Nothing Left To Say
10 Questionada
Notas iniciais
Um "thank yooou baby" para a Leni, que me ajudou MUITO nesse tempo em que minha criatividade me deixou de lado. ♥
Boa Leitura e nos vemos lá em baixo ;)
PS: espero que entendam essa 'conversa' da Peg é com o cérebro dela, e que não é com o hospedeiro da Pet, ok? Ok.
Sou bombardeada por minhas próprias lembranças, e não há como controlá-las.
Já ouvi relatos de almas que não conseguiram cumprir os seu Chamados, acabaram desistindo de suas longas vidas na Terra. Eu, particularmente, não compreendia a dificuldade de almas tão fortes se submeterem a total falta de força de vontade. Nada fazia sentido.
Os sentimentos, as lembranças, a incapacidade de controlar esse bombardeamento de aspectos humanos. Eram tantas as expectativas de uma vida plena ao lado de Ian e das pessoas que eu tanto amo, que acabei me esquecendo do que era a dificuldade. O coração partido, os órgãos encolhidos, a solidão, o descontentamento, eu jamais teria me mantido preparada para isso.
Eu jamais havia recusado um Chamado, ou desistido dele tão rapidamente. Mas, de tempos em tempos, as coisas mudam. Agora, estando sozinha novamente, meu Chamado não fazia mais sentido. Não há como palestrar, até porque recuso-me a abrir a boca para falar alguma coisa, sozinha.
Estou em plena a um colapso mental quando lembro-me para onde devo seguir: fazer uma parada e seguir em viajem.
Faço um retorno em uma curva fechada e entro na cidade mais próxima. Já na entrada há um restaurante próximo a um Hotel básico. Cruzo algumas avenidas e estaciono o Jipe na entrada do Hotel, donde olhares suspeitos me corroem. Estou suja e com diversos arranhões pelas partes nuas de meu corpo.
Assim que passo por alguns casais apaixonados, que me distribuem sorrisos e acenos de cabeça, sinto uma louca vontade de me enfiar em um buraco escuro e nunca mais sair de lá.
Dentro do Hotel, em uma bancada de mármore escuro, há uma mulher loura de porte mediano. Seus longos cabelos estão presos em um coque executivo, mas há fios que insistem em enrolarem-se ao colarinho de seu terno. A moça me seca com os olhos. Estou machucada, arranhada, fraca e é exatamente isso que chama a sua atenção.
- Boa tarde. — Ela abre um longo sorriso, dentes brancos e perfeitamente alinhados. Tarde? Mas, agora não é manhã? Não retruco e apenas a deixo prosseguir com a saudação. — Posso lhe ajudar em algo? — Sua voz é como um veludo ao entrar por meus ouvidos.
Estou com medo de dizer algo e simplesmente começar a chorar. Não converso com alguém a mais de dois dias, poderei eu ser capaz de lembrar como se fala?
- Ah, — o som que ultrapassa meus lábios é confuso, de total desnorteamento. — Um quarto, por favor?
- Para quantos? — Ela pergunta e analisa a volta, eu também analiso. Oh, o que eu daria para dizer ‘duas, por favor’.
- Uma. — Respondo e é doloroso.
- Certo. — Ela digita algo em seu pequeno computador e aproxima um molho de chaves de minha mão. Eu pago e pego o molho. — Segundo andar, quarta porta à direita. Tenha um ótimo dia.
Eu viro as costas.
- Espere. Precisa de alguma ajuda? Parece machucada, quer que eu chame algum Curandeiro? — Sua voz está repleta de mágoa por ter me visto assim.
- Não. — Eu saio sem me preocupar com um agradecimento.
Ela sorri e eu não retribuo. O elevador demora a chegar, mas logo chego ao pequenino quarto do Hotel. É exatamente igual ao quarto em que eu, Ian e Jared ficamos durante uma incursão a alguns meses atrás.
Tomo um banho caprichado e permito-me ficar de baixo dos jatos por um momento até que haja necessidade de sair de lá.
Dentro de uma geladeira, há sanduíches naturais e um pote de frutas secas. Eu os devoro rapidamente e esvazio uma garrafa de água mineral de dentro da mini geladeira.
Deito na cama e controlo a grande vontade de olhar para o outro lado e pedir que Ian me abrace por causa do frio. Não me contento com apenas os lençóis grossos, mas infelizmente é tudo o que tenho para agora.
Está tudo tão calmo, tão silencioso. Não escuto nada além do meu próprio coração batendo. A primeira lembrança vem rápido demais e me deixa mais do que atiçada. Quero voltar no tempo e mudar o rumo de minha história, quero que hoje à noite eu durma com o som do ronronar de Ian, quero tanto poder abraçá-lo.
Ian mantivera a mania de roçar a cabeça acima de meu ventre. É engraçado como ele não mudou os hábitos depois que mudei de hospedeiro. Sou tão pequena perante seu corpo, quase como uma criança indefesa. Faz cócegas, a maneira de como seus cabelos raspam sobre a minha barriga por cima do tecido fino de minha blusa de linho verde-escuro. O livro que estou lendo em voz alta para ele se chama “A Lista de Schindler”, muito comovente por falar nisso. Ian parece não prestar atenção, mas não me permito parar.
Ele se curva sobre mim, deposita um beijo em minha testa e escora-se no travesseiro.
“Amo escutar a sua voz.”, Ele diz enquanto olha fixamente para o teto. “Acho que, se eu ficasse cego, sua voz seria a única que poderia me orientar.”
Eu nego com a cabeça. “Minha voz não tem a mesma essência que a da Mel, eu acho muito chata.”, eu digo. “É quase como a de uma criança.”
“É sexy. Gosto de vozes sexys.”, ele diz risonho. “É quase como a de uma locutora de rádio.”
“Eu nunca escutei rádio.”
“Dependendo da estação, é um saco.”, ele reina baixinho.
Volto a ler o livro e, enquanto viro as páginas, sinto o meu coração ir sendo esmagado por cada palavra. É tão triste, mas não quero parar em momento algum. Repouso o livro sobre a barriga assim que Ian decide quebrar o silêncio:
“Você não parece feliz.”, Ele põe uma mexa de meu cabelo loiro para trás da orelha e vira o meu rosto para si. “Não vejo você sorrindo faz algumas horas, é estranho.”
Eu forço um sorriso desajeitado e ele ri.
“Não sei, é tudo tão estranho pra mim.”, digo e ele se ajeita para se manter mais concentrado no que estou dizendo. “Esse corpo não é como o da Mel, ela é a típica mulher que todos desejam. Ela é bonita, carismática, inteligente, ela é apaixonante. Eu me sinto diferente, quase como uma estranha no meio de vocês.”
“Na verdade, é nós que somos estranhos para esse corpo, Peg. E, convenhamos, você é linda.”, ele ri e massageia o meu rosto. “Olhe para esse corpo, olha essa sua carinha de bebê. Quantos no mundo não desejam ter uma companheira como você? É tudo uma questão de costume para todo mundo e eu sei que a minha parte já está feita. Eu amo você pelo que você é, independentemente de quem você seja.”
Eu rio comigo mesma. É estranho ver a percepção de beleza perante os olhos de Ian. Ele não me renegou em momento algum, ele já me proporcionou tantas coisas que eu sinto como se o que eu fizesse não fosse o suficiente para mostrar a minha gratidão.
Mordo meu lábio e passo minha mão delicadamente sobre seu rosto. Ele fecha seus olhos devagar, aproveitando o momento. Arrasto-me na cama até chegar perto dele e junto nossos lábios lentamente. Uma de suas mãos vem parar em meu rosto e faz desenhos circulares em minha bochecha e outra pousa em minha cintura. Aconchegamos-nos melhor um no outro.
Ian me beija delicadamente, sem pressa alguma. Suas mãos passeiam pelo meu corpo quase sem tocá-lo — quase tenho a sensação que é só minha imaginação. Mas as coisas não permanecem assim pra sempre
Seu beijo se tenciona e eu consigo sentir a rigidez em que seu corpo fica ao tocar no meu. Eu agarro o seu rosto com as duas mãos e deixo o livro cair do outro lado da cama. Seus dedos não estão calmos ao tocar as partes nuas de meu corpo, é quase como se ele estivesse forçando a se controlar de uma necessidade tão pouco fácil de reconhecer para mim.
Eu estou tão quente, e é como se meu corpo não tivesse controle de sua temperatura natural. O corpo de Ian parece mais quente do que de costume. Não estou com frio, então a possibilidade de eu estar com febre não fica por muito tempo em minha cabeça.
Seu toque está voraz, quase como um pedido mudo de socorro e um sussurro silencioso para que seu corpo cale-se diante de uma necessidade.
Ele pressiona com mais força nossos lábios e ofega baixinho. Sua mão direita arranha minhas costas por cima do tecido de linho e a empurra para que ele consiga finalmente me por quase abaixo de seu corpo. Seu toque não está delicado como de costume, está mais intenso, mais necessitado eu suponho. Mas eu gosto, o diferente é bom nesse momento.
Será que ele está sentindo a mesma coisa que eu? O fogo? Será que ele está ciente do constante poder que ele tem sobre mim? Será que ele se sente infinitamente feliz? Será que ele sente borboletas no estômago enquanto estou o tocando? Seus dedos estão pressionados de uma forma brusca segurando o meu rosto e arranhado as minhas costas, algo que me machuca, mas eu não quero que pare.
“Desculpe-me.”, ele fala ainda com os olhos fechados. “Eu não queria pressionar você.”, ele se afasta aos poucos, mas eu o seguro próximo de mim.
“Eu não quero que pare.”
“E eu não quero apressar as coisas.”, sua voz sai num sussurro.
“E o que há de esperar?”, eu falo o olhando diretamente nos olhos.
Não tem tanta luz no quarto, de modo que consigo ver apenas uma imagem uniforme de sua silhueta. Ele está corando, ficando mais quente, sinto isso porque minha mão permanece na lateral de seu rosto.
“Ian, eu não sei o que estava acontecendo aqui, mas eu estava gostando. Eu estava realmente gostando e não consigo entender por que você parou.”, digo com total sinceridade e sei que um sorriso de divertimento brota em seus lábios. Aquele tipo de sorriso que não aparece em seu rosto há tempos. Eu gostaria de que a luz estivesse mais clara para que eu pudesse o observar sorrindo dessa maneira. “Esse corpo é meu. E eu não sou uma bonequinha de porcelana, está bem?”
“Eu só não acho que devemos apressar as coisas. Estou dando mais tempo para você pensar.”
Pensar? Para que diabos ele está querendo que eu gaste o meu tempo pensando?
“Ian...”, eu balanço a cabeça, quebrando toda a barreira de fogo entre nós. Movimento-me em cima da cama e deixo os braços caírem sobre o colchão. Estou indignada.
“Peg...”, ele se diverte com a minha ira aparente, me imitando da maneira mais criança de todas.
“Eu tive um ano inteiro para pensar, e eu vou te dizer, meu amigo, pensar demais cansa.”, falo em um único momento.
“Apenas não quero que faça algo do qual se arrependa.”
“Ian, eu jamais me arrependeria de algo que fiz com você. Acredite em mim. Confie em mim.”, eu falo e ele nega com a cabeça. “Quer saber...” sua atenção é voltada para mim, já com os olhos arregalados pela forma em que minha frase incompleta foi recebida pelos seus ouvidos. “Eu não quero mais pensar.”, e avanço contra seus lábios, segurando seu rosto com o máximo de forças que consigo, tendo certeza que ele não sairia de perto de mim.
Eu nunca me permiti avaliar tamanha a atração física dos humanos. O modo em que eles usam o corpo para o prazer, de uma das formas mais estranhas de demonstrar o afeto uns pelos outros. Eu já havia sentido a mesma sensação uma única vez, essa sensação; a sensação de querer tocar um corpo e de querer ser tocada. As lembranças de Melanie já me fizeram desejar Jared de uma forma estranha, logo depois de que a lembrança de seu primeiro beijo me fez acordar chorando.
Eu não quero que Ian pare, mesmo que meu corpo esteja repreendendo tal ação. Há borboletas iniciando uma sequência de bater de asas dentro do meu estômago.
Eu conduzo Ian por um longo momento, até que ele cede e começa a me conduzir. Eu o agradeço mentalmente por isso. Eu não sei o que fazer, não o conheço totalmente, sou quase como uma estranha agora.
Meu corpo está quente o suficiente para que se funda com o de Ian.
E então nós nos unimos de uma forma suave, como eu jamais imaginei que seria. A nossa volta, não existia nada, apenas dois corpos que faziam de tudo para não se desgrudarem. Tudo estava calmo, mas o ar era sufocante. Estávamos plenamente felizes porque agora éramos completamente um do outro.
Estou ofegante e a blusa gruda na parte de trás de minha camiseta. O ar está me passando uma total tranquilidade quando eu sento na cama e tento pôr o máximo de ar que consigo – ou o máximo que meus pulmões conseguem suportar, porque agora parecem ter se reduzido ao tamanho de ervilhas – para dentro de mim.
O outro lado da cama está frio. Um frio que acaba de me lembrar de que continuará assim para sempre.
Meus cabelos grudam no rosto e eu os afasto. Meu coração está palpitando estranhamente e eu sinto algo abaixo do meu ventre tremer. O teto é a única coisa da qual olhar não me fará chorar, então eu o encaro.
É tão ruim assim?, Uma nova comunicação com meu cérebro e eu esguio de surpresa.
Eu sinto falta dele.
Fico por um tempo em silêncio e volto a debater comigo mesma.
O que vai fazer quando chegar?
Eu… Eu não sei. Esperar, talvez?
Esperar pelo o quê?
Eu não sei. Eu espero não ser morta.
Ótimo. E qual será a sua desculpa para voltar sem Ian?
A verdade, eu direi a verdade. E uma repulsa toma conta de mim.
A verdade? Você está louca?!, Há um grito e a cama range depois do meu pulo. Você irá mesmo contar que abandonou Ian no meio de uma luta contra os Buscadores? Que o deixou ser morto? Que simplesmente decidiu salvar a sua própria vida e…
Chega! Pare!, Repreendo-me rapidamente e não contenho as lágrimas. Eu não serei capaz de mentir, que alternativa eu tenho?
Tentar mentir é uma delas, ou simplesmente se submeter ao Tribunal. A situação é mais séria do que pensei. Não há como salvar Ian, então tenho de apenas tentar salvar a mim mesma.
Eu não posso, não é o certo.
Peregrina, você sempre comete os mesmo erros e nunca aprende, não é mesmo? Uma risada desgostosa e eu sinto meu coração acelerar. A sorte não anda muito do seu lado, por que não abusar disso?
Não compreendo.
Tudo o que você falar, Peg, será usado contra você.
Está certo, de uma forma ou de outra eu serei sempre odiada.
Aproveite esses tempos terríveis e tire proveito. Por que não testar mentir? Quem sabe dá certo.
E não dará! Eu não sou humana, não sei mentir como eles.
Ha-Ha! Zomba, você já passou tempo o bastante com eles para se adaptar com seus hábitos ridiculamente humanos.
Não é o certo.
Vamos lá, Peregrina. Há uma nova risada e é como se um sorriso brotasse em minha mente. A sorte não anda muito ao seu favor. Mas, pensando por outro lado, você tem mais sorte do que uma gota de juízo. Use-a e desfrute do horror de um pequeno ato de orgulho.
Não gosto do pensamento de que talvez ela — eu — possa estar certa. Eu não sou humana, claro que não, muito menos mestiça. Eu jamais me permitiria seguir o estilo de vida humano e me submeter a tamanho egoísmo. Isso não seria justo com Ian, e nem comigo mesma. Mas se isso fosse me manter viva, era uma das opções por mais ridícula e injusta que fosse
Notas finais
Bom, se vocês tem alguma dúvida, perguntem!!!
No próximo capítulo eu espero que vocês se surpreendam tanto quanto eu fiquei surpresa com a minha ideia asklaksaklksa.
Então, até o próximo ne ;) bjus.
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