Nothing Can Get You Down
23 Capítulo Vinte e Dois
Notas iniciais
Desculpem-me por faze-las esperarem tanto por um capítulo, mas eu prometo que se eu ganhar na loteria, os capítulos serão semanais! (todo mundo no crossfingers por mim!)
Agradecer de coração a todas as reviews maravilhosas que eu recebo; seja uma crítica ou um elogio. Já disse e volto a afirmar que elas são meu combustível; Me inspiram a não perder o foco e continuar me dedicando a esse trabalho aqui.
À Luciana e a Renata... Melhor pre-reader e beta que qualquer autora poderia ter. Obrigada por lerem isso aqui, mesmo tendo que se esconder seja lá em qualquer parte do globo terreste! Amo vocês!
Bem, chega de blá-blá-blá e boa leitura!
Se gravidez era sinônimo de sonolência, essa premissa não se encaixava de forma alguma comigo.
Nas últimas duas noites, eu praticamente as passei em claro, apenas dormindo poucos minutos para logo em seguida ser acordada por conta de sonhos tão confusos quanto meu estado emocional. Imagens que se confundiam entre a realidade e a confusão, que em certo ponto eu não sabia mais definir se de fato isso teria acontecido ou se não passava de algo que minha mente tinha criado.
Como sempre, o personagem principal destes sonhos era Edward. Nos breves momentos de inconsciência que eu tive durante as últimas 48 horas, era sempre ele quem dominava cada pensamento meu, agindo de forma tão ambígua quanto na realidade. Ora ele era o homem frio e materialista que não media suas palavras ao me machucar; ora se tornava a pessoa doce e altruísta pela qual eu me apaixonei. Situações tão extremas que de forma alguma eu sabia lidar, nem mesmo quando estava em meu estado de latência.
Soltei um suspiro pesado e observei pela janela da cozinha a neve caindo com força do lado de fora. A brancura cercando o gramado e os galhos ressecados da macieira no quintal transmitiam a ideia de sossego que não sentia desde a última terça-feira. Desde a última vez que Edward me beijara.
Eu ainda podia sentir seus lábios intensos e carinhoso sobre os meus, deixando meus nervos em frangalhos com aquela atitude dele. Era inegável o quanto eu era atraída por ele, apesar de tudo o que houve entre nós dois nos últimos meses. As atitudes indiferentes, as acusações, as mentiras... tudo simplesmente desaparecia quando ele me tocava daquela forma única e tão dele.
Por um lado, eu queria odiar a mim mesma por ser tão fraca e acabar sempre cedendo aos encantos dele. Enquanto isso, uma parte de mim estava exultando de alegria por que ele estava mais do que disposto a me ter de volta em sua vida. Não tinha ideia ao certo se isso tudo me deixava pulando de alegria ou receosa, temendo que a qualquer momento, eu poderia receber outra punhalada inesperada, caso eu voltasse a confiar nele.
Havia tantas coisas a considerar... Ainda não acreditava que ele me enganara esse tempo todo em relação às nossas condições de casamento. Como ele poderia ter feito com que eu assinasse um pré-nupcial sem o meu consentimento e não se sentir nem um pouco culpado por conta disso? Tornar-me beneficiaria de algo que eu nunca desejei? Era no mínimo, imperdoável.
Talvez por isso que Anthony Masen nunca me olhou com bons olhos quando nos encontrávamos. Mesmo depois que Richie nasceu — e por mais que ele fosse louco por seu neto — seu pai nunca demonstrou nem um pouco de consideração por mim, me tratando como se eu fosse uma intrusa. Talvez, por acreditar que tivesse sido eu quem tivera exigido um acordo que me dava uma boa parte de sua empresa.
Outra coisa que eu não podia simplesmente ignorar era tudo aquilo que ele já dissera sobre Grace. Como eu poderia apagar da memória as formas como ele mencionara nossa menina? Doente, inválida, monstrinha... Era possível apagar da minha memória e relevar essas coisas? Será que eu poderia mesmo perdoar de todo coração e dar início a uma nova etapa, deixando de lado o que acontecera? Por mais que o amasse, eu seria capaz de tirar de minha memória as coisas que Edward disse e fez para nós duas?
– O que eu vou fazer agora? – murmurei em voz alta, observando a vastidão branca a minha frente.
– Ué, você vai sair de novo, mamãe? – Richie me questionou, seus olhos curiosos me observando com bastante atenção.
Sorri-lhe docemente e fiz sinal para que ele se aproximasse – Não vou não, docinho. Na verdade, eu só estava divagando em voz alta.
– O que é divagar? – Indagou, suas sobrancelhas se franzindo em curiosidade.
– Bem, – comecei, enquanto arrumava as mechas castanhas tão indisciplinadas quanto as do seu pai – divagar é a mesma coisa que pensar muito sobre alguma coisa. Era isso que eu estava fazendo agora há pouco; pensando na vida.
– Aah... E no que você tava pensando, mamãe?
Fitei suas orbes tão verdes iguais as de Edward e foi um tanto que desconcertante ver meu garotinho me fazer a mesma pergunta que seu pai fazia sempre. Fui até a cadeira mais próxima onde me sentei e da melhor forma que pude o trouxe para o meu colo. Sua expressão preocupada não se atenuou um segundo sequer, enquanto ele aguardava minha resposta.
– Estava pensando em nós. Sabe, em você, sua irmãzinha... seu pai.
– Ele vai vir mesmo hoje né, mamãe?
– É claro que vai, meu amor. — afirmei-lhe enquanto tentava ignorar o peso dele sobre minhas coxas — Ele te prometeu que virá quando vocês se falaram no telefone hoje de manhã, não foi?
Ele olhou cabisbaixo para a janela e soltando um suspiro pesado, murmurou baixinho — Mas tá nevando tanto lá fora...
– Hey, – interrompi-o, virando seu rosto gordinho em minha direção. – Se seu pai disse que virá, nada no mundo vai impedir que ele esteja aqui mais tarde, entendeu?
Apesar de tentar me mostrar enfática através de minhas palavras, isso não pareceu convencer muito o Richie, que manteve-se com uma expressão desacreditada. Provavelmente meu garotinho tinha perdido a fé em nós dois, já que ambos tínhamos errado tantas vezes seguidas com aquele menino que não fazia ideia das consequências disso tudo. Era inegável que ele estava mais introspectivo, menos confiante e muito mais arredio no colégio.
A única coisa pela qual agradecia era que ele não tinha mudado seus pensamentos em relação a sua irmãzinha, pelo contrário; a cada dia que se passava, Richie parecia se tornar mais protetor de Grace. Desde o Natal, não se passava mais um dia sequer sem que ele não abraçasse minha barriga ou se dirigisse diretamente a menina em meu ventre. Era palpável a relação de carinho que crescia a olhos vistos entre esses irmãos.
Passando a mão por cima de seu cabelo arrepiado, tentei deixá-lo um pouco mais animado – Eu tive uma ideia. Porque nós não vamos fazer sua tarefa de casa? Assim, quando seu pai estiver por aqui, vocês dois poderão passar mais tempo juntos. O que acha?
– Pode ser – ele disse dando de ombros.
– Então vamos lá, mocinho. – disse, enquanto o colocava de volta no chão e me levantava da cadeira. – Vamos ver se as questões de hoje estão tão fácies quanto as de ontem.
Aquilo finalmente pareceu esboçar alguma reação mais animada em meu filho – Tá sim, mamãe! – ele respondeu empolgado – Fazer o dever sobre a pré-história é moleza!
– É mesmo? – fazendo cosquinhas nas suas costelas antes de me dirigir até as escadas – vamos ver isso agora, meu homenzinho das cavernas!
Ele riu, e por um minuto reencontrei meu garotinho em sua risada esganiçada. E esse pequeno gesto dele me encheu de esperança de que talvez, tudo muito em breve pudesse voltar ao seu devido lugar.
Depois de terminarmos sua lição, forcei Richie a tomar um banho quente antes que a temperatura caísse ainda mais. Como qualquer outro menino na idade dele, passou alguns minutos tentando me enrolar, no entanto, consegui convencê-lo apesar de todas as suas caretas de contragosto.
Logo em seguida, nos enrolamos debaixo do edredom do meu quarto e ficamos brincando com alguns aplicativos do meu telefone até que finalmente ele acabou caindo num sono tranquilo, ressonando baixinho com a cabeça apoiada na curva da minha barriga.
Enquanto o olhava ao meu lado na cama, não pude deixar de invejar um pouquinho por conta da facilidade com que ele adormeceu. Invés de seguir seu exemplo, acabei pensando outra vez as últimas atitudes que eu tinha tomado, em relação a Masen and Lawyers. Eu havia mesmo tomado a decisão correta? Tinha me precipitado? E se de alguma forma a minha atitude impulsiva tinha o prejudicado de alguma maneira?
Não tinha a mínima noção do que poderia ter ocorrido nesses últimos dois dias em relação à empresa. Nas duas ou três últimas conversas que tive com Edward, o tema nunca veio à tona; era como se eu nunca tivesse feito acordo algum com Aro, Caius e Tanya. Com o passar do tempo, a curiosidade estava me consumindo para saber qual foi o desfecho que a minha atitude teria causado a todos envolvidos no mundo jurídico que meu falecido sogro havia criado dentro daquele prédio imenso, bem no coração de Chicago.
Olhei de relance para o telefone pousado no criado-mudo e mordi meu lábio em hesitação. Eu poderia ligar para Lauren e perguntar como tudo estava saindo até agora, contudo, decidi esquecer essa hipótese imediatamente; ela ainda era uma pessoa que não me passava segurança. Isso sem contar que ao falar com ela, estaria mais uma vez fazendo algo pelas costas de Edward, e definitivamente, isso não era uma sensação tão boa quanto imaginava.
Outra pessoa para quem eu poderia ligar era Jasper: a essa altura do campeonato, Edward já devia ter descoberto que fora ele quem me dera todas as instruções de como proceder. Afinal, ele era a única pessoa além do meu marido que conhecia alguma coisa sobre Direito. Podia apostar qualquer coisa que ambos já tinham brigado feio nesse ponto. Só podia torcer para que Jasper tivesse relevado todas as acusações que Edward provavelmente fizera..
Por falar em discussões, eu não pude deixar de lembrar que eu mesma estava intrigada com outro membro daquela família. Alice tinha tentado fazer com que eu não agisse de forma tão impulsiva, entretanto, ofuscada pela raiva agi sem nem pensar duas vezes. Mas, mesmo que eu insistisse que tinha feito a coisa correta, não pude deixar de me sentir mal por ter falando tão asperamente com alguém que eu conhecia por toda minha vida. Eu lhe devia um pedido de desculpas por tudo que havia dito para ela. E com isso em mente, arrisquei-me a puxar o telefone da base e discar o número de seu celular.
– Ora, ora! Já não era hora de você ter me ligado, Bella! – ela disse, assim que atendeu ao seu telefone, – Nós não estamos mais no sexto ano faz um bom tempo para ficarmos com raivinha uma da outra!
– Olá para você também, Allie. – murmurei, sentindo um meio sorriso surgir em meus lábios. – Como você está?
– Estou indo, mas supondo que minha melhor amiga está me ligando para pedir desculpas por ser uma anta teimosa, creio que as coisas irão ficar bem melhores.
E com esse seu comentário, eu não pude deixar de rir — Bem, você está apostando alto, senhorita Cullen.
– Admita, Bella. – ela sibilou cheia de certeza – Basta apenas você dizer "eu estava errada e cometi uma tremenda burrice, me desculpe por ter sido uma tremenda imbecil com você."
– Eu tenho que concordar plenamente com a segunda parte do seu discurso, Alice. – comentei, enquanto me levantava e ia até janela do quarto, para evitar um pouco a claridade que a neve refletia. – eu fui uma completa idiota e ter descontado toda minha raiva em você durante nossa última conversa. Desculpe-me de verdade por isso. No entanto, eu ainda acho que fiz a coisa certa em relação à empresa.
Através da ligação, eu pude ouvir nitidamente que ela soltou um suspiro pesado antes de dizer – É lógico que você ainda continua sem um pingo de juízo em relação a isso...
– Alice, ele mentiu para mim! – afirmei de forma exasperada – ele me enganou durante todos esses anos de casamento! Você acha isso justo?
– Bella, ele fez isso para te proteger! Você não entende que tudo o que ele quis foi dar conforto para você e o Richie?
Balancei a cabeça negativamente, apesar de que ela nunca poderia ver meu gesto – E por que ele não me contou depois? Por que ele tinha que fazer isso escondido de mim?
– Simplesmente porque você é a mulher mais teimosa do mundo! – ela ralhou em um tom exacerbado – Edward sabia desde o princípio que você não iria aceitar essa proposta. E ele precisava ter certeza que você e Richie estariam bem se algo acontecesse com ele.
– Eu ainda acho que ele desrespeitou minhas vontades e mentiu para mim. – rebati magoada – O pai dele morreu achando que eu era mesmo uma golpista interesseira.
– Foda-se o que meu tio achava, Bella! Tente entender que ele a enganou para o seu próprio bem!
- E por que ele nunca me contou sobre isso? Ele poderia muito bem ter me falado!
Ela bufou – Você reagiria da mesma maneira que agora; dramática ao extremo!
Nós ficamos em silêncio depois disso. Eu tinha que admitir para mim mesma que o que ela havia dito era verdade. Não importa que a situação de nosso casamento fosse completamente diferente; eu reagiria exatamente da mesma maneira. A dura realidade de saber que seu matrimônio estava alicerçado em uma mentira me machucava absolutamente.
– Não entendo a razão de ele ter feito isso, Alice – murmurei com uma voz pequena.
Ela suspirou profundamente e logo em seguida falou – Ele fez isso porque aquele homem é louco por você. Apesar de ele ser um tonto estúpido 99% do tempo, ele te ama mais do que a própria vida.
– Eu não sei. – sibilei, olhando de soslaio para o primeiro fruto da nossa união, dormindo pesadamente sobre minha cama – Ele mudou tanto... nós dois mudamos tanto...
– Bella, me responda com toda sinceridade do mundo; você ainda o ama?
Sua pergunta aplicada tão repentinamente me fez recuar por um segundo. Se eu ainda amava Edward? Com toda força do meu ser. Não podia negar nunca o sentimento que existia dentro de mim por ele, principalmente depois do beijo da última noite. No entanto, minha razão lembrava-me o tempo todo que eu não poderia alimentar essa sensação quando ele não respeitava minhas decisões.
Isso sem contar que existia o mais primordial; a questão de Grace. Que tipo de mãe eu seria se me permitisse amar um homem que admitiu nunca ser incapaz de criar sentimentos pela própria filha? Que a usava de uma forma baixa somente com o intuito de nos reaproximarmos?
Quando expliquei tudo isso para Alice, ela apenas respirou profundamente antes de proferir as próximas palavras. – Eu te entendo, Bella. Juro que lhe compreendo e que você tem todas as razões do mundo para que se sinta dessa forma. Porém, eu preciso te perguntar uma coisa e eu espero de coração que você não fique magoada comigo, ok?
– Tudo bem. – retruquei baixinho enquanto fungava.
– Você já se colocou no lugar dele, Bella? Já parou para pensar e tentar compreender quais são os motivos que levam o Edward a agir desta maneira?
– Não existe explicação, Allie. Ele nunca irá aceitar a Grace da forma que ela é. E eu não posso concordar com isso nunca.
– Bella, querida –, ela começou, usando um tom maternal comigo que muitas vezes me irritava – você já parou para pensar que tudo isso do Edward não passa de medo?
– Medo de que, Alice? – indaguei contrariada – Não existem motivos para que ele se sinta dessa maneira.
No instante que eu terminei de dizer isso, ela saiu em defesa do seu primo – Como não, Isabella? Vocês serão pais de uma garotinha que será considerada doente por grande parte das pessoas. Que menos de um por cento de toda população americana têm essa anomalia? – ela fez uma pausa para respirar e voltou a dizer — Se você o visse depois que a Esme conversou com ele... o quanto isso foi importante...
– Você está enganada — interrompi-a abruptamente – ele veio falar comigo depois que falou com sua mãe. Ele estava tão transtornado que achava que a culpa era dele pela Grace vir ao mundo desta maneira.
– E você não se sentiria da mesma forma, se acaso isso tivesse acontecido do seu lado da família? – ao não obter nenhuma resposta imediata de minha parte, ela continuou – Bella, a Síndrome de Down, até uns meses atrás, era algo que você mesma considerava uma anomalia. Não é tão fácil para alguém quebrar esses paradigmas da noite para o dia.
– Eu sei, Allie e até entendo o seu ponto de vista. – suspirei, recostando minha testa contra a cortina que cobria a janela – Só que o Edward em momento algum mostrou um pingo sequer de afeto sincero por minha menina...
– Olha, eu ainda não sou mãe nem nada, mas já ouvi muitas pessoas dizendo que nós mulheres criamos um vínculo muito maior com o bebê. – ela explicou toda sem jeito – Como somos nós que temos o poder de gera-los, nós acabamos amando e protegendo nossos filhos ainda no ventre. Para o pai é diferente; acho que eles só caem na real quando seguram o bebezinho nos braços.
Balancei minha cabeça negativamente – Eu não acredito muito nisso. Edward passava horas falando com a minha barriga quando estava grávida do Richie.
– Ok, já vi que não terá jeito de te convencer ao contrário – ela resmungou em derrota. – Mas eu continuo acreditando no que a minha mãe disse sobre ele. Que quando Edward segurar a bebê no colo, ele vai mudar completamente de opinião sobre ela.
– Eu espero do fundo do meu coração que vocês duas estejam certas. – comentei, quase como se fosse uma oração – Acho que somente dessa maneira é que eu poderei aceitá-lo de volta em minha vida.
– Tenha fé nisso, Bells. – disse ela por fim – Eu amo você, sua mula empacada e teimosa.
Sorri levemente em resposta – Eu também te amo, sua anã irritante e sempre dona da razão.
Ao desligar o telefone, me senti muito mais leve – mesmo que meu corpo inchado provasse o contrário. Não ficaria bem comigo mesma até que tivesse essa conversa com Alice. Nós duas éramos assim desde a infância. Discutíamos e brigávamos, mas nunca conseguíamos passar muito tempo afastadas uma da outra. Ela sempre fora a pessoa que eu recorrera em todas as minhas dúvidas; a ouvinte e conselheira perfeita quando eu precisava de algum conselho. Allie era a irmã que os meus pai nunca me deram.
Voltei até a cama, onde me deitei e fiquei observando o sono pesado que Richie se encontrava. Fiquei admirando o meu garotinho que a cada dia que se passava, ficava mais parecido com o pai. Apesar de seu rostinho ainda ser bastante redondo e infantil, poderia apostar qualquer coisa que ele herdaria o maxilar forte que Edward possuía. As sobrancelhas espessas e os cílios fartos que emolduravam as íris verde-esmeralda. Com certeza ele seria a réplica perfeita de Edward, apenas com o toque castanhos do meus cabelos.
Enquanto observava meu garoto, não pude deixar de pensar em como iria ser a minha menininha... Lógico, vai haver alguns traços que serão tipicamente relacionados a síndrome, como os olhos amendoados e a boquinha pequena. Porém, o que eu me perguntava era sobre os atributos físicos; quais sinais ela revelaria ter que se parecessem comigo ou com Edward. Grace herdaria o mesmo tom profundo dos olhos, assim como seu irmão? Teria cabelos cor de mogno ou ela seria abençoada pelo tom ruivo que eu sempre achei tão lindo?
Tudo isso estava bastante próximo de ser descoberto; se tudo ocorresse como o previsto, a chegada de minha menina ocorreria em meados de Fevereiro e todas as minhas dúvidas seriam sanadas. Mal esperava a hora de finalmente ter a minha princezinha em meu colo, onde poderia finalmente alimentá-la e cuida-la pelo resto de minha vida.
Minhas pálpebras foram ficando pesadas na medida em que tentava imaginar a forma que Edward reagiria quando visse nossa filha. Por um momento, me permitir idealizá-lo ansiando por Grace, colocando-a no colo e beijando longamente sua testa delicada. Uma fantasia tão perfeita, que nem os melhores sonhos poderiam repeti-la.
E foi com essa imagem, a de Edward sendo um verdadeiro pai para Grace, que acabei caindo em um sono profundo, como há muito tempo já não experimentava.
[...]
Eu me encontrava em um estado semialerta quando um som melódico e insistente invadiu minha mente. O barulho persistente era um tanto que familiar, no entanto não conseguia de imediato reconhecer o que era. De certa forma, esse zumbido estava começando a me fazer voltar para a realidade.
Foi então que as mãozinha de Richie começaram a me balançar pelo ombro – Mamãe, acorda. A campainha tá tocando.
Pisquei lentamente, e a primeira coisa que eu notei foi o quão escuro estava o quarto. Tinha acabado dormido tanto que o dia já anoitecera e nem tinha me dado conta disto. Peguei meu celular que estava pousado ao meu lado e tomei um susto ao ver o quão avançada estava a hora.
Com dificuldade, levantei-me da cama ao mesmo tempo em que a campainha, o som que me despertara inicialmente, tocava outra vez.
– Quer que eu vá atender, mamãe? – meu filho questionou, com a carinha tão enrugada quanto a minha.
Balancei minha cabeça negativamente. – Não, docinho, eu posso fazer isso. Porque você não vai até o seu quarto e troca de roupa? Sei pai pode chegar a qualquer minuto.
Ele assentiu e saiu em disparada até o seu quarto enquanto eu me dirigia até o andar inferior. Cruzei os braços sobre o meu corpo, sentindo que o aquecedor não estava esquentando o suficiente, e não conseguia me lembrar da última vez em que precisei colocar a temperatura no máximo. Definitivamente, Chicago estava enfrentando um dos invernos mais rigorosos dos últimos tempos.
O toque da campainha continuava insistente e eu resmunguei alguma coisa em troca, afirmando que já estava indo. Não fazia ideia de quem seria o visitante, uma vez que não aguardava a presença de ninguém além de Edward em nossa casa.
Então, imagine qual foi a minha surpresa ao destrancar a porta e me deparar com o próprio Edward, trêmulo de frio na varanda de nossa casa.
– O que diabos você está fazendo congelando aí fora? – indaguei, abrindo espaço para que ele entrasse o quanto antes.
– N-não trouxe as chav-ves. E me-meu celular des-descarregou. – ele balbuciou enquanto eu pegava as sacolas que ele trazia em suas mãos. Encarei-o interrogativamente e ele me respondeu vacilante. – Jan-jantar.
Revirei os olhos e rapidamente comecei a desatar o seu sobretudo, já que suas mãos não estavam hábeis o suficiente naquela tarefa. – Há quanto tempo você está aí fora?
Ele deu de ombros e isso facilitou com que eu puxasse o casaco negro – Uns cin-cinco minutos, eu acho.
– Esse tempo todo nessa temperatura? – falei espantada – Por Deus, Edward, não é a toa que seus lábios estão azuis!
Apesar de todo frio que ele provavelmente sentia, sua boca se abriu em um discreto sorriso torto e ele disparou sugestivamente – Eu sei um je-jeito de fazer com que eles ao normal –, e com isso, se inclinou em direção ao meu rosto.
– Não seja ridículo. – retruquei, impedindo-o pelos ombros que se aproximasse, mesmo que meu coração estivesse disparado em meu peito. – Acho que ainda tem algum agasalho e um jeans perdido seu lá no armário. Retire essas roupas e tome um banho, o mais quente que puder. Se não fizer isso agora, vai acabar tendo uma hipotermia ou algo assim.
Ele rolou os olhos antes de bater continência, como sempre fazia quando me considerava muito mandona. – Sim, senhora. – e assim, ele deu as costas e começou a subir vagarosamente os degraus da escada.
Tentei esconder um sorriso, mas foi impossível deixa de fazer isso, principalmente depois que escutei o grito entusiasmado de Richie ao encontrar seu pai. Há muito tempo já não sentia essa sensação de normalidade; como se tudo estivesse no seu devido lugar com a presença de Edward neste lugar.
Suspirei pesadamente e fui até a cozinha organizar as compras que ele tinha trazido da mercearia de produtos naturais; estranhei a quantidade de hortaliças, massas integrais e queijos magros, no entanto não reclamei e comecei a preparar algo saudável. Afinal, eu tinha que admitir que precisava ficar mais de olho no que eu vinha comendo ultimamente. O ganho de peso no final da gravidez era a última coisa que eu necessitava agora.
Coloquei a água para ferver e comecei a picar as verduras para o molho. A ideia para nosso jantar tinha vindo rapidamente logo após ter visto todos os ingredientes: espaguete com molho de tomate e salada de rúcula e mozzarella de búfala. Podia não ser a refeição mais suculenta do mundo, porém era rápido e fácil de fazer.
Menos de cinco minutos depois, Richie chegou na cozinha muito mais sorridente do que algumas horas atrás. Era inegável que seu humor havia se alterado tanto devido à presença de Edward nessa casa. Como mágica, meu menino se tornou muito mais falante, curioso e irrequieto, agindo exatamente da maneira com que eu estava acostumada. E como se já não bastasse, o comportamento feliz de meu filho só fazia aumentar exponencialmente o conflito dentro de mim.
O que fazer agora? Essa era a pergunta mais premente em minha cabeça. Como lidar com tantas coisas ao mesmo tempo? Será que estava mesmo disposta a reconsiderar tudo e lhe dar mais uma chance, como ele mesmo sugerira? E quanto ao Richie? Nós já tivemos "a conversa" com ele sobre nosso divórcio... Como ele ficaria se acaso Edward e eu acabássemos voltando? Nós dois poderíamos acabar passando por dois mentirosos...
E a coisa mais importante a se considerar: qual seria o comportamento de Edward uma vez que a Grace estivesse em nossa casa? Com toda certeza eu me sentiria ainda pior se o visse ignorando nossa bebêzinha da mesma forma que ocorrera nesses últimos meses. Com certeza, não podia de forma alguma suportar esse tipo de atitude.
– Porque você tá de novo tão calada, mamãe? – Richie perguntou de repente, ao mesmo tempo em que beliscava uns pedaços de queijo em cima da mesa.
– Não é nada importante, filhote. – sorri-lhe brevemente – Coisas de gente grande.
Ele revirou os olhos enquanto roubava outro pedacinho de mozzarella – Vocês adultos pensam demais...
– Sim, Richie... e as vezes eu não gosto nada disso, sabia?
– Ué? Então é só não ficar pensando tanto! – ele concluiu, como se isso fosse a coisa mais fácil do mundo.
Quando eu pensei em revidar, fui interrompida por Edward entrando na cozinha e dizendo – Não se preocupe, campeão. Sua mãe gosta de pensar bastante, porque ela sempre acerta nas decisões que ela toma.
Ao escutar aquilo, virei-me em sua direção com uma das sobrancelhas erguidas. Ele apenas deu de ombros, caminhando em minha direção com cabelo ainda todo molhado do banho. Ao se aproximar de mim, fui tomada pelo cheiro de sua pele recém lavada pelo sabonete que ele havia esquecido no banheiro. Fiquei momentaneamente tonta por sua presença, e ele se aproveitou disso para tomar a faca que ainda estava em minhas mãos.
- Porque você não me deixa assumir daqui? – ele sugeriu com uma voz suave, trocando seu lugar pelo meu diante do balcão.
Depois do que pareceu ser uma eternidade, finalmente eu disparei – Você... cozinhando?
– Para tudo existe uma primeira vez. E qualquer coisa, meu amigão aqui pode me ajudar, não é mesmo, Richie?
Richie balançou veementemente a cabeça no mesmo instante em que se prontificava a ficar ao lado de Edward – O que é para eu fazer, pai?
Edward olhou em volta por um momento e pediu – Pode pegar aquele pacote de macarrão ali, campeão?
Nosso filho prontamente atendeu seu pedido, indo até a mesa e pegando o que lhe foi solicitado. Por um instante, era como se eu não existisse mais ali. – Vocês dois tem certeza disso? – Indaguei, ainda em dúvida do que ambos poderiam aprontar em minha cozinha.
Edward apenas sorriu, enquanto jogava a massa na panela com a água fervente. – Não se preocupe, baby. Nós não vamos explodir nada.
Tentei ignorar a forma com que todo o meu ser se aqueceu quando ele me chamou de baby outra vez. Senti o rubor em minhas bochechas, contudo ignorei-o e lhe perguntei — Certo... e o que eu devo fazer nesse meio tempo?
– Porque você não aproveita para descansar um pouco? – ele indicou, olhando de relance para os meus pés inchados. – Parece que você está precisando se esticar um pouco.
Quando abrir a boca para protestar, fui interrompida por meu filho, me empurrando levemente para fora daquele local. – É, mamãe! Vai pro sofá um pouquinho, vai? A gente te chama quando tiver tudo pronto.
A contragosto, me vi sendo arrastada até sala de TV, onde Richie esperou até que eu estivesse sentada no sofá para ligar o televisor e me deixar um beijo na bochecha antes de partir. Tentei me concentrar no que se passava no telejornal, porém as risadas abafadas vindo da cozinha chamavam muito mais a minha atenção. Foi difícil resistir a vontade de voltar até lá e ficar apenas observando os dois interagindo, brincando e rindo... Coisas que eu estava morrendo de saudade de vê-los fazer.
Não demorou muito até que meu filho voltasse até onde eu me encontrava, só que desta vez com uma toalha de mão pendurada em um dos braços. Ele parou bem a minha frente e fez uma mesura antes de falar — O jantar já está na mesa, madame.
– Obrigada, meu cavalheiro. – respondi-lhe, enquanto ele me oferecia sua mão minha para me ajudar a levantar, mesmo que isso não fizesse lá muita diferença. – Então, o que foi que vocês dois acabaram fazendo, huh?
– É surpresa! – ele anunciou, puxando com dificuldade uma das cadeiras da sala de jantar.
– Nós só continuamos o que você começou. – Edward disse ao entrar na sala, trazendo em suas mãos a travessa com a massa lotada de um molho que parecia bastante apetitoso – Espero que você goste.
Sorri-lhe discretamente enquanto cada um deles vinha se sentar ao meu lado. – Obrigada.
Richie e ele trocaram um olhar travesso enquanto começaram a se servir do espaguete. Franzi o cenho para ambos e a única resposta que obtive foram mais risadinhas abafadas de meu filho enquanto Edward dava de ombros.
– Ok, o que é que tem nessa comida? – disparei, começando a me sentir cismada. – Vocês dois colocaram algum remédio ou algo assim aqui dentro.
Edward fingiu uma falsa surpresa ao agir teatralmente e dizer – Mas é claro que não, Bella! Por que você pensaria algo assim?
– Richard Andrew Masen... – ralhei, tentando arrancar dele alguma dica – o que é que tem aqui dentro?
– Nada, mamãe. – e com isso, voltou a sorrir alto olhando para o seu pai que agora já não conseguia mais disfarçar seu próprio sorriso.
Estreitei meus olhos para ambos, porém, sabia que não podia mais protelar para ingerir o meu jantar. Desconfiada, dei uma pequena garfada e com muita cautela o levei até a boca, no entanto, não demorou muito até descobrir qual era o grande problema ali.
– Vocês esqueceram o sal, meninos. – comentei, fazendo uma careta.
O cenho de Edward franziu, mas eu sabia que isso era puro fingimento. — Esquecemos? Tem certeza disso?
– E claro que sim! O molho está praticamente doce. – retruquei, cutucando a massa sem vontade alguma.
– Eu acho que não, mamãe... – Richie murmurou, tentando imitar a expressão cínica de seu pai, sem muito sucesso – Pra mim tá tudo muito gostoso né, papai?
– Eu também acho, amigão. – Ele concordou, servindo-me um pouco de suco de laranja – Talvez seja você que esteja comendo muito sal, Bella.
– Eu não estou fazendo isso...
Ele olhou de relance para o Richie e quando me fitou de volta notei que sua expressão estava um tanto que aflita enquanto ele sibilava — Bem, depois do que aconteceu no Natal, talvez seja melhor que você pegue um pouco mais leve.
Por não sei quanto tempo, fiquei observando seu pedido implícito através desse pequeno gesto. Estava claro para mim que Edward estava preocupado com a minha saúde desde que fiquei internada por causa da alta da pressão. Essa atitude minúscula dele me fez perceber que ele estava querendo me alertar, de uma forma que não chamasse tanto a atenção de Richie em relação a gravidade do que acontecera no último mês. Com o coração aquecido, lhe lancei um assenti discretamente e evitei ao máximo fazer careta quando levei mais uma vez o garfo à boca.
O sorriso dele que recebi em troca foi o maior que vi em muito e muito tempo.
Depois disso, o jantar transcorreu sem muitas palavras de minha parte. Preferi ficar apenas vendo os dois interagirem, tagarelando sobre coisas banais como videogames e as travessuras que os seus colegas de colégio estavam aprontando. Era quase que um calmante ouvi-los falando daquela maneira, quase como se a nossa rotina não tivesse mudado nada desde que engravidei.
Contudo, não pude deixar de prestar um pouco mais de atenção quando o Richie inquiriu sobre o trabalho de Edward.
– Eu vou ficar de férias por um tempo, amigão. – Edward respondeu, ao mesmo tempo em que afastava o prato já vazio. – Não vou precisar ir até a empresa por um bom tempo.
Minha curiosidade tirou o melhor de mim e não resisti em perguntar – Isso quer dizer que deu tudo certo, então?
– De certa forma, acho que sim. – ele respondeu com uma careta – O que você fez, acabou facilitando as coisas para mim, mesmo que tudo não tenha saído como eu gostaria.
– Então, você está finalmente livre? – indaguei, sentindo um sorriso se formar em meus lábios.
– Sim. Mas isso não significa que está tudo resolvido entre nós. – ele disparou, olhando-me seriamente – Nós temos certos pontos para acertar.
Antes que eu pudesse revidar, Richard nos interrompeu. – Vocês não vão brigar agora, não é?
– Não, Richie. – nós dois dissemos em uníssono e acabamos rindo um para o outro. – Juro que hoje nós não vamos fazer isso, docinho, – garanti, acarinhando levemente seu cabelo.
Nosso filho nos mostrou um sorriso sem graça, onde pude perceber em seus olhos que ele temia a maneira que essa noite poderia acabar. Senti-me péssima pelo fato do meu menino não ter mais a segurança que ele precisava na nossa presença. Nós poderíamos ter nossas desavenças, mas isso nunca poderia ter ocorrido na presença de Richie. Foi um erro que tanto eu quanto Edward havíamos cometido e que só poderia ser corrigido se parássemos definitivamente com as discussões na frente dele.
Edward limpou a garganta e uma vez que todos nós já tínhamos acabado o jantar, começou a retirar os pratos da mesa. Fiz menção a ajudá-lo, porém, ele me interrompeu — Pode deixar que eu termino tudo.
– Eu te ajudo. – ofereci, me levantando e começando a juntar algumas travessas.
Edward balançou a cabeça negativamente. – Não, Bella. Eu faço questão arrumar tudo isso. Sem contar que se você entrar agora na cozinha, provavelmente terá um infarto por conta da bagunça que eu deixei por lá.
– Você falando dessa maneira, eu até tenho medo do que eu posso encontrar.
Ele sorriu meu sorriso torto em resposta e sugeriu. – Por que vocês dois não escolhem algum filme enquanto eu termino tudo por aqui? Prometo que não vou demorar muito.
– Tem certeza?
Edward assentiu e Richie rolou os olhos, pegando minha mão e começando a me puxar – Vamos logo, mamãe ou então ele vai fazer a gente lavar tudo com ele.
Eu ri e me deixei ser levada por meu filho, que só ficou satisfeito quando eu me sentei outra vez no sofá. Richie começou a fuçar alguns filmes nas prateleiras, me mostrando todas as capas só para saber a minha opinião sobre cada um deles. Nesse meio tempo, acabamos escolhendo um filme sobre uns robôs falantes, que eu mesma já tinha perdido a quantidade de vezes em que tinha visto aquele desenho.
Richie veio se sentar ao meu lado e pousou sua cabeça em cima de minha barriga, começamos a ver os primeiros trailers. Ao tentar me acomodar melhor nas almofadas muito fofas, Grace fez um movimento bastante brusco dentro de mim, retirando meu fôlego momentaneamente.
Imediatamente, meu filho levantou o rosto para me encarar com preocupação. – O que foi isso, mamãe?
– Acho que sua irmã acabou de acordar... – sibilei, sentindo os constantes movimentos do bebê dentro de mim. – E acho que.. ouch!... ela quer brincar um pouquinho.
Richei espalmou as mãos em minhas costelas e falou diretamente para minha barriga. – Agora não, maninha! A mamãe vai assistir o filme comigo e com o papai, tá bom?
Em resposta, minha barriga sacolejou ainda mais com o toque de meu filho e eu soltei uma risada esganiçada quase sem fôlego tamanha tenacidade que Grace se movimentava dentro de mim. Ela geralmente era muito mais calminha e vagarosa quando se mexia, no entanto, essa noite ela parecia mesmo a fim de se divertir ao lado do irmão.
O televisor logo foi esquecido e toda atenção de meu filho se voltou para a carga preciosa em meu ventre — que quanto mais atenção recebia, mais agitava se tornava. Richie puxou a bata que usava até a altura do meu busto, deixando ainda mais nítido o que Grace fazia dentro de mim. Bastava uma risada de Richie para que os chutes dela se tornassem mais intensos, fazendo com que meu filho acabasse gargalhando ainda mais alto. Era quase um círculo vicioso que de modo algum tinha vontade de abandoná-lo, mesmo que isso me causasse um certo incômodo no baixo ventre..
De repente, foi como se um imã fizesse com que eu virasse minha face em direção à entrada da sala. Ali, encontrei Edward observando a cena com uma expressão indecifrável em seu rosto. E para completar, daquela posição, ele tinha uma vista privilegiada de tudo o que ocorria ali no sofá. Não desviei meus olhos do rosto dele, enquanto lentamente se aproximava, fitando fixamente minha barriga.
Contudo, não estava preparada de maneira alguma para o que ele fez em seguida. Sem cerimônia alguma, Edward imitou o gesto de Richie e colocou uma de suas mãos bem próxima ao meu umbigo.
– Será que... – ele murmurou para si mesmo, sem deixar de analisar e acariciar levemente a protuberância que carregava nossa filha.
O choque pela atitude dele nem me permitiu apreciar ao certo o formigamento que sua palma fez ao entrar em contato em minha pele. Fiquei tão sem reação com aquele gesto que não soube nem ao certo como reagir diante daquilo.
Seu cenho começou a franzir ao mesmo tempo em que ele afagava um pouco mais a minha barriga. – Acho ela parou...
Foi então que esse simples comentário fez com que eu despertasse do transe momentâneo. Retirei sua mão dali e abaixei a blusa de qualquer jeito, me levantando apressadamente ao dizer – É claro que ela fez isso. Ela nem te conhece.
Automaticamente a expressão de Edward se transformou, quase como se eu tivesse lhe afligido fisicamente e eu me arrependi de minha grosseria. Mas, antes que eu mesma pudesse dizer alguma coisa, Richie em sua inocência comentou algo que só fez piorar mais ainda a situação.
– E agora vai ficar mais difícil da Grace te conhecer, papai... Você não tá mais morando com a gente.
Assisti Edward engolir em seco, sentando-se no mesmo lugar em que eu estava e afagando levemente a cabeça de Richie. – É, carinha, acho que você tem razão.
Não conseguindo mais ver nada devido a súbita vontade de chorar que me domou, balbuciei rapidamente – Eu... vou pegar suas roupas para secar.
– Você não vai mais ver o filme com a gente, mamãe? – Richie perguntou com uma carinha mais tristonha.
Eu... – balbuciei, ainda sem conseguir encara Edward – ...eu preciso resolver umas coisinhas, volto logo, ok? – e antes que ele se opusesse, fugi o mais rápido possível dali.
Subi as escadas o tão rápido quanto meu corpo permitia e ao chegar à porta do meu quarto, já sentia as lágrimas não derramadas ardendo em meus olhos. Tinha sido uma completa estúpida e irracional, falando coisas absurdas para alguém que só estava tentando à sua maneira começar a agir coerentemente.
Era exatamente como Alice comentara no telefone mais cedo; Edward talvez estivesse se esforçando para aceitar a situação, contudo era eu agora quem tinha me transformado na algoz insensível que só sabia rebater cada pequena atitude dele. Sentia-me a mais vil das criaturas ao perceber que de fato, tudo o que fazia era com o intuito de magoar o Edward, exatamente como ele tinha feito no início de minha gestação.
Não sei por quanto tempo fiquei observando suas roupas molhadas no chão e sentindo falta até dessa mania irritante dele. Havia chegado a hora de admitir para mim mesma que tudo relativo ao velho Edward me fazia uma falta tremenda. Queria mais do que tudo poder encontrá-lo de volta, no entanto a atitudes recentes dele me faziam temer uma reaproximação.
Meu medo não era apenas por mim; existiam duas pequenas pessoas que eu precisava levar em conta acima de tudo. Não sei como lidaria comigo mesma se visse Grace ou Richie sofrerem as consequências se acaso me envolvesse com o Edward outra vez. Tenho certeza de que não suportaria mais ver a tristeza estampada no rosto de meu filho ou se algum dia chegasse a ouvir outra vez tudo o que já escutei do meu marido em relação a nossa filha.
Enxuguei meu rosto, e peguei a pilha de roupas formada na entrada do banheiro. Permiti-me levar a camisa dele até meu nariz e aspirar seu cheiro ainda remanescente naquele traje, sentindo-me imediatamente envolvida com a segurança que isso costumava me trazer.
Resolvi voltar lá para baixo, porém passei longe da sala de estar já que ainda não tinha coragem de encarar qualquer um dos dois depois de minha pequena epifania. Enquanto seguia até a lavanderia, pude escutar a ocasional risada de Richard que graças a Deus, parecia esta alheio ao humor que tanto eu quanto seu pai nos encontrávamos.
Coloquei as roupas usadas de Edward na máquina de lavar e o seu sobretudo dentro da secadora. Enquanto mantinha minhas mãos ocupadas, minha mente não parava de pensar sobre Edward e eu e como ficaria nossa situação daqui para a frente.
A verdade era que mais do que nunca, eu precisava ter uma conversa verdadeira com ele. Tentar entender o que havia o levado a mentir para mim, me acusar e julgar devido as decisões que eu tomara sobre minha própria vida. Seria um diálogo de coração para coração e nem um de nós dois poderia interromper as observações que o outro necessitava fazer.
Havia chegado a hora de deixar de ser impulsiva, guardar rancores e resolver explodir de vez, agindo completamente pela emoção. Precisava ser coerente e agir com racionalidade dessa vez, se estava mesmo disposta a reaver minha decisão. Estava cansada de magoar e ser magoada; quem sabe essa seria a última oportunidade que eu teria para acertar tudo, antes que Grace chegasse ao mundo.
De certa forma, foi bom ter a oportunidade de refletir sobre tudo. Com certeza, Alice tinha aberto meus olhos através da conversa que tivemos logo cedo. Não podia mais agir como a dona da razão e entender que da mesma forma que ele havia me ferido, aprendi a machucá-lo também. Precisávamos do perdão um do outro para que tivéssemos a chance de algum dia voltar a sermos companheiros – em todos os sentidos desta palavra – mais uma vez.
Só percebi que passei muito tempo pensando quando notei que a secadora havia parado de funcionar. Retirei a peça pesada dali de dentro e a dobrei sobre meu antebraço, antes de voltar lá para dentro. Aspirei uma última vez e sorri comigo mesma quando notei que ainda era possível senti o perfume dele ali.
Caminhei devagar para dentro de casa e me deparei com Edward descendo as escadas e esticando a manga do agasalho até a altura do pulso. Senti meu coração se afundar um pouco ao perceber que isso era um sinal de que ele estava se preparando para ir embora.
– Você já vai? – indaguei estupidamente, enquanto ele descia o último degrau e ficava de frente para mim.
– Sim, antes que chegássemos na metade do filme, Richie acabou pegando no sono então eu resolvi levá-lo lá para cima.
Respirei fundo e antes que a coragem fugisse de mim, disparei – Olha, Edward me desculpe ter dito aquilo. Eu acho que...
– Não, Bella. – ele sussurrou, colocando um dedo sobre meus lábios. – Talvez não seja uma boa hora para falarmos sobre isso.
– Por que não? Nosso filho já está dormindo e...
– Eu ainda estou magoado, Bella. – disse, me interrompendo outra vez. – E receio que se formos falar sobre isso agora, vou acabar dizendo alguma merda e colocar em risco qualquer chance que eu tenha de me reaproximar de você.
Mordi meu lábio inferior e senti um aperto em meio peito ao escutá-lo dizer aquilo. Pior do que tomar consciência sozinha do tamanho de meu erro, era ter que vê-lo admitir em voz alta que eu tinha lhe machucado. Agindo completamente por impulso, fiz a única coisa que poderia ser feita uma vez que as palavras nesse momento nunca seriam suficientes; aproveitando a nossa proximidade, estiquei meus braços e o puxei para um abraço.
Ele nem sequer titubeou ao retribuir o gesto, me puxando forte contra o seu peito na medida em que eu fungava contra o blusão de moletom que ele usava. – Eu fui uma idiota... por favor, me perdoa, Edward.
- Shhh, tudo bem, baby – ele arrulhou, acariciando levemente as minhas costas – Se você vai começar a chorar só para que eu te desculpe, já pode se considerar perdoada.
Isso fez com que eu risse um pouquinho e ele deixasse um beijo em minha testa antes de se afastar por completo para comentar. – Eu preciso ir andando. Amanhã eu tenho uma última reunião com Tanya Denali para acertar os detalhes da transferência.
Assenti levemente e lhe entreguei sem jeito o seu casaco que ainda segurava. – Vista isso, acho que você vai precisar dele.
E assim ele o fez, colocando o vestuário clássico demais para alguém que usava jeans e um agasalho surrado. Acompanhei-o devagar até a saída, desejando internamente que eu não tivesse estragado uma noite que tinha tudo para ter sido absolutamente perfeita.
Assim que chegamos à porta de entrada, Edward virou-se em minha direção e colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha – Eu sei que falhei quando disse que você poderia ligar a qualquer minuto da última vez. Naquela noite se você tivesse me ligado, eu provavelmente não serviria para nada.
– Eu sei... você estava bêbado.
– Como você... – ele começou a perguntar, mas não demorou muito para concluir e praticamente grunhir – Lauren, não foi?
Dei de ombros, como se aquilo não fosse nada demais. – Não foi nada, Edward. Acho que todo mundo precisa de um porre de vez em quando...
– Mesmo assim eu não deveria ter feito isso. E se você ou o Richie tivessem precisado de mim?
Não quis lhe dizer que de fato eu tinha precisado dele naquela noite, apenas para não piorar ainda mais a situação, afinal, era perceptível que ele estava sofrendo por remorso. — Tudo bem, Edward, só não invente de exagerar no álcool essa noite também.
Ele me deu um sorriso pequeno – Não. Sem uísque algum desta vez.
Ficamos sem jeito um na frente do outro, então resolvi interromper o silêncio com mais uma pergunta, somente com o intuito de protelar um pouco mais a sua despedida. – Então, quando é que você virá ver o Richie de novo?
– Próximo sábado será o final de semana que terei livre em muito tempo. – disse, passando a mão entre os fios de cabelo – Eu estava pensando em levar vocês dois até Rockford e passarmos esses dias naquele hotel fazenda que você tanto gostou.
– Eu não sei. Está nevando muito nesses dias, talvez seja melhor ficarmos por perto. – murmurei, lembrando do quão coberto de gelo estava o quintal mais cedo.
Ele balançou a cabeça negativamente – Não precisa responder agora, baby. Na sexta, eu te ligo decidindo o que iremos fazer. Quem sabe o tempo melhore daqui até lá?
– Tudo bem. Qualquer coisa você me liga.
– A recíproca é verdadeira. – ele murmurou, dando um passo a frente para deixar um beijo demorado em minha testa. – Até mais, Bella.
No entanto, antes que eu conseguisse dizer algo em troca, Edward abriu a porta e um sopro gélido acometeu a nós dois. No mesmo instante, me encolhi de frio, cruzando os braços para diminuir o arrepio que a temperatura muito baixa causou.
– Merda... nós estamos no Alaska ou algo assim? – Edward resmungou, vendo o tapete de neve que havia se tornado o nosso jardim.
– Acho que desde que eu me mudei para cá, nunca vi uma nevasca tão rigorosa como a deste ano. – sibilei, encolhendo-me da maneira que podia atrás da porta.
Edward suspirou, retirando as chaves do bolso – Eu vou ter trabalho até conseguir tirar o carro daí. Vá lá para dentro, Bella. Eu me viro por aqui.
– Você não vai dirigir nessa estrada congelada, vai? – inquiri, segurando seu antebraço para impedi-lo de que ele fosse adiante.
– Eu preciso voltar para o hotel.
– Pode esquecer essa ideia estúpida! – disparei, puxando-o da melhor forma que pude de volta pra dentro da casa.
Ele apertou a ponte do nariz em frustação. – Bella, o que você quer que eu faça, então?
– Simples; você dorme aqui. – seus olhos se ampliaram e eu me apressei em adiantar – Afinal, não é como se não tivéssemos quartos extras sobrando.
Edward fez uma careta antes de voltar a falar – Nós não temos mais esse extra. O quarto de hóspedes ainda está uma bagunça desde que organizei o quarto da Grace.
– Ahhh... tem razão. – murmurei desapontada.
– Por falar nisso, me desculpe não ter lhe perguntado nada sobre a decoração. – comentou ele sem me encarar nos olhos – Pensei que seria uma surpresa agradável para você já que você disse que não queria nada muito rosa, se acaso tivéssemos uma menina... Vou pedir para que a decoradora venha até aqui amanhã para que vocês conversem sobre as novas cores.
– Não precisa mudar nada, Edward. O quarto dela está perfeito e obrigada de verdade por isso.
– Tem certeza? Você disse que odiou o roxo. – Ele questionou, ainda em dúvida.
– Não é roxo e sim lilás. Eu sou quem fui uma mal agradecida por ter falado daquela maneira. E está tudo muito lindo. Digno de uma princesa.
Ele sorriu – Ela é sua princesa, Bella. Então, merece o melhor.
Apesar de ver a sinceridade em seus olhos, não pude deixar de ficar desapontada pelo fato de Edward não ter se incluído naquela frase. Fomos nós dois que geramos Grace, e fora ele quem sempre sonhara em ter uma garotinha apenas para mimar. Ainda era triste que ele não podia reconhecer algo que estava tão próximo.
Mas, logo em seguida me lembrei de Alice me dizendo que ele estava tentando. Que seria difícil, mas que em breve, Edward conseguiria amar e aceitar nossa filha da maneira que ela era. Só bastava ter um pouco mais de paciência.
E pelo meu próprio bem, resolvi dar essa pequena chance a nós dois.
Ele sorria abertamente enquanto descalçava o mocassim e retirava outra vez o enorme casaco. – Então, acho que vou ter que ficar no sofá nesta noite, não é?
–Só espero que você não se incomode. — respondi, sem conseguir disfarçar o sorriso eminente em meus lábios. – Eu vou pegar o travesseiro e um cobertor para você.
– Talvez essa seja a primeira vez que vejo alguém tão feliz por ver o marido dormindo na sala. – comentou, sem conseguir esconder meu sorriso torto.
Nós dois acabamos rindo por conta desse comentário bobo dele, sem deixar de nos olhar até que a risada foi morrendo e sendo substituída pelo silêncio outra vez. Senti a pele de minha face esquentar e por isso, logo puxei a mão dele para a minha e lhe dava um leve aperto. –Obrigada por ficar, Edward.
Seus olhos arderam enquanto ele respondia de volta – Por você, eu ficaria para sempre.
Aquela atração que sentia sempre que estava ao redor dele pareceu triplicar de intensidade a medida que nos encarávamos por um longo momento. No entanto, precisava agir exatamente como disse que iria mais cedo; ser racional. E minha razão dizia que se eu seguisse o impulso de beijá-lo, talvez isso só complicaria ainda mais as coisas.
Mesmo que a contragosto, me obriguei a soltar sua mão e resolvi me afastar um pouco dele, precisando acalmar meus nervos antes que cometesse alguma besteira. No entanto, esse ato pareceu não contrariar Edward, que me olhou de uma forma que entendia muito bem qual era a intenção ao me afastar dele.
Entretanto, acho que nós dois sabíamos da importância daquele momento em nossa relação; e por menor que tivesse sido, esse foi o passo em direção a uma reconciliação. Provavelmente o primeiro de muitos, até que chegássemos ao patamar de respeito e amor incondicional um pelo outro.
E quem sabe até, essa não seria também a oportunidade de retirar o véu da ignorância que Edward tinha em relação à Síndrome de Down. Talvez, esse também fosse a chance que teria para que meu marido aceitasse completamente a nossa Grace.
O caminho será longo, mas a ideia de que dias melhores se estão se aproximando era a chama que manteria minha esperança acesa de agora em diante.
Notas finais
Será que passaremos das 500 reviews? Bem, estou aqui cruzando os dedinhos para que isso aconteça... Conto com a colaboração de vocês todas que acompanham essa fic, tá bom?
Dúvidas e /ou sugestões: twitter (linelis_) ou formspring ( lineliss).
Beijos e até a próxima
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