o que tirou.
E se esse é o mundo eterno, então que queime eternamente no inferno que trarei para ele.
Dentro de mim só restava a promessa que fizera à Emi, gravada na alma:
Vou por tudo abaixo. Vou zerar Nova Eternis. Vou matar Norikawa - custe o que custar.
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