Emily se sentou à sombra de uma das árvores do pátio de Rosewood Day em sua primeira aula daquela manhã de quinta-feira – que por sinal era livre – e pôs-se a ouvir Nothing Else Matters novamente. E pela primeira vez, começou a prestar atenção à letra da música. Versos como “nunca me abri com alguém desse jeito”, “não ligo para o que eles fazem ou dizem” e “a vida é nossa, vivemos-a do nosso jeito” vinham à mente de Emily como tapas na cara.

Antes de a segunda aula começar, ela e Toby se cruzaram em um corredor, e este provavelmente se deparou com uma Emily fraca e debilitada por algo destruidor chamado saudade. Na verdade, Emily nem sabia se seria capaz de emocionalmente sobreviver até o fim daquele dia e Toby com certeza percebeu isso, puxando-a levemente pelo braço para se recostarem em uma parede.

– Tudo bem com você? – os olhos prateados dele mostravam genuína preocupação, como das últimas vezes.

Emily cruzou os braços e se sentiu zonza por um segundo. Toby era um cara muito legal, ela poderia confiar nele o suficiente para dizer-lhe a verdade, não é?

– Sim – disse ela, distante, tentando sorrir – Acho que só estou me sentindo um pouco... oprimida – ela queria dizer deprimida também, aliás.

Toby apenas assentiu.

– Já ouviu sobre o Homecoming que vai ser no sábado, então?

Emily franziu uma sobrancelha, não sabendo o que tinha a ver uma coisa com a outra. Todos falavam sobre o Homecoming quase que desde o primeiro dia de aula, há algumas semanas atrás. Haviam panfletos por toda a escola.

– Já.

– Uma besteira, não é? – disse Toby imediatamente, e deu um meio-sorriso como se estivesse zombando das pessoas que perdiam tempo com tal coisa.

Emily finalmente focou o olhar no rapaz, sentindo-se levemente ofendida.

– Você acha?

– É – confirmou Toby um tanto sem jeito – Você não?

– Bem, não sei. Nunca fui a um, acho que gostaria de ir apenas por curiosidade.

– Aposto que é apenas um bando de garotas que só se preocupam com a aparência, tentando ver quem é que brilha mais, com o vestido mais caro. Aliás, acho que isso é um costume em toda esta cidadezinha – disse ele com uma certa amargura na voz que deixou Emily um tanto insegura, mas então olhou para ela com a usual expressão doce – Mas não imagino que você fique duas horas na frente de um espelho tentando ser igual ou suprema a elas. Você é diferente. Por isso gosto de você – ele tocou o braço de Emily antes de seguir calmamente para sua sala.

Emily estaria mentindo se dissesse que não se sentiu renovada e feliz ao ouvir aquilo. Ela era diferente, afinal de contas, não era? E ser diferente é legal, ela dizia a si mesma enquanto, na hora do almoço, ia para o jardim de entrada da escola, sentando-se em uma das mesas de lá.

Haviam alguns poucos alunos por ali, mas Emily se sentia isolada e corajosa o suficiente para mandar um “Oi, espero não estar atrapalhando sua aula. Podemos conversar?” para Maya. Se tivesse sorte, a grade de horários de Hollis funcionaria mais ou menos como a de Rosewood Day e Maya poderia estar almoçando no momento também.

Maya respondeu em seguida com um “Ei, garota! Relaxe, não está. Minhas aulas só começam semana que vem, privilégio para forasteiros. Quais as novidades?”. Emily sorriu imediatamente, percebendo que gostava de quando Maya a chamava de “garota”, como fizera no bilhete. Uma palavra que Emily escutava muitas vezes, assim como “sereia”, mas que ganhava um toque especial vindo dela.

Respondeu a mensagem de Maya um tanto rápido demais, mas os versos daquela música certeira ainda faziam efeito sobre ela e, enquanto digitava com um sorriso bobo no rosto, concluía que, de fato, nada mais importava. “Não muitas” – ela havia enviado – “Estou em meu horário de almoço e queria apenas falar um pouco com você”.

As “necessidades” de Emily estavam sendo supridas apenas por saber que Maya estava lá, digitando do outro lado, quase como se pudesse olhar nos olhos de Emily através da pequena tela do celular; mas assim que Maya disse “Sem problemas, estarei aí antes que o sinal para sua próxima aula possa soar”, Emily percebeu que a necessidade de vê-la e tocá-la era maior ainda.

Tinha ido pegar um copo de chá gelado na cantina e estava agora com os pés sobre um dos bancos da mesinha de piquenique. Estava também tão vidrada no celular (e em Brave, de Sara Bareilles, cuja letra também a fazia se lembrar de Maya, falando de coragem e de “não ter vergonha de si mesmo”) que apenas sentiu quando uma mão delicada deslizou pelo lado esquerdo de seu rosto, fazendo o fone de ouvido correspondente cair da orelha. Emily levantou a cabeça para o corpo que cobria seus olhos do sol.

– Oi – cumprimentou Maya, de um jeito aconchegante.

– Oi! – rebateu Emily, animada, puxando Maya pelas duas mãos para que se sentasse junto dela antes de apressar-se em abraçá-la – Senti sua falta – deixou escapar, feliz.

Talvez Maya tenha ficado surpresa ao ouvir aquilo, pois não se ajustou ao abraço de imediato, mas em seguida deslizou as mãos pelas costas de Emily, em um carinho que fazia tempos que esta não recebia.

– Eu também – disse Maya baixinho, mas numa profundidade que fazia Emily sentir que estavam sozinhas ali.

– Como você sabia o caminho para cá? – perguntou Emily um pouco surpresa por ver o carro da garota estacionado ao meio-fio.

– Meu pai tem um amigo que mora na cidade – respondeu Maya – e ele nos levou para um tour ainda na segunda-feira. É a única escola daqui, não há como esquecer.

Emily riu de leve e baixou o olhar. Não sabia porque estava corando, mas sentiu que Maya queria dizer que não havia como esquecer dela. Talvez fosse pretensão demais.

– Tenho uma coisa para você – Maya quebrou o breve silêncio, tirando da bolsa uma echarpe cor-de-vinho que enrolou no pescoço de Emily em seguida – Só conseguia ler “Emily” escrito nisto aqui quando o vi em uma vitrine do shopping hoje de manhã.

Emily segurou as duas pontas do tecido macio e conseguia sentir o perfume de Maya nele, adocicado e viciante. Ela se sentia segura e protegida com algo de Maya estando em contato com a pele de seu pescoço, como um amuleto.

– Obrigada – disse Emily, com um sorriso que ia de orelha a orelha, sentindo felicidade dominar seu corpo – Eu adorei!

Foi a vez de Maya sorrir como se dissesse “não foi nada” e em seguida apontou para o copo grande de chá gelado de Emily, que ainda estava cheio.

– Posso?

– Claro. Eu pego um para você, se quiser.

Maya deu um pequeno gole na bebida.

– Não me importo em dividir este com você – afirmou ela com a mesma profundidade de antes, olhando nos olhos de Emily.

Aquilo sim se pareceu com um flerte. Não sutil, mas intencional. Algo em sua voz queria deixar Emily sabendo que Maya estava interessada nela. E tal deixou Emily levemente desconsertada. Ela não sabia o que fazer a não ser dizer para que seu coração parasse de bater tão rápido, senão Maya acabaria ouvindo.

Os minutos foram passando, a conversa fluindo naturalmente e a tensão se esvaindo de Emily enquanto ela falava. Pareciam simplesmente amigas novamente. Emily contou a Maya sobre sua paixão por natação e sobre como treinava quase a semana inteira; sobre a irmã mais nova e sua também paixão por flauta transversal – mas que não combinava em quase nada com sua personalidade aventureira.

– Isso deve ser tão legal! – empolgou-se Maya, da mesma forma que quando Emily contou-a sobre a volta de seu pai para casa – Meu irmão e eu frequentávamos escolas diferentes mas eu sempre achei que seria o máximo se ele estudasse comigo.

Emily sorriu. Achava legal que ela também tivesse uma boa relação com o irmão.

– É, mas eu quase não a vejo. A escola é gigante e há uma ala separada para o ensino fundamental assim como refeitórios diferentes. E, bem, mesmo se não houvesse, ela tem o grupo de amigos dela e eu... – interrompeu-se Emily, quase deixando escapar que não tinha um grupo de amigos – não faço parte dele.

– Típico – replicou Maya, agora com um sorriso triste, como se falasse por experiência própria.

O sinal tocou para a próxima aula de Emily. E as duas se abraçaram por longos segundos. Emily fechou os olhos para sentir o perfume adocicado de Maya mais uma vez. Porém a paz que reinava em seu interior foi dissipada por uma voz que chamava seu nome. Ela abriu os olhos como se tivesse sido acordada pelo irritante toque de um despertador.

– Ei, Em! – Ben se aproximava com um sorriso desafiador nos lábios.

Ela e Maya se desentrelaçaram enquanto o sangue de Emily gelava.

– O que você quer? – indagou ela, vacilante, enquanto via o olhar confuso no rosto de Maya.

– Sabe, eu achei que você me dera aquela bronca outro dia para ficar com o novato esquisitão – prosseguiu Ben, com uma voz irritantemente calma – mas... acho que agora eu já entendi – ele tocou demoradamente o ombro de Maya, e esta estremeceu em desconforto – Nossa, Em, por que você nunca me contou sobre suas... hã... preferências?

Emily tremia com o sorriso lascivo e doentio que Ben a lançava. Ela não sabia como reagir.

– Do que você está falando? – Emily conseguiu gaguejar, embora não ousasse olhar para ele.

– Ora, Em, você sabe que eu sou um cara moderno. Ia aceitar sem pestanejar – ele tocou o queixo de Maya, que permanecia fria e imóvel, os braços alinhados às pernas cruzadas, mas era evidente o desgosto em sua expressão – Aliás, acho que poderíamos nos divertir muito os três juntos.

– Tire as mãos dela – ordenou Emily imediatamente. Seu estômago fervia de raiva e apenas a possibilidade a causava ânsia de vômito.

Ben se afastou das duas dando um passo para trás e gargalhou.

– Até agora não sei como pude ser tão estúpido! – esbravejou ele, com uma fúria repentina nos olhos – As vezes em que eu tentava levar você para a cama e você dizia sempre a mesma coisa: “não, Ben, eu ainda não estou pronta”. Eu caía nessa! E durante todo esse tempo você se esfregava com pessoas como ela pelas minhas costas? – ele apontou para Maya – Deus, você não passa de uma vadia!

Emily ainda estava confusa. Tudo que Ben havia visto foi um abraço. Como ele poderia ter presumido algo assim? Mas não importava. O que importava era como diabos ele ousava vir até ela e ofendê-la daquele jeito? Pior: ofender Maya, que não tinha nada a ver com o imbecil que ele era como ser humano.

Num movimento rápido e instintivo, Emily levantou-se com o copo de chá gelado em mãos e atirou-o em Ben. Cubinhos de gelo caíram sobre a grama seguidos pelo copo de plástico. Houve um segundo onde o mundo pareceu congelar. Então Ben ameaçou levantar a mão direita e Emily se encolheu, porém Maya, também em um movimento rápido, se meteu entre os dois e bloqueou o tapa de Ben, segurando firmemente o pulso dele.

– Não se atreva – disse Maya entre dentes e com um olhar severo no rosto.

Ela soltou o pulso de Ben e pegou Emily pela mão, levando-a para longe dali.

– Você me dá nojo! – Emily gritou para Ben que continuava parado no mesmo lugar com uma postura estática.

– Em, já chega – disse Maya suavemente, contendo a garota pela cintura, para evitar que ela voltasse para lá.

Emily então se virou para ela. Seu rosto estava úmido devido às lágrimas.

– Ei, por favor, não chore – Maya secava as lágrimas de Emily com os polegares – Ele não merece que você derrame uma única lágrima, está bem?

Emily assentiu. Também segurava Maya delicadamente pela cintura.

– Não queria que você tivesse visto isso – ela se aconchegou em mais um abraço – Eu sinto muito.

– Mas já passou, meu bem. Não pense mais nisso.

Emily assentiu outra vez. Brincava — agora com as costas rentes a uma árvore — , com os dedos de Maya, que continuava quase colada a ela. Seria o momento perfeito para um beijo, alguns diriam, mas talvez Emily não sentisse vontade disso agora. Estavam as duas calmas e tranquilas uma junto da outra, e isso era o suficiente.

– Tenho um convite para te fazer – disse Emily, cautelosamente.

Maya encontrou os olhos dela e sorriu, empolgada.

– A escola vai organizar um Homecoming no sábado – começou ela – Na verdade, eu não sei se é permitido levar pessoas que não sejam alunos mas, se for... gostaria de ir comigo?

– Você diz este sábado?

Emily confirmou, já esperando que Maya recusasse. Porém ela pareceu achar graça da situação.

– Hollis terá um Homecoming no mesmo dia. Eu fui conhecer o lugar ainda na segunda-feira, durante o meu tour, e o diretor disse que seria uma boa ideia eu ir, para começar a me enturmar.

Emily riu a fim de esconder o desapontamento. Ela nem sabia que universidades organizavam esse tipo de coisa.

– Isso é o que eu chamo de coincidência.

– Espere, que horas começa o daqui?

– Sete e meia ou oito, eu acho.

– O de Hollis começa mais ou menos às dez. Sei que lá eles deixam que gente de fora frequente o lugar em ocasiões assim. Quem sabe você não vai ao seu (porque é óbvio que se você não for, deixará muitos pretendentes desapontados), fica por algumas horas e eu venho aqui buscar você para irmos juntas ao de Hollis depois?

Emily quis gargalhar pelo jeito como Maya disse “pretendentes”. Toby achava que Homecomings eram besteira, então, o máximo que ela conseguiria vindo a tal baile seria que Ben derramasse refrigerante nela como vingança. Ela quis abrir a boca para dizer que não tinha com quem ir, mas Maya tinha um brilho tão bonito nos olhos e Emily não queria afugentá-lo ao se pronunciar como uma coitadinha.

– Me parece um ótimo plano – disse Emily, sorrindo.

Maya inclinou-se para beijá-la na bochecha.

– Então, temos um encontro.