Nothing Can Get You Down

25 Capítulo Vinte e Quatro


Notas iniciais
Olha mais um capítulo aqui, minha gente!
Olha, tô muito feliz ao ver que tanta gente vem indicando essa fic! Isso me deixa tão viada que vocês nem podem mensurar o quanto! Special thanks a Liz Negrão e Priscila Siqueira por isso!
Outra pessoa a quem eu de forma alguma posso deixar de mencionar é a minha pre-reader Lu Lumichelutti! Nesse capítulo, além de ter sido a beta, uma vez que a Renata Nunes tá curtindo suas merecidas férias na Zoropa, me ajudou pra ca...lho com coisinhas relativas a gestação e parto que precisei demais nesse capítulo. Enfim, Lu, acho que nunca terei money suficiente para pagar minhas consultas pré-natais no meio da noite sem nem mesmo tá buchuda! Love ya!
Agora chega de blá-blá-bla e boa leitura!

Na mesma velocidade em que recostei meus lábios aos de Edward, eu os afastei. Não por receio de ter tomado essa atitude, mas sim porque meus pés já estavam protestando devido ao esforço de ficar na ponta deles para que eu pudesse beijá-lo. Sem contar que estar tão próxima da fragrância inebriante dele não auxiliava muito em meu equilíbrio, que nunca foi um dos melhores.

Ao recuar e fitar novamente o rosto de Edward, a primeira coisa que percebi foi a expressão de surpresa em sua face, mas antes que eu pudesse temer a minha atitude impulsiva, fui agraciada com um de seus mais belos sorriso, antes de ser envolvida em outro abraço e receber um beijo longo em minha testa.

Alguém fungou alto e isso fez com eu saísse um pouco da bolha em que estávamos envolvidos. Olhei de relance sobre o ombro de Edward e percebi que todas as gestantes da sala olhavam a cena diante delas com bastante interesse. Algumas estavam até mesmo com os olhos molhados, o que era um absurdo, já que nenhuma delas sabia qual era o motivo para que nós dois estivéssemos ali.

Senti minhas bochechas esquentarem e Edward soltar uma leve risada, mas cheia de sinceridade em seu som, como há muito eu já não ouvia vindo dele – Vamos nos sentar, baby. – ele disse, entrelaçando nossas mãos – Não vamos dar um show para esse monte de grávidas hormonais.

Assenti distraidamente enquanto ele me guiava até as poltronas no fundo da sala, onde poderíamos ter um pouco mais de privacidade. Contudo, na medida em que fazíamos o caminho até lá, eu notei todas as pessoas nos olhando com bastante curiosidade; como se pudessem fazer uma loucura somente para saber qual era o motivo de nós dois estarmos naquela situação.

Edward me indicou uma das cadeiras e eu me sentei com cuidado enquanto ele se mantinha segurando a minha mão. Logo em seguida, ele mesmo veio ficar ao meu lado e se inclinou em minha direção, deixando mais um beijo em meus lábios o qual eu correspondi no mesmo entusiasmo.

– Você não sabe o quanto eu senti falta disso – ele murmurou contra minha boca, provocando um arrepio por toda minha coluna.

– Eu também senti. – admiti, esticando minha mão para enxugar seu rosto um pouco molhado pelo choro, assim como o meu próprio – Muita.

Ele aproveitou o momento para recostar seus lábios em minha palma antes de voltar a falar – Espero que você tenha gostado da surpresa de última hora.

– Eu adorei. Na verdade, eu já estava ficando meio apreensiva com seu sumiço desde ontem.

– Isso não foi proposital, baby. Depois da tarde que tive ontem, eu tive bastante coisa para pensar.

Senti meu cenho se franzir – Pensar sobre o que?

– Será que poderíamos guardar esse assunto para mais tarde? Eu gostaria de falar sobre isso quando estivermos longe de tantos olhos curiosos.

Olhei ao redor e percebi que ainda havia muitas mulheres olhando em nossa direção. Isso me deixou irritada, porém consegui controlar meu desejo absurdo de mostrar minha língua a todas elas, exatamente como faria uma criança birrenta. – Tudo bem, nós podemos falar depois que sairmos daqui.

– E a propósito, isso é para você. – ele disse ao me oferecer a delicada bonequinha, a qual ele segurava.

– Bem, desculpe desapontá-lo, só que eu já passei um pouco da idade para brincar com esse tipo de coisa – provoquei, no entanto pegando o presente de suas mãos para que eu observasse melhor todos os detalhes.

Ele rolou os olhos – Não é exatamente para você, mas sim para Grace. Ela pode ficar por um tempo no quarto dela até que a nossa filha esteja grande o suficiente para poder brincar com ela.

Não pude conter a palpitação mais forte em meu peito ao ouvir finalmente Edward se referir a Grace como nossa. Uma palavra tão simples, embora de valor imensurável depois de tantas coisas que ele já havia dito sobre essa garotinha.

No entanto, antes mesmo que eu pudesse questioná-lo sobre o que havia acarretado tal mudança em sua atitude, uma das atendentes chamou meu nome para que eu me dirigisse até a sala de triagem.

– Você vem comigo? – perguntei-lhe.

Seus olhos brilharam com o que parecia ser esperança – Eu posso mesmo?

Mais uma vez meus lábios se romperam em um sorriso – É claro que sim.

Logo, Edward e eu fomos até a porta, onde uma enfermeira com a cara um tanto mal-humorada nos esperava. Segui todas as rotinas, como a medição da minha barriga e pesagem; para essa segunda, foi inevitável a careta de horror que fiz ao perceber que tinha aumentado 3kg desde o meu último pré-natal.

– Não se preocupe com isso, amor. – Edward me tranquilizou ao mesmo tempo em que esfregava distraidamente o meu braço – Provavelmente deve ser alguma retenção de líquido, não é nada demais.

– Esse inchaço está me matando. – resmunguei, fazendo uma careta quando o medidor de pressão arterial começou a comprimir meu pulso.

– Falta pouco agora, Bella. Só mais um mês e tudo isso terá acabado. – Edward disse, colocando um beijo na minha bochecha.

Em resposta a isso, a enfermeira o encarou. – Não a faça se movimentar! Isso pode interferir no resultado.

Ele se encolheu em seu lugar e retrucou um pedido de desculpas sem graça, enquanto eu o fitava apologeticamente.

Nós ficamos em silêncio até escutarmos o bipe do medidor e eu finalmente pude sentir o alívio após meu pulso ser finalmente libertado daquela pressão. Observei a mulher a minha frente e notei suas sobrancelhas se franzirem, como se houvesse algo errado.

Adivinhando meus pensamentos, Edward antecipou a minha pergunta – Algum problema, senhora?

– A pressão dela está alta outra vez. – ela retrucou – Você vem cuidando corretamente da sua alimentação, filha?

– Mas é claro que sim. – afirmei, olhando tanto para ela quanto para Edward, que me fitavam com cara de desaprovação – Cortei totalmente o sal da minha comida e fico olhando a quantidade de sódio de qualquer porcaria que eu coma!

A enfermeira deu de ombros. – Tudo bem, eu acredito em você. Agora, vamos precisar de um pouquinho do seu sangue para mais alguns testes.

Minha careta de aversão fez com que ela rolasse os olhos e se retirar rapidamente do local. No mesmo instante, Edward veio substituir o seu lugar, parando a minha frente para colocar uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.

– Eu não deveria ter aparecido do nada. – ele comentou – Provavelmente foi isso que fez com que sua pressão subisse. Como sempre, estou sempre fazendo alguma merda.

– Hey... – interrompi-o, segurando em suas mãos antes que elas fossem parar em seus cabelos para bagunçá-los – Você teve a melhor das intenções ao vir até aqui hoje. Por favor, nem pense em se arrepender por isso.

Ele balançou a cabeça negativamente – Eu deveria ter te avisado. Eu esqueci totalmente que de repente, você poderia ter alguma coisa e...

– Edward, eu não tive nada, está bem? – afirmei com segurança, dando um aperto mais firme em suas mãos – Se você está aqui para ficar me tratando como se eu estivesse a beira da morte, sinceramente eu prefiro que você fique lá fora!

– Estamos um pouco irritadiça hoje, não? – ele disse, esboçando um meio sorriso.

– Se você conseguir ser completamente feliz com 16 quilos a mais, talvez eu pare de ser tão rabugenta.

Ele riu, rolando os olhos – Bella, amor, você não está gorda. Esse sobrepeso é todo por conta da Grace.

Ouvi-lo falar tão casualmente sobre o nome de nossa filha nunca pareceu tão estranho e tão certo ao mesmo tempo. Dava a impressão que os últimos meses nunca tinham acontecido para ele; como se, desde o princípio, Edward tivesse participado de cada momento desta gravidez. Estaria mentindo se dissesse que isso de certa forma não me incomodava, afinal, perdoar era algo bastante diferente de esquecer.

– Aconteceu alguma coisa? – Edward inquiriu, franzindo o cenho – Você ficou séria de repente.

– Bem, eu tenho que admitir que estou meio chocada com sua atitude tão despreocupada em relação a bebê. – afirmei, sem parar de encarar nossas mãos que permaneciam unidas.

Ele suspirou profundamente, antes de voltar a falar – Eu caí em mim, Bella. Percebi que se eu mesmo não aceitá-la, qual exemplo eu estaria dando para o Richie? Ou para as outras pessoas, quando perceberem que eu mesmo a rejeitei por que ela tem Síndrome de Down?

Uma vez que eu não fui capaz de falar absolutamente nada, ele continuou – Não que eu esteja bem com isso; de certa forma, acho que nunca vou consegui perdoar esse Deus que não nos mandou um bebê perfeito, como se nós dois não fôssemos merecedores disso. Mas, que tipo de homem eu seria se eu descartasse a Grace por completo de minha vida, somente por conta de algo que ela não teve culpa?

Era praticamente surreal vê-lo admitindo esse tipo de coisa. – Definitivamente, ela é pessoa mais inocente nisso tudo. – murmurei com a voz fraca.

Edward assentiu levemente, enquanto desviava seu olhar para o teto – Demorei muito a perceber isso. Por muito tempo, achei que a presença dela em nossas vidas seria como um castigo injustificado; como um lembrete de que não poderíamos ter tudo o que gostaríamos. Só que eu estava absolutamente enganado; comecei a ser infeliz no momento em que a reneguei.

A essa altura, meus olhos estavam prestes a transbordar: só eu mesma sabia o quanto sonhava com esse momento, onde Edward admitisse seus erros e suas inseguranças. Que existia um verdadeiro propósito para sermos escolhidos como pais da Grace. Essa menina, que nem sequer tinha chegado a nossas vidas e já nos tinha ensinado tanto. Que ainda dentro do meu útero, nos fez compreender que o pior preconceito que pode existir é a ignorância.

Edward me fitou e com um meio sorriso, levou usa mão até meu rosto e usou seu polegar para enxugar o canto dos meus olhos – Nós não devemos ter essa conversa agora, baby. Eu sei que não mereço isso, mas, por favor, me deixe agir como um pai de verdade e curtir um pouco esse momento com você.

Eu apenas balancei minha cabeça em consentimento, não confiando em minha aptidão em formar palavras que não soassem como soluços. Isso fez com que ele me lançasse outro sorriso e desse um beijo em minha bochecha; um gesto tão delicado e que ao mesmo tempo demonstrava que apesar de todas as rachaduras em nossa relação, talvez havia a possibilidade de reconstruirmos tudo outra vez.

Não demorou muito para que a enfermeira voltasse com dois tubinhos e uma seringa na mão. Fiz uma careta ao ver aquilo e Edward segurou firma a minha mão enquanto o sangue era coletado, em um gesto de apoio. Ele não a soltou um minuto sequer, mesmo que eu estivesse praticamente esmagando seus ossos devido a tensão do momento.

- Pronto, filha, já acabou – a enfermeira disse ao retirar a agulha da veia escondida em meu antebraço – Agora vamos nos preparar para a ultrassonografia.

– Eu não deveria ver a Dra Shelton primeiro? – questionei hesitantemente.

– Não dessa vez. Ela quer ter uma avaliação completa do seu estado antes da consulta em si.

Edward se mexeu desconfortavelmente em seu lugar e depois indagou — Há alguma razão específica para não estarmos seguindo o protocolo... normal?

– Provavelmente porque sua esposa está no último trimestre. – respondeu ela simplesmente. – Não é raro alguns médicos procederem desta forma. Ou seja, nada para se preocuparem.

Contudo, acho que nenhum dos dois se convenceu muito daquilo que ela havia dito. Fomos em silêncio até a sala anexa, onde me deitei na maca e aguardei a técnica em ultrassonografia começar os procedimentos para o exame. Nesse meio tempo, com a minha visão periférica percebi o joelho de Edward saltando, provavelmente pelo nervosismo.

– Acalme-se, Edward ou você vai me deixar mais nervosa do que eu já estou! – ralhei em uma voz sussurrada, tentando ignorar a presença da jovem garota que estava de costa para nós.

– Desculpe. – foi tudo o que ele disse. Seus olhos de esmeralda estavam fixos no monitor desligado a sua frente, como se pretendesse decifrar qualquer coisa assim que o mesmo começasse a funcionar.

Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o ambiente se encheu com o som de um coração bastante acelerado; alto, forte e vigoroso, algo que contraditoriamente me encheu de uma paz de espírito. Foi impossível conter um sorriso ainda maior ao ouvir o coraçãozinho de minha filha tão vibrante como sempre.

– Está tudo ok? –Edward inquiriu, a tensão praticamente palpável em seu tom de voz.

– Tudo está em perfeita ordem, papai. – a moça disse, provavelmente acostumada àquele tipo de pergunta – Corações dos bebês sempre são acelerados desta forma. Prontos para vê-la?

Percebi Edward ingerindo o ar agudamente, para logo em seguida me fitar de volta – Sim. – disse simplesmente antes de me lançar outro singelo sorriso.

O monitor foi ligado e de imediato me concentrei em tentar decifrar os contornos de Grace na tela. Seu pezinho mexeu dentro de mim e foi absolutamente encantador poder assistir aquele movimento refletido na tela. Era algo que apenas uma palavra conseguiria se aproximar da sensação: magia.

Contudo, mesmo tendo pouquíssima experiência nisso, pude ver que ela ainda estava na posição sentada, o que não era lá uma coisa muito boa. Há duas semanas atrás, eu comecei a sentir as leves contrações de Braxton, o que significava que meu útero estava se preparando para o parto. E uma vez que minha filha sequer estava na posição correta, tinha quase certeza de que tal fato não era algo tão favorável assim.

– Ela ainda não virou. – a técnica confirmou meu pensamento, parecendo mais murmurar consigo mesma do que com o intuito de nos informar.

– E o que isso significa? – Edward perguntou, sua voz um pouco mais grossa do que o habitual.

– Ela ainda não está pronta para nascer. – respondi-lhe e voltei minha atenção para a garota que continuava a verificar outro ponto de minha barriga. – Isso é muito ruim?

Suas sobrancelhas se franziram um pouco antes de responder – Bem... Isso pode complicar um pouquinho as coisas. A essa altura ela já deveria ter feito o movimento... – murmurou consigo mesma antes de voltar a falar – Mas tem uma coisa que está me deixando intrigada... São realmente trinta e seis semanas de gestação?

– Na verdade, são trinta e cinco semanas e meia. – afirmei-lhe com um pouco de receio.

– Isso é estranho... Pelo o que estou vendo aqui, a bebê ainda está pequenininha; cerca de trezentos gramas a menos do que deveria. É quase como ela estivesse na metade do sétimo mês de gestação.

– Impossível... – eu murmurei com uma risada nervosa. – Eu fiquei grávida na penúltima semana de Maio do ano passado.

– Será que isso não tem a ver com o fato da bebê ter Síndrome de Down? – Edward perguntou.

No mesmo instante eu o encarei sem realmente vê-lo: será que toda essa conversa de que ele tinha mudado era apenas outra mentira? Que era apenas um disfarce para tentar se reaproximar de mim?

– É pouco provável, senhor. Acho que isso se deve bem mais ao fato da Sra. Masen ter tido hipertensão ao longo da gravidez... – ela afirmou, clicando em alguma coisa na base da câmera – Mas, para que não fiquem muito preocupados, a bebê me parece absolutamente bem. Seus movimentos estão bons, seu perfil biofísico está ótimo e o coração bastante forte e ritmado como vocês já escutaram. Vão querem algumas fotos para mostrar para o resto da família essa garotinha linda?

Balancei a cabeça positivamente, embora meus pensamentos estivessem apenas focados nas últimas palavras de Edward. Não queria acreditar que ele tivesse mentido ao dizer que havia se arrependido por tudo o que dissera, mas como eu poderia confiar tão rapidamente em suas palavras? E para inflamar ainda mais meus receios, como ele se atreve a supor que nossa filha não tinha o desenvolvimento esperado só porque era diferente?

Ou talvez, eu mesma estivesse fazendo uma tempestade em um copo d´água, afinal, eu tinha certeza de que hoje eu sabia muito mais coisas relativas à Síndrome de Down do que ele. O fato de não ter desistido da Grace fez com que eu aprendesse a superar meus próprios medos, coisa que talvez Edward estivesse começando a lidar a partir de hoje.

Porém, era difícil não ficar magoada ao perceber o tom acusatório em seu timbre quando perguntou para a assistente. Eu precisaria ser muito benevolente e tolerante se estava disposta a dar outra chance para a nossa felicidade, coisa essa que seria um tanto complicada, já que os hormônios instáveis da gravidez sempre contribuíam para o contrário.

Por fim a enfermeira retirou o aparelho de cima de minha barriga e me deu alguns lenços de papel para que eu me limpasse. Fiz isso em silêncio, com meus próprios pensamentos a medida que ela terminava de digitar alguma coisa no pequeno teclado ao lado da máquina.

– Bem, eu vou lhes pedir para aguardarem lá fora enquanto eu imprimo o laudo e o levo até a sala da Dra. Shelton. Em poucos minutos ela irá atendê-los, está bem?

Nós lhe agradecemos, e Edward me ajudou enquanto eu descia da maca nem tão confortável assim. Saímos da sala de ultrassonografia ainda de mãos dadas, apesar de todos os meus receios quanto ao que ele há pouco dissera. Ao sentarmos de volta na sala de espera, eu apenas meneei ou respondia monossilábica a qualquer coisa que Edward me perguntava, e logo ele percebeu que eu queria mesmo era permanecer em silêncio naquele momento.

As dúvidas por saber o que tinha acontecido com ele no último final de semana me consumiam por completo. A curiosidade era tanta que desejava que aquela consulta de rotina acabasse o quanto antes, apenas para bombardeá-lo com perguntas. Todavia, pelo que eu pude perceber os meus dados clínicos não contribuíam muito para que eu saísse rápido daquele consultório. Tinha a leve impressão de que esta seria a mais demorada consulta pré-natal de minha vida.

Alguns minutos depois, finalmente fomos chamados para vermos a obstetra e de imediato, Edward levou minha mão a dele, enquanto entrávamos juntos na sala da Dra. Shelton. Apesar de todas as dúvidas que me afligia, aquele gesto de segurança que ele tentava me passar me parecia tão certo; algo mínimo que significava que agora estávamos literalmente lado a lado.

Edward abriu a porta e eu corei intensamente com o ar de incredulidade que a médica fez, assim que o viu comigo. Ela sorriu, porém era mortal a encarada cruel que ela lançava em direção ao meu marido. Como minha obstetra, era óbvio que ela soubesse da crise de pré-eclâmpsia que eu tive em Forks no mês passado e qual o motivo que gerou aquilo tudo.

Mordi o lábio e lhe lancei um sorriso sem muita vontade. De repente, eu já não sabia se era uma ideia tão boa ter pedido para que ele tivesse vindo comigo até aqui.

– Ora, ora, olha só quem resolveu aparecer por aqui?! – ela começou seu tom escorrendo ironia – Que bom revê-lo, Sr. Masen! É muito bom ver um pai acompanhando a futura mamãe em minhas consultas, afinal elas não geram os bebês sozinhos, não é?

Edward engoliu em seco, no entanto um segundo depois estendeu sua mão para cumprimentar a médica. – É um prazer estar aqui outra vez, Dra. Shelton.

– Bem, já que você está aqui, deve estar a par das condições bastante delicadas de sua esposa, certo? Que a pressão arterial dela continua elevada, apesar da medicação que ela vem tomando para controlá-la. E que isso tudo não é nada bom, principalmente para uma gestante no último trimestre de gravidez.

– Sim, eu tenho que admitir que eu não fui o companheiro ideal para a Bella durante esse tempo. – Edward iniciou, parecendo amargamente arrependido – Mas eu acredito que antes tarde do que nunca; eu sei que tanto a Bella quanto esse bebê precisam de mim e é por isso que estou aqui.

A médica assentiu, mas não parecia tão comovida com as palavras de Edward. – De fato, ambas irão precisar muito de você nas próximas semanas. Agora, por favor, sentem-se, pois nós temos muito que discutir.

– Há algo de errado com a minha filha, doutora? – perguntei com um impulso – Parece que ela ainda está sentada no ventre... Ela já devia estar na posição para o nascimento, não era?

Dra. Shelton suspirou profundamente, — Infelizmente sim, Isabella. Sua bebê deveria ter feito isso por volta da trigésima segunda ou terceira semana. Mas não é isso o que mais me preocupara agora, mas sim a sua hipertensão. Você já apresentou uma crise no mês passado e esse progressivo aumento não é nada bom nem para você nem para sua filha.

As mãos de Edward voltaram a se agarrar as minhas, quando ele pigarreou e inquiriu. – Doutora, durante a ultrassonografia, a técnica que estava nos atendendo comentou que a Grace estava meio que pequena... Isso é normal, certo?

A médica voltou a observar as imagens ao seu lado e começou a dizer – Não é raro, mas não no caso desta gestação em especial. Além de a placenta estar bem amadurecida para o tempo de gestação, Grace não vem ganhando muito peso, se comparado com os outros ultrassons. O que me leva a crer que ela está sendo mal nutrida por essa placenta, o que é algo bem comum para as mamães hipertensas. – a médica anotou alguma coisa em seu prontuário e voltou a falar, – Isso me preocupa, pois como a pressão de Bella não tem abaixado vai chegar um momento onde a incubadora será melhor para Grace do que a barriga da Bella.

– Então, – eu murmurei, minhas mãos suando frias entre as palmas de Edward – pelo o que estou percebendo, eu não posso mais continuar grávida. É isso mesmo?

Ela assentiu e voltou a falar – Além do fato de que uma pressão alta assim pode desencadear o que chamamos de descolamento prematuro de placenta, que é quando a placenta descola do útero antes do tempo. Isso pode gerar uma hemorragia e grande risco de vida para as duas. Sendo assim Sr. Masen e Bella, acho que já é hora de considerarmos uma cesariana, que ao meu ver também e a vontade de Grace, já que ela resolveu nascer de bumbum para a Lua.

Apesar do nervosismo da notícia, eu ri levemente, porém o humor da médica não pareceu intervir a favor de Edward, que continuou sério ao dizer – Essa é nossa única alternativa, doutora? Bella terá que passar mesmo por uma intervenção cirúrgica para que criança venha ao mundo?

– Edward, cesarianas são bastante comuns... – retruquei, tentando acalmá-lo – não há razão para ficar preocupado.

– Isso não é algo tão simples, baby. – ele ecoou, soando um tanto que desesperado – É uma cirurgia de grande porte e eu sei que temos muitos riscos também!

– Sim você tem toda razão, – Dra Shelton disse – porém eu posso lhe garantir que seria muito mais arriscado para sua esposa ter que entrar em trabalho de parto em circunstâncias como essa. Além da posição da Grace no ventre não contribuir muito, Bella poderá ter um aumento de pressão durante as contrações e acabar caindo no que chamamos de eclâmpsia que é onde a gestante apresenta convulsões e pode até mesmo entrar em coma. Sei que são muitos os riscos, mas ainda assim a cesariana está sendo a melhor opção. Não estou falando que estamos livres de qualquer coisa, pois sua mulher ainda pode acabar tendo um sangramento grande por exemplo. Mas pensando na Grace, está é a melhor opção.

Edward se afundou em sua cadeira, soltando minha mão para agarrar seus cabelos. Eu não entendia qual era o motivo daquela preocupação toda, afinal, não era como se eu estivesse condenada a morte só por conta de uma cesariana. – E quando é que iremos fazer isso, doutora?

- Bem, os sinais vitais da bebê estão relativamente bons, por enquanto. – ela explicou, cruzando os braços no colo enquanto voltava seu olhar entre nós dois – neste exato momento, eu não tenho nenhum grande motivo para fazer esta cirurgia, já que ela ainda é prematura. Se tudo transcorrer bem, em duas semanas nós podemos fazer todo o procedimento. A bebezinha de vocês pode ganhar algum peso extra nesse meio tempo e também não nascer tão antes da hora. Porém, eu vou precisar que vocês estejam aqui na próxima semana, para verificarmos se de fato está tudo bem; do contrário, talvez eu faça o parto neste mesmo dia.

– Esse me parece um bom plano – murmurei na medida em que alisava a minha barriga.

Edward, que parecia ainda mais apreensivo com a proximidade da data, afirmou – Bella, isso só nos dá uma semana!

Dei de ombros – Bem, como a própria doutora disse; eu prefiro a Grace aqui comigo, se isso for de fato o melhor para ela.

– E não sejamos pessimistas, Sr. Masen. – Dra Shelton interviu, dirigindo-se exclusivamente a ele. – Se sua mulher não passar por nenhum stress ou se esforçar demais, eu não veja razão para não estender a gestação por mais 15 dias.

Ele respirou profundamente, e virou-se em minha direção para colocar sua mão sobre a minha que estava repousada sobre o meu ventre – Nós não temos outra escolha, não é?

– Pelo visto não, já que essa mocinha aqui foi preguiçosa demais para ficar na posição correta. – respondi, olhando para minha barriga com um sorriso.

– Eu lhes garanto que esta é a única opção. – Dra Shelton interveio mantendo seu olhar fixo em nossas mãos entrelaçadas. – Só basta ter em mente que você necessita de muito repouso nos próximos dias, Isabella. E tente relaxar o máximo possível; curta os últimos momentos de sua gravidez sem demais inquietações. Nós já sabemos que apesar da Síndrome de Down, Grace poderá ser uma menina absolutamente saudável; não há motivos para se preocupar com isso.

Edward apertou mais forte a minha mão enquanto eu sorria em direção à médica. – Eu vou tentar fazer isto, doutora.

– Não tente; é seu dever permanecer tranquila pelo seu próprio bem-estar e o de sua filha. – Ela expôs categoricamente, e se voltou novamente para Edward. – Mais do que nunca, sua esposa precisa de um ambiente tranquilo e pacífico nos próximos dias, do contrário, poderemos por em risco a vida das duas.

Edward estremeceu visivelmente e sua voz ficou mais veemente ao dizer. – Irei garanti que isso aconteça, doutora.

A médica assentiu e então prescreveu algo em seu receituário; algumas pílulas para a hipertensão e um calmante natural que eu usaria principalmente à noite, quando tivesse dificuldades para dormir. Deixou também o seu número pessoal de telefone e ressaltou que poderíamos ligar a qualquer momento, caso eu tivesse alguma cólica mais forte, Grace diminuísse os movimentos ou se tivesse algum sangramento nos próximos dias. Cumprimentamo-nos na saída do consultório, e ela fez questão de lembrar que em oito dias eu precisava estar ali novamente.

Depois de passarmos na recepção para marcarmos a próxima consulta, Edward tomou minha bolsa e passou seu braço pelos meus ombros e nos guiou para fora do hospital. Eu carregava a boneca que ele havia me dado junto ao peito e a única coisa que eu tinha em mente era que em pouco tempo eu poderia estar com minha filha em meus braços. Agora era questão de dias para que Grace estivesse aqui comigo.

A ansiedade estava se firmando cada vez mais dentro de mim. Mal podia esperar para descobrir como ela seria. Sabia que seria inevitável que ela tivesse alguns traços comuns à síndrome, como a boquinha muito pequena para acomodar completamente sua língua ou o estrabismo, que também era bastante recorrente em portadores de Down. No entanto, eu estava bastante tranquila quanto a isso; tais características fariam parte de quem ela era.

Minha expectativa maior era para saber quais os traços que ela teria em comum comigo... ou com Edward. Seria ela cabeluda ou nasceria carequinha, como seu irmão mais velho? Qual seria a cor de seus olhos, se seria muito magrinha ou rechonchuda... Estava louca de vontade para conhecer o quanto antes minha própria bonequinha.

– Você parece bastante empolgada. – Edward comentou quando passamos pela porta do hospital.

Uma rajada de vento frio nos atingiu e intuitivamente me encolhi um pouco mais em seu abraço – Eu não deveria estar? – inquiri retoricamente.

– É claro, mas você não está com medo? – ao ver minha expressão de confusão, ele completou. – Por conta da cirurgia?

Outra vez dei de ombros – Milhares de cesarianas são feitas todos os dias, Edward. E eu não sou a primeira e nem serei a última mulher no mundo a passar por isto. Tenho certeza de que tudo sairá completamente bem.

– Não deixa de ser uma operação, Bella. – ele murmurou à medida que aproximávamos do seu carro. – Sempre há riscos para se levar em conta.

– Não seja pessimista, Edward. Vai tudo dar certo.

Ele sorriu, mas não atingiu os seus olhos – Eu espero que sim, baby.

Edward abriu a porta de seu carro para mim e logo deu a volta, indo para o lado do motorista. Uma vez que ligou o carro, ele voltou-se para mim – Está com fome? Quer ir a algum lugar para comermos alguma coisa?

– Não, obrigada.

– Quer ir para a casa? Ou talvez, se você não me quiser por lá por enquanto, podemos ir até aquele café que você tanto gosta no Centro.

Mordi o meu lábio e ponderei por dois segundos antes de arriscar minha sorte. Existia um lugar que há muito eu estava querendo ir. E bem ali na minha frente eu tinha a oportunidade perfeita de resolver dois “problemas” de uma única vez. Afinal, eu tinha que saber até que ponto havia chegado essas mudanças na vida de Edward e talvez, aquela fosse a única chance que eu fosse ter nos próximos dias.

Através de uma respiração profunda tomei a coragem que eu precisava para lhe perguntar. – Tem um lugar que preciso ir... E agora, mais do que nunca, eu preciso chegar lá com certa urgência. Será que você poderia ir comigo?

Ele ligou o carro e começou a manobrar o veículo, com um sorriso mais verdadeiro desta vez, ele afirmou – Só basta me dizer as direções, madame.

Informei-lhe o caminho, e ele franziu o cenho ao perceber que estávamos indo em direção ao Lago Michigan. O trajeto não seria tão longo, mesmo que houvesse um tráfego mais pesado, devido a volta do corre-corre da metrópole após alguns dias de nevascas bastante intensas. No entanto, por mais próximo que fosse o caminho, Edward não hesitou em pegar de volta a minha mão, mantendo-a unida com a sua durante todo o caminho.

Ele não fazia ideia, mas o local que eu indicara era o endereço do La Rabida Children´s Hospital, centro de referência para crianças com disfunções neurológicas aqui em Chicago. O local tinha um programa especial voltado para portadores de Síndrome de Down, com especialistas em Fonoaudiologia, Terapeuta Ocupacional, Pedagogia e Nutrição, além de apoio psicológico não só para as crianças excepcionais, mas também para os pais dela. Provavelmente, esse hospital seria a segunda casa de Grace, local onde tinha certeza de que ela se desenvolveria bastante para ser como qualquer outra pessoa do planeta.

Não podia negar que estava um tanto que apreensiva com minha escolha repentina de destino, contudo estava firme que tanto eu e – principalmente – Edward, precisávamos ir até lá, até para sabermos como lidar com o nosso futuro. Indiscutivelmente, essa era uma visita que deveríamos ter feito o quanto antes, entretanto diversas circunstâncias fizeram com que eu só tomasse coragem de vir até aqui neste instante. E só podia torcer para que tudo desse certo para nós.

Ao estacionar o carro, seu cenho se franziu ao ver onde estávamos. Apesar de passarmos milhares de vezes ali desde que nós mudamos para Chicago, eu não fazia noção da importância desse hospital até algumas semanas atrás, quando procurei saber de locais aqui em Chicago que fossem relativamente parecidos com a Nothing Can Get You Down, em Port Angeles. Dizer que fiquei surpreendida com o quão próximo o hospital era de nossa casa, seria mero eufemismo. Mais uma vez, tomei consciência de que aquilo que você realmente precisa, pode estar ao seu lado e basta abrir os olhos para enxergar.

– O que estamos fazendo aqui, baby? Esse não é o hospital... – a voz de Edward parou no meio da frase ao perceber o que estava prestes a dizer.

– Das crianças doentes mentais? Sim, é ele mesmo. – Ele pareceu meio que envergonhado, por eu ter completado a sua frase, no entanto, não poderia ser hipócrita e deixá-lo se remoendo em culpa. – Eu também costumava pensar assim até pouco tempo atrás. Não se culpe.

– Porque nós estamos aqui, Bella?

Tomando uma respiração profunda, eu tomei coragem para começar a falar. Era agora ou nunca. – Eu escolhi vir até aqui porque o La Rabida tem um programa muito bom para crianças com Down. E agora que a Grace está tão perto de nascer, eu pensei que seria bom descobrir se ainda eles ainda tem vagas para mais uma criança. Você sabe, em programas como esses a maioria dos profissionais são voluntários, sem contar que apesar dos pesares, a Síndrome de Down é bastante comum. Eu não sei se eles poderão aceitar mais uma criança ou...

– Amor, – Edward me interrompeu e para a minha surpresa, ele estava rindo – Você está divagando.

– Desculpe. – retruquei, e mesmo que ele parecesse bem com isso, não consegui evadir a tensão que me rodeava. – Eu realmente preciso conhecer esse local, Edward. Se você não quiser ir, tudo bem. Eu posso voltar para casa de táxi.

– Não, eu vou com você. – ele afirmou e sua expressão ficou um tanto que sombria enquanto ele olhava o grande prédio amarelo a nossa frente – Se eu vou ser pai de uma menina excepcional em menos de quinze dias, eu tenho que estar preparado o quanto antes.

Meu coração retumbou em meu peito e eu não pude evitar de me inclinar sobre o console do carro e abraçá-lo, deixando um longo beijo em sua bochecha. – Obrigada, Edward.

– Não agradeça ainda. Eu posso acabar estragando tudo lá dentro.

– Eu tenho certeza que não. – respondi com um sorriso, abrindo a porta do carro às pressas, sem me importar com o habitual cavalheirismo dele de sempre fazer isso.

Encontramo-nos na frente do veículo e eu praticamente arrastei Edward na medida em que nos dirigíamos até a entrada do hospital. A tensão dele era nítida, porém, tentei aliviar um pouco ao circundar meu polegar ao longo de sua palma, mesmo que isso não fizesse o efeito que eu esperava.

Na recepção, perguntei a uma das atendentes sobre o programa para crianças com Down e ela foi muito solicita ao explicar cada detalhe do mesmo. Percebi, meio que resignada, que Edward mal escutava sobre o que a menina falava; tudo o que ele fazia era observar todos os adultos e crianças ali aguardando atendimento. Seus olhos encaravam por um longo tempo todos aqueles pacientes que possuíam algum problema físico ou mental aparente; não sabia explicar se essa reação dele seria revoltante ou constrangedora para mim.

Mesmo que não tivéssemos agendado uma visita, a garota nos conseguiu um encontro com a coordenadora do programa, a Dra. Audrey Smith. Por sorte, ela tinha um horário livre em vinte minutos e tinha se disponibilizado para nos atender, se acaso estivéssemos dispostos a esperar um pouco.

Uma das voluntárias que trabalhavam lá se ofereceu para nos mostrar as instalações do hospital, em especial a área onde a maioria das crianças com problemas neurológicos eram atendida. De imediato, olhei para Edward, que apesar de assentir positivamente, era óbvio que ele estava além de apreensivo naquele momento. Cheguei a pensar que talvez não fosse tão bom levá-lo ao limite desta forma, porém lembrei-me que ele em especial tinha pouquíssimo tempo para se adaptar para a chegada de Grace.

Assim que chegamos á área destinada, nós dois paramos no mesmo momento para assistir através de uma imensa parede de vidro, umas quinze criancinhas fazendo pinturas em cavaletes. Quase todas elas estavam sujas de tinta, contudo, apenas de observar seus rostos eu sabia que nada disso importava para elas. Mesmo que eu não escutasse nada do que vinha lá de dentro, eu praticamente podia ouvir as risadas de cada um deles.

A voluntária nos informou que ali era onde as crianças faziam atividades de terapia ocupacional. Geralmente essas “brincadeiras” para um espectador de fora, tinham além do intuito de aumentar o relacionamento interpessoal, desenvolver também a coordenação motora deles.

Naquele mesmo bloco, nos foi mencionado que existia uma sala de alfabetização especial, uma pequena clínica de reabilitação, especialmente desenvolvidas para os bebês que tinham dificuldade de locomoção e o consultório da fonoaudióloga da instituição. Essa última era uma das mais procuradas, já que uma boa parte das crianças com Down tinham distúrbios na fala, o que dificultava um pouco a comunicação.

Por fim, finalmente fomos chamada à sala da Dra. Smith, que prontamente se mostrou disposta a dissipar toda e qualquer dúvida nossa. Fez questão de nos lembrar que o que estávamos fazendo era imprescindível; buscar ajuda o quanto antes. Isso era algo que faria toda a diferença no futuro de Grace. O fato de ela vir a ser estimulada já nos primeiros dias de vida seria um ganho extra que iria contribuir demais no seu desenvolvimento.

Durante a conversa, também aprendemos que nossa filha não teria um “nível” ou “grau” maior ou menor da Síndrome; tudo dependia do quão cedo ela seria estimulada. Nossa filha poderia levar uma vida completamente normal; desde frequentar uma escola comum com outras crianças, ter atividades sociais, e quem sabe no futuro, namorar, casar e até mesmo ter filhos.

Outro fato para o qual a Dra. Smith chamou nossa atenção foram os prováveis problemas cardíacos que nossa filha poderia vir a ter. Ela nos recomendou a procura imediata de um cardio-pediatra já nos primeiros dias de vida de Grace. Mesmo com todos os exames que eu fiz ao longo da gravidez, era indispensável um check-up completo após seu nascimento.

Logicamente, esse conselho da especialista fez com que Edward a fuzilasse com mais e mais perguntas relativas aos problemas de saúde que uma criança Down pode ter. Nós discutimos sobre o desenvolvimento de Leucemia, Catarata, problemas gastro-intestinais... Todas as doenças que tinham maior frequência em bebês especiais. Meu marido bombardeava a médica com questionamentos sem fim sobre esses temas, e eu a via trabalhando duramente para apaziguar todo esse pessimismo dele.

E foi ali, enquanto ele inquiria sobre qualquer risco que nossa filha pudesse passar no futuro, que eu consegui realmente enxergar os motivos que o levaram a fazer isso: Medo.

Só então foi que eu comecei a perceber que sob essa fachada de indiferença, Edward na verdade estava protegendo a si mesmo. Ele estava apavorado com a possibilidade de amar essa menina, e de repente, o destino a tomasse por conta de alguma doença que nem eu e tampouco ele seríamos capazes de evitar. Naquele instante, se tornou óbvio para mim que tais perguntas feitas por ele, não tinham o sentido de me mostrar que uma criança Down nos daria trabalho, mas sim porque ele não fazia ideia de como lidar com o diferente e dos eminentes riscos que uma missão como essa poderia significar.

Outro detalhe que, por mais egoísta e absurdo que seja, me fez entendê-lo um pouco melhor. Que fez com que eu abrisse minha mente e percebesse que ele sofria por não saber lidar com o novo tanto quanto eu.

Agora eu só precisava ouvir isso dos seus próprios lábios. Precisava ouvi-lo admitir seus temores para que pudéssemos seguir em frente e, quem sabe, sermos os pais que nossos filhos mereciam.

[...]

No demais, o tempo que passamos ao lado da Dra. Smith foi muito proveitoso para nós dois; além de tirarmos nossas dúvidas, pudemos conhecer outros profissionais que trabalhavam ali com a intenção de promover a saúde não só física, mas mental de seus pequenos pacientes.

Outro fato que não me passou despercebido durante aquela tarde, foram que todos ali eram iguais. A Síndrome de Down não fazia distinção de raça, credo, classe social... Não importava se você era pobre ou se tinha uma condição um pouco melhor; ali era um lugar para todos. Cada uma das crianças presentes ali eram tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo.

Por fim, eu acabei adorando o lugar; sabia que era um local com esse tipo de apoio que minha filha necessitaria para o seu desenvolvimento. E o melhor de tudo; ainda existiam vagas disponíveis para ela daqui a algumas semanas. Preenchemos um pré-cadastro e notificaríamos a Dra. Smith assim que Grace estivesse aqui conosco. Ela nos garantiu que assim que nós tivéssemos alta, ela nós encaminharia para os devidos especialistas, garantindo que minha Grace tivesse o melhor atendimento possível. Enfim, definitivamente La Rabida seria o lugar ideal para que eu acompanhasse de perto a evolução de Grace no futuro.

Porém, se existia algo premente que eu ansiava mais era a conversa que eu teria muito em breve com Edward. Nossa visita estava quase no fim, muito em breve ele me deixaria em casa. E para completar, Angela tinha ligado mais cedo, pedindo para levar o Richie com os gêmeos para uma sessão de algum filme infantil sobre dinossauros. Ou seja, teríamos a tarde toda para resolvermos para onde iríamos com nosso relacionamento a partir de agora; Existia milhares de pontos para serem discutidos, embora eu me sentisse muito mais tranquila após a pequena epifania que eu tive mais cedo no consultório da Dra. Smith.

Estávamos sendo guiados de volta por um novo funcionário, que não parava de comentar sobre uma aula de música que ele tinha acabado de gerir em outro setor do hospital. Eu me sentia esgotada e sentia minhas pernas começarem a formigar; provavelmente devido ao cansaço do dia. Edward percebeu meus passos mais lentos e intuitivamente passou seu braço por minha cintura, me ajudando a caminhar até a saída.

Também não pude deixar de perceber o movimento distraído de seu polegar na lateral da minha barriga. Tão pequeno e absolutamente significativo para nós dois.

Nós já estávamos chegando a recepção quando um garotinho Down veio correndo em nossa direção. Ele exibia um sorriso enorme e era impossível não retribuí-lo, principalmente ao notar o jeitinho desengonçado de correr. Mesmo através de seus profundos óculos de grau era perceptível que seus olhos brilhavam com entusiasmo e eu me perguntei porque ele teria essa reação aos nos ver.

O menino não foi nenhum pouco rogado e praticamente se jogou nas pernas de Edward, envolvendo-as em um abraço. Por um segundo eu fiquei apreensiva por conta disso, porém bastou apenas fitar meu marido um pouco melhor para perceber que o seu sorriso era amplo, mesmo que ele se demonstrasse levemente surpreso.

– Quer dizer que você ainda se lembra de mim, Evan? – Edward perguntou, parecendo meio que perplexo com o fato do garoto ter se aproximado tão espontaneamente.

O menino apenas balançou a cabeça, exibindo uma adorável covinha em uma das bochechas. Eu estava absolutamente perdida; desde quando Edward conhecia alguma criança Down e agia de forma tão natural assim?

Para me deixar mais abismada ainda, ele se ajoelhou para ficar no mesmo nível do garoto, e afagou levemente seus cabelos? – Tudo bem com você?

– Túio!

– Sr Masen! Que surpresa vê-lo por aqui! – Uma mulher de traços latinos disse ao se aproximar de onde estávamos, tendo um olhar de adoração óbvio em direção ao menino.

– É um prazer revê-la também, Sra...

– Sanchez, – ela respondeu gentilmente, uma vez que Edward não conseguia recordar seu sobrenome. – Mas pode me chamar de Mercedes.

– Como quiser, Mercedes. – ele respondeu ao se levantar e logo depois fazer um gesto em minha direção – Essa é minha esposa, Bella. Bella está é a Sra. Mercedes. Nós nos conhecemos na loja de brinquedos, quando eu fui comprar o skate do Richie.

A mulher sorriu amplamente – E a partir desse dia, seu marido se transformou em meu herói particular. Evan se perdeu de mim lá dentro e foi ele quem encontrou o meu bebê aqui.

Encarei Edward interrogativamente e ele apenas deu de ombros. – Não foi grande coisa...

– Para mim foi. – ela afirmou com uma voz cheia de emoção. – Evan é tudo o que eu tenho. Não seu o que faria sem ele.

– Acho que todas as mães se sentem assim, independente de quantos filhos tenhamos. – Comentei, olhando para Evan que absorvia toda a conversa, com um arzinho de sabichão.

A mulher meneou a cabeça vigorosamente – Com toda a certeza! E eu gostaria de ficar mais, só que o Evan já está atrasado para sua consulta... Por favor, me perdoem pela pressa.

– Sem problema algum, Mercedes. – Edward afirmou. – Tenho a impressão de que acabaremos nos encontrando muito por aqui.

De imediato, a mulher deu uma pequena olhada para a minha barriga e sorriu. – Bem, será um prazer tê-los por perto. – então, em um gesto muito íntimo ela pousou a mão em meu ventre e meio que sussurrou. – E não tenha medo; alguém certa vez disse que nós, mães de especiais, temos a sorte de vivermos ao lado de verdadeiros anjos.

Eu sorri e de imediato fiquei com os olhos marejados. Era estranhamente reconfortante escutar palavras tão confiantes de uma mulher que eu nunca tinha visto antes. Com tão poucas dizeres ela me passou mais segurança do que tudo o que eu já tinha vivenciado ao longo desta gravidez.

Despedimo-nos dela e de seu filho, e mal ela tinha desaparecido no corredor, eu me voltei para Edward. Mesmo sem sibilar uma única palavra sequer, ele notou o quão cheia de perguntas eu estava; e para isso, ele apenas rolou os olhos, e pegou minha mão antes de dizer. – Vem, eu te explico tudo em casa.

– Você sabe que eu quero detalhes sobre tudo isso não é? – comentei, me deixando ser rebocada por ele.

Então, parecendo muito mais leve e brincalhão como há muito eu já não o via, ele deixou um beijo na minha bochecha e sibilou – Vou te contar tudo. E com todos os detalhes sórdidos, baby.

E assim, nós seguimos de volta até o carro com as mãos entrelaçadas. Em casa, eu pretendia descobrir quais foram os verdadeiros motivos que fizeram com que Edward abrisse sua mente para aceitar um bebê especial. Talvez o garotinho gorducho que acabamos de encontrar tivesse sido um dos motivos, porém eu desconfiava que existisse algo bem maior do que isso; algo que estava escondido em sua alma e que eu pretendia desvendar.

E quem sabe assim, termos a chance de superar o passado e recomeçarmos nossas vidas não de onde paramos, mas sim de um novo ponto inicial. Tendo, quem sabe, um novo marco com a chegada da pequena Grace Masen.

Notas finais
Aeeeew! Mais um capítulo da reta final, minha gente! O próximo capítulo que eu tenho em mente, será enorme e por isso, talvez eu o divida em dois. Vamos ver, né?
Só uma notinha boba: La Rabida realmente existe em Chicago e é centro de referência para crianças com Down! Se um dia forem a até Illinois, incluam a visita a esse lugar!
Enfim, acho que é isso. Agora quero presente de aniversário chegando pelos Correios no dia 31 deste mês por eu ter sido tão boazinha!
Xero
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