Nothing is a before
4 O começo de um longo pensamento,uma revelação e um abraço amigo.
Notas iniciais
Ainda não era nem meio dia,e eu já havia atualizado a ficha de todas as crianças,e percebi que poderia salvar muitas delas.
2011
—Violetta,você tem certeza disso?—Minha mãe me perguntava,com certa tristeza no olhar.
—Tenho mãe,tenho total certeza do que eu estou fazendo.—Afirmo a ela pela oitava vez.
—Violetta,você tem apenas 20 anos,e já sofreu uma dolorosa perda,e agora esta me dizendo que vai se especializar em oncologia pediátrica?
—MÃE!Não me lembre do passado,por favor.
—Violetta,presta atenção,você escolheu fazer medicina,ótimo.Depois escolheu a área da oncologia,cuidar de uma doença que não tem cura.E agora quer me dizer,que vai tentar curar crianças com uma doença incurável? É isso?
—Sim,é exatamente isso,quem decide meu destino sou eu!
—Nem sempre você irá escolher,mortes acontecem e quando uma criança morrer em seus braços,não adianta chorar.—Minha mãe falava com uma convicção surpreendente.
—Eu não gosto de crianças,não vou chorar.
—Então deixe que alguém que ame crianças,faça isso.
—Alguém tem que fazer,e esse alguém serei eu.
—Depois não diga que eu não lhe avisei,minha filha.
2015
Será que minha mãe tinha razão,será que irei chorar?Busquei espantar esses pensamentos,e voltei meus olhos ao computador em minha frente,até ter minha atenção desviada por um pigarro.
—Posso entrar,Doutora?—Era León,ele não trajava mais seu jaleco,estava com uma malha bege parecida com a da noite anterior e uma caça bordô,e um all star surrado nos pés,com suas madeixas levemente bagunçadas.
—Claro!—Ele entrou e sentou-se a minha frente.
—Nossa,quanto trabalho,quantas fichas,seu chefe deve ser um pé no saco!—León disse,olhando para a minha mesa,mas ele falou em um tom de brincadeira,afinal,meu chefe era ele.
—Você nem imagina,desde que eu entrei não tive tempo nem de pensar.—Falei entrando na brincadeira.
—Posso te demitir ainda.
—Desculpe—Disse devolvendo o tom brincalhão.
—Vim aqui,pra te chamar para almoçar!Em um restaurante em uma galeria aqui do lado.
—Será que meu chefe me dá essa liberdade?
—Acho que sim.
—Então,vamos!
Retirei meu jaleco,o colocando nas costas de minha cadeira ,colocando meu blazer e pegando minha bolsa,seguindo do lado de León.
—Deu certo,o pedido da tomografia?
—Deu sim.Amanhã cedo iremos fazer.
—Lucia,é uma garota bem carinhosa.
—Eu percebi isso,mas eu sinto pena.
—Não sinta,Violetta.—Ele afagou meu braço.—Passe toda sua confiança a ela.
Assim que o elevador parou descemos e seguimos para a galeria ao lado do hospital,e entramos em um restaurante chamado "Cocina De Madrid".Sentamos em uma mesa para dois,em um canto afastado,das demais pessoas,e começamos a conversar logo após fazermos o pedido.
—Hoje eu pago,a minha comida!—Afirmei a León.
—Tudo bem,senhorita mandona!Mas então,desde o começo escolheu fazer oncologia e pediátrica?
—Não—Afirmei recordando.—No começo de tudo eu iria fazer neurologia e neurocirurgia.Mas com dezenove anos isso mudou.
2009
Finalmente havia chegado o dia,Alex e eu estávamos muito ansiosos,nosso futuro estava começando.Eu possuía dezoito anos,e ele vinte,uma pequena diferença de idade.
Chegamos ao hospital e o médico já estava a nossa espera.
—Bom dia senhorita Castillo,já esta tudo pronto para o nascimento desse garotão!A sala de cirurgia já esta pronta.O paizão vai entra junto?
—Não,sou fraco pra essas coisas,vou ficar esperando aqui fora,meu amor—Alex me deu um leve selinho e me despedi dele.
Eu e Alex namorávamos há quatro anos,ele havia sido o único em minha vida,e há nove meses,eu havia engravidado,claro que foi difícil para meus pais aceitar,mas no final tudo ocorreu bem,eles também estavam no hospital,eu só não os havia visto ainda.
Segui o médico que me levou até uma sala de cirurgia,me dando uma anestesia que me apagou,a meu pedido,a última coisa que eu vi foi o médico preparando seus objetos.
Acordei depois em um quarto,olhei para o lado e em um sofá estavam todos presentes que eram de Lucas,meu filho.Passei a mão em meu ventre e o senti vazio.Virei meu rosto me deparando com Angie,minha mãe com uma cara de poucos amigos.
—Mãe,sei que você não aprovou isso,mas fique feliz. É seu neto.
—Vilu....—Minha mãe calou-se e se dirigiu para fora do quarto,voltando segundos depois com o meu médico.
—Doutor,eu já posso ver meu filho?
—Não Violetta.Seu filho nasceu morto,sinto muito.
—O que?—eu já estava em prantos,não era possível.—Como?—Disse em um tom quase inaudível.
—Quando retiramos seu filho,ele já estava morto,fizemos uma análise e descobrimos que você passou câncer para seu filho.
—Eu tenho câncer?
—Tinha,no útero,mas já o retiramos,e sinto lhe informar ,mas o melhor é você não ter mais filhos,nada te impede,mas é melhor não.
—Cadê o Alex?—Lágrimas eram inevitáveis neste ponto.
—Ele foi embora.—Minha mãe se proclamou.
—PRA ONDE?
—Austrália.
—Violetta,se você quiser ver seu filho pode vir,vou lhe ajudar a sentar na cadeira de rodas.—O doutor me colocou sentada,e começou a me levar pelos corredores até uma sala,onde em um bercinho havia o meu Lucas.Me levantei e o peguei em meu colo,ele era a cópia fiel de Alex,aquele cretino que não podia ter me abandonado,não tinha por que.Mas ele levou todo meu amor junto com ele.
A criança em meus braços,estava gélida e dura.Era para ser meu filho ali,choramingando em meus braços.
2015
—Violetta,tá tudo bem?—León me acordou de meus devaneios.Percebi que algumas lágrimas haviam escorrido,eu as limpei rapidamente,e fitei León.
—Sei que não te conheço muito bem,mas posso desabafar com você?
—Claro que sim.
—León,eu escolhi oncologia e pediátrica pois com dezoito anos engravidei,e a criança nasceu morta,por que eu tinha passado câncer pra ela.E o pai,sumiu.Logo depois do nascimento.E hoje eu não gosto de crianças pois elas me lembram meu filho e meu filho me lembra o idiota do pai dele.—León parecia incrédulo,com minhas palavras,ele se levantou parando do meu lado,pegando minha mão e me levantando para um abraço caloroso.
—Desculpa Violetta,eu não sabia,não devia ter te perguntando,com certeza o pai de seu filho foi covarde e cafajeste.—León afagava meus cabelos enquanto eu molhava sua camisa toda.
—León,meus amigos me chamam de Vilu.
—Tudo bem,Vilu.
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