Nothing Can Get You Down
11 Capítulo Dez
Notas iniciais
Passando rapidinho para pedir que, por favor, leiam a N/A lá no finalzinho!
Agora, chega de falar, né? Vamos ao post que é o que interessa!
Ah, antes que eu esqueça: agradeço do fundo do meu coração a duas pessoinhas que me ajudaram demais com esse capítulo.
A primeira é a Renata Nunes, (arroba)Renata_Nunes que se disponibilizou a ser minha nova beta, apesar de já ter me ameaçado de morte... Negão, brigadão! Se um dia eu encontrar o Adam Levine eu peço a cueca dele pra tu!
A segunda é a Luciana (arroba)lumichelutti que tirou todas as minhas dúvidas relativas aos termos médicos de uma gravidez. Por causa dela gente, acho que quando eu ficar grávida, nem precisarei fazer pre-natal! Muitíssimo obrigada, Lu! Pode ter certeza de que lhe irei lhe aperriar muito!
Eu estava sentada na poltrona do escritório de Edward, rodeada por alguns documentos da empresa dele e pelo material que tinha recebido esta tarde no hospital. Não consegui deixar de lado o que poderia ser uma fonte de informação muito útil a partir de agora. E era por conta dessa minha busca intensa, por tudo relacionado à Síndrome de Down, que o computador a minha frente estava com uma página da Web aberta, mostrando um site de uma instituição para crianças atingidas por essa doença.
Não foi nenhum pouco difícil encontrar o site; uma rápida pesquisa no Google apontou que as principais páginas sobre o assunto haviam sido acessadas recentemente. Comprovei tal fato ao entrar no histórico e constatar que todas elas haviam sido abertas durante os últimos dias. Isso mais do que explicava todo o conhecimento que Edward tinha demonstrado mais cedo, durante minha última consulta médica.
Não sabia o que pensar em relação a isso; uma parte de mim sentia-se idiota e fraca por ter afundado em minha própria melancolia e não ter ficado ao lado de Edward enquanto ele fazia tais pesquisas. Por outro lado, tinha a sensação de que havia sido levemente traída, como se meu marido quisesse absorver todas as informações somente para si, devido a algum motivo que não podia explicar ao certo.
Enquanto aguardava que ele voltasse do banho, aproveitei aqueles minutos para absorver o máximo de informações que podia em minha mente, como uma forma de voltar atrás do tempo perdido. Queria aprender ao máximo, como se isso tivesse o poder de esclarecer todos os receios que me afligiam. Contudo, quando mais lia, mais confusa eu ficava. Estava cercada de dúvidas em relação ao que fazer daqui para frente com essa gravidez.
Podia até parecer um pouco hipócrita de minha parte, mas eu estava fazendo exatamente a mesma coisa que Edward pelo visto havia feito na noite passada. Embora pelo jeito, ele já estivesse com sua opinião formada em relação ao assunto, como comprovava a veemência que ele havia questionado a médica no consultório e pela atitude de ignorar quaisquer outras fontes ao jogar os informativos e as revistas no canto do hall.
Por alguma razão, não pude deixar de me sentir como se fosse uma garotinha que estava fazendo algo que não deveria. Era uma sensação estúpida, mesmo assim não conseguia evitá-la; Edward não era meu pai, e sim meu companheiro de vida, afinal de contas. Não é porque tinha dúvidas em relação ao futuro do bebê crescendo em meu ventre que eu seria julgada por ele. Sem contar que, nem era como se já estivéssemos discordando de algo: e mesmo que esse fosse o caso, nós éramos como qualquer outro casal que divergíamos de vez em quando.
Havia muito a ser debatido ainda entre nós dois. Como a Dra. Shelton havia afirmado, eu não poderia levar por menos uma decisão que afetaria minha vida em qualquer sentido. Seja ela de manter um bebê excepcional ou escolher pelo aborto. Decidir entre a solução menos dolorosa e a mais sensata. Só precisávamos discutir juntos os que faríamos em busca da melhor solução para nossa família.
Escutei o barulho da maçaneta sendo girada e levantei meu rosto na direção da porta. Edward apareceu usando uma regata e bermuda, descalço e com o cabelo ainda molhado do banho; seu traje típico de passar os finais de semana em casa. Mas o rosto, carregava o semblante pesado, como se estivesse prestes a entrar em mais um caso importante nos tribunais.
Meu coração descompassou um pouco quando ele afirmou seriamente: – Nós precisamos conversar Bella.
– Eu sei.
Ele se aproximou devagar e diferente do que imaginei não se sentou em uma das cadeiras que ficavam de frente a poltrona na qual eu estava sentada. Estendendo sua mão para mim, Edward me arrastou até o pequeno sofá que ficava perto da estante com meus livros. Sentando-nos um de frente para o outro, e apesar de estarmos próximos, ele permaneceu segurando minhas mãos, acariciando delicadamente meu pulso com seu polegar.
Depois de me encarar por um instante que pareceu imensurável, ele respirou fundo e começou – Eu acho que me precipitei hoje no hospital. Nós deveríamos ter falado sobre isso ontem à noite.
– Ontem eu não tinha condições alguma de discutir qualquer coisa. Na verdade, acho que ainda não tenho. – respondi, desviando meu rosto do intenso olhar de esmeralda dele.
– Só que nós precisamos, Bella. Você ainda está insegura porque não viu e nem leu as coisas que eu achei durante esses dias. Todas as outras doenças que vem acompanhada com a Síndrome, os problemas físicos, as questões de comportamento... isso quando esses... bem quando eles conseguem sobreviver além do primeiro ano. – como eu não fiz comentário algum, ele finalmente completou. – O melhor a fazer é nos livrarmos o quanto disto.
Suas palavras frias fizeram com que meu peito se apertasse e um pouco de raiva surgisse em mim por conta daquela atitude dele. Um desejo incoerente de querer proteger o que era meu fez com que eu me levantasse para me afastar dele.
– Você não pode dizer isso! Nem todos são assim, Edward!
– Bella, eu pesquisei...
– Ah, é? Bem, você não foi o único! – comentei usando o melhor do meu sarcasmo – Eu li o material que você excluiu quando chegamos em casa. Andei vendo agora na internet que alguns bebês com o certo incentivo podem realmente se desenvolver como qualquer outra criança!
Edward riu sem humor algum – Ok, então você sabe que além de serem retardados, eles tem mais de 50% deles tem chances de serem cardíacos, não é? Que têm baixa imunidade, tendências a ficarem cegos, sofrerem convulsões...
– Você está sendo pessimista Edward!
– Ah é? Pois bem, eu venho lendo sobre essa doença desde que você fez a porcaria do exame, Isabella! Fico feliz em ver que você aprendeu tudo nos 20 minutos que se deu a trabalho de procurar alguma coisa.
Eu não tive reação para as palavras deles. Em nenhuma outra discussão nossa ao longo de todo esse tempo juntos, Edward havia dito palavras que me machucassem tanto. O pior de tudo era que eu precisava admitir que tal comentário era a mais pura verdade. O conhecimento que Edward mostrou ter durante a última consulta comprovava que as poucas horas que eu havia passado lendo sobre o assunto eram medíocres diante do conhecimento dele.
Talvez, eu tivesse passado os últimos minutos pesquisando sobre a doença em uma mera tentativa de conseguir argumentos suficientes para comprovar para ele que não era necessário nos livrarmos do ser em meu ventre que eu já amava incondicionalmente. Como se eu me ater a todas essas fontes a fim de evitar desesperadamente um aborto.
Eu me sentia humilhada, frustrada, fraca... quis fugir para longe daquela sala, longe dele, no entanto a única coisa consegui fazer foi me encolher de volta no sofá e soluçar copiosamente. Demorou um pouco, mas senti o braço de Edward envolver os meus ombros. Eu quis afastá-lo, mas Edward além do fato de muito mais forte, eu também – de uma maneira estranha e totalmente masoquista – quis ser confortada por ele.
– Me desculpe, baby. Eu não devia ter dito isso. – ele murmurou com a voz áspera entre meus cabelos. – Bella, você mais do que ninguém sabe o quanto eu... queria esse filho.
Queria. O tempo passado não passou despercebido por mim.
– Não quer mais? – não consegui evitar de questionar.
Senti o movimento do seu peito quando tomou outra respiração profunda antes de falar. – Sinceramente? Não faço idéia, porque nunca me senti tão incapacitado em toda minha vida.
Ambos permanecemos calados com nossos próprios pensamentos. Por mais louco que seja eu me sentia reconfortada pelo fato de ele sentir algo parecido comigo. É como se eu estivesse de mãos atadas, sem poder fazer qualquer coisa que pudesse alterar nosso destino. A impotência de não poder fazer nada por meu bebê fazia com que uma frustração sem precedentes me domasse.
– A única coisa que tenho certeza é de que não podemos seguir em frente com essa gravidez, baby.
Minhas mãos se fecharam em punhos contra sua camiseta enquanto as lágrimas que eu tentei bravamente segurar desciam por minha face. – Não, Edward. Por favor...
– Bella, – sua voz tão embargada quanto a minha continuou. – Nós não podemos lidar com isso... é demais.
Ergui minha cabeça para fita-lo e não fiquei surpresa ao ver que em seus olhos havia lágrimas também. – Talvez não seja tão difícil assim. Eu li que com o estímulo certo, alguns deles podem ir para escola, serem independentes e...
Edward segurou meu rosto entre suas mãos. – Já pensei nisso tudo, Bella. Eu juro que refleti cada possibilidade. Nós não sabemos o quão... doente essa criança pode ser. Nós já tivemos o azar de sermos contemplados em uma chance em mais de duas mil. Não quero passar os próximos meses de minha vida lutando por algo que pode ser em vão.
Apesar de meu coração querer gritar que ele poderia estar errado, eu tinha que dá razão as palavras dele. Poderíamos colocar toda nossa energia e recursos por anos e anos e nada alteraria o estado no qual nosso filho iria nascer. Ele teria sempre Síndrome de Down. Seria sempre dependente de alguém.
– Eu acho... que você tem razão. – consegui balbuciar, mesmo que meu interior estivesse se destruindo com aquela admissão.
Edward me apertou com mais força – Eu sei que é difícil, Bella, mas sabe o que fez com que eu me decidisse por isso?
Balancei negativamente minha cabeça em seu tórax antes de ele finalmente completar seu raciocínio. – Foi por causa do Richie.
Afastei-me um pouco de seu abraço para poder fita-lo, ao notar minha expressão confusa, Edward continuou, – Eu pensei em se algo acontecesse conosco? Ou até mesmo quando morrermos... Será que é justo deixar nosso filho com o fardo de ter que cuidar para sempre de um irmão ou irmã deficiente?
Ponderei sobre aquilo por um instante, e para o meu completo terror consegui visualiza muito bem a cena. Um mundo onde Edward e eu já não existíssemos, com meu primogênito tendo a responsabilidade eterna de tomar conta de alguém. Como isso poderia afetar a vida dele no futuro? Seus estudos, seu trabalho ou quando ele mesmo quisesse construir sua própria família. Seria sensato deixá-lo com esse encargo eterno sobre suas costas?
E pior; Edward e eu não podíamos nos dar o luxo de dizer que éramos imortais. Tragédias poderiam acontecer... E se nós já não estivéssemos mais aqui enquanto nossos filhos ainda fossem crianças? Quem iria cuidar de duas crianças sendo uma delas excepcional? Meus pais, Charlie e Renee que ambos já haviam passado dos 50 anos? Os tios dele, que estavam na mesma situação? Alice, que simplesmente tinha pavor a construir sua própria família e sempre fugia das responsabilidades que havia dentro de um matrimônio?
Não, nem um deles merecia tal compromisso.
Meu peito se oprimiu quando dei por mim de que não havia mais escolhas. Por mais que aquilo me doesse à alma, precisava por um fim a um sonho que em tão pouco tempo mudou minha vida por completo. Eu receei, desejei, cuidei e amei alguém que nunca conseguiria por em meus braços por causa de uma piada cruel do destino.
Sendo assim, a razão me afirmava essa gravidez estava fadada ao fracasso, e que a melhor solução para seguirmos adiante com nossas vidas era por um fim o quanto antes nisso.
O único problema era convencer, completamente, o meu coração disto.
[...]
Eu não sei por quando tempo eu dormi, tampouco sabia dizer como foi que eu acabei vindo parar no em minha cama na noite passada. Tudo o que eu me lembro é de ter me agarrado ao Edward, e ter lamentado por tudo o que estava acontecendo conosco. Em algum ponto em meio a tantas lágrimas devo ter adormecido e acabei sendo carregada até aqui pelo meu marido.
Virei-me lentamente para que horas eram no despertador do criado-mudo. Mesmo sendo cedo, não pude deixar de perceber também que o lado de Edward da cama mais uma vez estava intocado, como se ele não tivesse dormido aqui novamente.
Confusa e sonolenta fui aos poucos tentando me levantar e na medida em que fazia isso, percebi o movimento da porta do banheiro de onde Edward saiu já todo vestido com um de seus usuais ternos escuros.
– Eu te acordei? – ele perguntou enquanto vinha se sentar ao meu lado na cama.
– Não. – engoli em seco ao sentir minha garganta arranhando, provavelmente por conta de toda carga emocional de ontem. Apesar de toda indiscutível beleza de Edward não pude deixar de notar as profundas olheiras sob seus olhos – Você dormiu?
Ele me lançou um sorriso cansado – Um pouco. E você conseguiu descansar?
Dei de ombros, evitando falar muito por conta do incômodo. Ele acariciou meu cabelo devagar e com a mão livre, empurrou levemente meu ombro fazendo com que eu me deitasse de novo sobre as cobertas.
– Talvez você devesse dormir mais um pouco. Richie não acordará nem tão cedo e eu preciso ir até o escritório o quanto antes. Deixei alguns processos pendentes e tenho que revisar tudo antes de Segunda.
Tentei me afastar dele, apesar de seu carinho ser tão reconfortante – Acho melhor não... E de qualquer forma, eu tenho que ir tomar minha vitamina pré-natal.
A expressão dele se franziu, intrigado. – Bella, qual é o ponto de continuar fazendo isso se nós... bem, você sabe.
A atitude indiferente dele fez em relação ao aborto com que minha apatia se transformasse em raiva. – Qual é o problema nisso? Esse bebê não está morto Edward e enquanto eu estiver grávida eu me sinto responsável por ele.
Ele pareceu surpreso com minha repentina hostilidade, no entanto se recuperou rapidamente.
– Tudo bem, Bella. – ele prosseguiu – Eu sei que nem conversamos sobre todos os detalhes ainda. Só estou preocupado, afinal você sabe que todos dizem que quando mais avançada a gravidez, mais complicado...
Não permiti que ele continuasse ao erguer minhas mãos no ar, – Não sou nenhuma estúpida, Edward. Apenas não estou preparada ainda. Eu preciso de um tempo para... aceitar tudo isso, entende?
Edward me encarou insondavelmente por longos segundos até que finalmente ele respirou fundo, inclinando-se sobre mim para deixar um beijo em minha testa. – Está bem, amor. Eu compreendo. Mas, por favor, não demore muito ok?
Assenti levemente – Juro que quando estiver pronta, você será o primeiro a saber.
Despedimos-nos, e como não havia chance alguma que eu voltasse a dormir, comecei a me preparar para o dia, tentando me manter ocupada o máximo possível para que eu não voltasse a pensar a decisão mais do que necessária que estava em minhas mãos a partir de agora.
Com meu filho ainda dormindo, comecei a fazer algumas coisas que já estava protelando há muito tempo, como ir até closet e juntar algumas peças de roupas que nem eu nem Edward usávamos mais. Em seguida, juntei todos os papéis velhos que estavam no fundo das gavetas e pus fim a toda àquela pequena pilha de inutilidade.
Não satisfeita, estendi essa vontade de me manter ocupada para o longo da casa. Arrumar a dispensa, organizar DVDs da sala de vídeo, limpar os móveis da sala de estar... Minha motivação em preencher o máximo possível o tempo ocioso fez com que acabasse convocando Richard para me ajudar com tudo.
Obviamente, usando as palavras certas e prometendo uma porção dupla de sobremesa no jantar, meu filho acabou por fazer tudo com muita animação, sempre preenchendo o silêncio com algum comentário engraçado ou com perguntas intermináveis – o que era ótimo para mim que não ansiava nem um pouco em ficar sozinha com meus pensamentos.
Quase no final da tarde, depois de um almoço via delivery, nós dois fomos até o quarto dele onde começamos a separar os brinquedos que ele já não usava mais. No meio da tarefa, Richie começou a ficar sonolento e absolutamente intragável como qualquer outra criança na idade dele. Para meu próprio bem, acabei colocando-o na cama, depois de termos colocado as caixas lotadas de velharias na garagem.
Enquanto meu garotinho tirava sua merecida soneca, não me restou muita coisa a fazer a não ser voltar para meu próprio dilema sobre manter ou não esta gravidez. Em busca de mais respostas fui outra vez para o pequeno escritório – cômodo que a todo custo tentei evitar durante meu súbito ataque de organização.
Tentei evitar olhar para o pequeno sofá, onde Edward e eu tivemos nossa conversa na noite passada. Não estava 100% convencida quanto ao aborto, mesmo que essa fosse a atitude mais prudente a se fazer, uma vez que não havia cirurgia, remédios ou tratamentos que alterasse a situação do bebê em meu vente. Partir diretamente para a escrivaninha, onde estava o computador e todos os arquivos que eu resgatei no chão na tarde de ontem.
As próximas horas eu passei mergulhada com tudo relacionado à Trissomia do cromossomo 21. Mesmo me atendo somente à Internet e as poucas revistas que eu havia recebido no consultório, pude achar bastantes coisas relevantes em relação a esta disfunção genética. Algumas delas me assustaram terrivelmente: doenças cardíacas, anomalias no sistema digestivo e respiratório, problemas de visão e audição, além de todo atraso no desenvolvimento físico e mental. Não era fácil para eu lidar com a realidade de que o bebê que meu corpo gerava provavelmente viria a ter metade destes problemas.
No entanto, nem tudo era drama. Vi-me sorrindo ao assistir alguns vídeos com crianças portadoras de Down brincando e rindo normalmente. Já outro me levou as gargalhadas em meio às lágrimas ao ver um bebê por volta de dois anos, também portador da anomalia tocando loucamente um piano, exatamente como Richie costumava fazer.
Porém, um vídeo em particular me tocou de jeito estranho. Nele, vários Downs, independente de idade, gênero, raça ou classe social, falavam de seus sonhos. Sonhos tão parecidos como os de qualquer outro ser humano: aspirações profissionais, desejos de um futuro melhor... tudo tão parecido com o que eu mesma desejava. Tanto para mim, quanto para qualquer um dos meus filhos.
No geral, aquelas pessoas apesar dos traços físicos comuns a todas como os a face rechonchuda, os olhos amendoados e boquinha minúscula eram na verdade absolutamente diferente uma das outras. Elas podiam sim ter uma vida normal, apesar das limitações que a síndrome lhes impunha.
O soar da campanha fez com que saísse do transe momentâneo que tinha entrado desde que tinha focado profundamente em minha pesquisa. Por costume, verifiquei a babá-eletrônica que havia deixado ao lado da cama de Richard e percebi que seu ressonar se mantinha tranquilamente. Levantei-me rapidamente e fui até a porta, onde pelo olho mágico encontrei uma Rosalie com cara de poucos amigos.
– Eu não acredito que você será covarde desse jeito! – ela disparou com um olhar fuzilante logo depois que eu abri a porta.
– Do que você está falando?
– Não sabe? Eu poderia imaginar qualquer coisa de você, Bella, menos que você fosse alguém que se passasse por idiota!
Não pude deixar de ficar irritada com a torrente de acusações que Rosalie fazia. Eu nem sequer adivinhava a razão que a fez atravessar dois bairros inteiros quase na hora do rush em Chicago. Sem contar que nunca fomos tão próximas assim ao ponto de que ela tivesse a liberdade de dizer essas coisas comigo dentro de minha própria casa.
Cruzei os braços sobre o peito enquanto ela praticamente exalava raiva em minha direção. – Olha Rose, eu não tenho ideia do que te trouxe até aqui, portanto eu exijo que você me explique o que está acontecendo.
– Não se faça de desentendida para mim, Bella. Deus, – seus olhos ficaram marejados quando ela continuou – isso é tão injusto! O que eu não daria por isso... Você sabe quantas mulheres queria estar no seu lugar nesse exato momento? E por um simples capricho você e seu marido irão desistir de tudo; descartar como se fosse lixo.
Mais confusa do que nunca, eu inquiri – Sobre o que você está falando e onde Edward se encaixa nisso tudo?
Finalmente, Rosalie parou de se movimentar pelo hall como se fosse uma leoa enjaulada e me encarou firmemente por alguns segundos. – Você não faz idéia do que o Edward fez, não é?
– É claro que não! O que diabos está acontecendo?
– Merda... – ela praguejou baixinho – Olha, me desculpe, eu nem deveria estar aqui mesmo... eu preciso ir.
Arrumando rapidamente sua bolsa sobre os ombros, Rose partiu diretamente para a porta, buscando ir embora o mais rápido possível. O que ela não contava é que eu fosse rápida o suficiente para impedi-la ao bloquear a passagem com meu corpo.
– Você não sairá daqui até que me explique o que Edward fez Rosalie.
– Eu não devia ter vindo... Acho que só me precipitei. Desculpe-me pelo incomodo, Bella.
O que poderia causar uma revolta tamanha naquela mulher ao ponto de vir me julgar em minha própria casa? E ainda mais afirmando veementemente que meu marido estava envolvido? Fitei-a longamente enquanto minha mente repassava todas as suas insinuações em busca de alguma resposta.
Não precisei pensar muito e meu coração gelou com a mera possibilidade daquilo que minha intuição afirmava.
O que eu não daria por isso... Você sabe quantas mulheres querima estar no seu lugar nesse exato momento?
Não era segredo para ninguém que o maior sonho da vida de Rosalie era ser mãe. Em momento algum desde que eu anunciei minha gravidez, ela escondeu que cobiçava estar na mesma situação do que eu. Sem contar que Rose também foi a primeira e única pessoa que eu contei sobre a real situação do meu bebê.
Sua atitude positivista na última quarta-feira não se tratava somente de sua crença de que não haveria nada de errado com a criança que crescia em meu ventre, mas sim de que eu em hipótese alguma optaria por dá um fim nessa gravidez. Algo que ela, sendo uma mulher estéril abominava em absoluto.
– Rose, – sibilei ainda abismada com minha própria descoberta. – eu preciso que você me conte o que o Edward fez.
Ela mordeu o lábio inferior, me fitando intensamente. – O Emmett vai me matar por conta disso. – ela retrucou ainda indecisa.
– Eu juro que isso ficará apenas entre nós duas. – prometi.
Ela riu, mas não havia nem um pouco de humor em seu tom. – Impossível, Bella. De maneira alguma isso ficará somente entre eu e você.
– Por favor, Rose.
Ela mordeu o lábio inferior como se ainda protelasse sobre falar ou não. Estava prestes a implorar outra vez quando ela finalmente começou a falar.
– O Edward apareceu lá em casa hoje. Na verdade, não faz nem sequer uma hora que ele foi embora. – como eu não interrompi seu discurso, ela prosseguiu. – ele veio para nos pedir um favor.
– Que tipo de favor? – eu questionei.
– Ele pediu para que Emmett e eu passássemos o próximo final de semana com o Richie.
– E ele explicou algum motivo para isso?
– No início não, mas depois ele e Emmett foram conversar a sós na sala de estar.
A frustração estava começando a me domar, porque eu tinha que perguntar qualquer coisa para que Rosalie se dispusesse a continuar falando. – E você escutou algo dessa conversa?
Ela corou levemente e assentiu. Outra vez, ela se delongou antes de continuar a falar, – Eu só iria servir um pouco de café quando eu ouvi os dois conversando sobre sua gravidez. –, ela levantou sua face e observou atentamente minha expressão. Não sei o que ela viu, mas foi algo que a fez continuar contando-me o que tinha escutado. – Edward disse algo para o Emm que de deixou extremamente irritada e me fez vir diretamente para cá, assim que ele foi embora.
Eu tinha uma vaga idéia do que ele havia dito, contudo, eu necessitava da confirmação que viria através de Rosalie. – O que foi que ele falou para o Emmett, Rosalie?
Ela respirou profundamente antes de disparar – Ele disse que você dois precisariam de uns dias sozinhos, já que você tinha decidido marcar um horário com a sua médica na próxima sexta para fazer um aborto.
[...]
Traída. Essa era única palavra que eu tinha para definir a maneira como eu estava me sentindo. Em momento algum eu imaginei que Edward pudesse agir desta maneira comigo, afinal de contas, tinha deixado bem claro hoje de manhã que ainda não havia decidido absolutamente nada em relação à por um fim nessa gravidez. Sem contar que era o meu corpo de que estávamos falando... Não seria eu quem deveria ter a última palavra sobre isso?
Não fazia de idéia de como ele havia conseguido tal proeza. Tenho certeza de que nenhum assistente da Dr. Shelton haveria de marcar um procedimento como esse sem meu consentimento prévio. Como ele havia conseguido tal proeza era além do meu entendimento.
Antes de Rosalie ir embora, ela me pediu milhões de desculpas por ter sido precipitada e ter prejulgado minha atitude. Eu não a culpava de forma alguma; para uma mulher que desejava tanto ser mãe, ouvir que alguém próximo a ela estava prestes desistir disto deveria ser no mínimo revoltante. E mesmo que sua atitude de vir até minha casa fosse um tanto que intrometida – já só era de respeito a mim o que eu fazia ou deixava de fazer com a minha vida – não pude deixar de ficar agradecida pelo fato de ela ter me contando sobre os planos de Edward.
Eu imaginava o que ele iria fazer para me convencer a abortar até o próximo final de semana. Quais seriam seus pretextos para fazer a minha cabeça? Que palavras ele usaria para que eu decidisse por algo que não tinha certeza se queria?
– Mamãe, por que você está chorando?
Soltei o ralador que estava em minhas mãos e voltei meu olhar para meu filho que estava sentado na mesa da cozinha, onde coloria seus livros e me encarava com uma expressão preocupada. Não pude deixar de abrir um leve sorriso para ele.
– Não é nada, docinho. Mamãe está apenas cortando cebolas. Eu já te disse que quando as pessoas sempre choram quando estão fazendo isso, não foi?
Seu cenho se franziu enquanto ele se voltava outra vez para o desenho. – Ontem de noite, você tava sonhando com cebolas?
Eu abrir um sorriso verdadeiro para ele enquanto me aproximava. – Não? Por quê?
Richie começou a rabiscar com força, colorindo de preto algumas nuvens no papel. – Você tava chorando ontem quando tava dormindo.
Parei imediatamente depois que ele havia dito aquilo. – Eu tive um sonho ruim. Daí eu fui pro seu quarto e vi que você tava abraçada com o papai e chorando. O papai disse que era porque você também tava tendo pesadelo igualzinho a mim.
– O seu pai estava acordado?
– Hm rum. A gente esperou um pouquinho até você parar de chorar e depois ele me levou pro meu quarto.
Isso explicava a razão dos lençóis quase intocados quando eu acordei. Provavelmente, Edward acabou dormindo no quarto de nosso filho. Ao ver a expressão tão preocupada do meu garotinho comigo, não pude deixar de pensar em como seria a reação dele ao saber que seu irmão ou irmã seria alguém excepcional.
Desde que contamos para Richard que teríamos mais alguém em nossa família, ele não havia expressado reação alguma. Lógico, que no primeiro momento ficou animado, mas com o passar das semanas sua empolgação cessou e agia tão indiferente quando podia. Eu havia lido que isso era normal em algumas crianças na idade dele, principalmente durante os primeiros meses, onde não havia nada tangível – como uma barriga crescendo a cada dia – para provar que de fato, existia mais alguém para se juntar a prole.
Ao olhar seus intensos olhos verdes, eu me perguntava se ele seria protetor do seu irmão ou se viria a rejeitar a criança assim como seu pai.
Era algo a mais que eu precisaria me preocupar.
Ao escutar o carro entrando na garagem, eu parei imediatamente de pensar sobre aquilo na medida em que Richie abandonava seus desenhos e corria até a porta da cozinha que era anexa à garagem.
Mais uma vez a raiva e aquela sensação de perfídia me dominaram, porém tentei me controlar, já que não era o momento nem o local apropriado para termos aquela discussão. Lentamente, me voltei para a salada que havia abandonado e tentei me concentrar ao máximo, tentando não esboçar qualquer reação.
– Pai! – disse Richie se jogando nas pernas do pai.
– Hey campeão! Como foi seu dia?
– Eu e a mamãe...
– A mamãe e eu – corrigi por puro hábito.
–... a gente juntou tudo que tinha de velho e colocou lá na garagem. A gente pode fazer uma feira no jardim igual nos filmes?
Edward riu – É eu vi a quantidade de caixas por lá. Eu quase não consegui estacionar.
– A gente pode papai, colocar tudo aquilo pra vender na feira de garagem? – Ele insistiu, e pela minha visão periférica eu o vi praticamente quicando de seu lugar.
– Nós vamos pensar nisso, carinha.
Richie comemorou de um jeito engraçado, usando um gesto que provavelmente aprendeu com seus amigos parque. – Eu vou ver se tem mais coisa pra jogar fora lá no quarto. – disse, e saiu em disparada para as escadas.
Nem meio segundo depois, os braços de Edward circundaram meu corpo – Oi. – ele sussurrou.
Não consegui evitar tencionar ao toque dele. Mais uma vez minha mente foi inundada pelo que Rosalie tinha me dito. O que ele havia dito, o que tinha feito. O gosto acre da traição pelo fato de ele não ter respeitado meus desejos ainda estava recente. Desvencilhei-me de seu abraço e fui até a geladeira, evitando a todo custo o contato físico dele.
– Qual é o problema, baby?
– Qual é o problema? – repeti amargamente, sem consegui esconder meu rancor por ele – O problema, Edward é que você nunca me ouve!
Ele pareceu surpreso com minhas palavras – Bella, sinceramente, eu não tenho idéia do que você está falando. O que foi que eu fiz?
– Não seja cínico, Edward! Você sabe o que você fez. – disparei enquanto procurava qualquer coisa entre as gavetas resfriadas.
Ele riu sem humor – Eu não leio mentes, Bella.
Bati com força a porta da geladeira, descontando o mínimo que fosse minha raiva naquele momento. – É claro que não é, porque se fosse, você nunca teria feito o que fez?
Sua expressão pasma passou-se para defensiva. – O que diabos você quer dizer?
– Eu te disse hoje de manhã que precisava de um tempo, mas não! Você nem sequer respeitou meu pedido e resolveu agir por conta própria como sempre! Só me diga o por quê, Edward. Porque você marcou a porcaria do aborto?
Ele ficou pálido por um momento antes de balbuciar – Como você soube?
– Não importa como eu soube, a questão aqui é que você não deveria ter feito isso!
Ele segurou a ponte do nariz, antes de chegar as suas conclusões. – Foi Rosalie, não foi? Emmett disse que não diria nada para ela. Ela tentou fazer sua cabeça, não foi? No mínimo, aquela vadia estéril tentou...
Ergui minhas mãos impedindo que ele continuasse. – Não importa o que ela disse ou deixe de dizer. Eu não sou nenhuma estúpida que é influenciada facilmente por algo que alguém diga. A questão aqui Edward é que você me outra vez se acha no direito de fazer as coisas sem sequer me consultar primeiro.
Ele tentou se aproximar de mim, mas eu o evitei. Ele tirou o paletó e desabrochou o nó da gravata na medida em que falava – Olha, talvez eu tenha agido meio que por impulso ao marcar essa... consulta. Mas nós dois sabemos que não temos muito tempo.
Tentei argumentar, mas foi a vez de ele me impedir – Eu admito que errei ao não ter falado nada para você. Mas Bella, eu só quis facilitar as coisas para nós dois.
– Facilitar como?
Mais uma vez ele se aproximou e dessa vez eu permiti que suas mãos pousassem em meus ombros. – Eu achei que até o próximo final de semana seria tempo suficiente para que você já tivesse pronta. Que você já tivesse decidida sobre o que fazer.
Tentando ser o mais sã possível, pus minhas mãos sobre as dele, apertando-as com força em busca do apoio que eu precisava para dizer as próximas palavras. Fechei os olhos por um momento reunindo toda coragem para depois abri-los e encontrar dois orbes verdes me encarando de forma intensa.
Na verdade, eu já tomei minha decisão. – respirei fundo e finalmente falei as palavras que já haviam se transformado em verdade em meu coração. – Eu não posso desistir do nosso filho Edward.
Notas finais
Começando por um pedido de desculpas por não ter respondido todas as reviews, principalmente as do capítulo passado, onde houve a "revelação" daquilo que muitas de vocês já desconfiavam. Adorei cada uma delas, e juro que tentarei responde-las desta vez!
Algumas pessoas demonstraram nas reviews parecerem magoadas, outras apoiaram, algumas contra e já outras desistiram de vez de ler a fic, o que me deixa triste, embora todo mundo tem o direito de pensar o que quiser, não é? Por isso, viva a liberdade de expressão!
Enfim, só quero lembrar uma pequena coisinha: apesar disso tudo ser uma fanfic, a Síndrome de Down não é algo inventado por mim. Exigem milhões de pessoas no mundo que nasceram dessa forma e tudo o que elas pedem é um pouco de respeito. Então, vocês não imaginam o quanto eu fiquei feliz ao receber alguns comentários sobre pessoas que já mudaram sua forma de pensar somente por lê isso aqui. Foi esse meu objetivo ao criar esse UA, portanto creio que já estou muitíssimo satisfeita por conta disso!
Só outra coisinha: os vídeos que me refiro no texto estão lá no meu profile. Quem quiser dá uma conferida basta ir até lá!
Bem, só peço agora encarecidamente que vocês me digam o que tão achando! É muito importante para mim!
Beijos e até a próxima
Line
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