Nothing Left To Say

1 Cap. 1 - Round and Round


Notas iniciais
Hey gente cada capítulo vai ter o nome de uma musica que meio tem a ver com a história do cap, então quem quiser escutar escutem a música desse cap é Round and Round de Imagine Dragons, já deu pra perceber que eu AMO Imagine Drangons né?! Então espero que vocês gostem, nos vemos lá em baixo.

3:10PM

— Anda Annabeth, acorde! — Percy Jackson sacudia sua antiga colega de classe, vizinha e melhor amiga. — Porra, Annie, eu preciso de você aqui!

Uma lâmpada estourou acima deles. Percy deitou-se sobre o corpo inerte de Annabeth para protegê-la dos estilhaços. Os gritos vindos do lado de fora o aterrorizavam. Tiros também eram ouvidos. Ela voltou às inúteis tentativas de acordar Annabeth Chase.

— Por favor, Annabeth! Estamos sem tempo! Sabe o quanto custou fazer o Nico parar aqui para te levar?! Acorde, Annabeth, por favor!

Percy sentiu o chão estremecer e mais tiros, agora muito mais perto. Ele engoliu em seco, apavorado. Estavam no corredor, pensou. A guarda estava no corredor. Isso significava que os walkers tinham se aproximado terrivelmente.

Ele olhou para a porta, que tremia devido à pressão. Sua expressão estava perdida. Ou trancava Annabeth ali e saía pela janela como entrara ou esperava o exército para ser morto. Era uma decisão difícil, mas as palavras de Thalia invadiram sua mente, “Faça o que der, mas por favor traga minha amiga de volta.” Querendo obrigar seu corpo a não fazer aquilo, ela encaminhou-se à janela, lançando um último olhar sofrido à Annabeth.

— O que está acontecendo?

Percy arfou, escutou uma voz doce porém levemente rouca. Ao voltar sua atenção à Annabeth, seu coração de um salto enorme. Annabeth Chase tentava sentar-se, olhando confusamente para o quarto e apalpando seu peito cheio de fios ligados aos aparelhos. Percy quase deu um grito de felicidade e correu de volta à garota.

— Annabeth! Nós... Precisamos sair daqui, agora! Graças a Deus que você acordou. — Percy analisou os equipamentos que prendiam Annabeth, se perguntando como levaria ela com aquele tanto de fios. — Aconteceu algo... Tem walkers para todos os lados... Nico e Thalia estão nos esperando do lado de fora... Droga!

Percy chutou o aparelho que controlava a respiração de Annabeth. Toda a iluminação tinha ido embora, os equipamentos do quarto também haviam se desligado. Agradeceu pelo Sol ainda não ter descido completamente e começou a desconectar os aparelhos da garota. Os rugidos dos walkers, os gritos e os tiros dos humanos começavam a perturbá-la.

— O que são walkers? — indagou Annabeth, confusa pelas inúmeras informações que Percy dera em tão pouco tempo.

— Zumbis, Annabeth — respondeu a outra, tendo dificuldade com alguns adesivos no peito de Percy. — Estamos no meio de um apocalipse zumbi. — Ele tirou o último fio que prendia a garota à cama e rapidamente a pôs em seu colo. — Vamos.

Annabeth sequer questionou quando Percy tirou uma pistola de um case na suas costas e foi em direção à janela, parando apenas para por no ombro uma mochila pesada, carregada que medicamentos que conseguira roubar ao entrar no hospital.

Percy nunca ficou tão feliz em ter sugerido colocar a sua melhor amiga no primeiro andar. Ele pulou a janela com facilidade, procurando seu carro que Nico estava dirigindo.

— Ah, meu Deus! — exclamou Annabeth horrorizada, olhando para o lado.

Percy xingou Nico em voz alta. O walker se aproximava ligeiramente mais rápido ao notar duas pessoas vivas ali. Percy não hesitou e atirou no morto-vivo, mirando no meio de sua testa enquanto sentia o rosto de Annabeth afundar em seu pescoço.

Felizmente, um carro vermelho virou a esquina do hospital. Nico dirigia com um olhar psicopata; no banco do passageiro estava Thalia recarregando uma metralhadora. Percy gritou para que eles parassem, fazendo o motorista dar um cavalo de pau. Ele abriu a porta de trás do carro, jogando Annabeth sem muita cerimônia no banco, entrando rapidamente e fechando a porta, falando para Nico avançar.

6:00 PM

— Devemos sair da cidade agora — decidiu Percy uns dez minutos depois de elas terem saído do hospital. — Ouvi os caras do exército dizendo que vão isolar a cidade. Se ficarmos aqui, morreremos.

Annabeth continuava encolhida nos braços de Percy, chorando e soluçando com medo. Percy não podia culpá-la; quando aquele inferno tinha começado, sua reação fora muito pior. Acostumou-se com walkers por todos os lados. Mas ser jogada naquele mundo apocalíptico deveria horrível, mais aterrorizante que vê-lo nascer.

— Mas quando tudo isso acabar será mais fácil para o governo nos encontrar. — retorquiu Nico com os olhos atentos nas ruas. Pessoas corriam ensanguentadas, walkers comiam alguns corpos que ainda gritavam; tudo hediondo demais para alguns meses atrás. Naquele dia, no entanto, era comum.

Porém, a maioria dos humanos que conseguiram sobreviver tinham o bom senso de se esconder em suas casas, de preferência no porão, e ficar lá até o dia amanhecer novamente. Os walkers começavam a dominar tudo, estava cada vez mais difícil sair à rua, tanto na noite quanto no dia.

E a situação pioraria, Percy sabia. Tudo ficaria muito mais apavorante, o medo espalharia com mais rapidez, isso se já não tivesse sido espalhado. Os quatro precisavam sair da cidade o quanto antes, arrumar um acampamento o mais longe possível de todas as cidades, viveriam por conta própria. Eles estavam sozinhos naquele mundo, era a triste verdade.

— Nico, apenas saía da cidade antes que viremos comida de zumbi — ordenou Percy autoritário, encarando o motorista pelo retrovisor.

— Percy está certo, Nico — disse Thalia. — Somos alvo fácil aqui dentro, principalmente agora que está escurecendo. Não podemos voltar à nossa casa, está cercada. A saída é ir embora.

Nico bufou, mas pôs o pé no acelerador, atropelando um walker distraído. Percy deu um sorriso em agradecimento enquanto a outra apenas deu de ombros. Annabeth se remexeu em meio ao abraço de Percy e saiu dele, enxugando as lágrimas e assumindo uma postura séria.

— N-nossos pais? Nossos colegas? — perguntou, fazendo todas no carro fechar a cara. — O que houve com eles?

Nico e Thalia ficaram em silêncio, dando à Percy a tarefa de responder àquela difícil pergunta.

— Morreram. Ou estão vagando por aí.

— C-como?

— Quando um walker te ataca, você tem que rezar para não ser mordido — explicou Percy. — Primeiro vem a febre, depois você apaga. Morre. E “renasce” zumbi. Só um ataque certeiro na cabeça pode matá-lo.

Percy sentiu-se culpado por ter feito Annabeth voltar a chorar, mas aquele momento, o da descoberta, o de acordar e perceber que seu mundo se fora, era duro. A garota só precisava de um tempo — ou muito tempo.

— M-meus pais, Percy? Eles morreram?

— Não — respondeu o outro. — Pelo menos eu acho que não. Atena e Frederick foram os primeiros a saírem da cidade, prometi a eles que cuidaria de você até estar capacitada novamente. Mantínhamos contato até o governo cortar todos os meios de comunicação, há duas noites. Eu não sei onde eles estão, Annabeth, lamento.

A noite chegara. Nico acendera os faróis do Cadillac no mínimo, para o caso de toparem com um walker perdido. As luzes e os gritos do centro da cidade ficavam para trás rapidamente, o que obrigou Percy a pedir para Nico desacelerar, para não perderem muita gasolina.

— E Matthew e Bobby? — Annabeth pergunto sobre seus irmãos mais velhos. Thalia cochilara no banco do passageiro. — Os nossos amigos do condomínio? Todos morreram?

Percy suspirou, cansada. Teria que fazer Annabeth dormir, mas ela não ficaria quieta sem respostas.

— No começo, todos estavam juntos... Depois que perdemos Jason, Piper e Bianca, as coisas desandaram. Frank preferiu ficar. Hazel foi a próxima... Nico e Thalia tiveram que matar Jason, Piper e Bianca uma semana depois, encontrou-os perto da saída da cidade, certo?

Nico assentiu, a expressão perturbada. Percy continuou.

— Leo, Zoë, Travis e Connor, e uma garota que a gente encontrou perdida pela cidade estavam bem e seguiram para o sul, há uns quatro dias. Planejamos encontrá-los. Ao contrário de seus pais, nós pegamos um rádio-comunicador e entregamos a Leo. O outro está no porta-luvas do carro. Não vamos nos perder deles, disso tenho certeza.

Percy engoliu em seco, fitando Nico pelo retrovisor. Ele sabia que faltavam alguns de seus amigos a ser mencionado, não se esquecendo do final dos outros. Respirou fundo e retomou seu relato.

— Clarisse é durona. — Percy sorriu, lembrando-se da expressão agressiva de sua amiga. — Ficou com Chris, Tyson e Grover e disse que se juntaria ao nosso acampamento. Agora com o exército querendo fechar a cidade, infelizmente não sei o que acontecerá com eles.

Annabeth não procurou os braços de Percy ou se debulhou em lágrimas. Apenas ficou parada, deixando que o balanço do carro a encostasse na janela e lá permanecendo até cair no sono.

Percy afagou os cabelos de Annabeth, tentando confortá-la. Talvez tivesse sido melhor se tivesse deixado Annabeth no hospital como Nico sugerira, pensou. Ela não pertencia àquele mundo sem sonhos, àquele apocalipse maluco. Teria que protegê-la sempre, até seu último dia, como prometera a Atena e Frederick.

— Ela vai ficar bem — disse Nico com a voz rouca, observando Percy. — Annie foi jogada nesse mundo, leva-se mais tempo para nós para se acostumar.

Percy concordou com a cabeça, ainda ressentida.

— Me pergunto o que nós seríamos se isso tudo não tivesse acontecido — murmurou.

— Aposto que ela cairia nos seus encantos — respondeu Thalia que tinha acabado de acordar, mal contendo o riso. Percy suspirou, Thalia sempre seria Thalia. — Olha para você! Essa sua pose de bad boy mata todo mundo.

Thalia riu abertamente. Percy bufou ao passar a mão nos cabelos que estavam lhe caindo sobre os olhos.

Duas semanas antes de o mundo se tornar totalmente apocalíptico suas roupas tinham mudado. Deixando de lado suas blusas polo e calças comportadas e agora usando blusas de bandas, calças rasgadas e coturnos.

Percy sentia-se bem daquela forma. Era uma forma de expressar tudo o que estava guardado dentro de seu peito, suas tristezas e decepções. Fora um choque para todos os seus amigos quando apareceu de um jeito punk na escola.

— Estamos perto de Fletcher, a mais ou menos oitenta quilômetros de Lima — anunciou Nico, checando o GPS e interrompendo os pensamentos de Percy. — Acho melhor pararmos, esta um pouco escuro lá fora mas dá para pararmos.

— Está mesmo muito escuro lá fora — notou Percy, encostando o nariz na janela para tentar enxergar algo. Nico revirou os olhos, Percy sempre sendo lerdo. — É perigoso andar nessa escuridão, pode haver um bando de walkers por aí.

Nico foi desacelerando o Cadillac até parar numa clareira no acostamento da estrada. Ele fez uma manobra, de modo que os faróis do carro iluminassem a clareira à procura de walkers. Num silêncio que ardeu os ouvidos de Percy, eles desceram para acender uma fogueira. De acordo com o último noticiário, qualquer sinal de luz afastaria os mortos-vivos.

— Deixe-a dormir — murmurou Thalia no ouvido de Nico quando a viu querendo acordar Thalia que tinha voltado a dormir. — Cuidamos da segurança delas hoje.

O outro assentiu, e foi indo para perto da fogueira.

***

8:45 AM

A cabeça de Annabeth doía horrivelmente. A única coisa que se lembrava era da voz de Percy interrompendo seus sonhos intermináveis e ela tentando acordar para poder escutá-la completamente. No próximo minuto, se viu presa a fios dentro de um quarto de hospital no que Percy chamara de um apocalipse zumbi.

Queria ter ficado nos seus sonhos. Ouvir Percy contar quase com indiferença o que estava acontecendo fez se perguntar se elae estava sofrendo com tudo aquilo. Era um choque tremendo, ela não queria fazer parte daquele mundo, desejava ter ficado naquela cama de hospital dormindo até que aquele mundo fosse dissolvido e seu mundo — um mundo de sonhos, Arquitetura e livros — voltasse.

Mas pelas expectativas de Percy e Nico, as coisas não seriam fáceis daqui pra frente, o mundo de Annabeth Chase estava completamente detonado. Zumbis... Walkers, como Percy chamara aquela aberração que tentara persegui-las ao saírem do hospital. Parecia horrivelmente impossível. Zumbis... Como aquilo tinha surgido? Como as pessoas estavam começando a aceitar e se entregar àquelas coisas?

Annabeth achara as informações de Percy vagas. Pelo jeito nem ele, com seu visual novo e estranho, de cabelos grandes de modo que chegavam a cair sobre os olhos, saberia responder. Queria evitar as perguntas, mas seu instinto curioso não tinha mudado e saber o que estava acontecendo ali parecia uma grande vantagem.

— Tudo bem? — indagou Percy no banco da frente do carro, assustando Annabeth. Seus olhos ardiam por causa da luz do sol invadindo tudo sem respeito, e tirando umas dores nas costas e na cabeça, sentia-se estranhamente bem. Ela assentiu para Percy, que aumentou ainda mais seu tom preocupado. — Não precisa de nada? Tem certeza que está bem?

— Estou. — Annabeth tentou levantar-se, mas bateu a cabeça na janela do Cadillac, soltando um uivo de dor. A expressão de Percy transformou-se numa de terror e ele tentou socorrer a loira, sem realmente saber o que fazer. — Percy, fique aí. Estou bem.

Percy sentou novamente. Annabeth só então foi notar que o carro não estava em movimento. Olhou para o lado de fora da janela e encontrou Nico e Thalia terminando de fechar um acampamento. Pela fogueira ainda fumegando, Annabeth supôs que não passara muitas horas do dia.

— Estávamos esperando você acordar — disse Percy após alguns minutos, encarando suas mãos em seu colo. — Você me parece muito frágil.

Annabeth queria responder que estava mesmo frágil. Não se lembrava de nada, mas para ela estar numa cama de hospital durante o fim do mundo, deveria ter acontecido um acidente muito grave. Ela só se perguntava que acidente teria sido esse.

Era estranho. Suas memórias antigas ainda eram suas. Lembrava-se de Percy em recuperação nas provas juntamente com Thalia. Lembrava-se de Clarisse batendo em Travis e Connor por causa de suas pegadinhas, dos seus pais... A lista era longa. Contudo, sua memória não parecia ter guardado as lembranças recentes. Ela sabia que deveria ter ido ao último ano na Half Blood High School, mas não se lembrava de ter ido com os pais fazer a matrícula ou de ter tido um dia de aula.

E do nada, sua vida toda fora embora para ela ser jogada numa realidade alternativa totalmente aterrorizante. Tinham-se passado apenas algumas horas, mas a perspectiva de ver outro walker a encarando com aqueles olhos fundos e sem vida, desesperado por um pedaço de carne humana, era apavorante.

— Ela acordou? Ótimo, vamos logo embora. Contatei com Leo, e ele está ao redor de Nashville, e que vai parar por lá — falou Nico rapidamente, entrando no carro pelo banco do motorista e assumindo o comando. Mesmo com aquele tom, alguma coisa dizia a Annabeth que Nico não era na verdade o chefe de tudo. — Se tudo der certo, chegaremos lá em dois dias.

— Empacotaram tudo? — indagou Percy autoritário, sentando-se ao lado de Annabeth para que Thalia pudesse ficar perto de Nico, que já acelerava o Cadillac para fora da clareira.

— Deixamos a fogueira de fora, se quiser saber — resmungou Thalia, rolando os olhos.

Percy bufou, mas sorriu ao olhar indagador de Annabeth.

— C-como vocês conseguiram isso tudo? — ela perguntou.

— O carro era do meu avô — disse Thalia, começando a contar nos dedos. — Juntamos cinco ou seis tanques de gasolina para continuar a viagem. Sei que não é muito, mas dá para chegar a algum lugar. Comida, armamento, roupas... Pegamos tudo há dois dias para não esquecermos nada. A única coisa que faltava era medicamentos, que o Percy pegou quando te salvou ontem.

Annabeth esboçou um sorriso em agradecimento.

Sua curiosidade estava lhe matando para perguntar o que tinha acontecido com Thalia, porque ela estava toda fechada, dura e fria assim como Nico Annabeth se lembrava que eles não eram assim, pelo menos não com ela. Também queria saber o que a teria feito perder a memória e acordar num planeta apocalíptico. No entanto, não queria chatear-lós — especialmente Nico que agora estava um pouco explosivo — com mais perguntas. Pelo jeito se passara muito tempo, mas as lembranças ainda estavam vivas em suas mentes. Não queria causar-lhes sofrimento desnecessário. Deixaria que as coisas fluíssem.

Thalia colocou um cassete no aparelho antiquado de som do Cadillac — e Annabeth ficou se perguntando aonde Thalia havia arranjado aquelas fitas —, diminuindo o clima tenso, que a loira percebeu que sempre se instalava entre os três. Percy se ocupava em observar atentamente a beirada da estrada com uma pistola na mão direita, pronta para o ataque. Annabeth não tinha certeza se a garoto usaria a arma para atirar num walker dentro do carro, mas ficou quieta. Questionar aquilo só traria mais olhares mortais do motorista.

Thalia balançava a cabeça no ritmo da música, que Annabeth logo reconheceu ser Green Day, a banda favorita de Thalia. Isso era bem obvio já que a garota estava com uma blusa dos mesmos.

Suspirou. Sem mais desejos ou vontades, ela se questionou o que estava fazendo ali. Seja lá o que estivesse sofrendo no hospital, queria ter ficado lá. Pelo menos continuaria sonhando, pelo menos não teria que acordar para enfrentar aquele mundo louco. Ela jamais tinha pegado numa arma, como Percy esperava que ela se desse bem? Não, não teria jeito de sobreviver ali sem um companheiro inseparável que a protegeria de tudo.

— Tudo bem, Annie? — A voz de Percy invadiu seus ouvidos, cuidadosa e um tanto apaixonada.

Annabeth saiu de seus devaneios para encontrar um sorriso bondoso de Percy, que ela sempre tinha visto, em sua direção. Ela confirmou com a cabeça, virando o rosto para que o garoto não a visse limpando seus olhos.

— Ok mesmo? — insistiu a garota, pondo a mão no ombro de Annabeth. Ela achou o movimento de Percy carinhoso e pôs sua mão em cima da dele, demonstrando apoio.

— Só estou cansada. E dolorida — acrescentou, fazendo Thalia, que prestava atenção na conversa dos doiss, rir.

— Também pudera, você esteve anos em coma — disse Thalia, uma vez Thalia sempre Thalia.

Annabeth arregalou os olhos. Percy e Nico lançaram um olhar mortal a Thalia, que continuou com aquele riso zombeteiro dela na cara e que Annabeth conhecia tão bem.

Suas entranhas pesavam ao perceber o que estava acontecendo consigo. Ela entrara em coma. Por alguma coisa, alguma queda, algum acidente que poderia ter sido fatal, mas não foi. Ela ficara tempos no hospital enquanto os walkers dominavam o planeta Terra de alguma forma ainda inexplicável. Seus pais quiseram levá-la, porém Percy disse que cuidaria dela.

E ele cuidou. Tratou bem de Annabeth até a situação sair do controle, e ter sido obrigado a tentar uma última tentativa de acordá-la. Dando certo, arrumou tudo para ir embora e encontrar Leo e sua gangue.

O que Annabeth não entendia — mais do que seus pais terem fugido sem ela, mais do que não se lembrar do acidente ou das coisas o antecederam — era como ela tinha conseguido ouvir a voz de Percy no dia anterior, tão pedinte e desesperada. Ela simplesmente não pôde aguentar ouvir o garoto daquela maneira, queria levantar e fazer Percy sentir-se bem, ficar feliz por vê-la outra vez.

Percy era quem mais aparecia em seus sonhos durante o coma. Sequer sabia que estava naquele estado, sequer sabia o que a tinha levado a ficar naquela situação, mas Percy estava lá sempre. Seja durante algo completamente maluco como vigiar a porta de algum museu para que ela visse tudo que estava nele sozinha ou relembrando um dos vários momentos que já tinham tido. Percy era presença constante neles, mais do que seus pais ou Thalia ou qualquer pessoa com quem se importava.

— Thalia! — exclamou Percy indignado, passando o braço inconscientemente pelos ombros de Annabeth. A garota deu um sorriso mínimo e não se importou. — Pode fazer o favor de cantar com sua péssima voz?!

Percy sorriu para ela novamente daquela forma carinhosa. Annabeth tentava digerir que, por trás daquela garoto lerdo e forte com um visual muito bizarro, existia um menino doce e agradável. Ela gostava daquilo.

— Você não se lembra de nada? — questionou Percy um tempo depois, quando Thalia estava distraída com a música. O tom dele estava esperançoso demais, Annabeth notou. — Antes do acidente... De nada?

— Não lembro nem por que eu entrei em coma — respondeu Annabeth, deixando a cabeça cair no ombro de Percy, olhando-o sem emoção. — Quero dizer, eu só senti que precisava acordar ao ouvir sua voz, só isso. E agora estou aqui.

Ela não deixou escapar o tom amargurado. O mundo que queria permanecia entalado na garganta. A percepção cada vez mais viva de que tudo nunca voltaria ao normal continuava a fazer seu coração e sua alma doer.

— Nós vamos dar um jeito, Annie — Percy disse ao apertar seu ombro delicadamente e beijar o topo de sua cabeça. — Vamos sobreviver a este inferno, acredite.

Annabeth acreditou.

***


Nico estava sentindo pena de Rachel por ela ter sido jogada naquele ataque insano e cada vez mais presente dos walkers. Apesar de não demonstrar ele sentia. Sabia que Annabeth era uma garota durona e que daria a volta por cima, disso ele tinha certeza.

Percy, por outro lado, adorava a imagem delicada de Annabeth. Nico tinha certeza de que seu melhor amigo havia se apaixonado pela loira antes mesmo de ele mesma perceber isso. Mas Percy tinha perdido tempo demais procurando uma maneira de como dizer que a Annabeth que estava apaixonado por ela.

Disso Nico sentia MUITA pena. Por que Percy tinha tido todas as oportunidades do mundo para fazer isso, só não tivera coragem. Ficara preso na sua vergonha. Agora que tudo fora pelos ares, ele esperava o melhor para Percy — e o melhor dele era apenas perto de Annabeth.

De qualquer maneira, ele deu um sorriso mínimo ao observar os dois no banco de trás do carro velho de Thalia. Annabeth (que ainda parecia doente, mas felizmente consciente de tudo que acontecia ao seu redor) deitava no colo de Percy, enquanto o outro acariciava seus cachos loiros descontraidamente.

O fato de Annabeth não se lembrar de nada do que tinha acontecido com ela preocupava tanto a Percy como a Nico e Thalia.

— Thalia, informações — pediu Percy uns minutos mais tarde, ainda olhando para Annabeth apaixonadamente.

Nico deu um olhar rápido à Thalia. A morena sorriu para ele, e o garoto achou que poderia enfrentar um milhão de walkers naquele dia. Thalia era a melhor coisa que a sua vida miserável poderia ter lhe dado. Ela era linda, durona e guerreira porém, a coisa mais pura e sensível dentro do mundo de merda em que se encontravam. Thalia era perfeita para ele.

— Estamos perto de Spring Valley — disse Thalia olhando o GPS, também verificando num mapa. — Nico, eu vou te dar o comando para nós não irmos pelas rodovias principais.

Aquela idéia genial tinha sido de Percy, durante a arrumação para a fuga. De acordo com ele, seria mais fácil e teria menos trânsito se fossem por áreas suburbanas. Quanto menos interestaduais pegassem, melhor. Não enfrentariam walkers ou pessoas desesperadas em busca de ajuda.

Embora Nico não concordasse com Percy, tinha que obedecê-lo. Ele não gostava de ser comandado, mas Percy e sua aura poderosa desde os tempos de que se conheceram em um acampamento de verão na infância. Seria quase impossível bater de frente com ele.

Percy tinha o faro para aquelas coisas, algo que Nico jamais teria.

Ele transbordava poder. Olhar nos olhos do garoto punk que ele havia se tornado — sem conhecê-lo por muito tempo — poderia ser fatal. Apenas Annabeth e sua família sabiam o que ele era de verdade: uma pessoa doce e amável. Mas você não deveria se meter no caminho de Percy Jackson sem esperar nada além do sofrimento eterno.

— Próxima parada? — perguntou Percy, atento.

— Daqui a cem quilômetros, o que deve levar uma hora mais ou menos — informou Thalia, diminuindo o volume do rock que havia deixado tocar.

Thalia permaneceu quieta. Nico desviou o olhar por um segundo da estrada para observá-la. Todos poderiam achá-lo um insensível, mas quando se tratava da namorada, Nico sabia ser a pessoa mais meiga do mundo. Ele conhecia cada detalhe de Thalia, tanto corporal quanto psicológico, e aquela garota ao seu lado estava escondendo alguma coisa, sentia.

— O que foi? — questionou Nico, dando um sorrisinho de lado para a morena.

— Nada — Thalia respondeu, os olhos perturbados vidrados na janela do carro. — Vire ali, ok?

Nico fez o que a garota pedia, indo parar numa estradinha de terra com um engarrafamento. Ele ergueu os olhos para Percy, que fez uma expressão confusa e mandou Annabeth levantar de seu colo. Ele e Nico se entreolharam, decidindo silenciosamente o que deveriam fazer.

— Não está andando — observou Nico, colocando a cabeça para fora do Cadillac, vendo alguns carros com aparência abandonada no percurso. — Vamos dar meia volta, achar outro caminho.

Ele pisou na marcha ré, porém antes que o carro voltasse a andar, um walker apareceu misteriosamente no capô do Cadillac, fazendo Annbeth dar um grito assustado e Thalia rapidamente sacar sua pistola. Ela ignorou as ordens de Percy sobre não atacar um zumbi com uma arma de fogo e deu um tiro certeiro na cabeça do morto-vivo.

Como se tivessem dormindo, mais walkers saíram de seus esconderijos e caminhavam de sua forma lenta, porém perigosa, em direção ao Cadillac. Nico não hesitou em enfiar completamente o pé no pedal e sair da estradinha de terra cantando pneus.

— Espere! — gritou Percy quando Nico mudou a marcha para acelerar o carro.

— Percy, ficou maluco, estamos no meio de algo aqui! — revidou Thalia também aos gritos, irritada com a atitude nada maligna do amigo naquele momento.

— Não, olhem!

Nico fechou o vidro da sua janela e aconselhou a Thalia fazer o mesmo. Ele lançou um olhar temeroso à massa de zumbis que saía da estrada, liderados por dois extremamente bem arrumados para serem walkers. Em sua forma humana, eles deveriam ter sido bem vestidos ou...

O coração do garoto parou por um segundo. Ele reconhecia a blusa estampada de um deles. Conhecia o blazer rasgado dele. Reconheceu os chinelos de dedo que o outro estava usando. Percebeu até os poucos tufos de cabelo cacheado e longo que os dois usavam. Ele comprimiu os lábios, controlando suas lágrimas.

Quíron e Sr. D.

Aqueles eram Quíron e Sr. D. Seus antigos professores.

Mas não pareciam em nada os homens que Thalia conhecia. A pele deles estava sem cor, magra e faltando em vários lugares, onde era visível a carne, inclusive os ossos. Os olhos fundos e vermelhos estavam famintos e a boca pingava sangue, dando a impressão que eles tinham acabado de se alimentar.

No entanto, walkers jamais estavam completamente satisfeitos. Eles seguiam na direção do Cadillac, gemendo e urrando como animais, à procura de mais comida, de humanos novinhos em folha para se tornarem mais deles.

Nico ouviu Thalia gritando no seu ouvido para que acelerasse o Cadillac, mas ele não conseguiu. Não poderia deixar Quíron e Dionisio — os zumbis Quíron e Dionisio, tinha de se lembrar — ali. Não, seria errado. Já havia passado por isso com Jason, Bianca e Piper ele não queria ver as pessoas que mais amava no mundo sofrer terrivelmente. Não queria vê-las mortas.

Então, pegou a pistola que Thalia ainda segurava e desceu o vidro do carro. Sua mira melhorara muito durante as semanas que se passavam. Duas balas bastaram para tirar Quíron e Sr. D. em definitivo daquele mundo apocalíptico. Pisou no acelerador, atropelando vários walkers enquanto as lágrimas desciam sem controle.


Notas finais
Oi de novo. Deixando bem claro que não se pode tirar uma pessoa do coma assim do nada então isso aqui é ficcional e vale, mais pra frente vocês vão saber porque Nico e Thalia estão assim frios e tal. SEM REVIEWS/COMENTÁRIOS SEM CAPÍTULO NOVO.