Nothing Left To Say
3 Cap. 3 - Count On Me
Notas iniciais
1:55 PM
— Thalia, pare o carro! — gritou Percy desesperado, segurando o corpo imóvel de Annabeth nos braços.
Não, pensava. Não, por favor, não. Não por uma terceira vez. Estava cansado de carregar Annabeth, de vê-la desacorda, de causar a maioria daqueles desmaios. Não, por favor. Annabeth havia utanto tempo, ela não poderia simplesmente cair morta no banco de trás do Cadilla.
— Não podemos! — exclamou Thalia, arriscando um olhar à Percy e Annabeth. — Estamos entrando no meio do parque florestal! Pode haver walkers por aqui!
— Da mesma forma que pode haver médicos ou alguém para ajudá-la! — Percy gritou desvairadamente. — PARE O CARRO, PORRA!
Thalia pareceu notar que seria inútil discutir com aquele Percy. Engoliu em seco, olhando para Nico, que permanecia quieto em seu canto. Ela encostou o carro no acostamento da estrada, um tanto irritada.
Percy não esperou que o Cadillac parasse por completo: desceu desesperado com Annabeth em seu colo, sem se importar em olhar ao redor ou com a segurança deles. Ele encostou o corpo pequeno de Annabeth no asfalto e admirou por poucos segundos a expressão de pura dor que havia no rosto dela.
Não, ele não deixaria Annabeth morrer. Percy tinha retirado ela do hospital para pudesse ter uma chance de viver, um novo recomeço, talvez até com ele. Não poderia deixar Annabeth morrer, simplesmente não podia. A garota fazia parte de seu passado, presente e futuro, não iria deixar nada acontecer com ela, jamais.
Controlando seus nervos, Percy correu ao porta-malas do carro e pegou a mala lotada de remédios e seringas que roubara do hospital. Queria ajudar Annabeth, mas sua respiração parou ao perceber que não tinha ideia do que ela estava sentindo.
— Concentre-se — murmurou para si ao agachar-se novamente ao lado de Annabeth, desviando o olhar do rosto pequeno e sofrido, e procurando algo na bolsa de remédios que ele sequer sabia o que era. — Vamos, concentre-se.
Annabeth estivera em coma por quatro meses. Quatro longos meses. Por causa do dia em que inventara de pendurar os pôsteres para a campanha de Thalia à presidência do grêmio estudantil... Percy sacudiu a cabeça, já com metade das caixas de remédios fora da bolsa. O que ele estava procurando, exatamente? O que ele queria?
A queda! A maldita queda de Annabeth por quase dez metros de altura causada por uma bola jogada sem rumo por um jogador idiota no campo de futebol! Annabeth quebrara uma das pernas, fraturara algumas costelas e quase tivera uma hemorragia interna. E o coma. Ela entrara em coma por causa do pôster de Thalia.
Ele voltou a buscar dentro da bolsa, agora com um objetivo. Apenas esperava que o que tivera arranjado ali pudesse ser o suficiente para que Annabeth acordasse, e para que pelo menos pudesse cuidar dela até que tudo estivesse bem.
— Annie, aguente aí, por favor! — ele disse à garota desacordada. Percy conseguira encontrar um analgésico e já o inseria dentro de uma das seringas. Sabia que deveria ter alguma coisa para esterilizar o braço de Annabeth antes da agulhada, mas não havia tempo. Perdera minutos preciosos apenas tentando descobrir o que ela tinha.
Percy ouviu Thalia exprimir um som que para ele significava nojo ou medo, mas não se importou. Ele respirou fundo e aplicou o medicamento na veia que ele magicamente achara no braço de Annabeth com as mãos tremendo.
Não veio nenhuma reação por parte da garota desmaiada. Percy passou a língua pelos lábios, se rendendo às lágrimas. Era cedo para um movimento, porém mais um minuto vendo Annabeth daquela maneira era tortura, a pior desde que ela entrara em coma. Ele não tinha certeza se Annabeth acordaria outra vez, se ela se lembraria de tudo que eles tinham passado durante o último verão, não sabia de nada que poderia acontecer com Annabeth. Quando acordasse, sequer poderia ser a Annabeth que amava.
Então, muito lentamente, a expressão de Annabeth suavizou. Percy, que permanecia observando seu rosto com as lágrimas rolando por suas bochechas interminavelmente, arqueou a sobrancelha para a melhora da garota, tentando não ficar exatamente animado em relação a isso. Annabeth poderia ter diminuído a dor do lado de fora, no entanto ele não sabia o que estava acontecendo por dentro dela.
Ele suspirou, se deixando cair ao lado de Annabeth. Só o tempo responderia se ela estaria bem ou não. E infelizmente, nenhum deles tinha o tempo que precisavam.
***
Flahsback On
4:45 PM
— Oi... Annie — Percy disse timidamente, sobressaltando a loira que sentava na varanda de casa. — Tudo bem?
— Percy... — Annabeth murmurou, franzindo a testa num jeito muito fofo que fez o outro suspirar. No entanto, Percy manteve a pose e sorriu convidativo. — Estou ótima. O que está fazendo aqui?
Percy tinha seus sentimentos confusos, porém tinha certeza de que algo havia mudado no seu jeito de olhar para a garota. Os olhos cinzentos de Annabeth não pareciam mais carregados de indignação e confiança cega; eram cheios de ternura e de uma gratidão que Percy sabia que jamais conseguiria pagar.
Percy gostava da sensação de poder ao ficar perto de Annabeth, de como sempre ela ficava tímida e contida, parecendo esperar algum acesso de loucura seu. Percy achava fofa a reação dela. Com ela, era medo ou amor irremediável. Annabeth conseguia incrivelmente permanecer entre um meio-termo.
— E-eu... — Ele torceu as mãos, nervoso. Tinha ensaiado aquilo tanto na frente do espelho do banheiro... Por que era tão difícil chegar perto de Annabeth e dizer que à amava? — Estava pensando se...
Annabeth lhe lançou um de seus olhares curiosos ao deitar a cabeça sobre o ombro. Tinha um meio sorriso no rosto, como se adivinhasse o que Percy estava fazendo na porta da sua casa durante um dos verões mais quentes da cidade quando sabia que o garototinha coisas muito melhores para fazer. Percy baixou os olhos e riu com seus próprios pés.
— Livros — disse Percy num suspiro só fazendo Annabeth soltar uma forte gargalhada. Ele olhou espantada para a garota, prontaopara ir embora e passar o resto do dia se xingando por ser tão idiota.
— Que gosto surpreendente é esse por livros? — questionou Annabeth ainda rindo. — Pensei que curtisse somente filmes sobre ficção científica e coisas mais bizarras que essas.
Percy fez uma cara ofendida. Poderia gostar de Annabeth, mas aquilo tudo acabaria num piscar de olhos se ela atacasse mais uma vez seu belo gosto para filmes, games e músicas.
— A feira de livros foi inspiradora — admitiu Percy, se sentindo meio bobo por continuar parado na varanda da casa de Annabeth sem fazer nenhum movimento além de balançar os braços nervosamente. — Não li nenhum livro, mas sei que quase todos têm uma adaptação no cinema, e você é a melhor no assunto...
Ele deixou a frase no ar. Annabeth compreendeu e assentiu. Sua expressão mudara, estava séria e compenetrada, e Percy pôde ver as pequenas engrenagens de seu cérebro lhe preparando uma lista enorme de filmes que poderia assistir até o próximo ano.
Annabeth acenou com a cabeça para o assento livre ao lado dela, e Percy logo se sentou. A dona da casa começou a falar e falar sobre os grandes livros e suas adaptações cinematográficas, porém Percy mal entendeu a maioria das frases. Estava ocupado demais com um sorriso tolo no rosto enquanto observava o quão adorável Annabeth Chase era.
Flashback Off
***
2:22 PM
Nico poderia dizer às outras pessoas que nenhuma das experiências daquele dia tinha sido doloridas. Poderia responder a Leo com um sorriso irônico se ele perguntasse sobre como tinha sido matar os walkers Quíron e Dioniso naquela estradinha assombrada, poderia até tranquilizá-los de que tudo era menos sofrível se eles vissem aquilo como apenas um ensaio de tudo que viria pela frente.
Como ele queria também se convencer disso.
Entretanto, de longe, nenhuma daquelas lembranças doía mais à mente de Nico do que ver Percy Jackson ajoelhado ao lado do corpo praticamente sem vida de Annabeth Chase. A inércia que acontecia ali era significantemente não tolerada por ele. Nico odiava ser obrigado a ver Percy naquele estado e não poder fazer nada para ajudar. Não era seu estilo ficar parado esperando.
— Nico, vem aqui.
O sussurro de Thalia lhe chamou a atenção, e Nico por fim pôde desviar os olhos da cena deprimente que seu amigo fazia parte. Thalia estava perto da mata que dava entrada ao parque florestal. O garoto levantou a sobrancelha para a namorada, se perguntando por que não notara que ela sumira por aparentemente muitos minutos.
— Thalia, o que foi? — indagou num murmúrio temeroso, pegando a mão de Thalia por impulso e olhando acima do ombro dela. — Onde você estava?!
— Dentro do parque. Escuta — ela disse, pois Nico ameaçou começar a gritar palavrões em italiano, apavorado. —, tem uma casa há mais ou menos um quilômetro daqui. Podemos pegar o carro e ir para lá, não vi ninguém ou nenhum zumbi por perto.
Nico ficou quieto e considerou a idéia. Seria temporário, é claro, tinham que se encontrar com Leo em algum lugar próximo a Nashville, mas por um ou dois dias até Annabeth se recuperar seria ótimo. E também poderiam esperar Grover ali mesmo. Ele duvidava que precisassem convencer Percy nessa, o garoto estava tão desolado e sem opções que concordaria numa boa.
— Beleza. Eu aviso ao Percy. Você pegue Annabeth e coloque-a no Cadillac. — Ele ficou encarando o rosto perfeito de Thalia por longos segundos até depositar um selinho fraco nos lábios dela. — Eu te amo.
Ele sabia que não precisava ficar se declarando a cada cinco segundos, mas o fim do mundo havia aberto seus olhos. Cada tempo que passava com Thalia era precioso demais para ser jogado fora.
Nico engoliu em seco e voltou para perto da porta de trás do carro. Percy continuava ali parada ao lado de Annabeth e então pôde notar que a face da garota desmaiada se aliviara um pouco. Percy conferia sua pulsação, suas lágrimas pingando involuntariamente no braço de Annabeth.
Ele fechou os olhos e tentou não chorar. Desabara em lágrimas demais por aquele dia. Assim como Percy se manteve forte algumas horas antes para ele, Nico tinha que se manter forte para o garoto. A questão era como, se jamais fora tão bom em esconder os sentimentos como o amigo. Era tudo sempre à flor da pele com ele.
— Pery... — Nico se aproximou sorrateiramente, colocando a mão esquerda no ombro do garoto numa demonstração de apoio que achou meio idiota. — Thalia achou uma casa dentro do parque. Cama, chuveiro quente, sem ninguém ou walkers por perto... N-nós... Nós deveríamos ir para lá. Até Annabeth melhorar, quem sabe.
A não demonstração de sentimentos por parte de Percy começava a perturbar Nico. Ele não poderia estar tão ruim por causa de uma garota, uma voz ficava dizendo em sua cabeça. Contudo, outra voz sempre rebatia, fazendo-a lembrar dos dias em que Thalia ficara seriamente doente e sua vida se tornara nada além de um espectro até que a outra ficasse bem novamente.
Sabia que a segunda voz estava correta. Percy amava Annabeth, ele tinha certeza daquilo desde sempre. Ver Thalia sofrer uma vez era ruim, mas para Percy... Ele tinha visto o amor da sua vida cair de uma altura de dez metros sem poder fazer nada, perdera toda a esperança no mundo enquanto a visitava, voltara a ter o mínimo do brilho no olhar que tinha antes durante as poucas horas que Annabeth estava com eles, e agora tudo voltava à estaca zero...
Nico, ao não ver nenhuma reação em Percy, ergueu ela pelos ombros, dando espaço para que Thalia pudesse carregar Annabeth de volta ao Cadillac. Nico sentou ao lado de Percy no banco da frente entre ele e Thalia, deixando Annabeth deitada atrás. Ela continuava sem se mexer.
— Thalia, por favor, nos leve a tal casa — pediu ele cansado.
***
7:43 PM
A casa que Thalia tinha mencionado era algo apropriado depois de ter passado horas na estrada e enfrentado walkers para todos os lados. Nico sentia-se destruído, deitar numa cama confortável após tanto tempo não era um crime, era?
Começava a escurecer quando ele pôde finalmente experimentar os lençóis aconchegantes deixados para trás e a água quente do banheiro. Ainda se preocupava com Percy e Annabeth — o primeiro permanecia estranhamente quieta enquanto continuava não vendo nenhum avanço da segunda —, mas estava garantido em relação a tudo àquilo. Alguma coisa lhe dizia que Annabeth acordaria mais tarde, que na verdade era apenas Thalia lhe dizendo com um sorriso confiante no rosto, e era muito fácil acreditar nela.
— Percy, nós tentamos fazer algo para comer — Nico disse ao entrar no quarto ao lado do seu, encontrando o amigo deitado de barriga para cima e olhos abertos encarando o teto. — Se você quiser, estamos na cozinha.
Percy fez um som estranho que ele presumiu que fosse um sim. O quarto tinha duas camas de solteiro, e Annabeth ocupava a outra. Nico não queria que Percy se sentisse solitário e até ofereceu para que Thalia colocasse a cama no quarto dele, mas o garoto recusou. Ele engoliu em seco e saiu do quarto, fechando a porta em seguida. Ao sair, pôde jurar ter ouvido um fungado alto.
— Nada ainda? — indagou Thalia ao ouvir os passos do garoto perto da cozinha. Ela largara sua jaqueta jeans num dos banquinhos onde Nico agora se sentava e usava um avental que encontrara em um armário.
Nico sorriu involuntariamente, sabendo que o momento não pedira sorrisos, no entanto ele não se continha. Ver Thalia na cozinha de avental, numa casa de verdade — não uma na cidade, onde aquele inferno todo acontecia — no meio do nada, num silêncio profundo à luz de alguns lampiões era (quase) tudo que ele sonhara. Num lugar como aquele, eles não poderiam ser julgados por nada.
— Não. — Ele suspirou ao responder, retomando o assunto sobre Percy e Annabeth. — Estou preocupado, Thalia. Quer dizer, se lembra de como Percy ficou ao ver ela no hospital? E se Annie tiver voltado ao...
— Ninguém volta ao estado de coma, Nico — falou Thalia séria, tirando sua atenção do fogão e olhando para o namorado. — É uma coisa óbvia, se você passou por isso, Deus não deixaria você passar outra vez.
— Por esses dias, ando duvidando muito que esse tal de Deus esteja sendo justo — murmurou Nico, sem que a outra ouvisse.
Eles ficaram em silêncio até o macarrão instantâneo que Thalia preparava — a única coisa que eles sabiam fazer sem que Percy lhes ensinasse — estivesse pronto. Thalia encontrara pratos e talheres de verdade durante a varredura pela casa e servia o macarrão neles.
Nico achava aquilo tudo estranho, mas não ousava comentar. Com Annabeth parecendo estar permanentemente desmaiada, Percy em estado vegetativo pelo que aparentava ser para sempre, ele não queria acrescentar mais um problema à enorme lista que tinham.
A verdade é que achar uma casa no meio de um parque florestal durante um apocalipse era suspeito. As pessoas que moravam ali — o guarda-florestal e sua família, provavelmente — não poderiam ter ido muito longe. Estavam longe da civilização, eles não tinham encontrado nenhuma televisão durante a inspeção, apenas um rádio velho que Nico tinha certeza que não funcionava há anos.
Os alimentos que haviam encontrado nos armários demorariam tempos para vencer, o que significava que havia, sim, gente morando ali. Nico queria manter as esperanças altas, mas a percepção de ir dormir para acordar com a arma de um guarda na sua cabeça durante a madrugada não era nada boa.
— Nico, você tem que parar com isso — reclamou Thalia após ter terminado seu macarrão e levar o prato a pia.
— O quê? — disse o garoto sobressaltado. Seu prato de comida estava praticamente intocado, tamanha sua preocupação com todos ao seu redor.
Thalia apenas riu.
— Isso — ela disse como se explicasse o óbvio. — Ficar muito preocupado com tudo. Nós vamos ficar bem, enfie isso nessa cabeça dura sua.
Nico considerou. Das previsões que Thalia tinha feito para ele, a maioria tinha saído como verdadeira. Ele queria acreditar naquela também. Deu um sorrisinho contido, olhando para seu prato. Apressou-se a comer, temendo que esfriasse logo.
— Thalia, nós perdemos muito por esses dias — Nico falou enquanto a namorada o observava apaixonadamente, com aquele olhar que nunca mudava apesar dos pesares. — Perdemos nossos pais, nossos irmãos e amigos...
— Sra. O'leary — sussurrou Thalia, triste.
—... Sra. O'leary — Nico repetiu, se perguntando se a cadela tinha somente fugido quando o caos começou ou havia realmente se transformando num zumbi. — E muito mais. Você, Percy e a sabidinha da Chase são só o que eu tenho agora. Não quero perder vocês também.
Ele desviou o olhar, fixando-o na janela escura atrás da pia que projetava sombras bruxuleantes das duas. Tentou conter as lágrimas, por que mesmo suas conversas sentimentais incluindo apenas Thalia, ele demonstrara sentimentos demais por aquele dia.
Thalia pegou suas mãos e a fez olhá-la. O azul dos olhos dela fazia Nico pensar que estava mergulhando na mais profunda e pura água do oceano; trazia a ele uma estranha paz, uma gostosa sensação de sentir-se em casa.
— Nico di Angelo, eu não vou deixar você. Eu sei que faço muitas promessas e essas coisas não podem ser levadas a sério hoje em dia, mas... — Thalia engoliu em seco, a voz falhando — nenhum de nós vai se perder, ok? Vamos ficar bem.
E como se fosse para concordar com tudo aquilo, selar o acordo feito entre eles, Nico se inclinou alguns centímetros para dar um beijo apaixonado na namorada.
***
3:14 AM
Percy Jackson estava morrendo.
Não literalmente, mas ele podia sentir seus órgãos parando. Seu corpo estava apenas funcionando para as funções vitais. Deveria estar morto de fome, pois não comia há horas, no entanto, a única coisa que sentia naquele momento era as batidas rápidas do seu coração.
Annabeth estava imóvel ao seu lado.
Ele ouvia o coração dela, também. Ligeiramente mais devagar que o seu, entretanto, mas felizmente batendo. Deveria dar pulos de alegria, porém quanto mais a respiração de Annabeth voltava ao normal, mais seu raciocínio ficava lento.
Não sabia se Annabeth iria acordar daquela vez, não sabia quanto tempo ela demoraria a acordar, não sabia de nada. E aquela incerteza que estava atingindo ele mais uma vez era o que começava a roubar suas forças, sua vontade de continuar vivendo.
Tinha que continuar, uma voz gritava em sua cabeça. Por seus amigos que dormiam no quarto ao lado com um pouco de paz depois de tanto tempo. Por seus amigos há mais de quatrocentos quilômetros de distância, esperando-a pacientemente. Tinha que seguir em frente, ela insistentemente gritava.
Então, Percy ouvia Annabeth se mexer minimamente.
O que pensava sumia da sua mente. Não. Ele não poderia seguir sem Annabeth. Mais do que seu amor não correspondido, ele prometera aos pais dela que faria tudo para que Annabeth — sua pequena sabidinha Annabeth — ficasse bem e em segurança. E Percy não quebrava promessas. Talvez nos velhos tempos, mas não agora.
A noção da verdade pareceu dar um novo ânimo ao seu corpo. Sentiu-se mais enérgico. Como se alguma força mágica misteriosa lhe tivesse dado enormes pílulas de entusiasmo e coragem. Os músculos de seu rosto não corresponderam imediatamente, mas ele tentou estampar um sorriso — o único sorriso que costumava dar quando essa desgraça toda começou: o de Annabeth, para ele.
Um barulho varreu tudo de sua mente. Lembravam terrivelmente passos. Ele engoliu em seco, se levantando pela primeira vez desde que chegara. No escuro que estava o quarto, surpreendeu-se encontrar rápido o longo facão que carregava ao lado da pistola. Não poderia atirar naquele silêncio assustador, sempre atrairia mais walkers, ou qualquer seja a coisa que estava caminhando por ali durante a madrugada.
Mais passos. Percy caminhou sorrateiramente para fora, quase batendo de frente com Nico, que abria a porta do quarto ao lado. Ele pôs o dedo indicador nos lábios, indicando que deveriam fazer silêncio. Nico revirou os olhos como se dissesse “Eu sei disso, idiota, vamos matar uns zumbis!”
Ele também estava carregada com seu facão. Nico reclamava que suas armas eram sempre potencialmente menos perigosas que as de Percy, porém ninguém fez muitas perguntas quando ele arranjou para os dois aqueles facões. Tinham sido úteis para matar zumbis na calada da noite desde então.
Percy descobriu que Thalia e Nico tinham trazido quase todo o equipamento de dentro do Cadillac para a casa. Os mini-bares, a grande quantidade de comida que haviam trazido — a maioria macarrão instantâneo ou qualquer coisa que cozinhasse rápido; Percy não era tão bom na cozinha quanto eles pensavam —, e até os isopores lotados de cereais, bolachas e doces em gerais. Seria uma boa idéia se eles não tivessem que sair correndo no meio da noite.
Os dois garotos caminharam de forma silenciosa até a porta da frente. Percy podia ouvir os gemidos, sussurros indefinidos dos zumbis que estavam ali. Se sua conta não estivesse muito ruim, teria apenas dois, o que não significava que não poderia haver mais. Seu olhar se encontrou com o de Nico e eles balançaram a cabeça num acordo mudo: iriam embora assim que pudessem.
Percy passou a língua pelos lábios, pondo a mão na maçaneta, ainda olhando para Nico. Ele estava posicionada para o ataque, o facão descansando nervosamente em seu ombro. A outra mão de Percy formigava, pedindo para que abrisse a porta logo.
Ela obedeceu a seus instintos.
Os walkers não eram nada além de mortos-vivos sem pernas que haviam conseguido rastejar até ali. Estavam subindo os pequenos degraus na entrada, e conseguiram avançar mais rápido ao ver os garotos próximas deles.
Percy olhou para um deles com nojo, tentando não imaginar que antes aquela carcaça meio viva e meio morta era um ser humano, talvez dono da casa que usavam, e chutou-o longe. Ele desceu a escadinha da porta de entrada com rapidez e mandou um golpe veloz na cabeça do zumbi, matando-o pela segunda vez.
Ele virou-se para Nico, vitorioso. O garoto tinha aquele sorriso esnobe tão característico de sua época na escola, com o outro zumbi morto aos seus pés. Pery piscou para ele, voltando para dentro antes que algo mais acontecesse.
— Cara, que zumbis toscos — riu Nico em voz baixa, assim que trancou a porta da frente ao deixar Percy entrar. — Nós nem precisávamos ter nos preocupado.
— Ah, fique quieto, eles poderiam ter nos causado um problema que faria nossas pernas tremerem — comentou Percy de forma infame, rindo também.
Elaedepositou o facão cheio de sangue de zumbi no balcão da pia. Nico soltou uma gargalhada, ainda em sussurros. Eles ficaram se encarando por um tempo, rindo da forma mais silenciosa que podiam.
Percy mal sabia o que tinha acontecido ali. Minutos antes podia sentir seu coração diminuindo rapidamente suas batidas conforme sua decisão de ir embora e deixar Annabeth se tornavam quase reais. Então, estava rindo aos montes com Nico depois de ter matado walkers pernetas. Ele não entendia, porém gostava. Em algum lugar de seu coração acelerado outra vez, sentia que ele e Annabeth estavam ligadas, como um grande transmissor de emoções humanas.
— Onde estavam? — Thalia irrompeu pela cozinha, usando um roupão preto. Percy olhou com ar de riso para Nico, que tinha sua total atenção voltada à lamparina.
— Matando walkers, desculpe — Nico respondeu, encarando o chão agora. Seus pés remexiam-se nervosos, e mais uma vez Percy sentiu vontade de rir da cena. O que estava acontecendo com ele?
— Ah. — Thalia retraiu sua bronca por um segundo. Depois, se dirigiu à Percy, séria: — Annabeth acordou.
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