Nova Era

1 Capítulo 1


Raras e esparsas memórias. Pequenos flashes. Imagens ininteligíveis. Após tantos séculos de escuridão (foram mesmo séculos? Parecem apenas segundos), a cor parece tão forte e agressiva. Não consigo ver nada. Vozes tão distantes... Não consigo entendê-las. Parecem tão altas. Meu corpo... Meu corpo pesa tanto. Não consigo sustenta-lo. Meus pulmões queimam com o oxigênio e têm dificuldades para se expandir. Não sei inspirar direito. O tempo está passando tão rápido. E tão lentamente.

Árvores enormes ao fundo. Gigantes me encarando e conversando, todos assustados. Um deles ordena algo em uma língua desconhecida, um movimento ao meu lado – tudo desaparece. Tudo fica escuro. Não mais enxergo. Não mais escuto, ou respiro.

O tempo passa. Gritos me alcançam, passos invadem minha audição com brutalidade desesperada, luz intensa repentina, uma garota assustada, “apenas você pode nos ajudar... Por favor...”, centenas de corpos surgem em minha visão e evaporam instantaneamente. A escuridão volta. O silêncio volta. A letargia volta.

Luz. Vozes preocupadas. Mãos suaves percorrem meu corpo. Sussurros acalentadores e promessas de melhoras. Sou levado para um palácio. Tudo lá é colorido. Risos e brincadeiras, artes e diversão, enormes banquetes. Fico finalmente acordado. Gosto de lá. Um sorriso especial. Uma promessa verdadeira. Mãos quentes. Pele macia. Uma grande festa. Explosões. Gritos. Correria. Exigências. Lutas, muitas lutas. Fim. Estou no mesmo palácio de antes. Gigantes me encaram e conversam, parecem assustados. Estou confuso. Orgulhoso, receoso. Traído. Um discurso. Vaias e vivas. Um grito desesperado. Um pedido de desculpas. E então...

Breu absoluto. Silêncio. Não sinto nada além de meu corpo. Não respiro. Pensar se torna cada vez mais difícil. As memórias se esvaem. Os olhos se fecham. Não consigo mais abri-los. Os pulmões atrofiam. Os ouvidos não funcionam. Quanto tempo? Muito tempo.

Desisto. Decido dormir. Esperar. Tento me acomodar, mas percebo que não sinto meu corpo. Sorriria, mas meus lábios não se movem. Tudo está tão calmo. Como deveria ser. Dormir, esperar. Esperar não acordar mais. Desistir... Não! Desistir não! Promessas se remexem em minha mente, luto contra a letargia, me ergo, inspiro fundo. Luto contra o escuro. Luto contra o silêncio. Prometi nunca desistir. Por séculos e mais séculos continuo lutando.

Escuro... Está tão escuro... Há tanto tempo... Tanto, tanto tempo... Está tudo tão silencioso... Estou leve. Não respiro. Não sinto nada, além de meu corpo. Há tanto, tanto tempo... Tão escuro... Promessas... Que promessas? Não importam. Tudo está calmo. Como deveria ser. Tudo está confortável. Posso dormir. Sim. Dormir por todo o tempo...

A eternidade veio e se foi. Mesmo dormindo, me mantenho consciente. Sinto o tempo passando ao meu redor. Estou preso em uma bolha, onde o tempo não existe. Eternamente congelado. Atemporal. Por toda a eternidade, justamente por a eternidade não existir. Fora do universo. Fora da existência.

Vozes ao longe. Me chamando. Me procurando. Tentando me encontrar. Sinto que devo responder, mas falar é tão trabalhoso. E aqui está tão confortável. Mesmo assim, faço um esforço. A boca não se abre. O vento não carrega minhas palavras. Vento? O que é isso? Isso é de antes... Antes do fim do tempo. As vozes desistem. Vão embora. Volto a dormir.

“Hyllus! Hyllus, pode me ouvir? Não tenho muito tempo. Preste atenção: os mesmos monstros que lhe prenderam estão atrás de mim. Eles finalmente conseguiram invadir nosso território. Todos estão exaustos, não conseguimos mais lutar. Seremos derrotados em breve. O último recurso será usado em você. Lhe tiraremos daí, eu prometo. Desculpe, não poderei te ajudar além disso. Mas você vai ficar bem, sempre foi o mais forte da família. Por favor, não deixe-os vencer...”

Eternidades se passam. Segundos nunca acabam. As figuras começam a tomar formas. As cores se distinguem. Movo um pouco meus dedos. As palavras não me incomodam mais. O ar não mais parece querer me rasgar. Mas o tempo... O tempo ainda não me quer. O tempo ainda me rejeita.

Eu... Eu não existo mais? Isso é uma punição? Acabará? Serei libertado? Estou realmente preso? Isso não é uma proteção? Posso me mover? Quero me mover? Estou respirando? Preciso respirar? Estou vivo? Sou vivo? O que é vida? O tempo... Por que o tempo é tão importante?

Uma explosão de cores, sons, cheiros e sensações invadem meu corpo. Caio no chão, com o rosto na terra, sentindo a grama passar por todo o meu corpo. Tento me levantar e um espasmo extremamente violento atinge meu corpo. Respiro fundo, sentindo uma mistura imensurável de fragrâncias invadirem meu cérebro e percorrerem meu corpo. Nuvens, luzes, sombras e cores penetram minhas pálpebras fechadas – são tantas, tantas. Os sons: muito mais do que jamais achei possível, me inebriam e confundem, mas gosto tanto deles. Eu estava letárgico, mas agora acordei.

Gritos. Vozes de pessoas. Vozes reais, após tanto tempo. Livre. Eu finalmente estava livre. Começo a chorar de felicidade, soluçando e gritando, sentindo as lágrimas salgadas entrarem em minha boca, sentindo gostos novamente. Sombras se projetam sobre mim. Sinto seus olhares sobre meu corpo. Sussurros. Preocupação. Tudo igual. Tudo de novo. O medo se abate sobre meu coração como uma lâmina fria. Eles iriam me prender de novo. Mas eu não deixaria! Nunca!

Notas finais
O capítulo foi dividido em dois pedaços, por isso o final abrupto. Dependendo da recepção desse capítulo, posto/escrevo o resto. Comentem, sim?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.